Dame Jolie

17 Andaluzia - Parte I


Notas iniciais
O PATRÃO FICOU MALUCO Dei um tempinho na dissertação do mestrado, após ficar das 9h às 23:30 na luta... abri um vinho... e resolvi dar a louca e postar capítulo novo, ele tava quase todo pronto, só dei uns arremates. Não betei. Portanto, desculpem os erros. Culpem meus neurônios comatosos, falta de atenção e burrice mesmo, vá. Eu quero agradecer, além do apoio de sempre, e dos deliciosos comentários, a força que as meninas tem me dado lá no Facebook. Sério, manas, tô a ponto de botar nos agradecimentos da dissertação "agradeço às manas do meu Face de Amelinda" porque, de verdade, vocês são as pessoas que MAIS estão me dando apoio neste momento! Obrigada meeeesmo Então vamos à atualização... créditos da fanart: Aino Yumeri Boa leitura!!!

O sol reinava absoluto naquela manhã de verão. No céu, revoadas de pássaros alegres atraíram momentaneamente os olhos de Camus. Olhos de uma coloração instigante, por Milo nunca vista: castanhos puxados para o bordô, davam a impressão de serem avermelhados. Observava-o de trás de um pessegueiro de espesso tronco. Chegara de viagem e, como mágica, da carruagem fora transportado para o jardim do castelo de Saint-Doulchard. Notáveis mudanças deram-se no local, outrora triste como um cemitério abandonado. Gerânios, íris, flores-de-lis e, principalmente, rosas desabrochavam, impregnando o ar com seus perfumes inspiradores. No solo, que antes fora terra nua, estendia-se um tapete de gramado verde-oliva, pontilhado de pequeninas flores brancas.

“Acaso terá bastado que eu daqui me retirasse para que este lugar tenha se enchido de vida desta forma?”, pensava, intrigado. E voltou a espiar Camus, sentado na relva, o olhar perdido no claro firmamento. No que estaria o ruivo a pensar?

“Pensas em mim? Poderias estar a pensar em mim, Camus? Pensar em mim como penso em ti?”. A indagação direcionada ao esposo apenas ecoava em sua mente. Sobre o vestido de um branco imaculado, cuja longa saia esparramava-se ao redor de seu corpo esbelto, pétalas pousavam, displicentemente. A suave brisa as trazia, bem como faziam balançar graciosamente os rubros cabelos, soltos e brilhantes ao sol.

Não. Não era uma mulher.

Era um homem.

Então por que seu coração acelerava ante tal visão?

Talvez... não se tratasse nem de homem nem de mulher.

Um anjo.

Camus... um anjo... mas como um anjo o estava conduzindo à perdição? Como um anjo poderia atormentar tanto a alma de um guerreiro temente a Deus?

— Camus.

Olhou na direção da voz odiosa.

“Afrodite!”

CLARO.

AQUILO explicava a atual aparência do jardim. O camareiro-mor também era exímio jardineiro, não fora o que escutara em Turenne? Além de “extremamente bonito”. Haviam sido estas as palavras de Camus, não?

-Afrodite – o ruivo virou-se para o ex-pajem.

— Veja o que fiz para ti – mostrou-lhe uma grinalda de flores, similar àquela feita para “Camille” pelas crianças camponesas em Borgonha. (* capítulo 8 )

— Oh... que belo adorno! – sorriu lindamente – Nenhuma jóia poderia com isso rivalizar-se, Afrodite!

“Por falar em jóia”, lembrando-se, Milo tirou do bolso um colar de ouro cravejado de rubis.

Oh sim.

Tencionava dá-lo ao esposo... um presente de viagem. Mas...

“Nenhuma jóia poderia com as flores de teu querido Afrodite se rivalizar, não?” pensou amargamente, apertando a jóia na mão. O olhar, antes admirativo, escureceu... dir-se-ia que o céu de seus olhos anunciava agora a tormenta.

Viu o sueco colocar a grinalda por sobre a cabeça do amo. Afrodite abaixou-se, ficando de frente para ele. Tomou algumas mechas do esplêndido cabelo de Camus por entre os dedos e levou-os à altura do rosto, primeiramente aspirando-lhes o aroma de nobres ervas... e em seguida, beijando-os afetuosamente...

Milo rangeu os dentes ante a cena. Alheio à sua presença, o camareiro-mor acercou-se do ruivo. Segurando-lhe pela cintura, pôs-se a beijá-lo no pescoço, no queixo, no colo, nas maçãs do rosto ruborizado. Camus parecia avexado, sim, contudo não fazia o menor movimento para repelir aquele vergonhoso assédio... pior! SORRIA... assemelhava-se a uma dama coquete, tentadoramente permissiva, ainda que afetando pudor... hipócrita!

“Patifes! Aproveitando-se de minha ausência para se entregarem às suas infames devassidões, sem o menor pejo!”, urrava o conde em pensamento, sem poder piscar à visão do marido recebendo na sua a boca ávida do sueco. Afrodite deitou Camus na relva, nunca abandonando-lhes os lábios.

O sangue do cavaleiro ferveu, e entrou em erupção quando o ex-pajem levantou a saia do ruivo.

Não se conteria por NEM MAIS UM SEGUNDO!

Desembainhou sua espada, cerrando os dentes de tanto ódio. Lépido como uma flecha, ele se lançou rumo aos dois malditos: a última coisa que Afrodite viu em vida foi o brilho da lâmina cortando o ar. No instante seguinte, sua cabeça caiu por sobre as flores por ele mesmo cultivadas. Sequer houve tempo de gritar, o que Camus fez por ele. Tomado de horror, continuou no chão, o olhar esgazeado em Milo.

— Eis por que fizeste tanta questão de trazer teu cão de estimação para o novo lar... – o loiro soltou um riso sarcástico, atirando ao chão a espada suja de sangue.

— Se... se-senhor Milo... – balbuciou o ruivo, trêmulo da cabeça aos pés. E quando tentou olhar para o amante morto, foi agarrado pelo marido, que fincou firmemente as mãos como garras em seus braços.

— Aaah!!

— Pagar-me-ás por tua leviandade... – a promessa foi feita em voz rouca, maníaca.

Em um movimento inesperado, as saias do ruivo foram levantadas pelo esposo, que a ele atirou-se, bruscamente. Prevendo-lhe a torpe intenção, Camus gritou, apavorado:

-NÃO! QUE ESTAIS A FAZER? DETÉM-VOS!

-Oh, nada de mais... apenas estou prestes a enfim tomar o que É MEU de direito...

— N-não... não – balbuciou, sentindo a invasão das mãos punitivas em suas coxas... apertando-as, apalpando-as... separando-as...

