Dame Jolie

47 A Entrega de um Mártir


Notas iniciais
Oi, gente! Como estão? Quero pedir desculpas pela demora em atualizar. Foram meses complicados, ainda em tratamento, mudança, e, como golpe de misericórdia, a morte da minha gata preferida. Não houve a menor condição de atualizar qualquer uma das fics nesse período, mas, enfim, nada dura para sempre e estamos aqui tentando seguir em frente. E, para isso, nada como retomar as fics, rs. Muito obrigada a quem não desistiu, a quem continua prestigiando e a quem mandou um comentário. Boa leitura! E boas festas!!!

A primeira sensação que tivera ao abrir os olhos era de que seu corpo estava muito, muito pesado. Ergueu-se com dificuldade, sentando-se na beira da cama, nu e desorientado.

Era noite, e era estranho, pois algo lhe dizia que era uma OUTRA noite, não a noite em que partilhara com Camus as delícias do amor e do vinho...

O vinho...

Bebera demais, fora isso?

Não se recordava de haver ingerido vinho em demasia, contudo...

Camus.

Procurou-o ao seu lado; não estava ali. Olhou em torno da alcova, buscou-o pelo quarto iluminado por círios que ainda ardiam. Reparou velas apagadas, as hastes de cera diminutas. As criadas não tinham-nas substituído. Mas por quê?

— Camus? – Chamou, andando pelo cômodo: ali estavam os cálices, as garrafas... ao que parecia, ninguém entrara no quarto. Não poderiam, afinal, com o senhor do castelo ainda a repousar. A questão era: por quanto tempo repousara?

— Camus, onde estás? – Procurou-o no recinto anexo, no cômodo de banhos, na sala que precedia a alcova.

Obtivera a incômoda certeza: Camus NÃO estava no apartamento, a despeito de ser noite avançada. E apesar de ser uma OUTRA noite, já lhe vinha a consciência desse fato perturbador. Então dormira o dia INTEIRO?

Apressou-se em se vestir, intrigado. Calçou botas, um discreto torpor persistindo por sobre seus sentidos. Seus membros estavam adormecidos. Decididamente, algo MUITO ESTRANHO havia acontecido.

Deixou os aposentos. Percorreu os corredores à procura de algum guarda. Ao encontrar dois deles, indagou-lhes:

— Procuro por minha esposa. Acaso a vistes?

— Não, meu senhor. A senhora Camille, assim como o senhor, não deixou seus aposentos durante todo o dia.

— E tampouco saiu agora à noite. – Completou o outro.

Milo piscou seguidas vezes, atônito.

— Isso não é possível, pois ela NÃO se encontra nos quartos senhoriais. – Argumentou, quase elevando a voz.

— Creio que ninguém a viu hoje, excelentíssimo Conde.

— Vós é que deveis não tê-la visto. Grandes sentinelas sois. – Impacientou-se.

Desceu pelas escadas, irritado, procurando pelo esposo em cada andar. Nenhum dos guardas que encontrava relatava haver visto “a Condessa” naquele dia.

— Isso não é possível, isso não é possível... – Repetia, já deixando o nervosismo tomar conta.

Procurou-o por todos quartos, pelas cozinhas, pelo Grande Salão, pelas varandas. Acessou a área externa, já sem poder se conter em chamar, aos berros:

— CAMILLE! Camille, onde estás? Responde-me! CAMILLE!!!

Ordenou aos guardas que logo foram, alarmados, ter com o soberano:

— Procurai a Condessa Camille! Procurai sem cessar!

Com a movimentação frenética, servos e criados deixaram suas habitações e juntaram-se à busca “da querida senhora”.

Todos os cantos do castelo foram vasculhados. Quando teve a devastadora certeza de que Camus não estava em parte alguma da fortaleza, Milo desconfiou de que ele pudesse, por alguma razão absurda, ter ido até alguma vila de camponeses próxima... ou até o bosque... ou mesmo... a floresta! Uma coisa era certa: o ruivo não se encontrava na fortificação!

Não obstante, o conde deparou-se com a surpreendente notícia de que NINGUÉM havia presenciado a saída “da Condessa” do castelo, nem mesmo os sentinelas que guardavam sua entrada.

Apavorado, começava a cogitar que o marido tivesse sido raptado. Camus não desapareceria do nada, muito menos fugiria!

Se ao menos Shura estivesse ali com ele!... Como sentia falta do amigo e de sua preciosa assessoria no dia a dia!

Reuniu dezenas de guardas e ordenou que fizessem buscas, noite adentro, pelas imediações do Castelo. Seus funcionários mais próximos tentavam acalmá-lo. Asseguravam-lhe que antes do sol raiar, “a Condessa haveria de aparecer.”

Mas não foi o que aconteceu.

Os soldados voltaram ao Castelo, à alvorada, sem qualquer pista do paradeiro de “Camille”.

