Dame Jolie
18 Andaluzia - Parte II
Notas iniciais

O Grande Salão do Palácio do Sol refulgia como se o próprio astro que nomeava a soberba residência do duque de Benacantil ali brilhasse.
Perdia-se o fôlego ao adentrar o suntuoso recinto, ao estilo arquitetônico muçulmano que desde o século VIII reinava em grande parte das construções ao sul de Espanha. Uma cúpula semi-esférica adornada com arabescos dourados prontamente atraía olhares admirados dos que chegavam. Por toda extensão das paredes repletas de coloridos mosaicos, arcos trabalhados a ponto de assemelharem-se a rendas; colunetas de mármore negra tão luzidias que podia-se ver o próprio reflexo diante delas. Criados vestidos com um luxo que fazia corar de vergonha até mesmo alguns dos convidados serviam os presentes com presteza: mal se via o incolor do cristal de cada um dos copos dos comensais. Havia desde os mais finos vinhos até o de tâmaras, bastante apreciado pelos locais e nada discriminado, malgrado sua origem menos nobre que os de uvas: dizia-se que o vinho de uvas possuía valor exorbitante por volta dos séculos VI – VII no sul da Mesopotâmia, devido à escassez de videiras na região e à dificuldade de transportá-la. Criou-se então um fermentado à base de tâmaras, as tamareiras sim, abundantes; a bebida não excedia em muito o valor da cerveja do povo. Além destes, havia licores, destilados marroquinos, vinhos diluídos em água com ervas e especiarias, acrescidos de frutas. Quanto à comida, comedimento parecia termo proibido. Cavalheiros e damas tinham à disposição, servidos na mais rica prataria, finas iguarias, preparadas sempre com muito azeite e condimentos caros aos ibéricos: faisões assados envoltos em tiras de toucinho, chouriços, presuntos defumados, leitões e javalis recheados de vitela tenra e temperada, rabada de touro, perdizes assados envoltos em massa aromática, cordeiros com ervas e cravos, coelhos e lebres desossados com molhos fumegantes de cogumelos e mostarda, o adorado cuscuz, iguaria marroquina com miríades de acompanhamentos, como carne ovina, caprina e mesmo com peixes secos, o badulaque, que era uma espécie de caldeirada de carneiro, sem contar com, além das inúmeras variedades de carnes e aves. Notável era a profusão sem igual de peixes e frutos do mar, graças concedidas de ter a Espanha para si o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo: almeijôas, lagostas, caranguejos, vieiras, atuns, baleia, trutas, polvos, arenque, bacalhau... no restante da Europa, alimentos como estes faziam-se meramente alternativas quando da impossibilidade de se consumir carne vermelha e de aves. Não era o que ocorria ao sul de Espanha e Portugal, e daqueles sutis sabores muitas vezes desconhecidos compraziam-se nobres como Milo, residentes de regiões mais centrais. Havia uma paixão, um mistério em todos aqueles sabores, perfumes e cores, quase tão inebriantes quanto o néctar que abundava-lhe nas taças.
Necessário se faz mencionar a doçaria andaluza; nela, os árabes deixaram herança de muito mel e frutas secas como nozes, avelãs, tâmaras, além de damasco, figos, queijos, laranjas... usava-se massa folhada em quase todas apresentações, e se eram exageradamente doces para o paladar de europeus de áreas mais centrais e ao norte, na Andaluzia faziam-se apreciados quase com um senso erótico.
Entretidos com o lauto banquete, cerca de 200 aristocratas distribuíam-se pelo salão, enquanto conversavam, debatiam e flertavam, de acordo com as intenções do momento. Precipitado seria considerá-las “para a noite”, pois que a festividade duraria pelo menos três dias. Por isso, a grande maioria deles encontrava-se hospedada em Benacantil, que dispunha de 313 quartos.
Shura partira antes do início do evento, sem o menor pesar; não era dado a faustosos acontecimentos como aquele. Como conhecia considerável número de pessoas, Milo não se sentiu deslocado. Mesmo que estivesse em ambiente completamente estranho, o loiro, de natureza desenvolta e expansiva, não costumava ficar retraído. No entanto, algo o incomodava naquela noite. Não estava em seu normal. Ainda que rindo, falando, brindando, sentia-se encenando... perguntava-se se tal sensação devia-se ao excesso de luxo que o cercava, ou à presença da bela marquesa de Teruel, sentada à sua frente. Seus olhares se cruzavam amiúde o suficiente para configurar um discreto, porém constante flerte.
Como era bela! Como parecia ter sido feita sob medida para o que ele havia de procurar, a fim de garantir a continuação do puro sangue dos Auvergne! E, por Deus, o encantador sorriso que lhe dirigia de quando em quando apenas sentenciava que seu plano seria bem sucedido.
“Então por que diabos NÃO estou satisfeito?”, questionava-se em pensamento, sorvendo o doce licor de figos.
Um grupo de doze dançarinas entrou. Dir-se-ia que planavam como pétalas no ar; tecidos diáfanos envolviam seus corpos morenos e esguios, e em seus pulsos, pescoços e tornozelos via-se argolas e braceletes de ouro. A música que nascia dos alaúdes, pandeiros, saltérios, cítaras e outros instrumentos, moldava as ondulações e requebrados que encantavam os espectadores. O número, tão elaborado quanto sedutor, fez cessar momentaneamente os colóquios. Todas atenções convergiam para os volteios sensuais das belíssimas artistas. Como todos às mesas, o conde d’Auvergne observava atentamente o espetáculo, ainda que seus olhos azulados, em verdade, se direcionassem para algo além daquela realidade, daquele fragmento de tempo.