— Senhor Milo, por favor, eu vos imploro, não...

— “NÃO”? – o cavaleiro abaixava as próprias calças, posicionando-se entre as pernas do jovem subjugado – Hu, hu, hu, não parecias tão indisposto com teu “homem extremamente bonito”...

— Senhor Milo! P-por favor, não!

Enquanto lágrimas banhavam o rosto vermelho de Camus, o peito de Milo comprimia-se de fúria, júbilo... desejo... todo ele queimava...

— Se queres tanto assim ser fodido aqui, em meio às flores do belo Afrodite, farei o favor de realizar tua vontade... foder-te-ei até que desfaleças, com a MINHA carne dentro de ti – a voz do loiro, baixa e ameaçadora, deixava claro que aquilo não era um blefe. Disto Camus teve plena certeza quando o marido ergueu-lhe as pernas pelos joelhos e projetou-se contra ele, violentamente.

O grito de Camus elevou-se, todo ele convertido em pura dor. Por sua vez, Milo travava a mandíbula, exultante de maligno deleite.

— POR DEUS! – bradou loucamente, arremetendo-se naquele cálido, virgem interior. Aquilo era superior a todas delícias experimentadas em sua vida livre e hedonista. Camus, porém, debatia-se sob as piores dores experimentadas em sua vida oprimida. Cerrava os dentes, no afã de não contribuir ainda mais para o vil prazer do outro. A dor, contudo, fazia-o fracassar:

— SOLTAI-ME! ANIMAL! NÃO!!!

— Tu verás o animal que FIZESTE despertar!...

— Aaaaaaahhhh!!! – gritou Camus, em agonia.

Milo sentiu uma viscosidade mais densa envolver seu pênis túrgido enquanto estocava-o furiosamente. O cheiro metálico do sangue penetrou-lhe as narinas dilatadas. Urrou de prazer. Agarrou-o ainda mais e então... percebeu que não mais agarrava o corpo firme do esposo, e sim o lençol da cama onde dormia.

Acordava, com o suor a empapar-lhe as têmporas e a face. Respirava aceleradamente.

— Oh, Deus misericordioso... – murmurou, sentindo a umidade entre suas pernas. Passou a língua pelos lábios secos e voltou a fechar os olhos, desolado — ...por que permitis isto...?

Em quase três meses de exílio, sequer era a primeira vez em que AQUILO acontecia.

Não contente em atormentar-lhe a existência, Camus vinha atormentar-lhe os sonhos.

Nenhum, entretanto havia sido tão terrível quanto este.

Em suas demais jornadas oníricas, via-o em situações mais amenas: passeando com ele pelos jardins de Turenne... beijando-o sob um frondoso castanheiro... amando-o na lua-de-mel... não que esses sonhos fossem pouco perturbadores, visto todos serem invadidos pelo HOMEM a quem tentava arduamente NÃO amar... mas este, em especial, o deixara bem ASSUSTADO.

Ergueu-se e sem deixar o leito, esticou a mão para pegar a jarra de cobre que repousava na mesinha ao lado. Não se deu ao trabalho de usar o copo de cristal sobre a bandeja; bebeu sofregamente da água fresca. Assim que se acalmou, tirou de cima de si o lençol de seda e levantou-se. Caminhou até uma porta ogival e abriu-a, acessando um balcão do qual se tinha uma magnífica vista do Mediterrâneo. Sentindo necessidade de um lugar mais amplo, ele caminhou por um corredor externo, percorrendo pela murada de pedra, sempre mirando a imensidão azul... ali deteve-se, deixando a brisa marinha amainar seus calores. Respirou fundo, semicerrando os olhos da mesma cor que a toda vista dominava.

Encontrava-se no castelo de Benacantil, morada do duque de Valência, o mais influente figurão da cidade balneária de Alicante. Esta era considerada uma verdadeira jóia de Al-Andaluz, área dominada pelos islâmicos; Alicante assim o era desde o ano de 718, e seria incorporada a Castela, terra de Shura, 56 anos depois. Realizando negócios na cidade, um centro nervoso de oportunidades e conhecimento, Milo e Shura ali se hospedaram, conforme o protocolo entre os membros da aristocracia, que acolhiam uns aos outros durante suas viagens. Curioso é que isso se dava mesmo que não se conhecessem. Obviamente, fazia-se mister alguma identificação, do que davam conta os selos e títulos de nobreza.

O castelo, ou melhor, um verdadeiro complexo palaciano construído no século IX pelos mouros, situava-se sobre um maciço rochoso de cerca de 160 m em frente ao mar, o que lhe conferira notável valor estratégico em tempos mais belicosos. Dizia-se que iberos e romanos já ali estiveram antes dos muçulmanos, mas estes definitivamente deram-lhe a glória atual.

Fitando o oceano por sobre o qual gaivotas executavam sua dança aérea, o cavaleiro entregou-se à lembrança do esposo, ainda a pensar no sonho que o impressionara. Melhor dizendo... o pesadelo.

Seus cachos loiros balançavam no ar, e ele ergueu mais o rosto, deliciando-se com aquele frescor. Sentia necessidade de resfriar seu corpo e, principalmente, sua mente. Malgrado sua decisão de aplacar seu ânimo, cerrou os punhos sobre a bancada de granito claro quando pensou:

“Como será que ele está?”

77 dias haviam se passado. Milo não mais conseguia fugir do que sentia por Camus.

Noite após noite, lembranças do jovem ruivo vinham fragmentar cada vez mais aquela resistência férrea em reconhecer o que florescera em seu coração. Ao contrário do que planejara quando àquela jornada se lançou, não mais procurara se satisfazer em prostíbulos. SABIA que não conseguiria. Por isso, limitava-se a acompanhar ou a encontrar os gentis-homens com os quais estava fazendo acordos, ora nas tavernas, ora nas luxuosas casas de banho árabes. Nestas, tão somente bebia, negociava, conversava, via as lindas dançarinas e os hábeis músicos, recebia massagens com óleos preciosos, em suma, tudo a que tinha direito... menos deitar-se com meretrizes. Alguns achavam que o rapaz francês havia feito alguma promessa, e nada diziam a respeito. Não se cogitava que um homem se privasse de tais lazeres por amor a uma mulher, e muito menos a uma esposa, logo...

Shura nunca frequentava tais lugares, ele sim por devoção irrestrita à religião, uma devoção ausente na maior parte dos párocos. Restava-lhe acreditar quando Milo lhe jurava não ter tomado nenhuma messalina nessas andanças. E ele acreditava, afinal, não havia segredos entre eles. Isso permitia a ascensão de seu otimismo em relação ao conde de Saint-Doulchard.