A vontade de Milo era de montar seu cavalo e sair mundo afora procurando pelo amado. No entanto, sabia que deveria coordenar as ações de seus homens de um só ponto, enquanto não obtinha informações mais precisas.

Antes mesmo que o sol abandonasse de vez seu leito no horizonte, o nobre postou-se diante de fileiras e fileiras de guardas no pátio do castelo. Deveriam expandir o alcance das buscas. Já era certo de que “a Condessa” não estava pelos arredores. Grupos foram destacados para procurar nos mais diversos pontos de Saint-Doulchard. Pelos bosques, pelas aldeias camponesas, pela floresta, pela cidade: “a esposa” do Conde haveria de estar em algum lugar!

— Perguntai a camponeses, andarilhos, citadinos, monásticos, a QUEM QUER que encontreis em vossa busca, se acaso não terão visto QUALQUER COISA fora do comum! – Bradou, enérgico, os punhos cerrados de pura tensão. E quando mais de duzentos de seus homens, todos montados em portentosos corcéis, deixaram a fortificação, Milo tomou de suas armas. Reforçou as orientações a seus funcionários e partiu em seu cavalo, seu espírito em nada devendo à mais tempestuosa das intempéries. Cerca de vinte soldados o seguiram, igualmente a cavalo, deixando subir da terra espessa nuvem às suas passagens velozes.

“Camus, onde estarás? Que foi que te sucedeu?”, pensava o conde, cerrando os dentes para não gritar de desespero.

*************

Distante algumas horas de Saint-Doulchard, Camus, amarrado à roda da carruagem de Shura, foi acordado de maneira pouco gentil por esse; o marquês simplesmente considerou que alguns chutes não muito fortes fossem eficazes para despertar o prisioneiro. Felizmente Camus não demorou a abrir os olhos, e, tão logo o fez, cravou-os, ferozes, no espanhol.

— É hora de partirmos. – Declarou Shura, sem qualquer emoção na voz.

— Preciso aliviar-me...

— Arlanc, desamarre-o, mas conserve a corda em seu pescoço. E também de seus punhos.

— Sim, meu senhor. – O cocheiro obedeceu, e logo Camus estava de pé, a corda em firmes nós restringindo seus pulsos e outra pendendo de seu pescoço. Shura pegou esta e puxou-a, bruscamente. O ruivo quase perdeu o equilíbrio. Fez uma careta de dor ante a ação repentina de seu raptor. Tossiu, sufocado.

— Bem, agora podereis aliviar-vos. Vinde. – Falou o marquês, conduzindo-o como quem leva um boi ao pasto.

Já distante da carruagem e dos ouvidos do cocheiro, Camus observou:

— Isso não era preciso, sabeis que não possuo intenção de fugir, uma vez que fizemos um acordo.

— Acaso posso eu confiar em um homem que fez-se passar por MULHER, anos a fio?

— Eu sou um NOBRE como vós! Não importa como eu tenha vivido, tenho minha honra e meu direito ao vosso RESPEITO!

Desta vez, Shura puxou a corda com tanta força que Camus julgou que iria, com efeito, sufocar-se. O espanhol ficou com o rosto bem junto ao dele para dizer, com malévolo descaso:

— Despojai-vos, pois, de vossa “honra de nobre”, pecador: dentro de poucos dias, estareis nos porões de uma galé, condenado a viver entre a pior das escórias, até o fim de vossos dias.

— Uung... p-posso aliviar-me ou não? Ou preferis q-que batize vossos pés?

Shura deu um meio sorriso. Empurrou-o para a frente.

— Hunf. Aí tendes uma moita.

— Como hei de arranjar-me com meus pulsos amarrados?

Sem qualquer aviso, o marquês abaixou as calças do jovem, que sufocou uma exclamação de surpresa. Afastou-se um pouco, Shura falou em tom seco:

— Fazei o que tendes de fazer.

— Sabeis mesmo como humilhar um homem. – Murmurou o indignado ruivo, cuidando de atender aos “chamados matinais da natureza.”

Tempos depois, estavam de volta à carruagem. Arlanc pôs o veículo em movimento. Em seu interior, sentados um de frente para o outro, Camus e Shura mantiveram o silêncio por mais de duas horas. Só então o prisioneiro resolveu indagar:

— Como está Afrodite?

O moreno encarou-o com uma sobrancelha erguida. Respondeu:

— Imagino que bem. Deixei-o preso na masmorra do solar.

— O QUÊ?!? Por que fizestes isso?

— Ora, não imaginais? Para impedir que ele fosse correndo a Saint-Doulchard, como intentava fazer.

— E ele ficará preso como um criminoso até quando? Qual foi vosso VEREDICTO em relação a ele??

