Da Infância à Adolescência

18 Capítulo XVIII. Através da Armação


Notas iniciais
Especial thanks para o Elsword-kun, Lana-chan e Amystar-chan pelos últimos comentários XD! Espero que gostem do capítulo, boa leitura!

Parecia que aquele não era o dia para ninguém. O treino ia de mal a pior pela desconcentração de Sieghart, mas mais por causa de terem chamado Jin, que era do boxe, como substituto no lugar de Dio tinha faltado no treino por algum “motivo médico”.

— Queria eu ter o remédio pro problema que ele tem. — resmungou o ruivo‚ fazendo os mais próximos rirem.

Quando receberam uma pausa‚ Sieghart se aproximou do ruivo‚ que parecia triplamente desanimado com sua performance vergonhosa em campo. Ele se abaixou ao lado do longo banco e pegou o squeeze e a toalha para então pô-la em volta do pescoço e sentar-se como quem não quer nada.

O silêncio não perdurou.

— Você ainda está pensando no jornal? — Sieghart perguntou.

— Tá tão na cara assim? Mas estou bem com isso‚ aliás‚ é tudo mentira mesmo. — Jin riu sem graça. — E você continua se preocupando com os outros... Tipo um líder.

Sieghart deu de ombros. Não tinha gostado da indireta, mas era melhor não dar bola para aquilo. Jin estava suficientemente mal e ele era a última pessoa do mundo que merecia estar naquela situação.

— Sieg‚ você não acha estranho que a outra pessoa além da Amy é logo a Elesis?

O moreno arqueou a sobrancelha‚ intrigado.

— É‚ você tem razão. A ruivinha só parece atrair problemas. Eu já achava isso antes, mas agora estou quase acreditando no lance da maldição.

“Se ela me ouvisse agora com certeza eu iria apanhar”. Sieghart engoliu em seco.

— Eu sei que os caras disseram para você ajudar, mas não é sua responsabilidade. Se você não quiser se envolver eu entendo. — Jin disse com os olhos baixos. — A Amy parecia não querer nossa ajuda também.

Houve uma pausa entre os dois e logo um suspiro pesado. Os amigos riram um para o outro.

— Gostar de alguém é difícil né? — perguntou o ruivo.

— Nem me diga hahah.

Jin coçou a testa, arrumando a franja.

— Faz um tempo que não temos uma agitação assim né? — murmurou Jin assistindo os colegas voltarem ao treino. Sieg mexeu nas meias e concordou com um aceno.

— Não é o mesmo tipo de agitação‚ claro. Antes tudo era mais... agressivo. Mas até que gosto dessa tensão em parte. Quando vi Elesis lutando‚ foi como viver aqueles dias de novo. — Sieghart riu‚ nostálgico.

— Mas?

— Mas as coisas ruins voltam‚ Jin‚ por isso eu queria parar enquanto dá tempo. Evitar falar disso. — o moreno apertou os olhos. ­— Fazer tudo desaparecer.

Jin deu um riso soando como se o moreno estivesse falando alguma besteira muito grande. Sieg fez um bico e deu um tapa amigável na nuca do rapaz.

O som do portão de grade que separava o campo da arquibancada os tirou da paz momentânea. Os dois olharam na direção de Dio‚ que se sentou entre ambos‚ jogando um braço por cima do ombro de cada um e jogando a bomba.

— Acho que vocês vão querer saber quem está perseguindo a Elesis.

XXX

Ela estava desconfiada com a atitude de Zero. Ela tinha dado apenas uma hora para o rapaz e, dentro de seus termos, ele só deveria ajudá-la a estudar química. Ainda assim‚ ele se sentou do lado da ruiva numa distância segura e não fez nenhum movimento estranho. Mas acima de tudo‚ ele não olhava na direção dela em momento nenhum.

Com toda a objetividade‚ o rapaz pegou o livro e abriu no índice‚ interrogando-a sobre os pontos que ela tinha mais dificuldade. Desde aquele momento ele explicou unicamente sobre a disciplina e quarenta minutos depois Elesis estava impressionada e confusa.

Ela não conseguia entender o que estava acontecendo ali. O garoto de óculos escuro era bizarro sim, mas ele definitivamente não parecia ser a espécie de pessoa que faria algo como espalhar mentiras como a matéria do jornal. Essa sensação não a abandonava enquanto ela o espiava pelo canto do olho.

