Dame Jolie
48 Vidas Perdidas
Notas iniciais
Por toda sua vida, Camus fora obrigado a envergar uma fachada que ocultava seu real estado de espírito. Não que esta fosse uma atribuição rara entre a esmagadora maioria dos seres humanos; ele, porém, detinha suprema habilidade nisso, justamente pela necessidade imperiosa de viver como OUTRA pessoa.
Não obstante, naquele exato momento, em que cruzava um escuro corredor, no interior da embarcação da qual seria prisioneiro – melhor dizendo, já era prisioneiro –, o jovem viu-se temeroso de que sua máscara de indiferença escorregasse de seu rosto. A consciência do que havia lhe acontecido e do que o esperava dali em diante conduzia-o a uma aflição difícil de ser contida. Caminhava atrás do capitão Saga, que ordenara que o seguisse. Ainda estava com os pulsos amarrados, bem como restrito pelo pescoço, enlaçado pela corda que Saga mantinha na mão direita. Felizmente, o capitão não a puxava; o pescoço do ruivo já estava suficientemente dolorido pela constante fricção do material... e pelas maneiras pouco gentis do Marquês de Aguilar.
Shura!
A mera lembrança do ex-amigo causava-lhe estremecimentos. Esperava que o marquês cumprisse sua palavra de não entregar Milo às autoridades. A bem dizer, não existiria mais uma “esposa falsa” do Conde de Saint-Doulchard. Sendo assim, a prova principal do “delito” de Milo já não existia. Este pensamento trouxe-lhe ao coração agitado um pouco de alívio.
O capitão Saga chegou a uma porta de madeira um tanto gasta. Dohko, que vinha atrás de Camus, juntamente com Orfeu e Jamian, apressou-se para abri-la para o seu superior. Este entrou primeiro, sendo seguido pelos demais.
Camus observou atentamente o cômodo: havia um baú aparentemente muito antigo, uma única cadeira de pinho, uma mesa tosca sobre a qual havia um garrafão e alguns copos de cerâmica. Pelos cantos escuros, panos, mantas, lonas e um sem número de materiais que ele não foi capaz de identificar. Malgrado houvesse velas acesas nos candeeiros fixados pelas paredes, contava-se bem mais com a claridade natural advinda das pequenas janelas. Um ambiente deveras sufocante, literal e figurativamente falando.
Saga sentou-se na cadeira; Orfeu não demorou a encher um dos copos com o que havia no garrafão. Entregou-o ao capitão. Após sorver a bebida e estalar a língua de satisfação, Saga fez um sinal com a mão ao ordenar:
— Desamarrai-no.
Munido de um punhal – de onde ele tirou Camus não foi capaz de ver – Dohko cortou com destreza e rapidez as cordas que restringiam o ruivo. Inconscientemente, o jovem esfregou os pulsos com os dedos. O reflexo quase fê-lo agradecer. Logo lembrou-se, contudo, de que libertavam-no das amarras tão somente para atirá-lo a trabalhos forçados, aviltantes...
— Despe-te.
O ruivo fitou demoradamente o capitão, incerto de que a ordem fora, de fato, para ele.
— Acaso és surdo? – Saga ergueu a voz, encarando-o muito sério.
— Perdoai-me...?
— Mandei que te dispas. O que é difícil de entender?
Instintivamente, Camus uniu os braços à frente do corpo. Deu um olhar de relance a cada um dos presentes. Como que entendendo os temores do novato, Saga suspirou e permitiu-se esclarecer, menos ríspido:
— É mister que verifiquemos se não possuis alguma anomalia ou moléstia aparente. Não tenho o imprudente hábito de juntar doentes a trabalhadores sãos.
Camus esforçou-se por mostrar-se humilde e polido; quase se curvou ao argumentar:
— Digníssimo senhor, o magnânimo Marquês de Aguilar não cometeria a abjeção de enviar-vos um criado enfermo. Asseguro-vos, substancialmente, que sou perfeitamente saudável.
Os três subordinados de Saga entreolharam-se. Deixaram escapar risadinhas comedidas, embora claramente sarcásticas. O capitão sorriu para eles e bebeu mais do vinho. Camus chegou a acreditar, por esta aparente manifestação de bom humor, que Saga tivesse sido convencido por suas palavras. Entretanto...
— Foste condenado por tua maledicência. Como poderia um homem fiar-se em tuas garantias? – Indagou-lhe o capitão, ainda sorrindo.
— Meu senhor, eu juro por...
— Se não te despires, mandarei a meus homens que o façam. – Anunciou Saga, o sorriso esvaindo-se-lhe do rosto agora severo.
Não se passaram muitos segundos até que Camus assentisse. Engolindo seu orgulho como quem engole cacos de vidro, o nobre tirou de si o manto puído e já malcheiroso. Fez o mesmo com a túnica amarfanhada e, em seguida, as calças esgarçadas, após remover dos pés as botas grosseiras.
Completamente nu diante daqueles homens, rogou em pensamentos para que não enrubescesse. Não permitiria que lhe humilhassem além DAQUILO. Manteve a cabeça erguida, o olhar altivo, como se uma verdadeira armadura o protegesse.
Saga olhou-o de cima a baixo, nunca abandonando o objeto de sua acurada observação nem mesmo ao sorver seu vinho. Camus fingiu não se importar com os olhares sobre si, principalmente do capitão, cuja atitude, similar a quem aprecia um espetáculo, o revoltava. Precisava estar sentado, bebendo prazenteiramente enquanto examinava um recém-adquirido escravo? Aquilo era indigno!
