Dame Jolie

27 Doce como Néctar


Notas iniciais
Hello, people, como vão? Espero que bem... vamos à continuação da lua de mel de Milo e Camus, que enfim se entenderam, após tantos obstáculos e adversidades. Gostaria de agradecer o maravilhoso apoio que vocês vêm dando a esta fic, notadamente aqueles que dispuseram de seu valioso tempo para deixar um estimulante comentário, muito obrigada! Assim como no último capítulo, teremos LEMON, portanto, se não gosta, não leia... ou passe logo para a segunda parte do texto, separado pelos asteriscos ;) Créditos da capa Pixiv ID: 19167097 Member: 狂 (A arte da capa foi cortada, mas a versão integral pode ser conferida no grupo das minhas fics no Facebook) Boa leitura!

Sonho?

Teria sido... um sonho?

Não. A despeito da sensação de maravilhamento em que Camus se encontrava imerso, ele SABIA que não fora um sonho. Sua face aquecia-se no peitoral que o abrigava no lugar dos travesseiros. Seu corpo recebia o calor do marido bem junto a ele; o ruivo adormecera por sobre o peito largo de Milo, cujos braços fortes, protetores, envolviam o homem a quem finalmente admitira amar... e que finalmente aceitara seu amor.

A julgar pelo canto de uma ave solitária, de hábitos reconhecidamente matutinos, em uma das janelas semiabertas, a madrugada despedia-se. Camus tinha a plena certeza de que experimentava paz pela primeira vez em sua vida. Paz... conforto... segurança... então era isso que significava ser “feliz”? Engraçado já ter lido sobre o tema, ora em textos ficcionais ora em filosóficos, religiosos... e, ao experimentá-lo... estranhar! Espantava-o... e espantava-se em dar-se conta de que se espantava. Cenas vividas horas antes voltavam à sua mente pouco ainda letárgica, tanto pelo sono quanto pela intensidade dos prazeres saboreados.

Que inaudita quietude! Doces lembranças, supremas venturas... não havia lido nada sobre aquilo, havia VIVENCIADO aquilo... estava vivendo-o, agora mesmo! Ouvia claramente o coração de Milo, e aquele palpitar emocionou-o ao ponto de ir às lágrimas, sem que o percebesse. Porém, o cavaleiro principiara a despertar e sentira as gotas frias sobre sua pele. Manteve-se imóvel, de olhos fechados, a fim de se certificar do que estava a deduzir; sim, seu amado estava chorando!

— Camus – chamou baixinho, causando um estremecimento de surpresa no esposo; este afastou-se, alarmado. O loiro ergueu-se um pouco, apoiando-se em um dos cotovelos. Considerou o ruivo e confirmou o que a umidade em seu peito lhe denunciara:

— Estás chorando...?

— Eu? Não, claro que não! – Levou as mãos às faces enrubescidas e pareceu se surpreender ao senti-las de fato molhadas.

— Dói-te algum lugar? Eu… eu te machuquei?... – indagou, receoso.

— Não! – O jovem apressou-se em enxugar aquele pranto furtivo. – Nem mesmo notei que estava a chorar, que tolo que sou!...

— Algo deve ter te causado algum desconforto. Diz-me o que foi, peço-te. – Acariciava os contornos do rosto do amado, profundamente preocupado.

Camus ficou constrangido. Não queria ser tomado por excessivamente sensível por aquele homem a quem tanto admirava! Tentou minimizar o ocorrido, contudo, como o outro insistia em saber por que pranteara, não teve escolha senão contar-lhe a verdade... embora nem ele próprio compreendesse, de todo, o que havia se sucedido.

— Não foi por nenhum desconforto, ao contrário... fui tomado por tamanho júbilo que, ao que parece, afetou-me de alguma forma as ideias. – Sorriu avexado, desviando os olhos castanho avermelhados. – Nunca havia me sentido tão bem... era como se meu interior se expandisse a ponto de provocar tal reação que, reconheço, foi estranha...

Emocionado com o que ouvia, Milo fitava o ruivo. Curiosamente, não foi alegria que o invadiu, ao escutar aquela explicação, e sim uma amarga constatação.

— ...penso que eu nunca soube o que era ser feliz. Até então... – admitiu Camus, fechando os olhos ao sorrir, suavemente. Quando os abriu, levou um susto: dessa vez, era o conde quem vertia lágrimas!