Via, sim, rubros cabelos cortando o ar, refletindo as chamas que crepitavam nas fogueiras ao redor... o corpo esguio a rodopiar, a hipnotizar... os olhos castanho-avermelhados cravados nos seus, que sequer piscavam... sentia um temor primitivo, trazido pela fascinante visão, pelos lúbricos passos daquela dança ancestral nascida há tantos séculos na terra de seu amado...
Milo deixara de negar para si mesmo que o amava. Percebera que, além de machucar menos, a admissão do estranho amor dentro de ardia em seu ser permitia que traçasse estratégias para lidar com a ilícita situação. Enquanto estivera a negar e a fugir daquele sentimento, cometera imprudências inadmissíveis para um homem em sua posição atual. Conforme dissera Shura, não mais era o filho do conde de Auvergne; era ele mesmo um conde, o conde de Saint-Doulchard. Urgia que agisse como tal!
Voltou à realidade com o som ensurdecedor das palmas, que demonstraram inflamada aprovação ao entretenimento oferecido pelo soberano de Valência. Uma música mais calma marcou a continuidade das conversações. À marquesa de Teruel o alheamento do jovem conde à sua frente, com quem vinha socializando desde o início da solenidade, não passou despercebido. Poderia até ter sido legítima admiração pelas virtuosas e formosas dançarinas. Entretanto, Natassia era observadora o suficiente para perceber que o que o rosto do loiro estampava diferia-se drasticamente da lascívia que impregnava os semblantes dos outros homens. Era mais como uma melancolia... uma saudade...
Notando o olhar perscrutador sobre si, o cavaleiro começou a falar qualquer coisa e, em seguida, sorveu o licor de figos que parecia nunca deixar seu cálice de ouro.
As horas se passavam, as atrações seguiam-se rumo à noite. A lua crescente subia, acima de escassas nuvens, admirada por aquelas que a vislumbravam das extensas janelas em ogivas. Após ocupar-se em palestras sobre os mais variados assuntos, dos militares aos filosóficos e artísticos, Milo permitiu-se deter em um dos balcões em mármore, respirando com prazer o ar sutilmente perfumado dos jardins.
“Eu sei que preciso fazer isso. Mas por que meu coração dói? Por que hesita?”, perguntava-se mentalmente, bebericando seu vinho escuro. Virou-se para o salão, que, de tão animado, parecia pulsar como uma só massa vivente. Viu em um canto do recinto a bela Natassia, já cercada por homens nitidamente cobiçosos.
“Enquanto entrego-me a ponderações estúpidas, outros achegam-se a ela”, observou, inquieto. De forma pretensamente casual, para a pequena aglomeração se dirigiu. Ao vê-lo, o conde de Almarca abriu os braços, em cordial saudação:
— Senhor Milo! Começávamos a pensar que talvez vos sentísseis indisposto... ou entediado!
— Como poderia, em tão aprazível momento? – devolveu, simpático – Ocorre que a lua exerceu sobre mim peculiar magnetismo e não resisti a ir contemplá-la por um pouco.
— Sois curioso ente, meu rapaz! Com tantas beldades a abrilhantar nossos salões, vais cortejar a lua! – gracejou o anfitrião, o duque de Valência, homem de seus 35 anos, jovial e sanguíneo. Alguns risos se seguiram àquela fala, inclusive do próprio Milo, achando graça de fato.
O marquês de Etória, rotundo como os leitões que brilhavam sobre as baixelas prateadas, quis participar daquela troça:
— Que quereis, Alteza? Nosso intrépido conde e cavaleiro casou-se recentemente com ninguém menos que Camille de Turenne. Vós possivelmente vos lembrais da mítica em torno da primogênita do duque de Borgonha.
— Seguramente! – o governante de Alicante arqueou as sobrancelhas castanhas, em um gesto cômico – uma das mais cobiçadas damas da Europa. Nosso guerreiro lendário ainda deve estar em estado de graça... e cego para as OUTRAS graças...
O grupo riu, enquanto Natassia fitava o loiro, surpresa.
— Então... fostes vós quem desposou a primogênita do duque de Borgonha! Eu não estava a me lembrar do nome que constava no convite...
— Convite? – mirou-a, sem entender.
— O senhor vosso pai enviou um convite para meu marido, que, não obstante, já havia deixado este mundo. Por motivos óbvios, não poderia eu comparecer...
— Evidentemente não ficaria bem para a senhora – a marquesa de Almeria interrompeu a mais jovem – os franceses são mais conservadores que nós, e assaz reticentes à ideia de uma dama viajar sozinha e ir a um evento como um casamento de tal porte.
Ao terminar de falar, a prepotente mulher jogou a todos um sorriso cínico. Que de forma alguma desconcertou Natassia; esta, sorrindo de volta, porém de um jeito franco, respondeu:
— Nem por isso, senhora Olívia, pois não sou mulher de me importar com a opinião alheia, uma vez que a mesma não põe sequer UM destes anéis em meus dedos – e mostrou-lhe a mão repleta de anéis valiosíssimos, que faziam os de sua interlocutora parecerem de mercadora de vila – ao contrário do meu trabalho, que, este sim, os põe. Fosse eu modesta como vós, poderia ter ido à França. Infelizmente, é o meu pecado pessoal, reconheço-o...
A marquesa de Almeria fez-se tão lívida que acharam que fosse tombar sem sentidos. E tornou-se roxa com as gargalhadas que não lograram ser contidas.