Sim, era indigno para um homem!
Ora...
Em que estava pensando?
Desde quando remadores de galés seriam considerados “homens” para tipos como o capitão Saga? A homens assim, remadores de galés equiparar-se-iam a animais de carga, quando muito!
— Bem, à primeira vista, ele parece saudável, capitão. – Comentou Dohko, meneando a cabeça em sinal de aprovação.
— BEM saudável, eu diria... e abençoado por Nosso Senhor... – Riu Jamian, no que foi seguido pelos demais. Desta vez, Camus não pôde deixar de transparecer seu constrangimento. Resistiu bravamente, porém, ao impulso de cobrir suas partes pudendas com as mãos.
— Vira-te de costas. – Saga demandou, seco.
Mordendo os lábios em contida ira, o ruivo obedeceu.
— Tem mui bela aparência – Observou Orfeu, de modo quase distante. – Melhor seria vendê-lo como escravo de companhia a algum cavalheiro abastado apreciador do mesmo sexo. O senhor faturaria uma considerável soma, talvez uma fortuna...
Os olhos de Camus arregalaram-se ao mesmo tempo que seu coração disparou de pavor. Não teve, contudo, tempo de replicar – e ainda que tal atitude fosse imprudente, ele o faria! – pois que Saga prontamente rebateu, cordato:
— Posso não ser nobre como Shura de Aguilar, mas possuo eu também a minha honra. Adquiri-o para trabalhar na “Gemini”, o que foi acordado com o distinto marquês.
— Perfeitamente. Foi apenas uma ideia, em vista da inegável formosura do novato.
— Formoso ou não, esses cabelos ruivos são um claro indício de má sorte! Vede, ele os tem em TODOS lugares! – Jamian resmungou, claramente incomodado. Chegava a torcer o nariz avantajado para o cativo.
— Cala-te, Corvo! Falar em má sorte atrai a dita bem mais do que a cor dos cabelos de um remador de galé. – Dohko alegou, enérgico.
— Posso vestir-me?
Orfeu aproximou-se de Camus. Encarou-o com severidade antes de estapeá-lo com força.
— Estás sendo examinado pelo capitão Saga! Como ousa interpelar-nos dessa forma?!?
— Orfeu. Deixa-o. – Saga ergueu a mão, um sinal para que o subordinado se contivesse.
Ante a agressão, Camus viu-se mais estarrecido do que dolorido. Quedou-se boquiaberto, por mais que quisesse parecer impassível.
— Sim, meu senhor. Só considerei seu ato de uma impertinência sem tamanho. Ele deveria...
— Ele há de aprender. Por bem ou por mal. Deste o primeiro recado. – O capitão cortou-o, calmamente. Na maior parte do tempo, Orfeu era um homem gentil. Entretanto, a falta de deferência para com seu estimado capitão anulava-lhe toda amabilidade. Perdoava qualquer outra falta – e era capaz mesmo de interceder pelo infrator – menos insubordinação a Saga.
O capitão demandou:
—Deixai-me a sós com o ruivo.
Camus sentiu a respiração suspender-se. Os três marujos fizeram respeitosas mesuras e se retiraram. Ao ver a porta se fechando, e dar-se conta de que estava desnudo e sozinho diante de um homem que dele não tirava os olhos atentos, sentiu-se terrivelmente acuado.
Saga levantou-se da cadeira; caminhou até o cativo, que, em meio a um frêmito, fez um voto de lutar até a morte, caso aquele homem ousasse molestá-lo.
Que lhe importava agora?
Milo estava salvo. Era tudo que importava.
E ele sempre, sempre pertenceria a Milo!
Saga parou defronte de Camus; era bem mais alto que o jovem Turenne e assaz intimidador. Fitando-o diretamente nos olhos rubros, o capitão ordenou:
— Mostra-me tuas mãos.
O ruivo hesitou brevemente. Então estendeu-as para o capitão. Este tomou-as pelos pulsos, a fim de examiná-las minuciosamente. Voltou a encarar o cativo, ainda segurando-lhe as mãos.
— Não são mãos de um criado. – Declarou, direto.
— C-como?
— São macias, lisas como pétalas de lírios, desprovidas de calosidades, descamações, cicatrizes – Enquanto falava, acariciava as mãos do rapaz, cujas sobrancelhas franziam-se ante o desconforto. – Jamais realizaste qualquer serviço braçal, ou mesmo doméstico.
Voltando a envergar a fachada fria e serena, Camus tencionou esclarecer:
— Conforme elucidou o magnânimo marquês, malgrado tenha sido eu seu criado, provenho de família aristocrática, embora falida. Obtive instrução suficiente para auxiliá-lo em ofícios administrativos.
Saga assentiu, erguendo as sobrancelhas.
— Bem vejo-o eu. Foi assim que obteve acesso aos segredos do marquês, por certo.
Ante a expressão interrogativa do ruivo, o capitão dirimiu:
— Para chantageá-lo.
— Oh. Sim. De fato.
— Compreendo... – Murmurou Saga, enfim largando as mãos do rapaz.
— Perdoai minha... impertinência, meu senhor – Quase mordeu a língua para forçar o tom servil. – mas posso vestir-me? Não desejais um servo enfermo e temo que venha a adoecer, se continuar exposto a este frio mordente...
Sorrindo de modo enigmático, o capitão volveu:
— Para que cobrir-te novamente por tais andrajos? Acaso tens vergonha de tua nudez diante de minha presença?
— Absolutamente, meu senhor. Tenho é frio. – Mentiu.