“Está, enfim, a criar juízo, louvado seja Deus”, agradecia, satisfeito.

Desde a chegada dos dois na Ibéria, não se detiveram em efetuar negócios com presteza, em fechar acordos com notável argúcia; haviam acessado a Ibéria desembarcando na Catalunha, onde passaram por Barcelona e Tarragone, dali seguindo para Saragoça, em Aragão. Milo manifestou desejo de ir às famosa Toledo e Madrid, mas como faziam parte da terra natal de Shura, resolveu economizar tempo e energia, deixando-as a cargo do amigo, que iria para lá depois daquela jornada em dupla, a fim de resolver assuntos de família. Desceram para Valência e da bela cidade partiram, ora via fluvial, ora via terrestre, para algumas das regiões de maior influência moura: Alcazar e Córdoba. A próspera Granada não foi desprezada, e de Almeria retornaram para Valência, mais especificamente para a capital Alicante. Em meio a esse intenso trajeto, visitaram pomares beneficiados com as técnicas de irrigação trazidas por argelinos e marroquinos; laranjeiras, figueiras, pessegueiros, tamareiras, amendoeiras, dentre outras, eram algumas árvores então cultivadas apenas naquela parte da Europa. Milo tratou de conseguir que fossem levadas para a França mudas daquelas maravilhas, bem como de legumes e verduras. Viu um arrozal, o que só havia visto no Oriente. Conheceu também fabulosas construções que apenas a engenhosidade mourisca poderia conceber. Esta entranhava-se na tradição local, fato que seria constatado séculos depois, a despeito de ataques inquisidores. Por Deus, não era à toa que aquele povo fora tão combatido pela Igreja... poderiam facilmente ter dominado toda Europa, quiçá o mundo, com o tanto de conhecimento que demonstravam a respeito de tudo! Naquela área, ao sul da Ibéria, entretanto, respirava-se inédita comunhão entre duas culturas tão diferentes... obviamente porque da moura muito se valiam os reinados cristãos. Adquiriram tecidos, perfumes, jóias, roupas, calçados, baús, tapetes, porcelanas, especiarias, cosméticos, utensílios em jade, marfim, ouro, dentre outros, tudo sendo imediatamente despachado para Auvergne. De natureza generosa, Milo não se esqueceu de Turenne, e assim, várias daquelas valiosas mercadorias seguiram também para Borgonha. Chegou a escolher pessoalmente vestidos da mais fina seda bordada a ouro para Marin e Seika, imaginando com alegria as expressões felizes das meninas ao receberem os presentes.

Sem grandes intenções de fazer economia e, simultaneamente, dotados de exímio tino comercial, os dois nobres não se estendiam em demasia nas negociações. Mesmo assim, por vezes recorriam à pechincha, aprendida por eles no Oriente Médio; não era prática estigmatizada pelos ibéricos, mais uma herança dos mouros que ali se estabeleceram.

Não apenas acordos comerciais foram sendo realizados à medida que as semanas avançavam, como também alianças entre monarcas locais ou governantes independentes, estes últimos por vezes sob influência de algum califa, caso do duque de Valência, em cuja propriedade estavam os jovens amigos hospedados.

Milo respirou fundo, aspirando com prazer a saudosa maresia. Perguntava-se se Camus já havia visto o mar.

Suspirou, derrotado; não apenas pensava com frequência no esposo, como o associava amiúde às experiências vividas naquelas exóticas terras.

Será que Camus apreciaria os figos e os pêssegos? Ou será que preferiria as doces laranjas?

Será que Camus gostaria de percorrer a estonteante Rota das Amendoeiras?

Será que Camus se agradaria dos macios e coloridos tapetes marroquinos?

Será que Camus conhecia alguma mesquita?

Será que Camus se emocionaria com o lirismo dos contos de Ibn Hazm? (1)

Será que Camus suspiraria ante o aveludado contato dos delicados tecidos orientais em seu corpo esbelto, esguio, formoso...?

Sim, era inegável: Camus dominava seus pensamentos. Isso quando não ficava se questionando acerca do que estaria fazendo o ruivo àquele momento.

Antes que desagradáveis respostas o molestassem, deixou a varanda e, tomando de uma sineta de prata, chamou as criadas. Três belas jovens andaluzas prepararam-lhe o banho, enquanto traziam-lhe óleos preciosos e emulsões. Vestiram o hóspede, que trajara uma calça de azul cobalto, com uma túnica de puro linho egípcio, de um branco que somente as nuvens de verão poderiam possuir; nas mangas e nas golas, intrincados bordados em ouro. Milo havia comprado algumas daquelas túnicas para Camus também; o ruivo certamente agradar-se-ia daquele conforto nos momentos em que não precisasse dos incômodos vestidos femininos. O loiro nem mais se recriminava por pensar no ruivo. Era uma realidade. E, surpreendentemente, fazia-se menos sofrível aceitar o que sentia... claro que, o que FARIA era outra história... calçou sandálias de tiras, propícias ao forte calor que fazia naquele julho de 1192. Após verificar-se diante do espelho de moldura em arabescos dourados, deixou os luxuosos aposentos. Em um canto do corredor estava Shura, de uma janela ogival a contemplar os vastos pátios arborizados.

— Bons dias, caro amigo.

— Bons dias, Milo... – virou-se para ele, fazendo logo uma expressão de surpresa – por Deus! Não dormiste nada bem, pelo visto.

— Por que dizes isso? Ao contrário, tive uma ótima noite!

— Teu rosto horrivelmente abatido é o que me diz o contrário. Terás adoecido?

— Adoecido, eu? – o loiro riu e seguiu adiante, o castelhano atrás dele – Não digas asneiras. Quando foi que soube de mim doente? Resisti até mesmo às estranhas febres que de quando em quando varriam nossas tropas no Oriente. Lembra-te de Akko (2)? Até tu caístes enfermo, ao passo que eu...

— Está bem, vejo que hoje te encontras no espírito de negar o que sentes. Não tem sido algo raro, malgrado eu ainda considere incomum como atitude tua. Foste sempre espontâneo e verdadeiro, o mais sincero cavaleiro que havia conhecido...

— Mas ESTOU sendo sincero – retrucou, um tanto impaciente, enquanto desciam pela escadaria marmorizada. Chegaram ao térreo, cujo pavimento ornava-se com os mesmos mosaicos sofisticados que embelezavam as altas paredes. Após caminharem por alguns minutos, chegaram à área externa. Os cantos dos pássaros os recepcionaram. Altas palmeiras erguiam-se majestosas, destacando-se entre as demais árvores em flor, como em um claro desafio ao clima quente. Cortando o imenso pavilhão, uma longa piscina em cuja superfície esverdeada nenúfares das mais variadas cores flutuavam graciosamente; adornando o caminho percorrido pelos nobres, inúmeras espécies de plantas ornamentais, visitadas por borboletas e libélulas. Nem mesmo o grandioso Alcázar de Sevilha ultrapassava a louçania daquele lugar!

