Da magia ao sangue
2 Perdendo tudo.
Em choque eu despertei. Tentei gritar por ajuda, mas de meus lábios saiu apenas um gemido alto e dolorido, sem folego, como se meus pulmões ainda estivessem ficado horas sem ar.Olhei em volta e demorei um tempo para perceber onde estava. Aos poucos as lembranças da madrugada retornaram em minha mente. Automaticamente levei a mão até meu pescoço e senti a ferida que ali continha.
O dia já havia amanhecido e havia luz entrando pelas frestas de algumas das cortinas da mansão. Percebi que eu não estava mais no local onde antes havia perdido a consciência, dessa vez estava no salão da entrada, olhei para o lado e mais uma vez uma sensação de horror e choque me invadiu: eu estava ao lado do cadáver de dois colegas um de cada lado meu. Me levantei e percebi que haviam vários outros corpos todos organizados lado a lado, como se alguém os colocasse naquela ordem para poder contá-los.
Eu sei o que você deve estar pensando nesse momento: “se ela é de um clã guerreiro e já fez várias missões, como não está acostumada com a morte? ” Ninguém se acostuma com a morte! Apenas nos conformamos pois sabemos que é um risco a se correr, porém uma vida bruscamente interrompida em um confronto nunca vai parecer algo trivial, pelo menos não para mim. Como bruxas, acreditamos no ciclo natural das coisas, e a ordem natural é morrer por doenças ou velhice, outras formas sempre trarão a sensação de uma pessoa que se foi sem completar sua missão nesse plano.
Enquanto me levantava ouvi vozes ao longe, felizmente eram vozes familiares. Pessoas do meu clã que provavelmente estavam “limpando” a bagunça da batalha para não deixar nada que intrigasse a polícia humana.
— AQUI! – Gritei do saguão, enquanto esperava alguém vir ao meu encontro, eu me sentia extremamente fraca.
— Quem está aí? – Perguntou um homem de meia idade aproximando-se devagar com um tom de voz desconfiado.
— Verônica, sou do seu clã!
— Se aproxime devagar por favor. – Ele pediu ainda com um olhar de cautela como se me avisasse: se eu tentasse algo ele me atacaria.
— Preciso de ajuda. — Pedi enquanto caminhava em sua direção e desabava aos seus pés.
Logo outros homens e mulheres vieram ao meu encontro e me levaram para um veículo. Ao contrário das equipes de combates eles usavam roupas de cor cinza com nosso brasão desenhado no peito.Já a caminho de casa uma mulher veio me acompanhar e sentou-se ao meu lado.
— Tenho muita sede. — Reclamei.
— Calma querida! Já vamos chegar em casa e você será atendida pelos curandeiros, não se preocupe. — Sua voz calma e gentil me tranquilizou e enquanto eu me distraia olhando a janela ouvi-a murmurar um feitiço do sono e perdi novamente a consciência.
Despertei em uma maca, em uma sala extremamente branca com alguns curandeiros a minha volta conversando. Estavam tão entretidos na discussão que não perceberam que eu estava despertando:
— Não sabemos que consequências isso pode vir a ter. – Disse um homem louro de mais idade, o broche dourado em sua gola me informou que ele era o chefe daquela ala.
— Acham que é melhor aplicar a cura?- Perguntou uma mulher á minha esquerda, tinha o cenho franzido como se não concordasse do rumo daquela conversa.
— O conselho solicitou uma reunião esta tarde para decidirmos. – Respondeu o homem.
— E qual a opinião de Úrsula sobre isso?
— Ela não quis nem ver a menina, disse que essa não é mais sua filha e que o conselho pode fazer o que achar melhor.
Um aperto invadiu meu peito, minha mãe havia me entregado nas mãos do conselho e dos curandeiros. E que história é essa de aplicar a cura? Eu estava me sentindo muito bem, não tinha motivos para isso.Quando abri minha boca para protestar e mostrar que havia despertado e estava bem, uma dor terrível invadiu minha gengiva como se algo a rasgasse por dentro. Um gemido gutural escapou de minha garganta eu senti pontas afiadas nos meus caninos.