— Pois sentirás mais frio. Vê – Apontou para uma porta semicerrada nos fundos do cômodo. – Ali tens uma tina com água. Há sabão e lã de ovelha. Banha-te.
— B-banhar-me?
— É claro! Faz-se necessário arrancar de teu corpo qualquer impureza que venha a prejudicar a minha tripulação. Eu prezo pelos meus homens, meu caro... Laurent, não é?
— Sim. – Sussurrou em resposta.
— Quero-os saudáveis para trabalharem incansavelmente. Com afinco. Não é sempre que se faz possível substituir um par de braços.
— E-eu... – O nobre viu-se sem saber como responder, como agir. Assustou-se com a súbita gargalhada do capitão.
— Vós, franceses, tende reservas quanto a banhos, bem o sei eu. Todavia, sou grego.
— Não tenho reservas quanto a banhos, tomava-os com frequência – Retrucou o ruivo, ofendido. O estado que depunha contra sua higiene pessoal advinha dos terríveis cinco dias de viagem como cativo, oferecidos por Shura!
— Tu? Um criado, tomando banhos? Heh... mais uma característica insólita para unir-se a tuas mãos de dama...
De um dos cantos do cômodo, Saga pegou um punhado e vestes e atirou-os ao ruivo.
— Toma tuas vestes, vê o que te serve. Não demores em demasia. A refeição logo será servida. Se perderes a hora, ficarás sem comida até amanhã.
O nobre assentiu, tenso. Adivinhando-lhe os pensamentos, o capitão deu meia volta e dirigiu-se à porta de saída. Acrescentou:
— Não preciso vigiar-te, sossega. Agora pertences à Gemini.
Resignado, Camus foi até o diminuto quarto de banho. Tocou a água com seus dedos, exclamando ao senti-la gelada... no entanto, seria obrigado a enfrentar aquela tortura. Incomodava-o ter passado tantos dias sem lavar-se... ademais, não poderia precisar quando aquilo seria novamente possível.
“Não gostaria de passar anos e anos sem banhar-me... embora saiba que isso pode não ser tão comum como eu gostaria que fosse...”, pensou, acabrunhado. Já imerso na água, tiritando e batendo os dentes, tomou do sabão ordinário. Esfregou-se com a lã ensaboada, não se furtando a lavar os cabelos. Poderia não ter a chance de fazê-lo tão cedo...
Do lado de fora do cômodo, já no corredor, uma figura idêntica a Saga postava-se encostada à parede. Mantinha os braços cruzados e um sorriso zombeteiro no rosto. Saga não se surpreendeu ao vê-lo.
— Kanon. Que fazes aqui? – Falou vagarosamente. – Já te recuperaste da bebedeira? Não esperava ver-te de pé até amanhã.
— Causou-me viva curiosidade ao saber que tu trouxeste um condenado para um dos quartos de banhos reservados...
— Por qual razão? Não é o procedimento usual, fazer com que os recém-chegados se limpem a fim de evitar que doenças novas se alastrem pelos que já cá estão?
— Deveras... mas tu vires PESSOALMENTE conduzir um recém-chegado, e a um dos reservados apenas para os superiores... isso é INÉDITO.
— Poupa-me de tuas inúteis considerações. Melhor seria que tivesses continuado em teus aposentos, recuperando-te com propriedade.
Saga, que era o mais velho, fez menção de deixá-lo ali, falando sozinho.
— Hum. – Kanon afetou maliciosamente a voz. – Conhecendo tuas inclinações, o novato deve ser bonito...
Em um rápido volteio, o capitão voltou a mirá-lo.
— Detém-te com teus pensamentos imundos. Fosse eu como TU, o cativo não estava a banhar-se só.
— Oh... ele está a banhar-se só? És assaz compassivo... quiseste poupá-lo do banho coletivo com a ralé à qual ele pertencerá. Tal medida parece-me conter alguma razão.
A exasperação inicial de Saga deu lugar a um profundo enfado. Tudo tinha que se tornar um embate quando se tratava de seu irmão mais novo.
— Kanon, creio que há deveres que demandem tua presença – Ergueu o queixo, retomando o ar autoritário que sempre exibia. – Afinal, recuperaste-te do mal estar que te afligia pela manhã, por certo?
Kanon parou de sorrir. Encarou o mais velho por uns instantes. Eram exatamente iguais, a não ser por um mínimo detalhe na maneira como mantinham as franjas dos longos cabelos loiros. Saga a jogava para o lado direito, e Kanon, para o esquerdo.
— Não sou nenhum fraco para passar o dia todo na cama por causa de mulheres e umas canecas de vinho. – Pontuou, também erguendo o queixo com ar superior. – Com a tua licença.
O mais novo pôs-se a caminhar, pouco a pouco mergulhando na penumbra que engolia o corredor. Saga estalou a língua ao rememorar as palavras do irmão.
“Conhecendo tuas inclinações, o novato deve ser bonito...”
Cerrou os punhos e voltou-se para olhar a porta. Detrás dela, o mancebo que atraía-lhe a atenção de forma indeclinável banhava-se... sozinho...
“Tal medida parece-me conter alguma razão.”
Grunhiu, no afã de afastar tais pensamentos. Pôs-se a seguir na direção em que Kanon desaparecera.
*************
Ele subia as escadas rumo ao convés como quem caminha rumo ao cadafalso.
Pelo caminho, tripulantes iam e vinham assessorar a hora da refeição, olhavam-no com jocosa curiosidade. Procurou não lhes dar atenção. Já adivinhava que aquilo nada significava em vista de surgir diante de dezenas de homens cuja fama não era das mais lisonjeiras então.