Milo riu com discrição, seu olhar divertido cruzando com o triunfante da linda loira, que o sustentou com sedutora altivez. A distração oferecida pelas risadas facilitou a escapada de Olívia de Almeria; viram-na se dirigir, bufando, até o marido, que conversava com outros nobres. Parou diante dele, que virou-se para ela, surpreso com sua chegada intempestiva. Ante a visão do rosto atônito do marquês de Almeria, que possivelmente recebia uma reprimenda por sua limitada generosidade, o grupo de Milo e Natassia riu ainda mais. O pobre Pablo de Almeria sequer entendia por que a iracunda esposa brandia-lhe a mão cheia de anéis...
— Sois terrível, cara Natassia! – gargalhou o governador de Alicante, com as mãos no estômago, balançando-se todo.
— Somente com aqueles que demandam deliberadamente conhecer esta minha faceta, Alteza... – respondeu, risonha, abanando-se com o leque de seda perolada.
“Ela me faz lembrar Camus”, pensou Milo, saudoso, “ele também não se deixa tripudiar facilmente”.
— Quanto ao que vos foi dito, eu de maneira alguma me incomodaria que tivésseis ido ao meu casamento – disse o jovem, sorrindo-lhe. A marquesa devolveu-lhe o sorriso, semicerrando os olhos brilhantes.
Aceitando o vinho que lhe era oferecido por um serviçal, o barão de Palma aconselhou, jocosamente:
— Senhor conde de Saint-Doulchard, sugiro que contenhais vosso ímpeto galanteador; sois homem casado…
O jovem considerou o aristocrata, cujas mãos manchadas seguravam a cintura de uma formosa dama que, sabia-o, NÃO era a baronesa de Palma... zombou, maroto:
— Então dais a outrem sugestões que vós mesmo não seguis?
O barão apertou os flancos da moça, fazendo-a dar um gritinho entre risos.
— O que faço, faço em prol do vigor requestado pela senhora baronesa. Como vede, não sou moço como vós. O exercício se faz constantemente necessário...
— Bem, meus amigos, a música me chama – proclamando isto, o soberano do castelo fez uma reverência – dançai vós também, dançai!
— Dancemos, pois! – animaram-se os convivas, já formando pares e direcionando-se para o centro do salão, onde duas filas paralelas já se formavam.
Milo não esperava por aquela súbita dispersão. Pela primeira vez na vida, ficou sem saber o que fazer.
— Senhor Milo? Está tudo bem convosco?
Ele sobressaltou-se de leve, encontrando os olhos claríssimos da marquesa, interrogativos.
— Como não haveria de estar, tendo eu vossa companhia?
— Recorreis a galanteios porque não sabeis dançar?
O cavaleiro arqueou as sobrancelhas; ela riu, no que foi acompanhada pelo jovem.
— Perdoai a lentidão deste vosso servo... – inclinou-se diante dela, oferecendo-lhe a mão. Ali, ela pôs sua mão quase translúcida. O conde meneou elegantemente a cabeça; seus cabelos estavam trançados, mas duas mechas frontais emolduravam-lhe a face. Natassia encarou-o encantada, certa de jamais ter visto homem tão belo. Que sorte tivera a tal Camille de Turenne!
Eles posicionaram cada qual em uma das duas fileiras, um de frente para o outro. Enquanto aguardavam o início da música, fitavam-se incessantemente, ambos se comprazendo da beleza que constatavam.
Natassia trazia os longos cabelos loiros e lisos presos em um coque alto, do qual nasciam mechas frisadas que iam-lhe até abaixo da cintura. Duas mechas soltas na frente, igualmente onduladas, desciam-lhe até abaixo dos seios, estas com pequenos adornos de pedras preciosas. Uma tiara de reluzentes diamantes fazia conjunto com o largo colar por sobre o colo, imaculadamente branco, sem uma pinta sequer. Acinturado por uma estrutura rígida cravejada de brilhantes gemas, seu vestido parecia transportar constelações na pura seda opalina; tratavam-se de miríades de fios de ouro e prata a formarem intrincados arabescos, que reluziam ante a claridade do ambiente. Milo tivera seus cabelos trançados pelas criadas, que tiveram o cuidado de deixar duas mechas soltas nas laterais. A trança ia-lhe até a cintura marcada pelo cinto formado por grossas placas de ouro cravejados de imensas esmeraldas, de semelhante cor ao da túnica de veludo que usava até os joelhos, a partir dos quais via-se a calça de tom vinho, quase idêntico às das botas compradas na região.
Os musicistas marcaram o início do divertimento, manejando com primor instrumentos como alaúdes, cítaras, pandeiros, rabecas, flautas e harpas. Os cavalheiros e damas que estavam um diante do outro deram-se as mãos e começaram a bailar, seguindo a harmoniosa melodia.
— Bem... a pretensa pilhéria da senhora Olívia acabou por interromper minhas congratulações por vosso enlace matrimonial – comentou a dama, distraidamente.
— Melhor seria que me honrásseis com vossos pêsames.
— Que horror, senhor Milo! Não deveríeis falar assim, nem de brincadeira. Faz pensar que não estais contente por ter vos unido a alguém de tão celebradas qualidades. Sem contar que o pai dela é conhecido como o homem mais poderoso de França, acima do próprio rei.
— Não me casei com ela por vontade espontânea, a exemplo da maior parte dos casórios – replicou, sem disposição para aquele tema.
— Compreendo-vos. Não foi diferente comigo, embora eu tenha logrado amar Vicenzo.
— Deveras? – o cavaleiro surpreendeu-se; se aquilo não era impossível, tampouco era comum.
Dezenas de nobres dançavam, parando apenas para que os pares se alternassem, como bem convinha à ocasião. Milo e Natassia, entretanto, não faziam a menor menção de separarem, tanto mais agora, que encetaram conversa. O que frustrou algumas damas e alguns cavalheiros, ansiosos por dançarem com os dois mais belos convidados.
