Dékes

5 O Louco e o Mágico


A atmosfera dentro da barreira era opressora. A cidade coberta da escuridão da noite, presa no tempo. Nuvens acima acinzentadas em um turbilhão constante e inquieto, com uma leve neblina escondendo parte de nossa visão algumas dezenas de metros à frente. Bom, mais para a visão deles, eu continuava na mesma, mesmo que fosse um pouco confuso com a energia demoníaca que parecia emanar por todo lugar.

Nós caminhávamos pelas ruas, em sua maioria vazias, com alguns poucos pontos com carros abandonados, provavelmente pessoas que tentaram escapar e falharam. Não conseguia deixar de perceber alguns sinais de explosões e alguns espinhos cravados em certos locais. Aqueles dois definitivamente estiveram aqui, mesmo que, com sorte, não mais.

Pouco tempo depois, nós paramos em um cruzamento. Hunter olhava seu celular, provavelmente o mapa da cidade na tela. Depois de alguns momentos em silêncio, ele se vira para nós dois, sério.

“Beleza. De acordo com o mapa, aquela região é onde fica a prefeitura e a Praça New Dawn. Ei, Dékes, você consegue ver?” Hunter pergunta, olhando para mim.

Me viro na direção que ele apontava, ao longe, conseguia sentir. Era o ponto com a maior intensidade de magia demoníaca de todo local, o epicentro da barreira. Aquela energia era realmente poderosa, quase como um farol na escuridão, mesmo que...

“É... Lindo? Por quê? Não faz sentido, isso não deveria ser assim. Normalmente...” Aquela energia era gentil demais. Geralt e Seraphina tinham crueldade, arrogância, almas horríveis de se olhar, mas aquilo era o absoluto oposto. “É uma energia calma, bem no centro. Parece até um farol de tão poderosa. E... Tem algo a mais. É algo mais sombrio, logo abaixo. Algo como fumaça, sabe? Não sei o que é.”

“Bom, é algo eu suponho. Você não conhece muito ainda, não te culpo se não consegue entender o que é.” Ele concorda com a cabeça. “Vocês lembram da gravação de áudio?”

Lembro das vozes, os tiros e o pedido desesperado por reforços. Antes que eu pudesse dizer algo, entretanto, Angelyne responde primeiro.

“Mortos-Vivos? Mas isso é...”

“Não tem garantia, mas esse nível de energia, e os relatos do Dékes definitivamente podem facilmente levar pra essa conclusão. O demônio mantendo a barreira é obviamente outro dos Anjos de Lúcifer, e considerando que é um Grigori, que ficou aqui ao invés de perseguir o Dékes como os outros dois. Ele pode muito bem ter algum tipo de poder ou benção dela.” Hunter afirma, cruzando os braços. Apreensão e determinação. “Angie, leva o Dékes até o endereço, rápido.” Ele ordena, apontando para a direção quase oposta, onde parecia haver a área residencial da cidade. “Lembra do que eu te falei. Você é a responsável enquanto eu não estiver por perto. Vai dar tudo certo.” Com isso, Hunter deu as costas para nós, desaparecendo em meio a neblina. Pude ver sua alma se afastando, poderosa, determinada. Apesar do que mostrava normalmente, agora ele parecia mais sério do que nunca.

Angelyne pensou em falar algo, mas Hunter já havia desaparecido. Ela cerrou seus punhos, nervosa e com medo, por ele. Parecia frustrada, uma mão apertando seu outro braço. Coloquei uma mão em seu ombro, sorrindo levemente. É tão difícil assegurar alguém quando eu mesmo estava tão perdido, porém, nós estávamos juntos nessa, e agora que havíamos entrado no campo de batalha, não podíamos dar as costas.

Ela olha para mim, surpresa, antes de abrir um sorriso leve. “Acho que a gente tem que continuar, né? Vamos, isso é importante também.” Angelyne olha para o próprio celular, um mapa na tela. “Não deve demorar tanto. Só fica de olho pra mim, tá? Você deve ver melhor que eu nesse lugar.” Ela ri.

“Provavelmente, mesmo que seja estranho, é muito quieto e mais escuro do que deveria pra uma cidade... Faz sentido, eu sei, mas ainda é estranho.” Concordo, a seguindo pela rua.