— Elesis?

A ruiva levantou a cabeça para ele em choque pelo som de seu nome tão profundo e grave. Ela jurava ter sentido uma leve estaticidade em algum lugar perto de seu ventre. De repente, Zero não parecia esquisito... Na verdade, ele poderia muito bem ser bonito detrás daqueles óculos.

­— Tem alguma coisa no meu rosto?

— Bem... Não exatamente. — Elesis respondeu, abaixando a caneta. — Posso te fazer uma pergunta meio íntima?

O rapaz abriu a boca um pouco deixando clara sua surpresa, mas ele se endireitou na cadeira.

— Eu não achei que você estaria curiosa sobre alguma coisa em relação a mim.

— Tecnicamente, é uma coisa que todas as pessoas querem saber.

Ela não aguentava mais segurar a curiosidade.

— O-... Okay... Pode perguntar.

Elesis ainda segurou um pouco, vendo os ombros do rapaz em tensão e os lábios crispando.

“Tudo isso é timidez?” Elesis se perguntou. “Até agora essa seriedade é por pura timidez?”

Zero apertou a caneta e baixou a cabeça um pouco. Agora ela tinha certeza... Ele não conseguia olhá-la nos olhos.

— Por que você usa óculos escuros no colégio?

Em vez de responder imediatamente ele soltou um suspiro e coçou a nuca. Elesis quase soltou um riso, mas manteve a seriedade.

— Não gosto de mostrar meu rosto para as pessoas... É mais fácil assim — ele respondeu.

“Lisnar do céu... O rapaz só pode ter um parafuso solto mesmo.”

Elesis tocou a têmpora, indicando que estava pensando em algo. Logo ela o fitou e disse:

— Por isso você não se comunica com ninguém? Acredite eu sei como é ser assim.

— Eu não quero falar sobre isso. Podemos voltar a estudar?

Elesis franziu o cenho. Ela estava ali se importando pelo cara... Tudo bem não era da conta dela, mas isso a deixava irritada ainda assim. Elesis virou-se ainda o olhando e resmungou.

— E como você quer que gostem de você se não mostrar seus olhos para elas?

Zero apertou os dedos no livro e virou a cabeça para ela. De alguma forma ela percebeu que ele tinha sentido essa.

— E você não se incomodaria se uma pessoa evitasse te olhar o tempo todo? Mesmo falando com você os olhos dela ficam cravados no chão. Você não se sentiria mal ou até mesmo ignorada?

Elesis piscou surpresa. Provavelmente era a primeira vez que ele falava mais de duas frases e num tom tão defensivo.

— Então você vai se esconder atrás dessa armação escura por que é mais fácil? Se você não puder olhar a pessoa que gosta nos olhos e falar claramente o que quer nunca vai ser correspondido.

Houve uma pausa constrangedora entre eles por um momento.

— V-Você... Você é bem insistente... — Zero reclamou deixando o livro na mesa e virando na cadeira para ela. — Você quer tanto assim me fazer tirar?

Elesis sorriu mentalmente com aquilo.

— Eu só acho que conversar com você com isso na cara sem necessidade é um incômodo.

Ele respirou fundo e segurou as hastes.

— Não é para contar pra ninguém. Eu vou mostrar só para você.

— Sério? Apesar de que mesmo assim você deveria parar de usar.

— Já disse que não.

Ele esperou um segundo e deslizou os óculos para fora. A franja longa caiu sobre os olhos e ele manteve as órbitas no chão.

Elesis ficou parada observando. Os olhos dele eram bonitos na verdade. A cor dos olhos era um caramelo muito claro puxando para o mel e eram grandes. Os cílios eram mais longos que o normal.

— Eh... Você até que é bem bonito. — ela disse sorrindo.

Devia ter sido o tom que ela usou, pois o rosto claro de Zero ganhou um leve rubor e ele lentamente levantou o olhar e encontrou com o dela. Não demorou para ele se virar para a mesa de novo encolhendo os ombros.

— Eu até consigo olhar para as pessoas de vez em quando, mas acho que não consigo te olhar tanto tempo porque você é muito atraente.

Elesis enrubesceu não conseguindo conter uma risada envergonhada.

— A-Acho que obrigada né? Você pode ir se acostumando com o tempo. Não precisa se forçar a mudar do nada sabe?