— Mi... Milo?

— Camus... eu sinto tanto... sinto tanto que tenhas vivido sob tantas provações... – disse o loiro, os olhos azuis como o céu agora nublados de sentido pranto – Amo-te tanto! Minha alma despedaça-se ante a consciência de que nos últimos cinco meses tenha sido eu o causador de tantos sofrimentos teus!

O ruivo balançou a cabeça, em obstinadas negativas.

— Que estás a dizer? Milo, abstém-te de enunciar semelhantes disparates!

— Não são disparates – A voz embargava-se – eu te fiz sofrer... !

— Milo – As mãos trêmulas de Camus ampararam o rosto choroso do cavaleiro – Nunca mais digas isso. Cessa de recriminar-te por delitos não cometidos!

O conde tomou as mãos gélidas do amado e beijou-as entre lágrimas.

— Eu te desprezei... te ofendi... te maltratei... tantas e tantas vezes! – acusava-se.

— Achei que disseste que estávamos a começar tudo de novo... a inaugurar um recomeço!... – rebateu o ruivo, retirando suas mãos das do esposo; cobriu o rosto, no qual o pranto voltara a precipitar. Pôs-se a suplicar, energicamente:

— Se não queres mais que eu sofra, não sofras tu! Antes, ama-me! Ama-me, pois é o que almejo agora, meu amado esposo...

Comovido, o loiro estreitou-o nos braços, beijando-o com extremo carinho.

— Perdoa-me, anjo, perdoa este tolo... ah, este tolo que uma vez mais engendrava machucar teu nobre e puro coração! Ah, Camus, amo-te tanto... mas eu nunca soube amar... tem paciência com este teu servo, senhor de meus pensamentos, senhor de minha alma... amo-te com o furor das tempestades, que sequer mensuram os danos que causam à natureza...

— Milo!...

Seus lábios foram cobertos pelos carnudos lábios do cavaleiro, ambos entregando-se a um beijo tão profundo e urgente que em poucos segundos já sentiam seus corpos reagirem de modo lúbrico... voluptuoso...

Desde a última cópula estavam nus, e despidos adormeceram; as musculosas pernas morenas sobrepuseram-se às do esposo, prendendo-as. Milo puxou Camus mais para si, suas intimidades despertas chocando-se, fazendo ambos suspirarem em meio à comunhão de suas bocas famintas. Sob a égide de um poderoso erotismo aflorado por um amor há tanto reprimido, mais uma vez se viram rumo àquela união sobre o leito matrimonial.

— Ohh... Milo... – sussurrava, sentindo-se derreter pelas carícias do marido. Mordendo de leve os rijos mamilos do esposo, o loiro apertava o outro, fazendo o amado envergar-se, ansioso. Então a mão que torcia aquela já intumescida área desceu-lhe pela barriga, sondando-lhe o ventre quase convulso.

Camus cerrou os olhos em sublime antecipação; seu membro inchava sem nem ao menos ser tocado. Com Milo não era diferente: lamber aquela alva pele adocicada, ouvir os gemidos mal contidos daquele a quem desejara mais que tudo provocava-lhe fisgadas quase incômodas no sexo avantajado. Umedeceu os lábios com indisfarçável luxúria, contemplando o ruivo à sua mercê. Decidiu prová-lo de uma maneira diferente.

— Camus... quero-te por inteiro... quero teu amor, teu corpo, teu coração – dizia-lhe, apaixonado, ao ouvido – mas também quero teu gozo. Tomá-lo-ei para mim, agora...

Incerto do que tal declaração efetivamente significava, o ruivo não se viu capaz de responder. Preferiu beijar seu amado, porém, este desviou-se do beijo, sorrindo enigmático. As rubras sobrancelhas franziram-se em dúvida. Em seguida, arquearam-se quando o loiro posicionou-se entre suas pernas brancas. Ao sentir os lábios cheios premindo-se contra suas coxas, Camus balbuciou, enleado:

— Milo...