— Até que eu retorne a Paris. Os guardas da casa estão cuidando bem dele, não vos atormenteis. Um homem com o vosso destino deveria ter mais com o que se preocupar. – Rebateu friamente.

— Palavra de honra, jamais imaginar-vos-ia TÃO CRUEL – A voz de Camus saiu tremida de raiva. Raiva esta que não parecia em nada atingir o Marquês de Aguilar.

— Por vezes, a justiça de Deus faz-se por vias extremas... rígidas, aos olhos ímpios dos pecadores...

— Oh, sim, esqueci-me de que sois “Shura, o Justo”, o baluarte da justiça divina sobre a Terra – Enunciou o ruivo, sarcástico. – ainda que essa justiça volte-se contra justamente quem vos salvou a vida.

Aquilo atingiu Shura mais do que teria feito um soco. Ele desviou o olhar do cativo. Ficou por vários minutos em silêncio, olhando pela janela. Camus percebeu que algo em seu semblante mudara. Foi só depois de longa mudez que o espanhol resolveu falar:

— Eu não esqueci o que Afrodite fez por mim. Todas as vezes em que vejo a cicatriz em seu belo rosto, sou golpeado pela acusadora lembrança de que ele sacrificou-se por mim.

— Não sei por que vos servis da expressão “acusadora”. Ele daria, de bom grado, a vida por vós. E, agora que violastes seus segredos, talvez saibais o motivo.

— Sim, ele crê que me ama.

— Ele “crê”? Ele VOS AMA.

— Mera impressão, produzida pela longa exposição à VOSSA vida pregressa.

Por pouco, não revelou ao esposo de Milo que fora ELE, no passado, o alvo daquele insano sentimento. Que este teria sido fonte da “contaminação” dos instintos naturais do sueco. Entretanto, por alguma razão que nem mesmo ele compreendia, não o fez.

— É uma pena que penseis assim. O amor dele por vós é puro, e tudo suportou em nome da amizade convosco.

— O amor de um homem por outro NÃO PODE ser puro.

— Não? Quantas pessoas fariam o que Afrodite fez por vós? Como podeis desmerecer seu amor?

Mais uma vez, Shura viu-se sem resposta. Por que as alusões de Camus a Afrodite estavam atingindo-o daquela forma?

— Eu sei que considerais esse amor uma afronta a Deus. Mas não é Deus a ORIGEM de todo amor? Deus é amor. Como ele condenaria uma manifestação Sua?

— Calai-vos. Estais a blasfemar.

— Fazei o que bem entenderdes de minha pessoa. – Camus ergueu o rosto, de modo altivo, orgulhoso. – NUNCA deixarei de amar Milo. E ele NUNCA deixará de me amar.

Shura subitamente viu-se tão pequeno diante da grandeza que emanava do homem ferido e amarrado à sua frente. Algo dentro de si doeu vivamente. Incomodado, ameaçou, sem qualquer vigor, porém:

— Se continuardes a proferir tamanhas infâmia, serei obrigado a amordaçar-vos.

— Pouco se me dá – O ruivo deu de ombros. – já transmiti a minha mensagem.

O marquês sentiu-se cansado e, repentinamente, ansioso pelo fim de tudo aquilo. Em tom de desabafo, alegou:

— Meu objetivo reside tão somente na salvação de meu melhor amigo.

Camus não viu necessidade de argumentar. Foi a sua vez de desviar seu olhar para a janela. Tinha consciência de que Shura tinha tomado aquela decisão baseado em seu estrito e inabalável código de justiça. Fechou os olhos, sentindo-se também subitamente cansado. Contanto que Shura mantivesse segredo sobre os dois amantes, enfrentaria seu destino. Não tinha escolha.

Só lamentava não poder mais ver Milo... nunca mais...

Nunca mais.

Por baixo das pálpebras cerradas, sentiu o ardor das lágrimas nascentes. Ele empreendeu grande esforço para evitar que elas rolassem por suas faces. A tudo acompanhava o olhar atento de Shura; o fio de uma lágrima brilhou por sobre a pele congestionada de seu ex amigo. Dentro da mente do espanhol, ecoava repetidamente o solitário clamor do “mais justo dos homens”:

“É pela salvação de Milo! É pela salvação de Milo!”

E quiçá do próprio Camus...

*************

A chegada de centenas de soldados do Conde de Saint-Doulchard surpreendeu os habitantes da cidade, que, a princípio, julgaram que o exército ali estivesse para debelar alguma iminente invasão.

Milo apeou do cavalo; queria ir pessoalmente a cada estabelecimento, cada viela, cada canto procurar seu amado. Momentos houve em que à sua memória Camus dizer que queria ir à cidade “para adquirir uma surpresa”. Meros lampejos de autopreservação: o consorte não seria tão imprudente a ponto de sumir sem deixar vestígios. Sabia que poria Milo louco! Como sentia-se prestes a ficar, aliás. Sacudia a cabeça, no afã de mantê-la fria, no lugar. Precisava raciocinar, precisava estar no controle. Camus dependia disso!