Eles se sobressaltaram me olhando assustados e se afastaram da cama. Foi aí que percebi que eu estava amarrada com cintos que aparentavam ser de um material tipo couro, porém queimavam meus pulsos e tornozelos sempre que eu tentava força-los para me soltar. Devia ter algum tipo de magia neles para me manter no lugar. Eu não tinha intenção de machucar ninguém, mas ao tentar falar apenas rosnados saiam da minha boca. Aos olhos deles devo ter parecido muito agressiva naquele estado pois começaram a me olhar assustados. Para piorar tudo uma sede terrível me torturava por dentro, queimando minhas entranhas.
— Em meus 30 anos como curandeiro nunca vi nada assim! – Exclamou um deles, e imediatamente todos eles deixaram a sala enquanto eu me debatia.
Minha cabeça fervilhava com mil perguntas: Eu havia me transformado em vampira? Porque a luz do sol não me fez mal quando me trouxeram da mansão para cá? Mais alguma bruxa já havia passado por isso? E a principal delas que me deixava apavorada em pensar nas respostas: O que fariam comigo agora?
Tentei usar minha magia para me soltar, porém nada aconteceu, algo estava errado! A magia era uma parte de mim, eu sempre a sentia fluir por meu corpo como uma corrente que me enchia de vida, poder e força. Agora eu me sentia oca por dentro e quando tentava conjurar um feitiço nada acontecia. Eu estava sozinha, sem magia, sem o apoio de minha mãe e a mercê do conselho. Só de pensar em receber a cura e ficar como os Amaldiçoados eu já sentia uma mistura de enjoo e medo.
Tinha que haver uma forma de sair dali, porém sem magia e com aquela dor me castigando, mesmo se por um milagre eu conseguisse me soltar eu não chegaria muito longe. Quanto mais eu avaliava o local, mais meu pânico aumentava não havia escape. Algum tempo se passou e eu não sabia se foram horas ou minutos. Um rapaz entrou no quarto me trazendo comida. Estava nervoso e tremendo, talvez fosse um novato ou nunca tinha visto nenhuma situação parecida com a minha antes.
— Eu vou te soltar para que possa comer, por favor se comporte! Tudo bem? -Com certeza era novato, um curandeiro experiente jamais soltaria um paciente na minha situação.
Assenti com a cabeça e ele se aproximou se debruçando sobre mim para soltar minhas mãos. Ao se aproximar pude sentir cada detalhe fisiológico e físico de seu corpo: O sangue correndo com cada veia pulsando, seu cheiro ,tudo era mais nítido e ampliado. Minha sede aumentava, minha cabeça doía e eu não conseguia pensar com clareza.
Um instinto primitivo e selvagem me dominou e assim que ele soltou um de minhas mãos eu o puxei para perto e tudo aconteceu tão naturalmente e tão rápido, que no momento eu não tive consciência do que eu estava fazendo. Meus caninos perfuraram sua jugular e senti um prazer imenso invadindo meu corpo enquanto eu sentia seu sangue quente, doce e fresco entrar em contato com minha língua e depois descer garganta abaixo. O pobre rapaz tentou se debater, mas eu estava ficando muito mais forte. Ele tentou usar magia para escapar, mas já era tarde, seu corpo estava desfalecendo. Ele perdeu as forças e os sentidos e mesmo assim eu não conseguia parar.Só voltei a sã consciência quando o deixei caído e sem uma gota de sangue. Assim que percebi o corpo no chão, e minha mão suja de sangue me senti muito enojada, virei para o lado e vomitei parte do sangue que havia ingerido, mesmo assim a sensação não passou.
Ainda atordoada com o que eu havia feito ouvi alguém entrar pela porta: Era Noah. Carregava uma mochila nas costas e vinha sozinho. Assim que viu a cena a sua frente, não pode esconder o choque em seu rosto.
— Me perdoa, eu não quis machucá-lo...- Comecei a soluçar desesperadamente.
— Calma, tudo vai ficar bem mas precisamos ser rápidos!
Ele tentou se aproximar e me abraçar, mas eu o mantive longe colocando a mão em seu peito:
— Não, não chegue perto eu não quero te machucar também.