No convés da Gemini, as ditas dezenas de homens espalhavam-se de pé, acocorados, sentados em tamboretes, encostados, sentados no chão ou na balaustrada. Acomodavam-se da maneira escolhida, ou, para alguns, a única possível, após receber em suas escudelas um caldo escuro e fumegante. Estas eram servidas por marujos que pousaram junto ao mastro central caldeirões contendo o cozido de carne com lentilhas e raízes. A cada homem era oferecido também um pão redondo e escuro, bem como uma caneca de cerveja espumosa. Falavam ruidosamente, suas vozes por vezes elevando-se como se estivessem brigando. As gargalhadas e os gracejos, contudo, exterminavam tal desconfiança. Havia homens das mais variadas etnias. Entendiam-se em um francês que mais parecia um conglomerado de linguagens.
Ao verem surgir no convés a figura longilínea de um jovem pálido, de cabelos muito longos e vermelhos, trajando uma túnica bege clara por sobre calças rústicas, mas bem ajustadas nas pernas esguias, na cor marrom, e calçando as mesmas botas grosseiras com que chegara, fez-se um súbito silêncio. Consciente de que sua chegada causara aquilo, Camus esforçou-se por parecer seguro de si, sereno. Caminhou até onde os marujos eram servidos. Postou-se diante do homem que estava responsável por guarnecer as escudelas e entregá-las aos trabalhadores. Este era bastante alto, careca e de olhos escuros tão estreitos que pareciam não conter córneas.
— Oh, eis o novato francês – Enunciou o careca, ouvido por todos graças à sua voz portentosa e ao silêncio que se instalara.
Camus apenas assentiu, à espera de sua escudela. Olhou maquinalmente para o interior da imensa panela, a fome que o maltratava vencendo a repulsa causada pela visão e pelo cheiro da comida.
— Ouvimos dizer que apesar de ser um reles “ninguém” possuis origem nobre... qual é o teu nome, novato? – Indagou o imenso homem, de feições orientais, enquanto enchia a concha com o alimento. Com a outra mão, segurava uma tigela de barro.
— Laurent.
— Não – Sorriu o homenzarrão. – Teu nome, agora, é “cão”.
Risadas histriônicas explodiram. Cessaram tão logo perceberam que o careca voltaria a falar:
— Sabes como um cão se alimenta?!? – E virou o conteúdo da concha quase aos pés de Camus.
Desta vez os homens urraram, em uma explosão de euforia e hilaridade.
Camus olhou para o assoalho e voltou a encarar o oriental.
— Se tens fome, comerás como os cães comem... CÃO.
Assobios, gargalhadas, imprecações povoavam os ouvidos do ruivo, que não moveu um único músculo.
— É toda a comida que receberás hoje, cão. A menos que queiras jejuar até amanhã...
— Vede, irmãos! O novato ainda não entendeu o que deve fazer! – Bradou um.
— Mas é claro! Desde quando CÃES possuem entendimento? – Gritou outro.
— Talvez ele precise de ajuda para alcançar a comida...
Tremores involuntários correram pelo corpo hirto do nobre. Ele considerou atirar-se ao mar. Entretanto, tal escapada constituiria patético fracasso, em vista de ainda estarem atracados no cais... além do quê, até chegar a um lugar do qual pudesse se jogar, seria detido por miríades de mãos brutas e sujas.
— Penso que precisa sim. O diabo é orgulhoso, percebe-se em seus olhos frios e arrogantes. – Bufou o careca, prestes a sucumbir à cólera por ser afrontosamente desobedecido por um mísero novato.
Neste momento, um adolescente de cabelos médios claros como palha, bastante arrepiados no alto da cabeça, correu na direção de Camus. Agarrou-o pelo braço, forçando o ruivo a olhar para ele. O nobre espantou-se, tanto com o súbito contato, quanto pelo fato de que o garoto tinha um olho vazado.
— Que pensas que estás a fazer? Não conheces as pilhérias feitas aos novatos, conhecidas como “batismo”? – Cochichou ao ouvido de Camus, envergado para ouvi-lo. – Anda, faz como Tatsumi ordena. Ou te tornarás saco de pancadas dele mais tarde. Mas antes... estes homens de ti também se serviriam para exercitar seus punhos e pés!
Camus arregalou os olhos para o rapaz, que continuou, aflito:
— Todo novato passa por isso. Comigo não foi diferente, nem por isso morri... anda, ajoelha-te e...
— Isaak, solta o “cão” para que ele possa comer!
— A comida está esfriando!
Isaak não lhes deu atenção. Apertou o braço de Camus com força redobrada e insistiu:
— Faz o que eles querem, é só por agora. Amanhã já serás um de nós. Livra-te desse orgulho e livrar-te-ás da fome... e da DOR.
Respirando pesadamente, Camus olhava o rapaz que o admoestava. Como?!? Pôr-se de quatro no chão e comer como um animal diante de todas aquelas pessoas? Ele JAMAIS se sujeitaria àquilo!
Cedendo à impaciência, Isaak berrou com o ruivo:
— Anda! Serás brutalmente castigado por tua empáfia! Que custa a ti, um gesto rápido, que em nada há de te ferir?!?
— “Em nada” há de me ferir? – Murmurou Camus, encarando o rapaz, que calou-se imediatamente, atônito.
Mirando-o com um misto de estarrecimento e compaixão, Isaak soltou-o. Foi do novato bruscamente afastado por um enorme remador, aparentemente das Terras do Norte.