Durante toda a manhã, procuraram “pela condessa”. Guardas interrogavam os citadinos, caçavam informações. Quando chegaram à Abadia de Saint Père, ou melhor, o futuro hospital de Saint-Doulchard, perguntaram aos trabalhadores se haviam visto algo “de diferente” pelas redondezas. Giuseppe, do alto da nave, largou suas ferramentas e olhou a movimentação. Alguns soldados foram até ele, interpelá-lo. O italiano considerou-os brevemente antes de dizer:

— Sim, penso ter visto algo inusitado.

— Deveras? Do que se tratava?

— Se vós mo permitis, eu preferia contá-lo diretamente ao senhor Conde.

— O senhor Conde incumbiu-nos de obter quaisquer informações. Podeis transmiti-la a nós – Um dos guardas falou, quase ríspido.

— Talvez ELE TAMBÉM prefira que eu lhe fale pessoalmente. Podereis averiguá-lo, depois...

Os soldados entreolharam-se rapidamente. E então:

— Pois muito que bem. Vinde conosco.

Giuseppe acompanhou o grupo até a saída da edificação. Alguns cuidaram de procurar seu senhor para avisar que o artífice-mestre afirmava ter algo a falar-lhe. Um tanto exasperado pelo mistério que o italiano fazia – por que não revelar de uma vez aos guardas o que supostamente sabia?!? – o conde não pôde conter a irritação ao demandar:

— Diz-me, Giuseppe. Estás a par de alguma informação relevante?

— Se não vos incomodardes com a impertinência deste vosso humilde servo, em preferiria contar-vos sobre algo que vi... a SÓS.

— Afinal, viste minha esposa ou não? – Vociferou Milo.

O artífice-mestre encolheu os ombros, lançando um olhar amedrontado ao redor, sob intensa vigilância dos soldados do nobre.

— É por isso que gostaria de falar-vos a sós... não é que tenha visto, com efeito, a excelentíssima condessa... mas vi algo SUSPEITO... nos limites da cidade...

Em razão de um funesto pressentimento, Milo experimentou um temor vívido e frio, diferente da apreensão de até então. Assentiu em concordância; os sentinelas afastaram-se o suficiente para que os dois homens conversassem.

— Estou a ouvir-te, Giuseppe.

— Senhor Conde, minha ousada petição reside na peculiaridade do que presenciei. Provavelmente, nada que tem a ver com o desaparecimento de vossa estimada esposa, mas...

— Estás a fatigar-me com teus rodeios! Fala, antes que eu ponha-te a ferros!

Giuseppe limpou a garganta. Pôs-se a contar:

— Existe uma hospedaria quase na fronteira norte de Saint-Doulchard... malgrado a distância, frequento-a, pois serve excelentes vinhos a módicos valores, bem como... companhia, nas mesmas condições. Pois bem, no dito estabelecimento, testemunhei uma cena intrigante: um homem alto, dizendo-se nobre, trajando uma longa capa negra cujo capuz encobria-lhe o rosto, de lá saía arrastando um jovem, igualmente encapuzado, que fora por ele amarrado, como se fosse um cão raivoso.

— Não vejo relação entre esse evento e o sumiço de Camille, porém, confesso que a curiosidade incita-me a inquirir: o que o desconhecido alegou como justificativa de levar o dito jovem em tais condições?

— Ouvi-lo dizer que tratava-se de um criado que estaria a chantageá-lo... e é esse ponto que me fez querer relatar o ocorrido a Vossa Excelência... o homem de preto tinha sotaque espanhol, e o rapaz que por ele era levado... bem, o pouco que vi de seu rosto... poderia ser tomado por um primo... ou mesmo um irmão... da senhora Camille.

— Que estás a dizer?!?

Sem que se desse conta, Milo agarrou a gola da vestimenta de Giuseppe com súbita violência. Puxou o espantado artífice para bem perto. Com voz rouca, questionou:

— Por que maldita razão teces tão despropositado julgamento?!?

Trêmulo, o italiano balbuciou:

— Por mui breves instantes, eu vi… seus olhos de um castanho sem igual, quase rubros… o contorno do… rosto… branco como porcelana... a franja da... da mesma cor que... que...

Todo o corpo de Milo estremeceu.

— Disseste que o mais alto tinha... sotaque espanhol?

— E-ele... sim.

Engolindo em seco, o conde indagou num sussurro:

— Quem era esse homem, afinal?

— Apresentou-se como Conde de Belisário... mas eu tive impressão de conhecer-lhe a voz, malgrado a disfarçasse... e... meu senhor... há algo ainda mais intrigante...

— Desembucha, homem!