A região sensível era mordiscada à medida que o conde afastava mais as pernas do jovem desfeito sobre os lençóis. O coração de Camus acelerava tanto quanto sua respiração. Mordeu os lábios quando o marido, com a boca, direcionou o ar por sobre seu pênis ereto. Inspirou longamente quando Milo esfregou o nariz nos pelos ruivos de sua intimidade. O loiro aspirou-os com tanto fôlego de que dispunha. Suspirando, Camus agarrou o acetinado tecido sob seu corpo tenso. Suprimiu um pequeno grito quando a língua de Milo deslizou, vagarosa, por seu órgão latejante.

— AAAH! Mi... o q-que...

O cavaleiro empregou toda sua habilidade para umedecer e estimular o sexo do amado; envolveu-o em sua boca lânguida e quente, causando frêmitos no homem que, inconscientemente, abria-se mais para ele. Acoplou-se entre as pernas de Camus, uma das mãos a segurar a base do pênis por ele aspergido, a outra a se insinuar por entre as nádegas bem moldadas...

— Mi-Milo, q-que estás a fazer? – seus pensamentos embaralhavam-se, devido àquela sensação nova e extremamente prazerosa. Chegou a levar as mãos para o esposo, como a empurrá-lo em um reflexo angustioso. Havia algo naquele prazer que o assustava!

— N-não! Milo! – clamava, entre confuso e deliciado. Temeu enlouquecer quando a boca de Milo abrigou-lhe o membro quase que por inteiro. Sentiu-o pulsar no interior daquela cavidade que passara a sugá-lo, incessantemente.

Milo chupava toda aquela extensão rija, por vezes descendo até os testículos e novamente subindo até a glande úmida, cujo orifício era impiedosamente socado pela língua do loiro, causando no outro um inédito frenesi. Certo dos efeitos que causava, o conde levantava e abaixava a cabeça, aprisionando-o por completo, provocando-o... saliva e líquido seminal escorriam de seus lábios, um aroma que, associado aos gementes apelos do ruivo, o excitava tão violentamente que sentia dor no baixo ventre.

— Milo!... aaahn! – Tentava se conter, mas sabia pelo formigamento incandescente em suas entranhas que tal não seria possível por muito tempo. Por sua vez, o esposo sugava com desejo e força crescentes o falo pulsante. A iminência do clímax de Camus, e naquelas circunstâncias, punha-o verdadeiramente louco. Enfiou o dedo médio no ânus quase convulso do ruivo, arrancando dele um grito; estocou-o, gentil porém insistentemente. Isso lhe valeu umas puxadas de cabelo.

— Huum! – gemeu de dor em meio à felação que realizava.

— Mi... Milo... a-afasta-te... – implorou, certo de que o orgasmo eclodiria em segundos. Na verdade, demorou menos que ele esperava: gozou de forma inimaginável na boca de seu amado, quase sufocado pelo grito que retivera na garganta. Milo o continha firmemente, no afã de sorver aquele sêmen sem qualquer desperdício. Camus contraiu os pés e retesou todo, sob a descarga daquela energia que agora fluía para um extasiado conde de Saint-Doulchard.

Malgrado o animasse distinguir as contrações do canal a prender seu dedo, Milo retirou-o, desejoso de admirar seu ruivo quase fora de si. O jovem arfava, espasmos e respirações desordenados. Seus lábios mais uma vez foram tomados pelo loiro, um filete de esperma escapando-lhe pelo queixo. Encararam-se, ardentes, o peito de Camus subindo e descendo de modo quase agoniante. Arregalou os olhos vendo seu gozo a macular o rosto do marido.

— Eu sinto muito!

— Por que te escusas? – Milo ergueu as sobrancelhas, enxugando-se com as costas das mãos.

— Não... não consegui me segurar... acabei por sujar-te!

— Sujar-me? – riu, divertido, debruçando-se sobre o rapaz, que se encolhia como pego em falta. Beijou-o: Camus assustou-se com o beijo no qual residiam resquícios de seus próprios fluidos.

— Nada neste amor é sujo. Tu és o homem que eu amo. Com quem partilho meu corpo e minha alma. Teu gozo me é doce como o néctar, Camus.

— Doce? Que sandice. Não há nada doce nisto – retrucou, fazendo uma careta.

— Acostumar-te-ás a sentir o mesmo que eu – gracejou o conde, seus lábios estalando pelo estupefato consorte – Um dia, beberás do meu gozo. Veremos que gosto terá para ti.