— Soa pueril?
— O quê?
— Amar alguém com quem se casou? – esclareceu a marquesa.
— Eu não diria pueril. Parece-me verdadeira dádiva dos céus – lembrou-se das palavras de Shura – Apenas espantei-me por não ser muito comum. Entretanto, logicamente fico feliz por ti.
— Não há motivo algum para felicidade – retrucou ela, sob repentina melancolia – o sentimento não se fazia recíproco.
Milo se perguntava como era possível que um homem que convivesse com Natassia pudesse não amá-la. Era bela, espirituosa, inteligente, uma companhia perfeita! Suspirou, refletindo que o amor não seguia lógicas... não estava ele apaixonado por um HOMEM?
— Não quero tornar nossa conversa enfadonha com lamúrias. De mais a mais, até Vicenzo se transformar pelo súbito e inesperado enriquecimento, foi um bom marido, esforçando-se mesmo por simular amor por mim. Prefiro pensar que o poder o corrompeu-o.
O loiro apenas assentiu, incerto de como prosseguir o colóquio.
Dançaram e dançaram, enfim cedendo a outros pretendentes de dança, até que voltaram a se unir, rodopiando pelo salão agora sob um ritmo mais acelerado. Até que, ao final de uma música, os músicos abaixaram seus instrumentos, ante um movimento de mãos do duque de Valência.
— Belas senhoras e gentis senhores! Perdoai minha interrupção abrupta – pronunciou, angariando a atenção de todos – Sabeis que aqui respira-se doces ares mouros, e sabeis que para os islamistas a poesia é a mais alta manifestação da cultura. Sendo assim, gostaria de oferecer-vos a ventura de ouvirem um grande poeta e musicista de minha terra, o virtuoso Ibn Hazm, cujo nome evoca aquele quem o inspirou. (1)
Um homem bem alto e de semblante gentil aproximou-se do senhor de Benacantil. Parou aos seu lado e curvou-se diante da plateia, que o olhava, ansiosa e curiosa. O duque afastou-se, deixando espaço para que o artista se apresentasse. Após sorrir de forma calorosa, Ibn começou a discursar:
— Nobres senhores, é sabido entre nós desta parte da Europa que da seiva árabe e persa nutriram-se os poetas que hoje levam à França, à Itália, dentre outras, a doce ideia do amor servil e cavalheiresco. (2) Por isso, malgrado seja eu nascido Pedro Gonzalez, tomei emprestado o nome do grande Ibn Hazm para assinar meus humildes poemas, dos quais um deles trouxe, em forma de canção, para apresentar a vós. Deixo claro que nem de longe proponho-me ao grande mestre igualar-me. Pensai como uma homenagem, que é, com efeito, minha razão de fazê-lo. Agradeço profundamente pela gentileza de se prontificarem a ouvir este reles servo que vos fala...
A um olhar do poeta, os instrumentistas iniciaram a execução do acompanhamento musical. A plateia já estava suficientemente absorta na melodia, que parecia transportá-la a um universo de beleza e encantamento sob os cálidos sóis do Oriente, quando a voz de Hazm emergiu, profunda e emocional. Milo entendia árabe, idioma em que era cantada a poesia que acertava em cheio seu coração cativo de suas próprias imposições déspotas:
Ela surge tal qual diáfana ninfa
A beleza de minha amada conduz-me à inquietação
Rendo-me
Rendo-me
Quando torno-me extasiado por um breve olhar
A beleza de minha amada é um delicado ramo balançado pela brisa;
Rendo-me
Rendo-me
Oh meu destino, oh minha perplexidade,
Ninguém pode me confortar desta infelicidade,
Em meus lamentos e sofrimentos, não pelo amor,
Mas pela única presente na bela miragem;
A beleza de minha amada conduz-me à inquietação
Rendo-me
Rendo-me...
(3)
Finda a canção, uma salva de palmas entusiasmadas explodiu.
— Tende o olhar mui doce quando ficais a lembrar de vossa amada – comentou Natassia, em meio às palmas, ao conde.
— Como? – ele atrapalhou-se, pois não imaginava que sua acompanhante estivesse a reparar nele durante o arrebatamento a que fora alçado pela poesia do cântico. Tinha consciência de que não conseguia parar de pensar em Camus e de associá-lo a tudo que via e ouvia. Mas não tinha consciência do quanto isso se fazia evidente.
— Equivocastes-vos, senhora. Estava concentrado na beleza singela da canção, apenas isto.
— Então realmente a apreciastes, pois a julgar por vossa expressão, eu poderia jurar que tínheis a alma suspensa por um amor distante ou mesmo perdido – arriscou, mirando-o de modo analítico.
— Que homem neste mundo poderia pensar em outra mulher, tendo a seu lado a senhora, a mais perfeita das damas? – mentiu, iniciando o movimento rumo ao que planejara.
— É apenas mais um galanteio ou uma indagação a que posso responder?
— Claro que podeis responder – ele se perturbou um pouco.
Cobrindo o colo com o leque perfumado, a marquesa sorriu, enigmática. Então achegou-se a ele, como se fosse dizer-lhe um segredo, e sussurrou:
— Um homem apaixonado por uma mulher que não se faz presente.
Milo arregalou os olhos, virando rapidamente o rosto. Tentou rir para amenizar a atmosfera, subitamente pesada para ele, contudo, não conseguiu mais que um arremedo bem falso de sorriso.