— O rapaz... seu cativo... fixou seu olhar em mim e disse VOSSO nome, embora sem emitir qualquer som. Li seus lábios, contudo. Estou certo de que ele disse VOSSO NOME para mim.

Não.

NÃO.

Bendito, sagrado, altíssimo Deus!

Estaria Giuseppe a referir-se a... a...

Não! Como aquilo seria possível? A menos que Afrodite...

— Afrodite... – Rosnou Milo.

— Perdão, meu senhor?

Agora Milo respirava pesadamente, a fala morrendo-lhe na garganta, que doía-lhe como se tivesse engolido agulhas. Já afrouxara a mão na túnica do mestre-artífice, que, por sua vez, ousou perguntar:

— Por que dissestes o nome de Afrodite?

— Isso não te diz respeito. – O soberano de Saint-Doulchard soltou-o, por fim. Antes que desse as costas a Giuseppe, este lançou-se à frente do loiro.

— Soube que ele estava em Paris com o Marquês de Aguilar...

— Acaso quem pensas que...

— O marquês estava como segurança de Afrodite. Afrodite pode estar em perigo?

— Por que perguntas isso?

— Não sei... o tom de vossa voz...

— Que tens a ver com Afrodite?

— Eu não sei se ele considera o mesmo... mas eu... considero-o um amigo.

— Nunca soube disso.

— Ou... ao menos, alguém a quem quero bem.

Milo virou-se novamente para livrar-se da presença do italiano.

— Bem, essa para mim é nova. Mas tanto se me dá. Preciso ir.

— Há algum modo de eu ajudar o senhor?

— Podes já tê-lo feito. – Respondeu o nobre, seco. – Serás recompensado.

— Não quero recompensa alguma. – Retrucou o artífice-mestre. Surpreso com tal ousadia, Milo voltou a encará-lo. – Espero tão apenas que encontreis vossa consorte... sã e salva. Bem como quero o... o bem estar de Afrodite.

“Se Afrodite tiver revelado o segredo de Camus a Shura, isso NUNCA MAIS haverá de ser realizado”, pensou o conde, enquanto mirava o italiano.

— Dar-te-ei notícias de teu... AMIGO... tão logo saiba dele.

Giuseppe fez uma reverência, ardendo de vontade de pedir que o governante lhe permitisse ir imediatamente a Paris. Sua crença em um Deus de milagres elevar-se-ia até o céu no segundo seguinte, pois que o conde virou-se de volta para ele e propôs:

— Giuseppe. Parto agora mesmo rumo a Paris. Podes ser-me útil lá, enfim. Vem comigo.

*************

Depois de torturantes quatro dias de viagem, o mar azul descortinou-se nos confins da vista sempre verde abarcada pelas janelas da carruagem. De um jeito tão neutro que pareceu até indiferente, Shura murmurou:

— Ei-la. Marselha.

Lançando um olhar desinteressado ao horizonte azul, Camus preferiu manter o silêncio. Logo estaria fora do veículo no qual estivera por tanto tempo para caminhar pelas docas do maior porto de França. Obviamente, restrito pela presença ameaçadora de seu captor. O fato de ele estar com os pulsos amarrados e sendo conduzido tal qual um cão encoleirado não despertava qualquer atenção, e, muito menos, indignação por parte dos presentes, visto o movimento não ser composto apenas de homens livres, mas também de prisioneiros e escravos, o mais importante combustível daquelas embarcações. Ao contrário de Shura, Camus permanecia com o capuz a ocultar-lhe parcialmente a face.

Localizado no Mar Mediterrâneo, à esquerda do delta de Ródano, o porto reencontrara a importância a partir do século XII, notadamente com as Cruzadas, contudo, fora fundado pelos romanos já no século VI a.C. Dali saíam e chegavam navios para Ásia, África, regiões mais ao leste da Europa, para os mais variados fins: transporte de cargas, para alimentar o crescente comércio de especiarias, tecidos, víveres, manufaturados e tudo o mais que se pudesse imaginar. Não por acaso, o lugar fervilhava, sendo também um ponto de bebedeiras e meretrício, atividades indispensáveis para homens que passavam tanto tempo nos mares... uma explosão de cores, etnias, cheiros, línguas como o jovem ruivo jamais presenciara. Poderia ser algo deveras interessante para constar em suas experiências de vida, não fosse a situação dramática em que se encontrava... Camus olhava apreensivo aqueles barcos, imaginando em qual deles seria atirado; para quem e com quem trabalharia? A quem serviria? Para onde iria? O que lhe aconteceria, de fato? Sua cabeça rodava com essas molestas conjecturas, e, sem perceber, seus passos tornaram-se hesitantes. Logo, porém, apressou-os, impiedosamente incentivado pelo brusco puxão que Shura deu na corda que restringia-lhe o pescoço. Após esse pequeno contratempo, andaram por mais uns minutos por entre a multidão, até que chegaram a um determinado ponto, bem defronte a uma grande embarcação nomeada “Gemini”.