— Afasta-te, Isaak, ele não é humilde como tu. – Mirou Camus, já apertando as mãos em uma preparação para usá-las. – Não é humilde como NÓS. Aprenderá, todavia, a sê-lo...
Ouriçados com a intervenção do imenso companheiro, os homens voltaram a gritar a plenos pulmões:
— Mostra a ele, Phecda!
— Arrasta a cara desse cão no chão!
— Faze-o lamber até o último bocado!
As mãos de Phecda, que sorria ávido por ouvir súplicas e berros de dor, nunca alcançaram o imóvel novato, pois que o som de um chicote estalando no chão roubou a atenção não só dele como de todos.
— Detém-vos, pascácios! – Bradou o capitão, furioso.
— Capitão Saga... – Murmúrios de pavor correram entre os presentes, que se apressaram para retornar aos seus lugares.
Saga lançou um olhar bravio em torno. Então caminhou, imponente, pelo convés, sob olhares aparvalhados. Parou diante de Camus, que o encarava aturdido. Virou-se para os demais.
— Basta de azáfama! Não estamos no meio do oceano, horda de mentecaptos! – Vociferou.
Pareceu que até o mar deixou de marulhar, e que as gaivotas ficaram quietas... da porta pela qual Saga saíra, Orfeu, Dohko e Jamian a tudo observavam, impressionados. Na balaustrada da proa, Kanon também mantinha-se atento à cena, franzindo o cenho.
— Se recomeçardes com esses vis alaridos, vossa alimentação estará suspensa por dois dias!
Como lobos recém convertidos em cordeirinhos, os homens abaixaram passivamente suas cabeças. Ocuparam-se em prosseguir com a refeição.
Saga voltou a dirigir o olhar duro a Camus, que deixara até de respirar... sentenciou:
— Como paga desta tua primeira insubordinação a bordo, ficarás sem comer hoje.
Indignado, Camus quase deixou escapar um “o quê?”. Permaneceu quieto, porém. A Isaak, Saga ordenou:
— Leva-o à “jaula”. Ele passará a noite lá para refletir como se portar junto àqueles que dele serão companheiros para o resto de sua ignóbil vida.
Ligeiramente trêmulo, o adolescente assentiu. O capitão jamais havia se dirigido diretamente a ele. Aproximou-se novamente do ruivo, sinalizando timidamente para que o seguisse.
Desceram as escadas, regressando à penumbra reinante no interior da embarcação. Isaak levou-a até uma porta gradeada de ferro. Camus soube que havia chegado à tal “jaula”. O moreno abriu o trinco e empurrou a porta; sem pestanejar, o nobre adentrou o pequeno e escuro recinto. Isaak fechou o trinco, que fez um barulho dramático em virtude do enferrujamento que o carcomia. Evitando olhar para o novato, reclamou, com evidente nota de pesar:
— Avisei-te para que fizesses o que te mandavam! Deverias ter me ouvido...
O ruivo pensou em várias justificativas. Encontrou-se, porém, sem energia para proferi-las. Somente agradeceu, em voz baixa, resignada:
— Obrigado… Isaak, não?
— Sim, esse é o meu nome! E o teu?
Camus poderia jurar que tal informação a ninguém seria relevante. Murmurou, sem vontade alguma de fazê-lo:
— Chamo-me Laurent.
— Lamento que fiques aqui, preso, sem comer nem beber, até amanhã... mas, acredita-me, o capitão Saga procedeu com brandura para contigo. Ele costuma ser mais severo quando decide punir alguém.
— Não tenho fome. – Mentiu, afetando pouco caso – Não será grande problema ficar aqui. Já estive em lugares piores... como... como as masmorras do Marquês de Aguilar.
As mãos do adolescente seguraram firmemente as barras de ferro. Este confidenciou:
— Tencionei convencer-te a curvar-te a eles porque… bem… porque quando o “batismo” foi comigo, eu também me recusei. E paguei bem caro por isso...
— Tu?
— Sim. Espancaram-me como não se faz nem com um cão sarnento. Levei dois dias para poder me mexer.
— Eu... eu lamento. – O ruivo murmurou, consternado. Isaak mal deveria ter quinze anos! Será que seu olho esquerdo havia sido perdido nessa punição cruel? Uma extensa cicatriz descia por seu rosto suave de menino. Preferiu não perguntar.
— Se procederes conforme nos é ordenado, verás que não terás outros dissabores... como este. Eu aprendi. Deves tu de igual modo aprender.
Perguntando-se quando o garoto finalmente iria embora, Camus limitou-se a assentir. Virou-se para os fundos da cela. Este foi o sinal para que Isaak se retirasse. O oriental despediu-se, sem esperar resposta.
Não a obteria mesmo, de qualquer forma.
Camus sentia-se exaurido.
Encostou-se num canto frio, quase úmido, e deixou-se escorregar, até sentar-se no chão. Fechou os olhos, desejoso de que tudo aquilo fosse um pesadelo, de que a qualquer momento ele acordasse em seu vasto e perfumado leito, com Milo ao seu lado...
Milo.
Pensar em Milo causava-lhe ainda mais dor do que a fome que o atormentava há tempos – Mentira a Isaak porque de nada adiantaria admiti-la.
Cruzou os braços sobre os joelhos flexionados e ali pousou a cabeça, consciente de que as horas se arrastariam, tenebrosamente lentas, até o dia seguinte.
Não que ele ansiasse pelo dia vindouro, deveras.
Ficar ali, sozinho, na semiescuridão, porém, fazia-o pensar... lembrar... lembrar da vida que perdera.