— Aposto que tem gosto de vinho. Do jeito como bebes...!

— Hahahahaha, então hás de te embriagar, meu amor?

— Milo... faz-me cócegas – resmungou, manhoso, sob o torpor do orgasmo.

Milo achou real graça no amado. Ele era tão puro! Curioso é que não se fazia pudico, o que havia ali nascera tão somente da falta de experiência e de vivência no mundo, o que o cavaleiro possuía de sobra. Fora iniciado nas artes do amor, pouco antes de completar treze anos de idade, por uma dama da alta sociedade de Lyon, por ocasião do triunfal retorno do conde Henri de uma campanha militar no Oriente. Contudo, conforme dissera ao esposo na véspera, a despeito da expressão comumente cunhada... jamais se tratara de “amor”.

Jamais!

Amor... este ele apenas conhecera junto a Camus. Antes mesmo de se deitar com ele. E possuindo Camus fora possuído pelo ruivo, arrebatado para uma glória que, pensara, apenas o paraíso havia de lhe reservar.

Não; seu paraíso estava ali, diante dele, no dulçor daqueles lábios, na maciez daquela pele de marfim, no brilho daqueles olhos úmidos, no rubor das faces afogueadas, no calor de seu corpo recém-descoberto.

— Por que me olhas tanto? – indagou Camus, ainda um pouco ofegante.

— Porque és tentadoramente lindo. Porque te amo. Porque te quero.

Engolindo em seco, Camus desviou os olhos castanhos. Ainda não se acostumara a tais declarações, tampouco a olhares cobiçosos.

Sem poder continuar a resistir, o conde logo voltou a cobri-lo de beijos, puxando-o para si. Segurando-o pelos braços, fez com que Camus sentasse em seu colo. Ao perceber a espantosa rigidez e tamanho do membro do loiro, o ruivo viu-se temeroso pelo que estava por vir. Algo em seu interior, porém, ansiava por aquilo... abraçou o amado, o instinto direcionando-lhe para o corpo sequioso sob o seu.

— Vem, anjo meu, toma em ti o que semeias em mim – disse Milo, abraçando-o, tão provocante que Camus prontamente envolveu-o com seus braços pálidos. Ajeitou-se sobre a virilha do loiro, que conduziu o próprio “mastro” até sua entrada. Fechando um olho e trincando os dentes de dor, remexeu-se sobre o órgão que aos poucos invadia-o novamente.

— AAAH! Camus... oh, céus!!

Ver o cavaleiro demonstrar tamanho deleite em adentrar-lhe a cavidade anal fez o ruivo querer oferecer-lhe mais... e dele querer mais... mais fundo, mais rápido... a dor constituía um preço módico para extrair a imagem de Milo em pleno prazer!

“Ele deseja-me”, pensava, entre excitado e orgulhoso, acomodando-se, afoito, entre as pernas do nobre, travando a mandíbula para não exprimir em demasia seu desconforto... até que todo seu canal abarcasse o grosso pênis.

— Unng! – gemia Milo, simultânea à delícia de reencontro com aquele abrigo, a dor causada pelas unhas do marido, que se enterravam-lhe nas costas bronzeadas. Em resposta, contraiu as pernas flexionadas e projetou-se, de súbito, para cima. Tão quente, tão apertado, tão único!

— Aaah! M-Milo... uung! – lágrimas vieram-lhe aos olhos firmemente cerrados.

— C-Camus!! Oh, céus! – agarrou-se mais a ele, movimentando-se freneticamente de encontro à entrada, que estocava sem trégua agora. Quase gritou quando o ruivo moveu os quadris no afã de engoli-lo ainda mais.

Em ritmo cadenciado, dardejados pelas primeiras réstias do sol outonal, eles se amaram, gemeram, suaram, entoaram o nome um do outro, como se fosse o sacrossanto cântico de um auspicioso e íntimo ritual. Milo convertia-se em puro prazer, e a dor de Camus transladara-se para um âmbito de semelhante deleite. As fartas coxas morenas chocavam-se sonoramente nas nádegas avermelhadas de seguidos coitos e apertos entusiasmados. Malgrado a autorreprovação moral, interjeições blasfemas jorraram até mesmo dos tementes lábios de Camus.