Provavelmente, era ela...

O marquês fitou seu prisioneiro com uma nascente curiosidade.

— Achei que, ao caminhar pelo porto, pudésseis implorar por minha desistência.

— Pelo jeito, não me conhecestes tão bem quanto julgastes tê-lo feito um dia.

— Nisto estais certo. – Aproximou-se do rapaz, a fim de completar, em voz baixa, o tom acusador: – Eu conheci a CONDESSA CAMILLE. Dama honrada, sábia, espirituosa. Não um impostor que forjou ser do sexo oposto.

O ruivo apenas suspirou, sem a mínima vontade de debater com seu raptor. Já lhe explicara tudo sobre como fora envolvido naquela farsa de “Camille”. Shura, por sua vez, respeitou-lhe o silêncio, no fundo admirado com a coragem com que o “impostor” enfrentava seu destino.

Sua sentença.

Em prol da salvação de Milo.

"Quantas pessoas fariam o que Afrodite fez por vós?", perguntara-lhe Camus.

E quantas pessoas fariam o que Camus estava a fazer por Milo?

“Quantos fariam o mesmo... por alguém?”, refletia o espanhol, considerando o semblante impassível do amante de seu melhor amigo.

Sim. QUANTOS?

Pois que agora, parado diante da “Gemini”, Camus sustentava a mesma altivez de sempre.

Cerrou os punhos ante pensamentos perturbadores que vinham açoitar suas férreas convicções. Camus realmente ACREDITAVA amar Milo; mas… seria apenas MERA CRENÇA? Aquele homem estava prestes a ser entregue como... praticamente como um ESCRAVO... em troca da salvação de Milo. Não obstante, para o impostor, a “salvação” de Milo diferia da salvação projetada por ele. Não assolavam Camus questões espirituais.

Camus se entregara pelo silêncio de Shura.

"Como podeis desmerecer seu amor?"

“Muitos que dizem AMAR seus maridos e esposas dificilmente fariam o mesmo...”, pensava o marquês, seu coração disparando ante a visão do capitão da “Gemini”; este vinha ao seu encontro acompanhado de alguns de seus homens. Tomado de repentina angústia, virou-se para Camus, cuja serenidade contrastava com seu súbito estado de espírito. Repetiu, encarando firmemente o jovem Turenne:

— Faço isto pela salvação de Milo.

— Eu sei. – Volveu o ruivo, calmamente. – Eu também.

— Creio que, longe da atmosfera pecaminosa em que vivíeis, encontrareis, vós também, a vossa salvação.

Percebeu que Camus limitou-se a sorrir de lado.

Por quê?, pensava Shura.

Por que sentia-se tão... tão diminuído ante a bravura daquele... daquele PECADOR?!?

— Marquês de Aguilar! Há quanto tempo! – Saudou o capitão, homem de quase 1,90m de altura, impressionante corpulência e cabelos anelados loiros que passavam da cintura. Trajava uma túnica média vermelho-sangue, com finíssimas rendas brancas e detalhes dourados, calças justas em um tom mais terroso e elegantes botas de couro acastanhadas. Do pescoço pendiam, além das rendas, colares visivelmente preciosos. Dir-se-ia um abastado nobre, e não um reles capitão de uma galé.

— Capitão Saga. Folgo em ver-vos bem. Além da evidente prosperidade, concedida por vosso bravo trabalho no mar, a bem aventurança tem vos concedido saúde, posso bem eu dizer.

— Graças ao bom Deus acima de nossas cabeças. O trabalho é sempre árduo, todavia, o Altíssimo sempre nos provê. – Riu o capitão, que falava um francês estranho aos ouvidos de Camus. Não foi capaz de identificar-lhe a procedência daquele sotaque.

— Regozijo-me em saber. – Disse o espanhol, sem o menor entusiasmo.

Os olhos azuis escuros de Saga pousaram na figura encapuzada ao lado do marquês.

— Presumo que esse seja o vosso prisioneiro, o qual a mim, a partir de agora, confiais. – Enunciou, o sorriso largo nunca abandonando-lhe o rosto simpático.

— Sim... o infame infrator tem-me causado excessivos aborrecimentos. Um criado deveras insubordinado. Tolerei-o, a princípio, para depois metê-lo nas masmorras, por não querer recorrer ao extremo da execução. Entretanto, depois que ele chegou ao ápice de sua vilania, decidi entregá-lo ao mar.

O sorriso de Saga encurtou um pouco.

— Se ficará sob meu comando, gostaria de saber do que estamos falando aqui. Qual foi o “ápice de sua vilania”?

— Um motim. Ele liderou um motim na prisão.

Um dos que vieram com o capitão deu um assobio. Os demais riram discretamente. Saga virou-se para o homem ainda oculto sob a capa ordinária.