Ela ainda o viu dando um sorrisinho e tentando olhá-la mais uma vez.

— Você... Acha que eu não fico estranho assim? — ele indagou, fitando-a com muita relutância.

Elesis nem hesitou.

— Óbvio que não. Sem dúvida acho pior ficar andando de óculos escuros por aí. Tipo, por acaso você é uma velha rica? Acho que não. — Elesis respondeu mal contendo sua risada maldosa.

Felizmente o rapaz sorriu com aquilo.

— Elesis?

— Uhm?

Ela arregalou os olhos quando ele tomou coragem e segurou sua mão. Ele hesitou um pouco, mas se aproximou.

— Obrigado...

Ela sentiu o rosto quente. Os olhos mel a atravessando.

“Muito perto!”

— Eu te acho ainda mais atraente agora.

— Er... — Elesis tentou se afastar um pouco se sentindo constrangida e sem graça.

— Eu sei que você não tem interesse algum em mim e assim que acabarmos aqui eu não vou mais te incomodar. Eu queria, apenas agora, saber se eu posso... — ele pausou, deixando um vazio incômodo no ar. —... Te beijar?

“Nãoooooo!” A ruiva sentiu o coração quase falhando. Okay, ele era bonito? Sim. Mas ele não era o cara que tinha roubado sua calcinha? Que tinha hackeado as fotos? Que a tinha subornado? É. Por aí.

— Zero. — ela soltou as mãos dele e suspirou. — Eu não esqueci que você fez aquela montagem minha e da Amy e-,

— Do que você tá falando? Você está fugindo do assunto é isso? — ele retrucou se aproximando repentinamente dela.

Elesis se assustou com o movimento e de alguma forma a perna da sua cadeira saiu de equilíbrio.

No instante seguinte Elesis estava no chão e Zero a olhava de cima pálido, as mãos do lado de sua cabeça. Antes de soltar um A, a porta da sala bateu aberta e entrou um trio de caras uniformizados em correria.

— O que é isso?! — Elesis gritou ao ver Zero sendo puxado brutalmente e colocado de pé.

Foi apenas um momento até ela notar Sieghart o segurando pelo colarinho da blusa e soltando o verbo. Enquanto isso Dio a ajudava a se levantar.

— Fala agora! O que você estava fazendo com ela?!

— A gente viu você em cima dela seu tarado! — Jin apontou, furioso, atrás do moreno.

— Caralho! Pára com isso! — Elesis mandou, extremamente passada, tirando as mãos de Sieghart do outro. — Tão doido? O quê que tá acontecendo? Vocês aparecendo do nada e fazendo todo esse auê!

Os rapazes se entreolharam sem dizer nada, deixando claro que tudo era um mal-entendido pelo visto.

— Eu não sei... Parecia que ele tinha te atacado ou coisa assim... — falou o moreno.

— Atacar? Eu tenho cara de quem atacaria alguém? — Zero retrucou.

Elesis piscou e notou um envelope caindo do bolso de Zero no chão. Ela se abaixou e tomou o papel nas mãos.

— Você é nosso amigo, mas você tem sim. — Dio e Jin responderam juntos.

— Dá pra calar a boca todo mundo? — Elesis rosnou levantando o envelope e olhando para Zero.

Sieghart piscou para o objeto e indagou:

— Não é a cartinha de amor que estava com você ontem?

— É. — ela respondeu, abrindo. — Uhm. Não diz de quem é, mas é a mesma coisa... Que é meu admirador secreto, que quer me ver pessoalmente. E tem uma foto...

Elesis ficou vermelha ao ver a foto e amassou-a imediatamente deixando todos curiosos. Sieghart franziu o cenho meio que sabendo já qual foto era.

— Por que você está com isso? — Elesis perguntou para Zero. — Você também estava com as fotos, claro, mas essa carta tinha sido entregue para mim e depois ela sumiu. Por que você a pegou de volta?

O rapaz olhou para ela como se ela fosse um alienígena.

— Eu não peguei “de volta”. Eu só peguei. Eu quis deixar uma confissão por escrito, mas aí encontrei a carta desse cara. E como rival, pensei que o melhor era me livrar das cartas e das fotos dele. A lógica é que uma hora ele teria que aparecer e me enfrentar cara a cara, mas isso não aconteceu ainda.

Elesis abriu a boca, confusa.