Natassia resistiu ao ímpeto de suspirar. Chegara a pensar que o lindo conde estivesse se apaixonando por ela. Talvez estivesse meramente atraído. Isto não a impediria de com ele se divertir; agradava-se de cortes e de partilhar o leito com homens bem feitos. Entretanto, era sagaz a ponto de aferir que o coração dele estava totalmente dominado. Mesmo que a marquesa fosse amante do enleio proporcionado pela corte de um belo cavalheiro, tinha fastio dos apaixonados, que apenas procuravam extravasar as frustrações em seu corpo, agora livre. Não, ela não precisava daquilo. Tinha beleza, intelecto e riqueza. Decididamente, NÃO precisava daquilo.
O que a loira não entendia é por que ele continuava flertando com ela. Milo não parecia ser o tipo de homem frustrado no campo amoroso.
Muito se dançou, cantou, bebeu, até que a madrugada chegasse. A festa, não obstante, longe estava de terminar. Vários grupos se espalhavam pelo complexo palaciano; simultaneamente, ocorriam saraus no salão e pelas varandas azulejadas; palestras ministradas por filósofos pelo Pavilhão Central; debates acalorados sobre a forma e a poética pelos jardins cortados por caminhos de água, que refletiam a lua alta no céu.
Em um recanto florido, próximo a uma fonte cercada de elefantes esculpida em mármore africano, o conde de Saint Doulchard conversava com alguns convivas, e com o próprio duque de Valência. Falavam sobre a filosofia grega, trazida à Europa pelos mouros, que as traduziram, o que possibilitava que o continente começasse a ter contato com Platão, Euclides e Aristóteles, este último traduzido e comentado por Averróis (4), senhor de 66 anos, ali presente entre eles:
— Em verdade, a filosofia grega foi um presente de Deus para nos auxiliar a obter o conhecimento. Muitos cristãos acreditam que ela é antagonista do Criador, no entanto, é bem o oposto: filosofia e fé caminham juntas pelo bem da verdade – dizia ele, de seu divã aveludado, alisando a barba, branca como seu turbante.
— Não pensais o senhor que o que os cristãos temem é que, se o homem se tornar sábio e senhor de seus pensamentos, pode vir a achar que não mais precisa de Deus? – quis saber Natassia, atraindo do mestre um olhar de satisfação.
— Deveras, minha gentil senhora, contudo é um temor sem sentido, pois uma vez que o homem conheça a fundo como se dão as coisas deste mundo, mais próximo quererá ficar do Supremo. Religião e filosofia, repito-vos, não se repelem: a religião cuida das ações dos homens, e a filosofia, da investigação teórica do funcionamento das coisas.
— Falando assim, parece-me que são elas interdependentes – considerou o governante de Almeria.
— A religião de certa forma é uma filosofia...
— Vós vos ressentis que um mouro com o qual vós discordais tenha sido conhecido na minha terra, antes mesmo de Aristóteles, mestre Averróis? – perguntou Milo, sentado em um tamborete de ouro, degustando frutas enquanto se desenrolava a palestra.
— Devo confessar-vos que um pouco sim, senhor conde de Saint-Doulchard. Ao pretender separar a alma do intelecto, Avicena ( 5 ) abre brecha para que pretendam separar a religião da filosofia, e não apenas de forma separatista, como também rival. No entanto, apesar de discordar com ele, foi quem abriu caminho para que outros fossem aceitos nos estudos escolásticos.
— É verdade que Avicena foi considerado um traidor do Islã? Por que isso, se tanto fez pela propagação da cultura árabe? – questionou o marquês de Fairaz.
Averróis sorriu, divertido.
— Ele foi o maior sabotador de si mesmo... não se fazia o mais simpático dos seres, era arrogante, por causa de sua beleza e genialidade... imaginais o que duas das mais cobiçadas qualidades reunidas em um só ser. Não é para qualquer um, lidar com equilíbrio e serenidade... Avicena atraía desafetos por certo desdém à Medicina, ciência que dizia não ser “das mais difíceis”, por ter nela se destacado tão cedo e rapidamente. Mas penso eu que o que o condenou mesmo foram seus excessos alcoólicos, gastronômicos e... sexuais.
As damas presentes murmuraram alguns "ohs" e "ahs", pretextando vergonha, exceto Natassia, não muito afeita a tal comportamento hipócrita.
— Eu me pergunto o quanto disso é verdade, já que só contamos com a biografia escrita por um discípulo dele... – ponderou o duque de Valência.
— Se considerarmos crônicas de contemporâneos de Avicena, talvez grande parte seja verdade – Milo falou, recebendo um menear de Averróis, em concordância:
— De fato, nobre conde. E foram seus excessos sexuais que justamente o levaram para debaixo da terra... uma doença venérea ceifou-lhe a vida.
Natassia inclinou-se para o filósofo, perguntando:
— Sempre causou-me curiosidade vossa afirmação “A mulher é um homem imperfeito”...à parte de me incomodar com a máxima, pretendia mesmo ouvir de vós a explicação para tal.
Apesar de ter feito a pergunta em tom amistoso e naturalmente curioso, alguns se entreolharam, considerando audaciosa aquela interpelação... e vinda justamente de uma dama.
Averróis, entretanto, em nada se perturbou. Com a mesma tranquilidade com que vinha fazendo suas exposições, respondeu:
— Espero que percebais que eu disse “imperfeito”, não “inferior”, embora reconheça que seja a interpretação mais corrente. O papel primordial da mulher no mundo é procriar, e receber a semente do homem, para que assim, a sociedade se perpetue. De natureza passiva até por sua postura quando do ato e do mecanismo da concepção, ela é menos audaz que o homem. Seu corpo é frio, e o do homem é quente, por isso traz a vida, que do calor necessita, que será gerada pela mulher. (6) Seus órgãos e ossos são menos desenvolvidos que os do homem, pois que a Natureza cuidou de manter concentrados todos os esforços da mulher em conceber.