— Depois falamos sobre isso, agora você tem que sair daqui enquanto a maioria dos Curandeiros e Guerreiros estão em reunião com o conselho.
Ele soltou meus tornozelos e minha outra mão que continuava presa, me jogou uma calça e uma blusa e virou-se de costas para que eu pudesse me trocar. Aproveitei também para lavar as mãos e o rosto e tirar todo aquele sangue .
— O corredor está livre, vou tentar te tirar daqui antes que tentem machucá-la ou te dar a “cura”.
— O que está acontecendo Noah? Eu não tenho para onde ir, minha família está aqui!
— Ouvi um boato de que você está expulsa do clã, se tiver sorte vão entregar você aos Alquimistas para estudos, na pior das hipóteses vão te injetar a “cura”.
— Eu não quero fazer mal a ninguém.
— Acha que o conselho vai acreditar? Ainda mais depois disso. — Disse apontando para o cadáver no chão.
Estremeci e virei o rosto para outro lado.
— Certo, vamos sair daqui.
Realmente o corredor que dava para a saída do hospital estava vazio e alcançamos a porta principal com facilidade. O problema era sair fora do campo de treinamento, pois era cercado com alta magia e apenas pessoas autorizadas recebiam o contrafeitiço para desarmar as barreiras e sair para o mundo exterior. Um grupo de pré-adolescentes passou por nós conversando e rindo despreocupados, provavelmente voltando de algum treino. Noah rapidamente encostou na parede de um dos dormitórios e me puxou para perto dele me abraçando e evitando assim que algum deles visse meu rosto.
— Como vou passar pelas barreiras de proteção? –Questionei assim que eles adentraram.
— Eu recebi as senhas hoje, fui nomeado sucessor da Úrsula.
Não vou mentir, me doeu um pouco receber aquela notícia. Em um único dia perdi minha mãe, o posto de que almejava e depois de passar por aqueles portões perderia também meu clã. Para que Noah não se sentisse culpado disfarcei minha decepção e foquei em andar rápido ao lado dele, para me afastar antes que alguém sentisse minha falta no hospital e eu perdesse minha chance de ir embora.
— Vou desarmar a barreira aqui no fundo dos dormitórios. Você não terá muito tempo, assim que eu o fizer todos os responsáveis por essa barreira vão sentir que tem algo errado e vão começar a cercar o local. Ainda mais se se derem conta de que você é a fugitiva.
Fugitiva, era isso que eu passaria a ser dali uns cinco minutos.
— Certo. — Assenti ainda escondendo meus receios.
— Dentro dessa mochila tem dinheiro para que você possa se esconder entre os humanos, até eu conseguir um jeito de te ajudar com sua ... situação.
Respirei fundo e assenti, não era hora de ficar chateada por ele não conseguir se referir as coisas como eram, nem eu mesma estava sabendo lidar com tudo.
— Dentro também tem um celular, daqueles que os humanos usam para se comunicar, como você não tem mais magia é a única forma de entrar em contato.
Eu sabia usar um celular e o fato dele querer explicar tudo como se eu fosse uma criança me irritava, mas suas intenções eram boas então eu não disse nada.
— Por que está fazendo tudo isso para me ajudar?
— Porque eu te amo, você é minha amiga e quero o seu melhor. – Amiga? O que aconteceu com o: “namorada”?
— Como a brecha na barreira vai ficar aberta pouco tempo você vai ter que tentar usar seus instintos de vampira e correr. Não sei como você ativa isso, mas é sua única chance pois não tem como tentar tirar um veículo daqui sem ser pega.
— Vou tentar, também não sei como funciona. – Comecei a entrar em pânico outra vez.
— Boa sorte! – Dizendo isso ele começou a murmurar algumas palavras. – Pronto! Você tem alguns minutos de vantagem antes que percebam que a barreira foi violada.
— Obrigada! – Agradeci enquanto começava a correr sem olhar para trás.
Noah estava certo eu realmente tinha super velocidade. Era mais como um instinto, assim que meus pés começaram a se mover eu sabia exatamente o que fazer e onde ir para não ser pega. A sensação de liberdade era maravilhosa enquanto eu corria e sentia o vento contra meu rosto, assim eu fiz por um bom tempo até ter certeza de que estava fora de risco. Agora eu precisava encontrar um lugar para dormir e pensar melhor no que fazer. Eu não sabia o quanto havia me afastado mas era muito, estava em lugar desconhecido provavelmente fora da cidade.