Isso era mais doloroso do que qualquer punição que o “misericordioso” capitão Saga pudesse lhe infligir...
*************
Nos subterrâneos de um belo solar localizado em um bairro abastado de Paris, Afrodite encontrava-se exatamente como seu amigo a muitos quilômetros dali: encerrado em uma cela, desolado e sentado no chão, as lembranças de uma vida que perdera assolando-o. Contudo, ao contrário do jovem Turenne, possuía algo que intensificava-lhe o sofrimento.
A culpa.
Amaldiçoava a si próprio por ter complementado os registros de seus diários com relatos sobre a vida de Camus. Ora, Camus era parte crucial de sua existência, e, ao registrá-la, a seu ver, não poderia deixar de mencionar o ruivo. Suas trajetórias, em verdade, interligavam-se. A ele fora natural que o estimado amigo e tantas aventuras e desventuras pelo Turenne vividas figurassem naquelas páginas...
No entanto, fora, acima de tudo, imprudente. Somente agora, depois de ter causado tudo o que já cria ser uma tragédia, reconhecia-o. Por sua causa, Shura o rejeitara até mesmo como amigo; agredira-o; trancafiara-o como um animal… e, pior de tudo, partira para Saint-Doulchard a fim de executar sua implacável “justiça” sobre o relacionamento dito condenável de Milo e Camus.
Que teria acontecido? Sabia que estava ali havia dias, mas, sem poder ver o nascer do sol, nem o seu ocaso, ser-lhe-ia impossível precisar quantos... temia que, àquela altura, Shura já tivesse denunciado o casal à Igreja. Ambos seriam rigorosamente punidos...
... talvez torturados...
... talvez mortos...
Sem contar na desgraça que se abateria sobre as famílias Turenne e Auvergne...
Estes pensamentos davam-lhe ganas de chocar sua cabeça contra as paredes de pedra. Todavia, a vontade de conhecer a verdade impelia-o a resistir. Só depois de saber o que havia se sucedido aos dois amantes poderia decidir o que faria.
Se Milo e Camus fossem condenados pela Igreja, com toda a certeza daria cabo de sua própria vida.
“E pensar que eu te amei, Shura de Aguilar!”, evocava dolorosamente, as lágrimas de amargura vertendo por seu rosto sujo. Ele e Shura, unidos, não pelo amor com o qual Afrodite tanto sonhou, mas pela queda de duas famílias, de dois corações, do amor mais sublime que já conhecera.
A porta da cela abriu-se. Um guarda trazia-lhe a refeição. Afrodite sequer o olhou.
— Vejo que não tocastes no prato que vos trouxe ontem. Se continuardes a menosprezar vossa comida, ratos hão de ser atraídos para vossa cela. – Comentou o guarda, abaixando-se para recolher a escudela desprezada.
— Tanto se me dá. Melhor seria que nada mais me trouxesses então. – Retrucou o loiro, agastado.
— As ordens do Marquês de Aguilar foram de que vós fôsseis alimentado, e...
— As ordens que deveríeis seguir eram as ordens do Conde de Saint-Doulchard!!! – Vociferou o ex-camareiro, estapeando a tigela que o guarda lhe estendia. O guisado de cabra com cebolas foi parar no chão arenoso. Atônito, o guarda tartamudeou:
— S-sim, contudo… o... o Conde de Saint-Doulchard instruiu-nos a seguir fielmente as ordens do Marquês de Aguilar...
— Cuja responsabilidade era a MINHA segurança – Cuspiu Afrodite. – e agora vê onde estou!
O guarda continuou momentaneamente confuso. Neste ínterim, outro entrou na prisão.
— Que se passa por aqui? – Perguntou, ríspido.
— N-nada de mais... o prisioneiro... não quer comer.
— Neste caso, deixa-o fazer jejum, se é o que ele prefere. – Zombou o recém-chegado. Fitou o loiro com desdém.
— Pagareis por isto, eu vos garanto! – O sueco rosnou, certo, contudo, de que sua ameaça era em vão.
— Estamos apenas cumprindo ordens, senhor Afrodite, não dificulteis. Podeis ser assaz importante na presença do magnânimo Conde de Saint-Doulchard e de sua valorosa consorte, mas no momento, sois um mero prisioneiro, e é nosso dever...
Afrodite cuspiu no rosto do guarda que assim se dirigiu a ele, o recém-chegado. Foi prontamente esbofeteado, com tal força que teria caído, não fosse a parede detrás de si. Apoiou-se nela, entre aturdido e aviltado.
— Mouret! Que pensas que estás a fazer?!?
— Não sou homem de receber cusparadas de um... de um EFEMINADO como este reles prisioneiro.
— O senhor Shura admoestou-nos a tratá-lo bem – Insistiu o outro.
— Foi legítima defesa. – Ironizou. – Ademais, não creio que o marquês há de se importar, caso este pequeno incidente chegue-lhe aos ouvidos. E se chegar...
Aproximou-se insidiosamente de Afrodite, que esfregava a região avermelhada e dolorida, para ameaçar:
— ... pode ser que a água, que é a única coisa que Vossa Excelência não recusa, subitamente deixe de ser segura de beber...
— Não tenho medo de ti... e para mostrar-te que não preciso da “tua” água... – Em um gesto rápido, Afrodite cuspiu outra vez em Mouret. Este estapeou-o novamente. E encontrava-se prestes a repetir o golpe quando sentiu uma dor absurda explodir-lhe nas costas da mão erguida.