— Nunca vi propriedade tão magnífica, salvo os palácios dos marajás do Oriente...

— A influência deles derrama-se à nossa frente – respondeu Shura. E voltou ao assunto de antes – está excessivamente calor para ti ou serão saudades de Camille a deixar-te com esse desânimo?

— Nem uma coisa nem outra – resmungou, sentindo-se, de fato, indisposto.

— Esse casamento mudou-te, deveras. Faz-te sério, irritadiço, por vezes até mesmo ensimesmado.

— Por falar em casamento – o loiro procurou desviar o foco da conversa – não possuis tu intenção de unir-te em matrimônio com donzela de tua terra? Eu entenderia se te demorasses um pouco para retornares a Saint-Doulchard.

Perspicaz como de costume, o moreno percebeu o intento do companheiro.Mesmo assim, respondeu:

— Não vejo problema em desposar uma francesa. Prefiro que seja tudo a seu tempo.

— Vais me dizer que pretendes casar por amor? – Milo arregalou os olhos. Não conhecia a faceta romântica de “Shura, o Justo”.

— Se não há sobre mim pressão alguma por parte de minha família, ou de nenhum soberano a quem eu deva obediência irrestrita... não seria de todo absurdo.

Eles pararam diante de uma esplêndida fonte, formada por um círculo de leões esculpidos à moda oriental, cravejados de gemas preciosas.

— Compreendo – disse o conde, pensativo – também eu almejava casar-me por amor. É uma ideia tão nova mas tão avançada, se formos analisar...

— Mas tu AMAS Camille – sorriu o moreno.

Um sorriso desalentado antecedeu a réplica de Milo:

— O amor nem sempre passa por cima de tudo. Nem sempre dobra todas vicissitudes, ainda que poetas e trovadores assim o pretendam...

— Folgo em saber que já não o negas!

A expressão zangada do loiro não intimidou o riso triunfante do marquês.

— Bom, tão logo termines de rir de mim, responde-me: não sendo tu do tipo sentimental, não seria melhor optar por algum contrato vantajoso...?

— Sabes que não sou ambicioso, pelo menos não a ponto de comprometer meu bem estar. Posso não ser rico como tu, contudo as posses de que disponho possibilitam-me continuar a viver livremente, como sempre me aprouve.

Milo encarou-o com franca admiração.

— É por isso que somos tão amigos – disse, enfim sorrindo.

E era verdade: conquanto seus temperamentos fossem tão diferentes, o senso de liberdade, a autenticidade, e a fidelidade a seus ideais formavam pontos em comuns, e isso suplantava as divergências entre eles. Mesmo algumas destas convertiam-se em objetos de admiração mútua: Shura admirava-lhe a ousadia, o bom humor, a galhardia; Milo admirava-lhe a sagacidade, o autocontrole, o elevado senso de justiça.

— Bem, irei para a província de Assis... soube que o mestre de armas do rei de Aragão, considerado o melhor da Europa, mudou-se recentemente para Assis, sob permissão do rei, devido a um acordo com o poderoso califa Mustamsik, que lá fez um complexo de alto-fornos. Mantêm-se, destarte, líderes no ramo da forja, de armas e de tudo o mais que seja de ferro e demais metais.

— Poderia ser ele o responsável pelo alto-forno que sugeriste mantermos em Saint-Doulchard? – quis saber o loiro, ansioso.

— Não creio que permitissem que o fosse. Não obstante, possui pelo menos uma centena de homens a seu serviço, e que muito hábeis são na metalurgia. Por mais que haja gente eficiente no ofício em teu país, não pode se comparar ao nível que possuem estes que utilizam as técnicas mouras e andaluzas.

— Tens toda a razão, Shura. E quando partirás?

— Em duas horas. Preciso apenas alimentar-me e acertar alguns assuntos com nosso anfitrião.

— É pena que não fiques para a solenidade desta noite. Não poderias ir amanhã?

— Lembra-te, prezado conde de Saint-Doulchard, que estamos aqui a negócios, e não em busca de entretenimento.

— Palavra de honra, pareces mais o governante de lá do que eu mesmo!! – observou Milo, divertido.

— Exatamente por isso serei teu braço-direito, meu estouvado amigo – gracejou o marquês – pilhérias à parte, não te equivocas em assistir a eventos sociais. Estabelecer boas relações, notadamente com aqueles que detêm os avanços que queremos para Saint-Doulchard, é crucial.

— Salve, elogias-me em algo! Mas escuta-me, não ficarei apenas à espera da festa como um mandrião qualquer. Lembra-te do marquês de Teruel, que conosco esteve na Palestina, anos atrás? Soube que enveredou em um rentoso ramo dos corantes, graças a seus fornecedores do Oriente. Anteontem mandei um mensageiro chamá-lo, vive a algumas horas daqui. Deve chegar esta tarde.

O moreno assentiu com a cabeça, satisfeito:

— Excelente. Parece estar tudo se encaminhando bem, não achas?

Puseram-se a caminhar sob a fresca sombra das palmeiras. Shura comentou:

-Estive pensando… levaste de Auvergne um barbeiro-cirurgião. Penso, outrossim, que é um atraso confiar em supersticiosos sem especialidade alguma, tendo na própria Paris árabes à frente da faculdade de Medicina. Afrodite saiu de seu país a fim de tornar-se médico, ideal do qual, por algum motivo, ele se desviou unicamente para servir tua esposa...

A simples menção do nome “Afrodite” causava irritação em Milo.

— ...por que não mandas que ele vá estudar na Universidade?

O loiro considerou o amigo, erguendo as sobrancelhas.

Livrar-se de Afrodite!

Sim, como QUERIA aquilo! Entretanto...

“E quem iria assessorar Camus em seus disfarces?”, pensou, dividido.

— Realmente... mesmo sem possuir estudo formal, ele é exímio conhecedor de ervas e remédios caseiros...

— Pois então. Seria o melhor dos médicos – ajuntou o marquês – Pensa que em breve a condessa conceberá teu herdeiro, e tu hás de querer o melhor do ramo para de tua família cuidar...

Um arrepio eriçou todos os pelos do jovem conde àquele raciocínio. Controlando seu mal estar, apontou:

— Tu o tens em alta conta, não é? Faz-se raro ver-te tão entusiasta de alguém.