— Então o senhor vos referis unicamente à parte fisiológica...
— Bem, a mente faz parte do fisiológico... mas não façais essa carinha de brava, minha bela, que vos tornais ainda mais bela, e isso é doloroso para as vistas de um pobre velho como eu – Averróis riu, e continuou – Deus opera milagres, e vós sois um deles: por vezes, Deus permite que venham ao mundo mulheres atípicas, dotadas de inteligência e argúcia. Lembremo-nos da imperatris Teodora, de Hildergarda de Bingen, de Leonor de Aquitânia...
— São, com efeito, raras as mulheres dotadas de intelecto; as dotadas de intelecto e de beleza são, podemos inferir, mais raras ainda – ajuntou o marquês de Almeria, pensando, com desânimo, na própria esposa.
— Felizes os homens que conseguem a façanha de desposarem-nas... a exemplo do que ocorreu com o senhor, Milo d’Auvergne – apontou o duque de Valência.
O jovem conde mal pôde conter seu desconforto. Averróis considerou-o, curioso:
— Casastes com um desses entes raros, meu bom rapaz?
— Bem... – ele começou, mas foi interrompido por um eufórico duque de Vega:
— Simplesmente era considerada o maior partido para se casar! Eu mesmo a vi, há dois anos, em um baile do rei de França: sua beleza estonteante não tinha a graça delicada das costumeiras musas, era antes agressiva...
— Talvez pelos cabelos, que dizem ser vermelhos?
— Dizem que até seus olhos são vermelhos!
— E que é a bem alta para uma mulher...
Milo mal sabia para onde olhar!
— Calai-vos que me confundo! – chasqueou o duque de Vega – digo-vos que não era apenas sua aparência que a fazia parecer agressiva, ainda que sempre se mostrasse plácida, fria como o gelo... algo em seu olhar, orgulhoso sem ser petulante, enigmático, que atrai e assusta, simultaneamente. Essa mescla gera um fascínio que é difícil explicar, teríeis todos que vê-la!
— Nós PODERÍAMOS, se o conde de Saint-Doulchard tivesse trazido a esposa... – alfinetou o barão de Palma, secretamente desejoso de ter podido constatar todas aquelas palavras...
— Bom, eu vim a negócios, como disse anteriormente...
— Vários homens viajam a negócios com suas esposas.
— Deixai-me prosseguir! – o duque de Vega havia apreciado ser o centro das atenções, enfim – Como eu dizia, Camille de Turenne é realmente linda, mas não apenas isso: palestra junto às gentes, causando assombro de sua vasta cultura! Versa com maestria sobre os mais variados assuntos, e, curiosa coisa!, malgrado ultrapasse em raciocínio muitos dos quais com quem eu a vi conversar, apenas o faz quando interpelada, e por vezes, com insistência!
— Isso não condiz em nada com o que se espera de uma mulher. Aquelas que são tidas como inteligentes não possuem a mesma modéstia, comprazendo-se em se mostrar diante dos homens – Olívia de Almeria sequer disfarçou a indireta para Natassia, que apenas riu-se.
Milo ouvia-os falar, inquieto: jamais tivera ele a oportunidade de conversar com Camus… era como se falassem de alguém que ele não conhecia.
Não. Ele não conhecia AINDA.
“Quero conhecer-te, Camus. Estive a impedir isto, até agora”, pensou, tristemente. Ergueu o olhar para Natassia, e foi como se o dever lhe esbofeteasse.
Não. NÃO podia conhecer Camus.
Ele já estava suficientemente apaixonado pelo esposo! Isso dificultaria ainda mais a missão que deveria empreender, em prol do prosseguimento da família dos Auvergne!
— O quão curioso estou acerca de tão singular dama é difícil expressar – falou Averróis, pensativo.
— Senhor Milo, por que não a trouxestes? Pelo que o senhor duque de Vega conta, ela teria apreciado tanto cá estar! Pois que aqui em Benacantil... aliás, em toda Andaluzia, respira-se arte, cultura e saber – indagou o conde de Málaga, um atraente homem de seus trinta anos.
— Ela se indispõe com facilidade. Como esta viagem é francamente a negócios, abstive-me de trazê-la... mas fá-lo-ei em outra ocasião, prometo-vos – respondeu, cordialmente.
— Tereis que cumpri-lo, e o cobrarei – retrucou o soberano do castelo – Oxalá tivéssemos entre nós a famosa Camille de Turenne, para abrilhantar ainda mais esta noite!
Franzindo um pouco o cenho, Milo tornou-se subitamente sisudo.
— Já havia escutado rumores sobre a fama de minha esposa. Contudo, acredito que muito dessa mítica nasceu da longa recusa do duque de Borgonha em entregá-la em casamento – enunciou, esforçando-se por disfarçar a irritação que invadia-o.
— Estais a minimizar a tal “mítica” em torno de vossa senhora, senhor Milo – disparou o anfitrião – penso cá eu que pretendeis guardá-la apenas para vós, tal qual um bibelô de luxo...
O cavaleiro quase engasgou de tanta raiva. Esforçava-se por se manter sereno. Mas ele NÃO era como Camus, bem o sabia. Encenar não lhe era nada fácil!
O anfitrião sorriu, após engolir as últimas gotas de sua bebida. O criado se desesperou ao ver o cálice do amo vazio! Distraíra-se tanto com aquele interessante embate entre os nobres que esquecera de reabastecer o cálice. Acorreu, apavorado, temendo uma repreensão ou mesmo um castigo por sua negligência. O nobre, contudo, não fez daquilo caso algum; preferiu incendiar ainda mais o colóquio:
— Saibais vós que, tivesse o senhor duque de Borgonha aceitado minha proposta, estaríeis todos vós a matar vossa curiosidade acerca da notória Camille de Turenne.