— Camus! Oh, suprema delícia! Oh, quero-te eternamente, toma-me... toma meu gozo em teu fremente, estreito recôndito ardente, uma vez mais!

— Uhhn! Milo... c-conduz-me a... aah... eis que me aproximo do fastígio!

— Quero-o! Banha-me novamente com teu leite divinal, amor meu...

O monumental orgasmo foi quase simultâneo; explodiram em espasmódico êxtase um nos braços do outro, erguendo para as alturas seus rostos transfigurados de tanto prazer. Os músculos contraíam-se ainda, e os ofegos eram silenciados apenas por beijos tépidos, quando Milo sussurrou em meio aos rubros cabelos:

— Amo-te... meu esposo... amo-te...

— E-eu... – Camus buscou o ar para efetuar o que se propusera – Amo-te, Milo... tanto, tanto!...

O loiro sorriu, triunfante, e cingiu-o pela cintura, fazendo-o deitar junto a si.

— Ah, meu amor! – enunciou, feliz – Enfim, algumas palavras animadoras principiam a sair dessa tua linda e casta boca!

O ruivo fez um muxoxo encantador, levemente constrangido por aquela observação. Rindo ainda mais por causa daquilo, o conde beijou-o nos lábios finos.

E foi em meio ao silêncio repleto de significados que, enquanto se miravam profunda e apaixonadamente, o sono veio até eles. Adormeceram unidos, as mãos entrelaçadas sobre o peito do loiro.

Uma nova vida despontava no novo dia, cuja tênue luz derramou-se como um manto de bênçãos sobre o jovem casal em seu agora desfeito leito nupcial.

*************


Os castelos medievais, mais que fortalezas militares e residências aristocráticas, constituíam-se em verdadeiros organismos sociais; abrigavam um intrincado sistema de atividades inicialmente autossuficientes, que pouco a pouco desembocavam em operosidades mais complexas sob os pontos de vista econômicos e administrativos. Não por acaso, os centros nervosos das regiões em que se encontravam. E no comando de tudo isso estava o senhor feudal, o senhor do castelo, um governante de que toda sociedade castelar e de seu entorno dependiam.

Pela lógica, Milo deveria estar desde o raiar daquele dia 24 de setembro de 1192 circulando por seus domínios, delegando funções, checando o funcionamento de todas instalações, em suma, controlando aquele pequeno universo, para o medievo nem tão pequeno assim. Desde cedo consciente desta realidade, não foi por acaso que Camus sobressaltou-se ao perceber o sol alto no céu e o marido ainda deitado na cama, desperto, a observá-lo de modo contemplativo.

— Bons dias. – Cumprimentou o loiro, um sorriso amoroso aquecendo de pronto o coração do esposo que, assim mesmo, murmurou, sonolento:

— Bons dias. Parece ser tarde. Que fazes ainda no leito? E por que não me despertaste?

— Quantas perguntas, já! Acalma-te! – Riu o conde, beijando o ombro do amado. – Que te parece? Tirei o dia de folga para ficar aqui contigo. Não te livrarás de mim tão cedo agora que te consegui, senhor meu marido.

— Não me desagrado, em absoluto. Contudo, não te será prejudicial essa... “folga”?

— Palavra de honra, és assaz sério! Por que ao invés de crivar-me de indagações não me dás um sorriso?

Propositalmente, o ruivo assumiu maior sisudez:

— Sorrisos devem ser autênticos, e não posso sorrir se me preocupo com tua reputação. Que dirão de um governante que escapa de seus compromissos, de suas atribuições, para passar o dia nos aposentos conjugais com “a esposa”?

Milo acariciava-lhe os cabelos longos e vermelhos enquanto ele falava; Camus começava a se desarmar com aquelas carícias.

— Camus, tenho dezenas de homens sob minhas ordens, a esta hora cuidam de tudo, como eficientes funcionários que são. Não foram escolhidos à toa. E... – estalou seus lábios no pescoço do amado – estão cientes de que estou retomando as “boas relações” com “a condessa”.

Ruborizando, Camus balbuciou:

—Achas que todos SABEM o que estivemos a fazer?!?

Desta vez o cavaleiro gargalhou:

— Oras, muitas foram as testemunhas de nossa nova “marcha nupcial” após o jantar de “reconciliação” no jardim...