Andei até encontrar uma pensão, felizmente tinha quartos disponíveis e como era próximo da Universidade local não foi nenhuma surpresa para a dona ver uma jovem buscando um quarto naquele fim de semana.
— E então querida, veio para o fim de semana dos calouros? – Ela era bem simpática mas perguntava demais.
— Sim, estou analisando ainda algumas opções e vim de outra cidade conhecer essa Universidade.
— Qual cidade?
— Uma cidadezinha aqui perto. – Desconversei.
— Este é o seu quarto. – Disse abrindo a porta no final do corredor do segundo andar.O quarto era pequeno porém muito aconchegante.
— Obrigada!
— Não esqueça: o jantar será servido as oito em ponto, caso vá comer fora me avise.
Comer, eu não podia nem pensar nisso.
— Não se preocupe comigo! Vou jantar fora e conhecer as redondezas.
— Como quiser. – Ela sorriu amavelmente e fechou a porta.
Joguei minha mochila em um canto e desabei na cama, cansada, confusa e com a cabeça cheia de perguntas. O que eu faria agora? O dinheiro e as roupas que Noah me deu não iam durar para sempre. Enquanto eu não conseguisse resolver minha situação e voltar para o meu clã eu viveria disfarçada como humana? Procuraria os vampiros? E a maior de todas as questões, eu conseguiria reverter minha situação? Além de não haver nenhuma cura saudável para o vampirismo, eu nunca havia escutado falar de uma bruxa que havia sido transformada.Foi assim que passei minha primeira noite sozinha longe do meu clã no mundo humano.
No dia seguinte acordei bem cedo, olhava o celular a cada minuto procurando uma mensagem de Noah,e não havia nada. As coisas deviam estar conturbadas com minha fuga. Eu não sabia se era seguro o local onde eu estava, eu sabia que era próximo de onde fugi, porém eu não podia ir muito longe, precisava ficar por perto até conseguir reverter tudo para voltar para casa. Com sorte eu resolveria tudo em um piscar de olhos.
O lado bom era que essa região da Universidade era como uma cidadezinha pequena e afastada, era próxima o bastante caso eu precisasse voltar, mas ao mesmo tempo isolada para que eu pudesse resolver tudo em paz, bastava ser cuidadosa e não deixar rastros. O ideal era me misturar com os humanos, me camuflar enquanto tentava entender minha situação.Decidi andar por ali para pensar melhor. Céu estava azul, o sol começando a aquecer a grama e secando o orvalho da madrugada. Tudo parecia ter mais cor, as vozes mais altas, cada detalhe mais acentuado. Eu sabia que tudo isso era efeito do vampirismo, a única coisa que eu não sabia era porque eu consegui andar a luz do sol tranquilamente. Provavelmente a resposta tinha algo haver com minha linhagem bruxa.
Perdida em meus pensamentos fui caminhando até perceber que estava em frente a Universidade. O campus era enorme e aberto, com grama e árvores onde os estudantes sentavam-se para conversar, ler, mexer em seus celulares e até namorar. A universidade era um prédio enorme, muito bonito e antigo. Atrás ficavam os dormitórios e ao redor haviam alguns supermercados, cafeterias e lojas.
Me sentei em uma cafeteria localizada na frente do gramado do campus onde ainda dava para observar as pessoas em suas vidas tranquilas.
— Bom dia! O que vai beber?
Uma moça de cabelos negros e compridos se aproximou com um bloquinho em uma mão e uma caneta na outra. O que me chamou a atenção nela foram suas tatuagens, eram algumas runas que me eram familiares.
— Um café simples por favor. – Pedi torcendo para não vomitar tudo assim que o bebesse. Eu ainda não tinha resolvido como ia lidar com minha nova “dieta”.
— RYAN! UM CAFÉ! — Gritou para o rapaz atrás do balcão.