— AAAAAAAAHHHHHHH! – Gritou, um berro inumano, cortante. Ao olhar para a área onde a dor rebentara-lhe, deu com um punhal nela cravado!
Mouret gritava ensandecidamente, sem coragem de arrancar a faca enterrada nas costas de sua mão direita. Antes que os outros dois homens na cela entendessem o que acontecera, um rosto conhecido de Afrodite emergiu da penumbra que banhava a entrada da masmorra: olhos cinzentos penetrantes como o aço da lâmina que se fincara na mão do guarda agressor; cabelos prateados, curtos e espetados, brilhantes como os dentes muito brancos que figuravam em sorriso magnético e cruel.
— GIUSEPPE?!? – Exclamou Afrodite, em meio aos gemidos doridos de Mouret.
Milo surgiu logo atrás do artífice-mestre, ordenando ao outro guarda, que estava completamente aparvalhado:
— Vai, leva-o daqui.
— Ei, quero meu punhal de volta... é de família. – Segurando a mão do homem que se contorcia de dor, Giuseppe dali arrancou-o, sem qualquer preparação.
Mouret berrou, o sangue jorrando abundantemente. O outro guarda apressou-se em arrastá-lo dali, ante o olhar gélido de Milo. Giuseppe adiantou-se para Afrodite, amparando-o. Mirou-o, preocupado.
— Ei, bello, ânimo. Estás a salvo agora.
— Gi-Giuseppe... foste tu que... – Virou-se para o conde; estremeceu. – M-Milo...
— Afrodite – Milo parecia terrivelmente sério. – Que se sucedeu? Por que Shura te prendeu aqui?
O jejum prolongado, a fraqueza provocada pelas noites insones e agora a violenta carga emocional desencadeada pela visão do Conde de Saint-Doulchard fez o sueco perder os sentidos. Giuseppe, que já estava a ampará-lo, segurou-o para que não caísse.
— Afrodite! Que houve contigo? Acorda, bello, acorda! – Clamava o toscano, assustado ao ver seu amado desmaiado.
— E essa agora... bem na hora em que eu precisava de RESPOSTAS – Resmungou Milo, nada preocupado em disfarçar sua insatisfação. – Giuseppe, traze-o, peço-te.
O italiano assentiu, estranhando a atitude insensível do conde. Carregou Afrodite no colo escadas acima, atrás do carrancudo nobre.
— Leva-o ao quarto mais próximo da saída da casa. Falarei com os guardas da habitação.
Ao seu comando, os doze guardas responsáveis pelo solar foram reunidos no pátio arborizado. Milo não perdeu tempo:
— Revelai-me o motivo de tão infame insurreição e talvez eu poupe vossas vidas... ou vos conceda morte indolor.
A estas palavras, os soldados que haviam acompanhado-o na viagem desembainharam suas espadas. Os sentinelas do solar ficaram amedrontados.
— Magnânimo conde, ordenastes que seguíssemos fielmente as ordens do Marquês de Aguilar, e foi o que fizemos! – Um deles, semblante apavorado como o dos demais, tomou a palavra.
— Tais ordens deveriam dizer respeito à segurança do futuro diretor de meu hospital. E, pelo que vi, a ordem de Shura foi para que PRENDÊSSEIS justamente o homem a quem ELE deveria proteger. Eu quero saber POR QUÊ.
— Meu senhor, o senhor Shura recebeu uma mensagem que noticiava a invasão de Saint-Doulchard pelos normandos...
— Como é que é?!?
Todos emudeceram. Milo bradou:
—Prossegue!
—O… o marquês anunciou que teria de partir imediatamente... para se juntar a VÓS na batalha... mas... p-para impedir que o senhor Afrodite o seguisse, mandou-o para as masmorras, a fim de evitar que ele partisse para a luta... pois que a missão maior do senhor Afrodite estava aqui, em prol de sua formação como médico...
Petrificado, Milo considerou os guardas, um a um, mais para assimilar o que ouvira do que propriamente para encará-los. Gravemente, revelou:
— Não houve invasão alguma em Saint-Doulchard. O marquês Shura mentiu para vós. – Respirou fundo antes de continuar – e conquanto tal evento se desatasse, não deveríeis ter acatado a ordem de PRENDER meu protegido.
— Por outro lado, eles tinham a VOSSA ordem de obedecer às ordens do Marquês de Aguilar de maneira irrestrita. – Argumentou Leopold, assessor de Milo que o acompanhara naquela jornada. – Temos um impasse aqui, excelência.
Profundamente irritado, Milo travou a mandíbula. Leopold estava certo, e ele sabia disso. Tomou fôlego novamente e sentenciou:
— Bem… que apenas o guarda que agrediu Afrodite seja preso. Ele será sumariamente punido. Quanto ao restante... continuem de atalaia até segunda ordem.
Girou sobre os calcanhares e dirigiu-se de volta para o interior do solar. Foi até onde Giuseppe depositara o desfalecido sueco em um leito sem dossel. Ao vê-lo ainda desacordado, praguejou entre os dentes:
— Maldição! Ainda encontra-te no mundo dos sonhos? Eu preciso de RESPOSTAS!
Caminhou incontinenti rumo à cama. Surpreendentemente, o toscano posicionou-se à sua frente, de braços abertos:
— Tende paciência, suplico-vos, magnânimo conde! O senhor Afrodite sofreu um colapso nervoso, muito provavelmente em decorrência dos maus tratos que sofreu nos últimos dias.
— EU estou à beira de um colapso nervoso – Vociferou o loiro. E, sem dizer palavra, tomou de uma jarra de água que repousava sobre uma mesinha de cerejeira. Empurrou Giuseppe para o lado e esvaziou o conteúdo do jarro sobre o rosto de Afrodite.