— Que quereis dizer, Alteza? – Natassia indagou, notando a estupefação de Milo.
Aliviado por ver seu descuido perdoado, o serviçal pôs-se a servir aos mais próximos de seu senhor. Virava o odre de vinho no cálice de Milo, que tinha os olhos vidrados cravados no duque de Valência.
— Vós... vós pedistes a mão de minha esposa... em casamento a Teobald II?
— Bom, ela ainda não era vossa esposa – o governante de Alicante deu de ombros, provocando algumas risadas abafadas. A expressão indignada do conde de Saint-Doulchard apenas as potencializava.
Além da hilaridade instituída, via-se na atitude de eles se entreolharem indisfarçáveis questionamentos entre si. Milo podia traduzi-los, em pensamento:
“Como o duque de Borgonha preferiu entregar a primogênita a um garoto como ele, ao invés de casá-la com um dos aristocratas mais poderosos de Espanha?”
Natassia viu-o perder toda a cor do rosto bronzeado. Temeu que o rapaz perdesse também a compostura. Tomou-lhe o braço, fazendo-se provocante. E, virando-se para os demais:
—Vós nos fatigais falando tanto da maravilhosa Camille. Levarei o senhor Milo para dar uma volta e poder se desintoxicar de vossos pequenos venenos... – atirando a verdade sob forma de gracejo.
— E, pelo visto, tencionais provar de um certo veneno, senhora... – riu o duque de Valência – acaso sabeis que o brasão dos Auvergne é um escorpião vermelho?
— Já provei tanto veneno nesta vida que fiquei imune, Alteza. Deveriam estudar-me a fim de obter antídotos.
— Pena que sou velho, bem gostaria de estudar-vos – brincou Averróis, antes de abocanhar várias tâmaras.
Ela riu, balançando a mão em uma despedida afetada. Conduziu o conde de Saint Doulchard pelo caminho cercado de piscinas. Caminharam em direção à maior fonte do extenso jardim.
O loiro apenas deixava-se levar. Cessara de falar, de disfarçar que tudo estava bem.
Não estava NADA bem.
“Andreas... o duque de Valência... quem mais pediu Camus em casamento? Quantos mais pediram?”, pensava, sem compreender por que aquilo lhe perturbava tanto. Não. Ele compreendia, SIM.
E se o rei tivesse obrigado que Teobald II entregasse “a primogênita” a um deles? Ou a outra pessoa? O segredo de Camus seria descoberto, e sua vida… irremediavelmente perdida…
Camus poderia mesmo estar MORTO agora.
Só de pensar nisso um nó fechou em sua garganta, seu estômago fez-se gelado.
— Senhor Milo, acaso dai-vos conta de que estivestes a ponto de vos indispor com nosso anfitrião? – Natassia trouxe-o de volta à realidade.
Os olhos claros de Milo, antes perdidos, focaram a dama à sua frente.
“São tão parecidos... mas ao mesmo tempo tão diferentes! Camus é um homem que vive como mulher, e Natassia, uma mulher que vive como homem. Camus é oprimido, e Natassia, livre... e assim mesmo, são serenamente corajosos e sábios.”, ele pensava, sem se dar conta de que seus olhos marejavam. A marquesa fez-se surpresa:
—O que vós tende...? Senhor Milo...
— Natassia. Tenho uma proposta a vos fazer.
— Uma proposta?
— Sim… escutai-me… — mirou-a profundamente – sois agradabilíssima companhia... bela, culta, educada, inteligente, sensível... e vos encontrais sozinha no mundo. Sei que sois independente, entretanto, afeiçoei-me suficientemente a vós ao nível de me preocupar com vosso desamparo nesta terra. Possuo uma confortável propriedade em Haute-Loire, não muito longe de Saint-Doulchard. Na verdade, o castelo é menor mas muito mais bonito e bem localizado. Poderia tornar-se vossa morada...
Deixando entreabrir os róseos lábios, a dama mostrou-se perplexa com o que apreendia daquela fala.
— Estais a propor que eu me torne vossa concubina? – perguntou, demonstrando pasmo.
— Eu não me serviria de tão fortes palavras...
— Por que estais a fazer-me semelhante proposta?
— Não vos é evidente? Apaixonei-me por vós.
Natassia encarou o conde, boquiaberta. Então deixou escapar uma risada, ao que Milo se embaraçou.
— Por que estais a rir? – quis saber, agastado.
— Porque dançais, falais e entreteis muito bem, mas mentis muito mal.
— Não estou a mentir.
— Sim, estais a mentir. Vós não me amais.
— Se estou a dizer que vos amo...!
— Quero saber por que estais a me propor isso se amais vossa esposa.
Um pesado silêncio se fez entre eles. A música que vinha de longe juntava-se aos sons dos grilos. Os olhos úmidos de Milo não abandonavam os inquisidores da marquesa de Teruel.
— O amor cantado pelos trovadores é, francamente, o amor extraconjugal – disse a loira, unindo as mãos atrás de seu corpo delgado – uma vez que nos casamos por contratos feitos por nossos pais, isso não é nada estranho ou inesperado, e nem mesmo condenável... a própria Igreja não desdenha dos homens que amam suas esposas?
— Natassia... – balbuciou Milo, sem saber o que dizer. Foi o que a permitiu continuar sem maiores delongas:
— Sei que o homem toma uma concubina para si por quatro motivos. O primeiro, porque não ama sua mulher e, apaixonando-se por outra, torna-a sua amante oficial. O segundo, porque apesar de amar a esposa, não se satisfaz na cama com ela, ou por razões fisiológicas ou por razões ideológicas. O terceiro, por mera convenção social. O quarto, pelo fato de a mulher não poder gerar filhos.