E sem cerimônia alguma ela puxou uma cadeira e sentou de frente para mim tapando parte da vista que eu tanto estava apreciando.
— Você é nova por aqui né?—Eu não estava muito afim de conversar, mas naquele ponto eu já não tinha mais escolha.
— Sim cheguei ontem, estou tentando conhecer o local.
— Meu nome é Ruby. – Disse estendendo a mão.
— Verônica. – Disse apertando sua mão.
Assim que disse meu nome e imediatamente percebi que devia ter dado um nome falso. Eu era péssima naquilo.
— E então o que a traz aqui? — Perguntou apoiando os cotovelos na mesa como se estivesse buscando uma pose confortável para ouvir minha história de vida. Eu estava perplexa em ver como as pessoas locais eram curiosas.
— Vim em busca de um emprego, talvez refazer a vida aqui.
— Tantos lugares e você vem refazer a vida aqui nesse lugarzinho afastado? Sabia que a cidade grande fica a pouquíssimos minutos daqui né?- Se eu sabia? Era de lá que eu estava fugindo.
— Claro, mas esse campus é muito inspirador para... escrever! – Disse a primeira coisa que passou pela minha cabeça.
— Olha, uma escritora!
— Sim tenho grande interesse pelo sobrenatural, ou fatos históricos interligados com boatos sobrenaturais.
— Se você se interessa tanto pelo assunto devia fazer uma visita na biblioteca da universidade, eles têm uma ala inteira sobre esses assuntos. Vai te inspirar a escrever.
O garoto a chamou no balcão e ela foi buscar o meu pedido.
— Seu café! Vou te deixar aprecia-lo em paz. Disse sorrindo – Se precisar de algo mais é só me procurar.
— Obrigada Ruby. –Agradeci, pois de fato ela acabou me ajudando com a informação sobre a biblioteca. Eu poderia começar a buscar informações lá.
Tomei meu café e fui até o balcão pagar a conta, enquanto recebia o dinheiro Ruby me perguntou:
— Já tem onde ficar?
— Estou em uma pensão aqui perto.
— Essas pensões são muito caras, se for ficar aqui por um tempo vai ter que encontrar um local melhor. Dito isso, estou procurando uma colega para dividir o aluguel do apartamento onde vivo, o que acha?
A pergunta me pegou de surpresa, eu realmente ia precisar de um lugar melhor para ficar, mas será que ia dar certo morar junto com essa enxerida?
— Valeu pela oferta, não posso te dar uma resposta agora, antes preciso conseguir um emprego.
— Ótimo! Estamos precisando de uma garçonete a mais para trabalhar em alguns dias da semana, é um freelance mas se quiser posso falar com o dono.
Ela era tão invasiva que quando me dei conta já havia aceitado.
— Este é o endereço! Aparece lá a noite e arrumamos seu quarto. Sobre o emprego converso hoje com nosso chefe e a noite te conto se deu tudo certo. Sinto que vamos ser grandes amigas! – Disse dando um pulinho.
Não tive opção senão a de sorrir de volta.
— Nos vemos a noite então. – Me despedi acenando enquanto me afastava rapidamente dali antes que ele conseguisse me convencer a vender um rim no mercado negro também, que menina insistente!
Resolvi explorar a biblioteca da universidade, aparentemente era livre para quem não era aluno também. Passei o dia em meios a livros empoeirados e não encontrei nada que fosse relevante. No fim, acabei levando para casa um livro juvenil, um romance sobre vampiros. Chegando o final da tarde, com as poucas coisas que eu tinha na mochila fechei a conta com a dona da pensão e me dirigi ao endereço que Ruby me dera. Andei um pouco até encontrar um conjunto de prédios algumas quadras atrás de onde era a cafeteria. Apertei o interfone e a logo ouvi a voz de Ruby:
— Pode subir colega!
A porta automática destravou e eu subi as escadas até encontrar o apartamento 204. A maluca já me esperava na porta com um sorriso animado. Que pessoa em sã consciência levava para sua casa uma pessoa desconhecida e ainda ficava empolgada com isso?
— Seja bem-vinda esse será o seu apartamento também. – Disse estendendo o braço e revelando um local modesto, porém muito limpo e organizado.