O moreno olhou-o de uma forma que Milo não soube definir.

— Tu tens má vontade para com ele, por conta dos ciúmes que sentes de tua senhora. Ficas cego para vislumbrar aspectos práticos da vida – sentenciou, implacável, o marquês. E deu-lhe as costas.

— CIÚMES, EU?

— Sim, tu.

Como se fosse uma criança e não um poderoso nobre, o loiro fez um muxoxo que teria feito Shura gargalhar, não estivesse ele virado para a direção em que veio um criadinho vestido com requinte de gentil-homem. O rapazote parou diante dos dois amigos e anunciou:

-Perdoai-me, ó magnânimos cavalheiros. Sua Alteza, o duque de Valência, aguarda por vós para a refeição matinal – curvou-se servilmente.

— Iremos imediatamente – respondeu Milo, e, com Shura, seguiu o serviçal, que os conduziu de volta para o Palácio do Sol, alcunha da casa senhoril.

*************

A tarde avançava, estupendamente ensolarada... e um tanto modorrenta, não se sabia pela lauta refeição ou pela temperatura, àquela época inclemente...

O soberano de Benacantil e seus convidados faziam a sesta às margens dos jardins suntuosos. Estirados languidamente em divãs, canapés e alguns até mesmo diretamente na macia relva perfumada, os aristocratas eram abanados por servos, que para isso utilizavam longas hastes de ouro com plumas de pavão nas extremidades. Bebericava-se vinhos, licores, serviam-se de doces e frutas, tudo enquanto ou conversavam amenidades, ou cochilavam embalados por aquela paz... ou pelos excessos à mesa. Foi quando um criado veio chamar o conde de Saint-Doulchard: a pessoa que viera com ele ter audiência chegara.

Sob alguns protestos e alguns lindos rostinhos emburrados, Milo pediu licença e seguiu o servo. Este o levou até o segundo andar do Palácio do Sol, onde ficava o recinto em que iria se encontrar com o marquês de Teruel para tratar do negócio dos corantes.

Ao adentrar o local, uma sala usada como um dos gabinetes de trabalho dos altos funcionários do duque de Valência, surpreendeu-se ao ver não o mencionado nobre, e sim uma mulher.

Não uma simples mulher, e nem mesmo uma linda mulher.

A mais linda dama que já havia visto.

Inconscientemente ergueu uma sobrancelha sobrancelhas, entre a dúvida e a imediata admiração.

De estatura média, por sobre seu corpo agradavelmente proporcional desciam sem quaisquer atavios seus longos e lisos cabelos de um loiro claro e refulgente; seus grandes olhos azuis combinavam com a cor do magnífico vestido de cetim bordado com pérolas prateadas e gemas cerúleas, estas igualmente presentes nas ricas jóias que usava. Os lábios delineados, em tom de rosa salmão, entreabriram-se em igual surpresa ante a beleza do recém chegado, que desculpou-se, já fazendo menção de sair:

— Perdoai-me, nobre dama. Devo ter equivocado-me de aposento...

— Não se fordes o senhor conde de Saint-Doulchard – respondeu a moça, com voz macia e melodiosa.

Ele a fitou, intrigado.

— Sou eu mesmo.

— Encantada, gentil senhor – inclinou-se em polida mesura – sou Natassia, marquesa de Teruel.

— Oh, sois a esposa do senhor que chamei... peço-vos desculpas pelo incômodo de para cá vos deslocardes... – olhou em torno, procurando o homem com quem deveria se encontrar.

— Permiti a ousadia em corrigir-vos, distintíssimo senhor: sou a viúva do marquês de Teruel.

Desta vez Milo ergueu ambas sobrancelhas, fazendo uma expressão que pareceu cômica, e ainda assim, sedutora, à mulher, que apressou-se em esclarecer:

— Vicenzo morreu há pouco mais de um ano. Não resistiu às sequelas causadas por uma queda de seu cavalo, durante uma caçada. Pensar que esteve em guerras e foi morrer nas imediações do próprio lar!

— Oh. Eu... eu sinto muitíssimo. Não soube de sua morte... à esta época, encontrava-me em missão na Terra Santa e... mas então... – não disfarçou a confusão, e, por isso, Natassia explicou, espontânea:

— Desde sua partida estou à frente do negócio dos corantes. Espero que não vos incomodeis por deles tratar com uma mulher. Esforcei-me por conseguir para vós valores assaz vantajosos. E garanto a qualidade dos produtos.

O jovem parecia aturdido. Esforçou-se por dissipar aquela impressão, balançando a cabeça:

— Não, não, de forma alguma! Surpreendi-me, é verdade... não obstante, se estais à frente de tais empreendimentos é porque sois capaz.

— E muito mais que Vicenzo, asseguro-vos – sorriu, gentilmente. Milo achou-a belíssima, a ponto de ofuscar a vista de quem quer que fosse. Havia nela uma leveza, uma segurança, ambas raras de se ver em uma dama da aristocracia.

— Bom... soarei como um completo parvo, mas... de onde venho, não se vê damas da nobreza à frente de negócios comerciais com muita frequência... – confessou, os dois conscientes de que a fala não passava de um eufemismo.

Nem pensou na possibilidade de estar sendo indiscreto, tamanha curiosidade despertada pelo insólito fato. (3) A moça, entretanto, não se furtou a responder, com naturalidade e nenhum pesar:

— Meu esposo partiu deixando vultosas dívidas. Os assombrosos rendimentos com os corantes assoberbaram-no e ele tornou-se notório esbanjador. Apesar disso, não pude contar com auxílio da família dele e nem mesmo da minha. Se houve alguma sorte nisto tudo, foi a de não termos tido filhos...

— Mas como ambas famílias puderam abandonar-vos à própria sorte? – indagou, perplexo com tamanho descaso para com delicada criatura.

A marquesa caminhou pelo aposento coberto de tapetes em púrpura e dourado; parou diante de um imenso quadro em cuja gravura figurava fantásticas criaturas aladas, e, em seguida, voltou a mirar o cavaleiro.

— Ambas famílias queriam de mim algo que eu jamais daria. Minha mão ao pai de Vicenzo.

— Quê?! – o loiro ficou indignado. Nem tanto pelo fato, que não consistia em nenhum absurdo à época, e sim na ideia de tão linda jovem se unir a um velho carcomido, simplesmente por dever!

— Como meu sogro deixou claro que, além de reter os bens de meu falecido esposo, não me proveria em nada, minha família exigiu que eu escolhesse entre o matrimônio e o convento. Optei pelo trabalho, por mais indigno que possa soar... (3)

— Se com isso conseguistes a liberdade, não há como ser indigno!