— Bem, se ele ousar fazer algo semelhante na Gemini, acabará como comida de peixes... depois de devidamente PICADO, é claro. – Proferiu, voltando a sorrir. E num rápido movimento removeu o capuz que escondia o rosto do “criminoso”.

Não foram apenas os olhos de Saga que arregalaram-se de surpresa; os dos três homens que o acompanhavam igualmente aumentaram sobremaneira de tamanho. Talvez porque esperavam deparar-se com alguém de aparência sórdida, marcada por vícios e maus hábitos que corrompem os traços de certos infratores, notadamente os pérfidos, com aquele que fora trazido pelo marquês... e não um jovem de singular beleza e fleuma. Ainda que em andrajos, ostentava uma dignidade que intimidava e atraía ao mesmo tempo. O homem que assobiara anteriormente o fez de novo, mais alto. O capitão deu-lhe um tapa na nuca.

— Acaso de “lobo do mar” te converteste em algum tipo de passarinho? – Ralhou, sob as gargalhadas dos outros dois subordinados.

— Ai!... B-bom, digníssimo capitão, bem sabeis que, apesar de ser eu um “lobo do mar”, possuo, dentre os que vos servem no Gemini, a alcunha de “Corvo”...

— Disso bem o sei! Devido a essa tua aparência agourenta, faz-se assaz pertinente! – Rebateu o sanguíneo capitão para o subalterno, homem muito magro, de tez macilenta, com longos e ralos cabelos muito negros. O nariz parecia mesmo um bico, curvo, apontando para a terra.

— Posso ter a aparência agourenta, mas haverá algo mais agourento do que trazer um RUIVO a bordo? – Zombou, em seu torvo sorriso dentes pontudos e tortos sobressaíam-se grotescamente.

— Eu sabia que eras esquisito, mas supersticioso, Jamian? – Um dos outros marujos, um rapaz moreno e de estatura menos elevada que todos ali, com cabelos castanhos escuros a roçar-lhes os ombros, ironizou.

— És um maldito chinês, Dohko, que entendes tu de gente ruiva?!?

— Basta – O terceiro marujo, de pele clara e cabelos médios em tom de ocre, conclamou; sua voz era calma, o que se esperaria ante aquele semblante gentil. – Se o capitão aceitou o novo empregado, quem sois vós para discutir sobre isso?

— Obrigado, Orfeu. – Saga falou, sem ocultar a graça despertada pela expressão “empregado”. Mas era costume do amável Orfeu servir-se de eufemismos. Encarou o prisioneiro trazido por Shura. Sem qualquer delicadeza, agarrou-o pelo queixo, forçando-lhe a abrir a boca. Verificou-lhe os dentes como faria com um animal que estivesse comprando. Camus sentiu-se ultrajado; controlou-se, porém. A imensa mão do capitão agora virava-lhe o rosto de um lado ao outro.

— Como te chamas? – Indagou de um modo direto que desagradou o ruivo. Por isso, nenhuma resposta veio.

— Seu nome é Laurent. – Adiantou-se Shura.

— Hunf. Se ele se recusar a me responder outra vez, seu nome passará a ser “Sem Língua” – Saga falou, puxando bem o rosto de Camus para perto de si. – Vede estes olhos, rapazes... parecem emanar fogo!

— Ruivo com olhos de fogo... eu não me surpreenderia se com ele a bordo acontecesse um incêndio... – Resmungou o lúgubre Jamian, antes de levar um novo tapa na nuca. – AH! CAPITÃO!!..

— Não tens apenas aparência agourenta, és o agouro personificado – Riu Dohko, acompanhado por Orfeu. Tornou-se sério pois que agora se dirigiria ao espanhol. – Perdoai-me a insolência, magnânimo marquês, mas... a despeito dos modos pouco polidos de vosso prisioneiro... ele assemelha-se demasiado a um nobre de estirpe.

— Talvez até mesmo por esses “modos pouco polidos”. Ele não demonstra ser nada servil. – Ajuntou Orfeu, coçando o queixo enquanto examinava Camus. – Isso para não mencionar sua aparência, incrivelmente bem cuidada, a despeito desses trajes.

Prontamente, Shura respondeu:

— Sua família provém de uma Casa tradicional e bem antiga, empobrecida por sucessivas intrigas internas. Veio trabalhar para mim ainda em idade de aprendiz, contudo, em virtude de seu temperamento difícil, não pude entregar-lhe ocupação mais digna. Ele conservou a aura aristocrática, talvez...

— “Talvez”? – Saga ergueu uma sobrancelha, sem conseguir desviar o olhar do jovem amuado... que incrivelmente não baixava os olhos.