Adentrei o local e segui a garota até onde seria o meu quarto. Continha apenas uma cama, um guarda-roupas e uma Televisão suspensa.
— Está bem vazio, mas aos poucos você pode pintar e decorar para ficar com seu estilo.
— Está ótimo. — Para quem dormia no campo de treinamento com uma cama de armar e mais quatro pessoas no mesmo quarto, aquele cômodo era equivalente a uma mansão.
— E sobre seu emprego, adivinha? – E antes que eu pudesse abrir a boca ela mesma respondeu: – Consegui. Você pode começar amanhã, não é maravilhoso?
— Espetacular! – falei com falsa animação. O emprego era ótimo, mas eu ia demorar para me acostumar com aquela animação extrema de Ruby.
— Eu vou sair a noite, mas pode ficar à vontade pra pegar o que quiser na geladeira.
— Não se preocupe comigo, afinal como você disse: estou em casa.
— Isso mesmo, já estou adorando compartilhar o apartamento com minha colega Verô.
Antes que ela ficasse à vontade para me chamar por apelidos, fui para o quarto guardar minhas coisas. O celular começou a tocar e a tela mostrava um número desconhecido. Apertei o botão verde, mas não falei nada esperei a pessoa do outro lado da linha se manifestar:
— Verônica? – Era a voz de Noah.
— Noah! Você está bem? – Era bom ouvir uma voz familiar.
— Mais ou menos, por aqui está um caos depois de sua fuga. Estão com medo de que você se alie aos vampiros, e eles não sabem como seria alguém de sangue bruxo nas mãos deles.
— Eu jamais me juntaria a eles! – Exclamei indignada.
— Eu sei disso, mas sabe como o grande conselho é: veem como inimigo tudo o que não está sob o controle deles.
— E alguém desconfiou que você me ajudou?
— Ainda não e estou cuidando para não levantar suspeitas. Preciso desligar, só queria saber se você está bem.
— Estou ótima, não se preocupe.
— Até mais então.
— Até e mais uma vez obrigada por tudo.
— Preciso dizer mais uma coisa antes de desligar. – Sua voz soava um pouco nervosa.
— Pode falar.
— Eu queria deixar claro sobre nós, sabe que eu gosto muito de você, mas não sabemos quanto tempo vai ficar longe e nem se um dia vai conseguir voltar. Por isso não posso continuar sendo o seu namorado. Você me entende?
Ah Noah... Sempre o mesmo, fazendo algo bom e depois dando uma punhalada nas costas! Eu já esperava isso, mas depois de ter sido transformada minhas emoções se intensificaram e não pude controlar a raiva:
— Meu querido...VAI A MERDA! – Desliguei o telefone.
Realmente agora eu não tinha mais nada da minha antiga vida.Com tanta coisa na cabeça, foi impossível dormir. Pra ajudar, meus instintos de predadora me mantinham acordada a noite provavelmente para caçar. Esse era mais um problema a ser resolvido: eu me recusava a me alimentar de um humano novamente, mas se ficasse muito tempo sem comer ia acabar perdendo o controle de novo.
De madrugada ouvi Ruby entrar no apartamento aos risinhos, pelo barulho ela trouxera alguém para dormir em casa e era um alguém nada discreto. Tentei abafar os sons com o travesseiro. Era impossível dormir assim, não sei como duas pessoas conseguiam rir tão alto. Isso tudo sem contar os outros tipos de barulhos que estavam fazendo.
Sem poder descansar saí do apartamento e subi até o terraço onde encontrei um lugar para me sentar e ler o livro que eu trouxe da biblioteca. E foi durante a leitura que comecei a ver uma chance de solucionar meu problema. No livro o protagonista, que também fora transformado, tentava encontrar o vampiro que o mordeu para mata-lo e assim voltar a ser humano.E se isso desse certo na realidade? Eu recuperaria meus poderes? Se fosse assim eu só precisava encontrar o dono daquele rosto, aquele rosto que eu vi minutos antes de perder os sentidos e morrer. Agora eu tinha um objetivo mais claro: mesmo que não funcionasse eu teria pelo menos o prazer de enfiar uma estaca no coração de quem me transformou.
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