— Isso me constrange mais do que me diverte, embora vejo que contigo se sucede o oposto – retrucou o ruivo, cobrindo-se com o manto.

Milo enfiou-se debaixo da coberta também e pôs-se a provocá-lo com beijos e cócegas. Dando alguns gritos e praguejando, Camus por fim se rendeu ao marido, que o derrotou com um beijo arrebatador. Seus corpos se esfregavam lascivamente, e mais uma vez teria início a dança do amor quando o estômago de Camus roncou de modo bem audível para ambos. Pararam imediatamente de se roçarem, olharam-se e caíram na risada.

— Nem vou perguntar se tens fome, tua barriga plana e lisa já mo disse. Chamarei uma criada, fica na cama, coberto. Não será preciso que te troques.

— Agradeço-te. Comer algo será quase tão bom quanto dispensar o perene embuste ao menos por hoje.

Milo fitou-o, um pouco menos alegre.

— O disfarce que és obrigado envergar te é realmente desagradável, não? – inquiriu, sentido.

Camus percebeu a mudança de humor no esposo; arrependeu-se por ter desabafado daquela maneira em um momento tão feliz. Tentou amenizar o feito, simulando neutralidade:

— Estou acostumado a isto. Não me agrado em vestir-me como dama, muito menos em fingir ser outra pessoa. Entretanto, não mais me atormenta tal destino – suavizou o tom – principalmente se deste modo eu puder viver ao teu lado...

Embora enternecido pela resposta, o conde sabia que ela não era de todo verdadeira. Fingindo acreditar, pousou seus lábios na fronte do amado, e, já se erguendo, anunciou:

— Não hei de me demorar. Tens preferência por algum alimento?

— Sinto-me impelido tão somente a comer bastante. – Confessou, a barriga roncando de novo. – O que vier será mui bem recebido!

*************

Os consortes só deixaram seus aposentos no dia seguinte.

E como agradeceram à espessura daquelas paredes de pedra, pois que pouca trégua houve entre seus idílicos momentos.

Elegantemente vestidos, adentraram a Grande Sala, onde estava postada com pompas de festa a mesa para a refeição da tarde. Sentados à ela estavam o camareiro-mor de “Camille”, o castelão Pierre e sua esposa, e outros subalternos de Milo, como o líder comunitário Leopold, o capitão da guarda Ernest, o secretário Gilbert e sua esposa, e o mestre dos artífices italianos Bernardo.

Em respeitoso ato de discrição, todos desviaram os olhares à medida que “sua senhora” se aproximava da mesa, pois que a mesma vacilava um pouco ao andar, e eles sabiam o porquê... ao se sentar, uma leve expressão de incômodo escapou-se-lhe das belas feições. Afrodite cobriu um risinho com seu lenço perfumado. Recebeu o olhar reprovador de Camus e alargou ainda mais o sorriso.

— Meu senhor, minha senhora. Rejubilamo-nos em ver-vos tão bem dispostos. – Saudou o castelão, levantando-se para prestar uma solene reverência.

Leopold fez o mesmo, dizendo:

— Louvado seja Deus por vossa recuperação, senhora condessa, certamente um milagre concedido pelos céus!

— Pelos céus e por estas mãozinhas aqui, senhor Leopold – cantarolou Afrodite, balançando-as diante do líder comunitário.

— Muito obrigada, Leopold. De fato, é como Afrodite diz, a intervenção habilmente por ele conduzida intermediou o milagre divino. – falou Camus, sorrindo levemente.

O capitão Ernest ajuntou:

—Deveras, o senhor Afrodite tem um enorme talento para a Medicina. O povo já o procura mais que ao barbeiro-cirurgião do castelo, e até mesmo ao médico da cidade!

— E por falar nisso, como anda a instalação do hospital de Saint-Doulchard? – quis saber Milo, sorvendo o vinho servido por um criado.

Camus e Afrodite entreolharam-se, sem entender.

— Tudo conforme instruído por Vossa Excelência e por vosso mestre de obras Giuseppe. – Assegurou Bernardo – O rapaz é notável profissional, eu não havia vos assegurado? Já recebe pedidos de pais que o querem como mestre carpinteiro para os filhos!