Atônito, ele apenas ouvia, já sentindo o amargo sabor da derrota.
— Qual é o motivo que vos move, senhor Milo? – indagou, séria.
Era a primeira vez que via a marquesa séria daquele jeito.
Incapaz de sustentar mais toda a farsa, Milo confessou:
— Minha mulher não pode ter filhos.
— Então é isso.
Ele assentiu, desistente. Para seu espanto, ouviu uma gargalhada.
Natassia RIA.
— Por Deus! Tende habilidade para mentir tão falha quanto para escolher...! – dizia, entre as gargalhadas – Sois verdadeiramente azarado, meu amigo!
— Explicai-vos – demandou o jovem, irritado.
Fazendo um cênico gesto de contenção das risadas, a dama esclareceu, divertida:
— Senhor Milo... eu TAMBÉM não posso ter filhos...
— O quê?
— Não considerastes que Vicenzo e eu não possuímos descendentes?
Aturdido, o cavaleiro articulou, timidamente:
— E-eu não poderia saber... sinto muito...
— Dispenso vossa comiseração; se viesse um rebento com o caráter de meu finado marido, aí sim eu teria sobre mim uma maldição! – devolveu, em tom de troça.
— Oh... – o jovem sentiu-se perdido. Coçou a cabeça, incerto de como proceder.
— Então procurais uma concubina para dar-vos a descendência que Camille não pode vos dar.
— Sim.
— O que preferis, senhor Milo: fazer filhos ou fazer Camille sofrer?
— O... o que estais a ponderar?!
Armando-se de paciência, a marquesa pontuou:
— Vós amais vossa esposa. Não negueis a verdade e deixai-me expor o que quero. Eu acredito que ela também vos ame. Como uma mulher poderia ser amada por alguém como vós sem vos amar de volta?
— O que... o que vos faz afirmar com tanta convicção que amo... minha esposa? – perguntou, olhando a água que tremulava na fonte.
— Sempre deixastes transparecer em vosso olhar que há alguém em vosso coração. Eu não atinava que fosse vossa própria senhora, até que vi todo vosso ser inflamar-se quando da conversa acerca de Camille. Juro por Deus, achei que torceríeis o pescoço de um a qualquer momento! Senhor Milo, vossos ciúmes se faziam tão nítidos que enfim pude concluir que sois um raro espécime que logrou amar a esposa.
— Eu... bem... sim. Eu a amo – disse Milo, por fim.
E ergueu para Natassia o rosto afogueado.
— Eu amo minha esposa – confessou mais para si do que para Natassia, que já o desvendara.
— E não considerais o quanto a fareis sofrer por terdes vós uma amante? Por terdes filhos com outra mulher?
— Mas... eu... e quanto ao prosseguimento da família...?
— Quereis, ardentemente, ter filhos? E se o quiserdes, dizei-me: por amor a crianças ou por amor à tradição?
Não negaria que gostava de crianças, no entanto, logicamente, sua insistência na ideia residia na crença primordial do homem de então: a necessidade de garantir sua descendência. De manter vivos o nome e o sangue da família.
— Qualquer que seja vossa motivação, é ela maior que o bem estar daquela que amais? Valerá o pranto de Camille? Valerá por cada seta de angústia que perpassar seu coração a cada vez que ela olhar a criança, que, imagino eu, pretendeis que ela crie, a bem da farsa que quereis encenar?
A cada questionamento era como se Milo levasse um soco no ventre.
Não... não! A ideia de fazer Camus sofrer causava-lhe náuseas!
Ele preferia sofrer em seu lugar, agora o sabia.
Amava Camus mais que tudo, mais que a própria vida, mais que suas próprias convicções. E pisaria em todas elas, se fosse para fazê-lo feliz.
Sim... pisaria em TODAS suas convicções para fazê-lo feliz. E para SER feliz, ao lado dele!
— Senhor Milo... – balbuciou Natassia, vendo as lágrimas vertendo pelas faces trigueiras do conde.
— Natassia... vós achais que ela me ama?
Que pergunta idiota, poderia considerar. Ora, se a marquesa sequer conhecia “Camille”! Não obstante, a moça tomou gentilmente as mãos do rapaz e respondeu, amável:
— O senhor também ouvis mal: conforme vos disse há pouco, não vejo como uma mulher amada pelo senhor seria capaz de não vos amar. Sois o mais belo e puro homem que já vi. Sinto-me agraciada tão somente por ter tido a ventura de conhecer-vos. Resumindo... sim, senhor Milo, eu creio do fundo do meu coração que Camille vos ama.
Ele sufocou um soluço, tremendo levemente.
Seu pai estava certo. Shura estava certo. Natassia estava certa.
Eles abriram a porta para seu entendimento.
Milo amava Camus, e agora não apenas o admitia para si mesmo.
Estava disposto a VIVER esse amor.
O próprio Deus lhe entregara Camus, que morreria caso fosse entregue a outros.
SIM, VIVERIA ESSE AMOR!
— A vida humana é um sopro, senhor Milo – declarou a marquesa, acariciando afetuosamente o rosto banhado por um pranto que não mais era de dor – Não percais mais tempo negando esse amor a vós e a vossa esposa. Não sei por que estivestes fazendo-o até este momento, mas...
— Partirei agora mesmo.
— Partireis? Para onde?
Ele a encarou, e, em meio ao pranto, um sorriso nasceu:
— Para Saint-Doulchard.
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