Ela dirigiu-lhe um olhar terno e agradecido. Completou:

— Graças ao bom Deus, tenho obtido êxitos, ainda mais que Vicenzo. Com os proventos dessa atividade, investi também em uma pequena manufatura de tecidos, aproveitando a facilidade em conseguir os corantes por já com eles trabalhar.

— Que história notável, senhora. Daria um interessante livro de aventuras!

— Deveras... que aventura é maior que a vida real? – riu-se, e, de repente, ambos se entreolharam, dando-se conta de que estavam a conversar de forma excessivamente descontraída para a situação. O conde pigarreou, mas a marquesa tomou a palavra antes dele:

— Que inconveniente sou eu! Vim até aqui negociar corantes e, ao invés disto, estou fazendo relatórios de minha vida...

Milo ergueu as palmas das mãos, agitando-as.

— Não vos avexeis, eu que fiquei a inquirir-vos sem parar – mostrou a ela, então, uma poltrona coberta com mantas franjadas; junto a esta, uma mesa de cedro lustroso, na qual ele tomou lugar, como a sinalizar que deveriam proceder aos negócios. Natassia chamou seu secretário, que aguardava em uma sala contígua; ele trouxe vários catálogos com mostras de tecidos nos quais foram aplicados os corantes. Também abriu uma caixa que continha vidrinhos com as preciosas tintas, ora em líquido ora em pó.

Corantes de boa qualidade eram artigos caros, prova é de que apenas a nobreza e o alto clero vestiam-se com roupas de cores vivas, além de possuírem mantas, cortinas, dentre outros, de tonalidades marcantes. O vermelho então era a cor aristocrática por excelência. Os melhores corantes a conferirem-no vinham de árvores exóticas, notadamente o verzino (4), espécie asiática cultivada também pelos italianos. Havia também o proveniente do quermes, um parasita do carvalho, que continha um pigmento de escarlate vivo. Salles, auxiliar de Natassia, mostrou a um interessado Milo amostras de púrpura, corante extraído de um molusco, cuja utilização pela humanidade remontava à Antiguidade. Já no Antigo Testamento fora mencionada como “cor sagrada”. Mostrou também a gauda, herbácea que conferia vivos tons de amarelos a quentes castanhos, e não olvidou do nobre índigo, extraído de uma planta indiana de mesmo nome; um azul cujas variações dependiam ou das qualidades das matérias primas ou da mescla com outras, o que, inclusive, podia levar aos verdes. Havia também raiz de garança, que gerava do vermelho ao violeta; apesar de esta planta ser encontrada na Europa, a que originava melhores pigmentos encontrava-se nos territórios da Turquia até o Afeganistão, sendo amplamente comercializada pelos árabes e marroquinos. O falecido marido de Natassia, tendo estado em missão através dos anos em algumas dessas terras, travou contatos com mercadores de tecidos e corantes, que eram como jóias para os europeus. O nobre viu ali soberba oportunidade, e intermediou compras e vendas, até que estabeleceu sólidas sociedades com os mais conceituados comerciantes. O marquês viu sua fortuna triplicar, o que triplicou, depois de um certo tempo, sua irresponsabilidade; de espírito folgazão, entregou-se à jogatina, à ostentação e ao esbanjamento desenfreado com mulheres e amigos de ocasião. Ao morrer, deixou inúmeras dívidas, que dilapidaram muitos dos bens que caberiam à Natassia; os que ficaram foram confiscados pelo sogro. A viúva, em uma atitude inesperadamente corajosa, chamou o braço-direito do finado marquês, o catalão Salles, para ser seu secretário e auxiliar, ao que o prestativo homem aceitou. Aquela conversa, que vinha à tona à medida que negociavam, dava a Milo cada vez mais ânimo em também ele empreender à manufatura com que esperava prover a terra pela qual agora detinha, simultaneamente, direitos e deveres.

Terminadas as conversações comerciais, o conde ergueu-se para conduzir Natassia e Salles à porta.

— Foi um prazer negociar convosco, senhora marquesa. Rogo a Deus que façais uma boa viagem de volta ao vosso lar – falou, educadamente – Senhor Salles...

O rechonchudo e simpático catalão se inclinou e prontamente retirou-se. A marquesa, entretanto, continuou à porta.

— Certamente que farei... mas não hoje.

O loiro encarou-a interrogativo, o que a levou a elucidar:

— Sou igualmente convidada do duque de Valência para a festa que por ele será oferecida esta noite.

— Oh. Eu não sabia – embora sentisse que deveria se animar com tal notícia, ele foi tomado por súbita inquietação.

— Tal revelação... vos desagrada? – ela percebeu.

— Em absoluto – sorriu, galante – Bem, neste caso, encontrar-nos-emos novamente em algumas horas, senhora.

— E tenho certeza de que será um prazer – assentiu a dama, cravando em Milo um par de olhos sugestivamente interessados... e em um elegante volteio, ela se retirou.

Fechando a porta, o jovem permaneceu imóvel, com a mão ainda na maçaneta de ouro. Encostou-se na madeira nobre e luzidia, pensativo.

Uma ideia delineava-se em sua mente.

Natassia... bela, culta, nobre de estirpe... e sozinha no mundo.

Malgrado demonstrasse ser uma mulher independente... encontrava-se à própria sorte.

“Poderia ser ela a... ?”

Mas… e Camus…

“Isso estava previsto desde o contrato de casamento. Contrato cujas cláusulas por Camus foram reconhecidas...”, dialogava consigo mesmo, em pensamento.

Sim. PODERIA SER ELA.

Quanto ao “senhor de seus pensamentos”...

Seria mister que nele não mais pensasse.

*************

Longe das terras andaluzas, o “senhor dos pensamentos” de Milo terminava de receber carregamentos de trigo, centeio e cevada, trazidos pelos agricultores de Saint-Doulchard, tudo conferindo com a ajuda de Gérard, um dos competentes administradores pelo conde contratados. Suas tias não se equivocaram quando lhe ensinaram que na ausência do marido caberia à mulher tomar a frente de atividades como aquela.

Nos últimos dois meses, dividira os estudos, dos quais nunca se descuidava – e o conde d’Auvergne provera o castelo com centenas de livros interessantíssimos – com aquelas atribuições administrativas. No início sentira-se perdido, contudo, fora bem assessorado por Afrodite, Gérard, Leopold, que além de ser líder comunitário da aldeia próxima ao castelo agora trabalhava diretamente para o conde e, claro, para “a condessa”. À essa valorosa assessoria juntava-se sua natural inteligência... bem, era inegável que a admiração que despertava em quem quer pusesse os olhos “na senhora Camille” contribuía. A “senhora condessa” além de formosa mostrava-se sempre cordata e equilibrada. O que nem sempre se verificava nas grandes damas da época, quando desempenhando iguais funções: a maioria oscilava entre autoritarismo déspota e inépcia.