— Ele poderá aceitar o que desejar, mas apenas terminada a obra da qual foi incumbido. A população de Saint-Doulchard necessita urgentemente desse hospital. – respondeu o conde, simpático; ao notar as expressões interrogativas do esposo e de seu camareiro, lembrou-se de que tudo fora tratado no exato dia do sequestro de Camus. Esclareceu-lhes:

— No dia em que desapareceste na floresta, cara esposa, eu havia ido ao vilarejo, recordas? Foi justamente para tratar da transformação da abadia dos fundos do cemitério em um grande hospital. Obras de ampliação fizeram-se necessárias, e atualmente, estão sendo realizadas por Giuseppe, sobrinho do Bernardo aqui, e sua hábil equipe de artífices. Ele estava vindo da Toscana para trabalhar aqui no castelo, porém decidi enviá-lo para a construção do hospital após saber que o jovem é um prodígio da carpintaria.

— Sabe-se que é igualmente um prodígio da galantaria – comentou Leopold, risonho – Além de colecionar elogios por seu trabalho, tem colecionado aventuras amorosas pela cidade.

— Mesmo tendo a cabeça toda grisalha aos 24 anos? Impressionante! – falou Pierre – Sim, eu o vi, quando ele assinou o contrato com o senhor conde... tem os cabelos totalmente prateados, malgrado a cara seja lisa como de moça!

— Esses italianos! – Exclamou Ernest, balançando os ombros ao rir – Qual não deve ser o segredo dessa raça? São conquistadores natos. Mais que os provençais!

— Contudo, não mais que os ibéricos, notadamente os castelhanos... – rebateu Afrodite, semicerrando os olhos ante a lembrança de Shura.

— Mas isso é maravilhoso, meu senhor – Camus apressou-se em dizer, a fim de espantar a impressão que aquela declaração do sueco poderia causar – Eu não fazia ideia de tão benfazeja empreitada de tua parte!

“TUA”? Todos se surpreenderam com a mudança de tratamento “da condessa” para com o esposo.

— Não tinha como sabê-lo, minha amada. Nas semanas em que estiveste convalescente pouco conversamos...

Ambos se encararam, a névoa trazida pela lembrança daqueles tristes dias dissipada pela voz álacre do camareiro-mor:

— Que nobre providência a vossa, Excelência! Folgo em saber que me equivoquei a respeito de vossa competência como governante desta terra!

— Isso não me pareceu bem um elogio, Afrodite – retrucou o conde, com um meio sorriso.

— E não foi. Mera constatação de meu engano, senhor, é o que foi. Peço-vos perdão.

— Por que mesmo pedindo-me “perdão” tu me pareces ainda tão insolente?

Camus riu; ainda que discretamente, cobrindo a boca com o dorso da mão branca, seu riso foi notado com surpresa. Até mesmo os criados olharam-se furtivamente entre si, impressionados com a mudança de ares “da condessa”. Seria o vinho? Não, “a dama” sempre bebia vinho e nem mesmo assim mostrava-se de tão bom humor como estava agora... tão graciosa, tão luminosa!

E o que dizer do conde de Saint-Doulchard? Malgrado fosse um jovem normalmente vivaz e extrovertido, jamais haviam-no visto tão exultante! Em determinado instante, o senhor Milo pôs sua mão sobre a mão “da senhora Camille”, e os dois miraram-se com inéditas ternura e paz. Uma visão nunca dantes presenciada no castelo!

Os convivas brindaram e refestelaram-se com a lauta refeição, certos de que, enfim, a era da bem-aventurança aportara em Saint-Doulchard!

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Notas finais
É... está aberta a temporada de paz e amor em "Dame Jolie" (ok, isso ficou meio hippie). Por quanto tempo? Bem... negócio é curtir ^^ Obrigada por lerem. Até a próxima! Link para as duas músicas temas deste capítulo; são as duas primeiras desta seleção de "músicas celtas" (sic). Achei que combinavam com o clima pacífico e etéreo do amanhecer dos dois pombinhos... https://www.youtube.com/watch?v=j9WyKTGAO2w Conforme eu disse nas notas iniciais, a arte completa, dentre outras curiosidades, pode ser conferida no grupo "Fics da Amelinda", no Facebook, puxa uma cadeira: https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/?multi_permalinks=1828203784097460&notif_t=like&notif_id=1492798628165319