O que havia ali? Desprezo? Apatia? Resignação? Saga orgulhava-se de ser capaz de ler a alma de uma pessoa em poucos segundos, somente através de um olhar acurado. Não era o que estava se sucedendo no momento. Deveria incomodar-se com isso, entretanto... algo no ruivo o instigava. Não conseguiu sequer se aborrecer ante o fracasso de seu “olhar perscrutador”.

De mais a mais, era algo deveras agradável, olhar para aquele rosto...

— Bem, esse traço nobre residual transmutou-se em soberba e, com a pobreza, vilania. De forma que o trago para o Gemini.

— Viestes ao lugar certo, Excelência. Braços novos sempre se fazem necessários nas galés. O “nobre” Laurent finalmente servirá de maneira adequada ao nosso mundo em transformação. – Disse o capitão, já apoderando-se da corda que Shura segurava... a corda que enlaçava o pescoço do cativo. Aquilo desconcertou o marquês... de alguma forma absurda, ele esperou, até o último momento que Camus clamasse pela própria liberdade.

Que clamasse por clemência.

No entanto... os olhos impávidos do ruivo pareceram enfim se render... baixaram, desistentes, entregues...

O que era aquilo?

Não era medo.

Julgara ser orgulho. Porém...

Resignação?

Não.

Não era apenas isso...

— Mestre Shura – A voz clara do ruivo fez-se ouvir.

O espanhol suspendeu a respiração.

— Sim, Laurent? – Para seu desagrado, seu tom mostrou-se titubeante.

— Por favor. Poupai-o do sofrimento.

Os trabalhadores do mar se entreolharam.

— Do que ele está a falar? – Quis saber Saga.

— De um... um animal de estimação. – Shura respondeu, pesaroso.

— Sim. O meu bem mais precioso. – Camus reforçou, sorrindo levemente.

— Ei, o novato até que mostra ser capaz de manifestar alguma emoção – O capitão observou, mordaz. – Até agora, parecia que o excelentíssimo marquês tinha me trazido uma estátua de gesso...

Lutando contra uma incômoda sensação que crescia e latejava em seu peito, Shura esforçou-se por dizer:

— Transmiti lembranças minhas ao vosso irmão Kanon.

— Obrigado. Ele teria vindo aqui para fora, não fosse estar agora sob as consequências nefandas de mais de uma de suas bebedeiras excessivas.

Despediram-se, por fim. Quase sem acreditar no que acabara de fazer, Shura viu a imagem da outrora estimada “condessa” ser tristemente conduzida para a enorme embarcação atracada.

Estava acabado.

Fizera o que tinha que fazer.

Não esperava reconhecimento sequer paz pelo que havia feito.

Muito menos paz.

Não obstante, os legítimos servos de Deus não deveriam mesmo esperar por “paz” em suas vidas terrenas.

“Na Terra conhecereis aflição”, já preconizavam as Sagradas Escrituras.

Bem maior que o fatídico dissabor que o esperava fora o sentimento que movera a entrega de Camus.

A entrega digna de um mártir.

“Amor...? Será que...”, pensou, sucessivas vezes, aquela ideia indo e vindo, enquanto voltava para a carruagem. Ainda esperou que o grito de Camus ecoasse pelo porto, em um derradeiro apelo...

... talvez...

... talvez NÃO se furtasse a atendê-lo...

“Que está a passar por minha cabeça?!? Fiz o que era CERTO perante os preceitos da Igreja!”, gritava para si mesmo em pensamento. Sua batalha interna, contudo, era travada em vão.

O apelo jamais viera.

Não ouviu o grito de Camus. Apenas o marulhar das águas, o grasnar das gaivotas, algumas risadas e imprecações, miríades de vozes em miríades de idiomas.

“Está feito.”, pensou, resoluto. “Devo retornar a Paris”.

Já dentro da carruagem, recostou-se a cabeça, pesada como nunca, no aveludado estofado, pensando “Assim como Camus foi, diligentemente, enfrentar seu destino, devo eu enfrentar o meu...”

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Notas finais
É, pessoal, Camus foi mesmo levado para uma embarcação, para trabalhar nas galés... Shura parece saber que vai se dar MUITO MAL quando voltar para Paris... para onde estão indo Milo e... Giuseppe! Talvez o marquês tenha razão em estar prevendo o pior. Eis que novos personagens, do universo Saint Seiya, dão as caras na fic: Saga, Kanon (que foi mencionado por Shura e Saga, apenas), Orfeu, Dohko e o figuraça Jamian - que curti muito escrever, hehehe. Que papel terão eles na vida de Camus? Será que muitos sofrimentos esperam por nosso ruivinho amado? Espero que tenham curtido, pois eu curti muito voltar... desejo a vocês um Feliz Natal e um ótimo 2020, que seja melhor que 2019 (POR FAVOR!) Ah, o link para o grupo de minhas fics no Facebook é https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/ Entra lá! Até o próximo capítulo, bjs bjs