Após se despedir dos camponeses, que partiram em carroças vazias, viu seu camareiro-mor sorrir ao indagar-lhe:

— Há de vir mais alguém esta tarde?

— Não, estes foram os últimos de hoje – não pôde deixar de suspirar, aliviado: desde as horas primas da manhã encontrava-se ocupado. Dias havia de total calmaria, em quais ele se dedicava a ler, escrever, passear pelos pomares e jardins, e ao aprendizado da harpa; decidira aprender a tocar a harpa dias após a partida do esposo. Queria inicialmente aprender o saltério, mas acreditando ser esse instrumento mais complexo que a harpa, preferiu por esta começar. Por outro lado, havia dias que pareciam compensar os amenos com plena eficiência. Pois bem, Camus sobrevivera a um desses dias bem trabalhosos, sem contudo haver reclamado nem por um instante sequer.

— Vem comigo ao jardim, há algo que gostaria de mostrar-te – disse o sueco “à sua senhora”.

— Está bem – voltou-se para os demais empregados – Estais dispensados por hoje.

— Sim, senhora condessa – responderam em uníssono.

— Guillaume, pede a Nanette que ao pôr do sol prepare meu banho. E que Julie prepare o de Afrodite, no apartamento dele.

— Pois não, minha senhora – o velho serviçal curvou-se profundamente antes de ir cumprir a incumbência.

Os dois rapazes então foram até o jardim. Melhor seria dizer agora “jardins”, pois as flores distribuíam-se para além dos seus limites, igualmente tomado por elas. Os arbustos podados regularmente, a relva macia e bem aparada, plantas de diversas formas, algumas mal irrompendo o solo outrora desguarnecido de encantos... tudo isso cultivado e trabalhado sob orientação do camareiro-mor da “senhora Camille”. De certas flores, cuidava ele pessoalmente, em especial as rosas: nestas, servo algum tinha permissão de tocar. Ainda que mal estivessem a 50 cm do chão.

Erguendo as saias de seu vestido verde-água para melhor descer pelos degraus reformados, Camus abria mais seus olhos rubros ante o que se desvelava diante de si.

Notando-o admirado, Afrodite riu, alegre:

— Vês? Que te pareces?

— Como é possível que já estejam a desabrochar? Faz apenas dois meses que as plantaste!

Percorrendo o jardim, o ruivo percebeu flores que não soubera identificar. Parou diante delas, encantado.

— Nunca vi estas. Não havia em Turenne.

— Não. Mas há em abundância na floresta. Nem mesmo no bosque eu as encontrei.

— Tu as trouxeste da floresta? Não sabia que havia ido até lá.

— Porque tratava-se de uma surpresa para ti – o sueco não disfarçava o orgulho – realizei algumas incursões enquanto estavas ocupado com afazeres que dispensavam minha presença. E há outras.

Apontou para mais algumas mimosas flores que enfeitavam inclusive as bases das árvores.

— Crescem mais rapidamente que as das mudas que trouxe da Borgonha. Claro, sendo nativas desta região, é o esperado... e este solo parecia tão pouco fértil, não? Heh, as aparências enganam.

— De fato, as aparências enganam... – murmurou Camus, parando de frente ao que um dia certamente seria um belo roseiral. Ficou a contemplar o poente detrás das montanhas já escurecidas, subitamente distante.

Afrodite parou de sorrir, adivinhando o repentino silêncio do amo. Mas logo voltou a sorrir, a fim de transmitir cumplicidade.

— Por mais que ele seja um cretino arrogante, tenho certeza de que o senhor Milo apreciará a nova aparência do jardim – declarou, casual.

Ruborizando, Camus fez ar de pouco caso.

— Por que o mencionas de repente?

— Porque estás a pensar nele.

— E tu quiseste mostrar que o descobriste – o ruivo afetava indiferença.

— Não te aflijas. Creio que ele não demora muito mais a retornar. Se bem que considero esta minha fala paradoxal...

— Não estou aflito.

— Camus... impressiona-me que mesmo dizendo-te meu amigo ainda não quiseste admitir que o ama.

Um olhar penetrante do mais novo deixou transparecer desagrado com aquela conversa.

— Para que admitir o que não se concretizará? – foi a resposta, tão fria que o loiro estremeceu.

— Bom... eu só penso que...

— Tu pensas demais.

Sem se deixar intimidar, o mais velho continuou:

— ... só penso que deverias desanuviar teu coração. Far-te-á mal se persistires com o hábito de guardares tudo para ti.

— Hunf... pensas... e FALAS demais – o ruivo deu-lhe as costas, afastando-se, até chegar a um recanto repleto de pequenos cogumelos. Sem sair de onde estava, o ex-pajem indagou, cruzando os braços:

— Pretendes emparedar em teu peito o que sentes por ele? Pensas que assim livrar-te-á de sofrimentos?

Camus cerrou os olhos e espalmou a mão no tronco de um castanheiro.

“Que posso eu fazer? A esta altura... Milo já terá se deitado com um sem número de mulheres. Provavelmente nem mais se lembra de nossos beijos... antes, considera-os armadilhas de Satã à sua honra”, pensava tristemente.

Seu rosto, entretanto, mostrava-se severo e duro, como se na verdade pensasse em alguém odiado.

Contudo, o único digno de ser odiado era ELE MESMO.

Todo ele um engano, um engodo.

— Camus. De vez em quando, perguntas-me quando irei contrair matrimônio – Afrodite iniciou aquele tópico sem o menor aviso prévio.

O ruivo olhou para ele, esperando que prosseguisse. Viu-o andar até a bela fonte em estilo clássico, recém construída por artífices italianos, que há três semanas efetuavam obras na propriedade. Foi até ele, agora curioso.

— Nunca revelei-te isto, não por querer de ti ocultá-lo, mas meramente por não ver a necessidade de acrescentar os meus problemas aos teus. No entanto, tua recente curiosidade acerca da questão impele-me a dizer-te a verdade.

Vendo que o sueco hesitava, Camus postou-se diante dele.

— Sou todo ouvidos, caro amigo. Nada temas.

Àquelas palavras, raras de serem proferidas pelo amo, o loiro suspirou. Falou, de uma só vez:

-Eu não me agrado de mulheres.