— Você está dizendo que a única coisa que fez foi roubar as cartas do meu armário?

Zero deu de ombros.

— Eu não tive coragem de chegar diretamente para sair. Quando ouvi que você precisava de ajuda nos estudos, aproveitei para devolver as fotos em troca de passar um tempo com você.

— Por isso a última carta você não conseguiu roubar. Eu estava no vestiário feminino. — Elesis coçou a testa. — A sua atitude estava muito diferente do esperado. O admirador secreto é muito obstinado, fala de um jeito muito romântico e não parece ser uma pessoa tão tímida como você.

— Não foi o Zero que escreveu a matéria então? — Jin indagou.

— Obviamente não. — deduziu a ruiva. — Zero prometeu me deixar em paz. Já o admirador disse que não esperava para me mostrar que nós fomos feitos um para o outro. Tipo... Esse cara parece que não vai desistir tão fácil. Ele até invadiu o vestiário para deixar uma carta.

— Parece que você não é o vilão dessa vez, colega. — disse Dio para o rapaz de cabelo longo.

— Continua sendo um stalker. — murmurou o Rei, mostrando o dedo do meio para o colega. — Não incomode mais a ruivinha, tá ouvindo?

— Fica na sua, Sieghart. — rebateu a ruiva. — Você é pior do que ele.

— De um jeito ou outro, vamos precisar cercar o dono dessa carta. Ele vai aparecer em algum momento. Eles sempre aparecem. — Jin interrompeu.

— Espera aí, Jin. Eu não quero vocês se envolvam nisso. Eu e as meninas estamos tentando resolver o problema.

No silêncio que ficou, Elesis notou que o ruivo estava realmente intrigado com o que estava rolando. Aí ela se lembrou que ele estava queimado também na matéria e ao mesmo tempo ele e Amy não estavam se falando mais. Elesis afirmava com segurança que Jin era o único cara ali que ela tinha algum afeto de verdade.

— Olha... Eu vou deixar vocês informados. Eu estou me comunicando com o Lass também. Só prometam que não vão fazer um alvoroço igual esse outra vez. — ela apontou para eles. — Jin, o Lass está procurando o responsável pelas montagens. Acho que se você juntar a ele vai ser melhor. O Lass é super competente e tem acesso a tudo. É mais provável que ele chegue na resposta antes de mim.

— Eli-chan, você é um anjo. — Jin agradeceu.

Sieghart franziu o cenho e tomou a fala.

— Você já não causou problemas demais pra gente, ruivinha?

— Problemas para o seu amigo aí, você quer dizer. — murmurou Dio cheio de sarcasmo no ouvido do amigo. Sieghart sentiu uma veia saltando em sua testa.

— Eu não me lembro de ter chamado ninguém aqui e nem de ter destruído propriedade particular, Sr. Arrebenta-Portas. — Elesis respondeu com uma expressão ofendida, cruzando os braços. — Quer ajudar, beleza. Não quer ajudar, não fica cagando e andando na minha frente.

Os meninos viram o moreno apertar o lábio, indo de branco a vermelho. Ninguém ali entendia porque ele ainda tentava ganhar dela. Nem ele.

— Que tal a gente comprar pão? — Jin perguntou, batendo uma palma e ir empurrando os outros para fora.

Zero ainda ficou parado do lado da ruiva. Quando todos saíram, ele sentiu que estava devendo desculpas para todos.

— Eu sempre tive uma impressão ruim sua, Zero. Mas por causa de tudo isso que aconteceu eu tive a oportunidade de entender algumas coisas, por isso não se sinta tão culpado. — ela disse, começando a arrumar seu material.

— Você é muito boa com quem não merece, Elesis. — ele murmurou. — Assim eu vou achar que tenho chan-,

— Acho que você não me conhece direito, Zero. Eu não fui clara, mas eu estava prestes a te dizer que você não tem chance comigo. Pare de me perseguir senão eu vou te impossibilitar de ter filhos. Agora que você não precisa mais daquela porcaria, vá e seja feliz. Eu já tô indo, fui.

O rapaz a viu sair da sala sem mais. Ele pôs a mão no rosto, percebendo só então que o tempo todo ele não esteve usando os óculos.

Continua

Notas finais
Obrigada por ler! Se puder deixe um comentário para dar uma incentivada aí XD! Beijos até o próximo!