— Senhor Milo!!! – Exclamou um aterrado Giuseppe.
Em meio a um agoniante ataque de tosse, o ex-camareiro prontamente despertou. Destituído de qualquer gentileza ou paciência, Milo abaixou-se até ele, agarrando-lhe pela gola da túnica empoeirada.
— Que se sucedeu aqui? FALA! – Demandou, com firmeza quase furiosa.
— M-Milo...
— Senhor Milo, eu imploro-vos, ele...
— Giuseppe, deixa-nos a sós. – O conde ordenou, em um tom que não admitia réplicas. Não obstante, o artífice-mestre permaneceu parado, incerto se poderia deixar Afrodite sozinho com o colérico nobre. Percebendo-o, o ex-camareiro pediu, com dificuldade:
— Vai, peço-te, Giuseppe... e-eu... eu hei de ficar bem.
— Está bem – Assentiu o toscano; a passos hesitantes, e sempre olhando para trás, ele deixou o cômodo.
A recém adquirida privacidade permitiu a Milo revelar de forma direta:
— Camus desapareceu.
— P-perdão?
— Ele sumiu completamente. Não havia sinal dele em Saint-Doulchard. Presumo que tenha relação com o que quer que tenha acontecido aqui. – Falou apressadamente, seus olhos severos cravados no tiritante sueco – tu hás de contar-me o que se sucedeu neste lugar. Sem mais delongas, para onde Shura foi? Por que prendeu a ti na masmorra?
Tremendo de forma quase convulsiva, Afrodite abriu a boca trêmula. Som algum dela saiu. Lágrimas vieram-lhe aos olhos claríssimos.
— FALA-ME! – Milo vociferou, fazendo-o sobressaltar-se.
— Shu... Shura... e-encontrou m-meus... meus diários...
— Diários? – Repetiu o conde, com voz sumida. – Que diários?
— E-escrevia-os há anos... desde que... f-fui servir os Turenne... e... através deles... Shura descobriu TUDO.
Com os lábios entreabertos, Milo sentiu uma seta varar-lhe certeiramente o peito. A respiração se fora quando ele inquiriu, em um murmúrio incrédulo:
— Camus...? Ele descobriu sobre Camus…?
O pranto de Afrodite deixou de ser contido para fluir, abundante, por sobre suas faces lívidas. Este só teve forças para assentir, debilmente, confirmando.
Milo não podia, não queria acreditar. Seu olhar tornara-se vidrado. Balbuciou, sentindo-se perdido como nunca:
— Como…? Tu… tu contaste sobre Camus… sobre TUDO… em TEUS diários?
Entre soluços angustiosos, o ex-camareiro menou a cabeça em uma hesitante afirmação. Desorientado, Milo olhou ao redor, temeroso de sucumbir a uma síncope. Então virou-se novamente para o sueco e desferiu-lhe um violento tapa no rosto. Afrodite mordeu o lábio inferior para não gritar. De bruços, pôs-se a chorar copiosamente, consciente de que não faltavam razões para Milo proceder de tal modo.
— Como pôde? Era um segredo de VIDA E MORTE de TEU amigo! – A voz de Milo fazia-se rouca, tremida de puro ódio. Ele puxou o ar, desvairado, antes de prosseguir. – Foi por isso que Shura partiu, não sem antes trancafiar-te nas masmorras. Agora entendo perfeitamente. Ele partiu para Saint-Doulchard, não?
— S-sim…
— E Camus desapareceu sem deixar rastro. Como Shura conseguiu, eu não sei...
— P-perdão! Perdoa-me! Sei que agi mal, que fui imprudente, que...
Com voz incrivelmente controlada, Milo interrompeu-o, duro:
— Cala-te. Não quero mais ouvir tua voz. Se a ouvir novamente, sou capaz de devolver-te às masmorras.
— Pois DEVOLVE-ME! É o que mereço, bem o sei eu!!!
Ouviram batidas à porta.
Aquilo transtornou o conde, que gritou, fora de si:
— Estou ocupado, com mil demônios!!!
A voz abafada de Giuseppe fez-se ouvir através da espessa porta de carvalho:
— Excelentíssimo conde, perdoai-me... um guarda veio avisar que o Marquês de Aguilar acaba de retornar ao solar. Vossos soldados renderam-no.
Tomado de um furor que fazia fremir todas as fibras de seu ser, Milo voltou seu olhar para a porta, seus olhos úmidos e injetados. Deixou o quarto intempestivamente. Ganhou a área externa, os raios do sol vespertino incidindo sobre sua figura altaneira. No pátio do solar, Shura, vestido de negro dos pés à cabeça, o comprido manto balançando levemente com o vento, tinha para si apontadas dezenas de espadas. Ele não fazia qualquer menção de pegar a sua, e se pegasse, não seria um adversário desprezível, malgrado em mui menor número. Ele não parecia nervoso... sequer surpreendido.
Banhado pela luz intensamente dourada, Milo caminhou rumo ao cavaleiro rendido, cujos olhos sombrios não hesitaram em abandonar o chão e cravar-se no impávido cavaleiro que dele se aproximava. O conde deteve-se defronte o espanhol. Ambos encaravam-se com intensidade. Tal era a expressão de Milo que seus homens julgaram que o recém-chegado seria executado ali mesmo. Não obstante, nenhum dos nobres se moveu. Aparentemente sufocado pela visível ira, Milo tão somente sussurrou:
— Shura...
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