Percebendo que nem sombra de inquietação passou pelo semblante do amo, o sueco comentou, intrigado:

— Não pareces perturbado.

— É porque não estou.

— N-não estás?

— Não.

— Mas... mas por quê? – quis saber, atônito – Faz-se tão evidente assim?

— Não que seja “evidente”, seja lá o que isso queira dizer – o ruivo começou a explicar, neutro – ocorre que em todos estes anos, malgrado por sobre ti caiam os mais doces e apaixonados olhos feminis, quaisquer que sejam as ocasiões sociais nas quais nos encontremos, nunca manifestas por elas o mais ínfimo interesse.

Afrodite parecia prestes a cair para trás. Em um gesto tão despreocupado que pareceu até infantil, Camus atinou:

— És sempre cortês, gentil, amável... contudo...

— Quer dizer que SEMPRE notaste?

O ruivo fez que “sim” com a cabeça, simplesmente.

— Por que nunca me disseste?

— E por que eu deveria?

A boca do sueco quedou-se muito aberta, sem que frase alguma por ela saísse.

— Afrodite. Isso apenas a ti diz respeito. Se não quiseste me contar, não seria eu a inquirir-te.

— Bem... – o camareiro não soube o que dizer.

— Não precisas ficar constrangido. Ademais, o senhor Shura é excelente escolha. Resta saber se ele é como tu.

Afrodite ficou abismado ao ouvi-lo enunciar aquilo tão... tão naturalmente!

— Ca... Camus!!!

— Sim?

— Deus Todo Misericordioso… quando foi que tu te tornaste observador a esse ponto? Terá sido a convivência de duas semanas com o senhor Shura?

— Tua transparência dispensa tal faculdade.

— És terrível! Fazendo-te alheio quando na verdade sondas-me com tanta maestria! – gracejou o loiro.

— Não me é nada forçoso – sorriu.

— Digo o mesmo a respeito de perceber o que sentes pelo senhor Milo.

O semblante de Camus nublou-se no mesmo instante. Afrodite chegou a se arrepender por mencionar aquilo; o outro, contudo, respondeu serenamente:

— É diferente. Embora não saibamos a respeito dos reais gostos do senhor Shura para o amor, ele agrada-se de tua companhia. É amável para contigo. Ao passo que o senhor Milo...

Calou-se, sem ânimo para continuar. O sueco não insistiu. Então seu senhor fez que esticava os músculos e procurou mudar de assunto:

— Eu gostaria de ir até a floresta contigo da próxima vez, ajudar-te a pegar mudas. Sabes que sempre apreciei tais caminhadas em meio à natureza. Há meses não saio deste lugar.

— Pois muito que bem – o loiro mostrou-se animado, fingindo não ter apreendido a real intenção do amo – em nove luas será a cheia, e as damas-da-noite hão de florescer.

— Damas-da-noite?

— Sim! São flores enormes, brancas, de singela e frágil beleza, que exalam mui suave perfume. Vi que há um belo lago ao sul daqui cercado por elas. Desabrocham a esta época mas somente abrem em plenitude na lua cheia. Se sairmos daqui antes uma ou duas horas antes do amanhecer, ainda conseguiremos vê-las. Creio que te agradarás do espetáculo.

O ruivo realmente pareceu animado com a proposta.

— Em nove dias, partiremos. Quero ver essa maravilha da natureza! E quero que tragas mudas delas para pôr neste jardim.

— Com certeza farei isso. Será um belo passeio, prometo-te. Pedirei à Heléne que nos prepare uma cesta com deliciosos acepipes; faremos um piquenique, que tal?

— Parece-me excelente ideia – concordou, sorrindo — Bem, creio que deva entrar para banhar-me. Sugiro que faças o mesmo, antes que anoiteça totalmente.

— Sim, verdade. Assim que eu estiver pronto, irei aos teus aposentos auxiliar-te.

— Agradeço-te – começaram a voltar para a casa senhoril, cercados por alguns insetinhos que gostavam de planar à tardinha.

— Durante o jantar, dar-te-ei detalhes acerca de nossa incursão à floresta em alguns dias. Será um passeio inédito para ti!

— Sim, mal posso esperar – concordou; desde criança amava a natureza.

Lembrava-se de Milo, a sorrir maldosamente, tentando assustá-lo em Borgonha, enquanto caminhavam pela exuberante Turenne:

“ Tu, contudo, certamente não te agradarás de onde irás viver, dentre alguns dias... é completamente diferente de tua luminosa Turenne. É erma, incrustada em um vale em meio a montanhas escuras e solitárias; densa floresta a cerca, rios bravios e pântanos sinistros povoam a região. É um lugar lúgubre, afirmo-te.”

O rubro crepúsculo anunciava uma noite amena... que precederia mais um escaldante dia de verão...

*************

Notas finais
(1) Ibn Hazm - erudito, literato, contista, historiador, filósofo e teólogo hispano-árabe (994 - 1064). A vida e a obra deste homem é digna de estudo, e a ele me dedicarei em breve; há estudiosos que creditam a ele a "invenção" do conceito de amor servil que tomou a literatura europeia a partir do século XI, e isso seria devido a, dentre várias obras, a compilação de contos "O Anel da pomba" (em alguns lugares, o "Colar da pomba"). Ele voltará a ser citado na fic, aguardem... (2) Akko - sua forma aportuguesada é "Acre", cidade da Palestina tomada pelos cruzados em 1110. Retomada pelos muçulmanos em 1187, prontamente foi novamente invadida pelos europeus em 1191, e nesta invasão (a Terceira Cruzada), estavam presentes Milo, Shura, Andreas e o rei Ricardo Coração de Leão. (3) Trabalho era uma atividade considerada indigna para grande parte dos nobres, notadamente o ligado a vendas, como o que Natassia executa; isso tem sido discutido entre os historiadores atualmente. A velha história "faça o que digo, não o que faço". Os registros que li me inspiraram a tecer a história do finado marido de Natassia. Não era o comum, mas acontecia. (4) Verzino - Uma espécie de pau-brasil, vejam só! ************* Bem, ao que parece, Milo sente saudade de um certo ruivo... e é bem nesse meio tempo que conhece Natassia, com quem parece ter traçado algum tipo de plano mental... qual seria? No próximo capítulo, a segunda parte de "Andaluzia". Novos rumos se aproximam... Quer ver o lugar onde Milo e Shura estão, e conhecer mais sobre a Andaluzia, dentre outras coisinhas da fic? Entra no grupim das fics, ó... https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/ Tema deste capítulo - Palastinalied, por Arany Zoltán https://www.youtube.com/watch?v=f1HQGQwohbQ Obrigada por prestigiarem, forte abraço