Em pouco tempo os prédios maiores davam lugar a outros mais simples. Lojas, mercados, e obviamente múltiplas casas, algumas menores, enquanto outras tinham múltiplos andares. Apesar de tudo, era um lugar bonito, colorido, árvores e flores davam um ar confortável na região, mesmo que não fosse o suficiente para tirar o ar sombrio que a escuridão noturna e aquela neblina davam. Por algum motivo, ainda parecia ter luz no local, mesmo que parecesse instável em sua maioria, postes picando, múltiplos prédios na absoluta escuridão enquanto outros estavam claros.

Quanto mais andávamos, mais familiar tudo parecia. Nós passamos a frente de uma feira, as tendas levantadas, provavelmente prontas para receber pessoas tanto para vender quanto para comprar itens em um dia seguinte que jamais havia chegado.

O silêncio parecia tornar nossos passos ainda mais altos. Meus passos leves e os mais pesados das botas da Angelyne, parecia até ecoar ao redor, mas poderia ser apenas impressão minha. Mesmo que às vezes eu parecia escutar passos extras ao nosso redor. Meu medo? Ansiedade? Ou algo mais? Era difícil de saber, minha visão de alma não percebia nada além de nós dois e a pouco energia das plantas ao redor. Porém... Aquela fumaça ainda aparecia na base da minha visão.

“Ei, Dékes. Me diz, por que você sempre fica de cabeça baixa?” Angelyne pergunta, claramente desconfortável com o silêncio e tentando puxar conversa para aliviar a tensão. “Foi mal, sei que é coisa sua, é só que, né. Você sempre desvia o olhar quando alguém olha pra você.”

Paro por um segundo, surpreso e um pouco envergonhado. Era verdade, mas sinceramente, era mais um hábito do que qualquer coisa. Por que eu sequer fazia aquilo?

“Desculpa, muito invasivo? Foi mal. Não precisa responder.” Ela volta atrás, não querendo me deixar desconfortável.

“Não, tá tudo bem... É só... Não sei, só costume.” Realmente, até agora eu mantinha meu olhar baixo, ou meus cabelos escondiam meus olhos se eu levantasse a cabeça. Entretanto, algo veio na minha mente. “As pessoas não gostam de olhar nos meus olhos. Ficam desconfortáveis, eu suponho. Sei lá, acho que eles só são estranhos? Um vazio sem pupilas e tudo mais.”

Ela levanta uma sobrancelha. “É por isso que a Zero parecia evitar te olhar nos olhos? O Hunter mesmo parecia evitar também pra falar a verdade.” Ela para na minha frente repentinamente, segurando meus ombros e se abaixando levemente – afinal era um pouco mais alta do que eu – para estar na altura dos meus olhos. Um olhar sério, com ela me olhando diretamente nos olhos.

Corei levemente com a ação, um pouco surpreso. Minha primeira reação foi olhar para o lado, mas ela virou a cabeça para manter contato. A primeira reação dela foi arregalar os olhos por alguns segundos, surpresa, então confusão, por último medo, até que o olhar dela se acalmou, se mantendo sobre o meu por vários segundos, até que ela riu levemente.

“Um pouco estranho? Talvez. Sei lá, eu só... Me lembrei de muita coisa. Coisa pra caramba pra falar a verdade. Foi um pouco assustador por um segundo, mas então, só veio uma calma. Não sei explicar.” Ela diz, me soltando e sorrindo. “Viu? Não é tão ruim assim, eles só tão exagerando, isso sim. E sinceramente? Seus olhos são bem bonitos! Escarlate, diferente, mas brilham tanto, parece até que eu tava olhando uma fogueira quentinha enquanto acampava.” Ela adiciona. Sinceridade. Ela realmente não tinha medo como os outros.

“Não sabia que você gostava de acampar.” Falei, por algum motivo foi a primeira coisa que veio a minha cabeça, o que fez ela rir.

“Pra falar a verdade eu nunca acampei, mas parece tão legal! Só vi uns vídeos sobre antes, sei lá, relaxante e calmo.” Ela explica.

“A gente podia acampar algum dia.” Sugeri.

“Bom, se você prometer não queimar a floresta.” Angelyne concorda, antes de segurar minha mão e voltar a me guiar pelas ruas.

“Ei... Por que você não gosta que o Hunter te chame de Angie? Eu mal te conheço e você falou pra te chamar assim, mas se ele faz isso você parece ficar irritada.” Pergunto, andando ao lado dela. Foi a vez dela de parar por um instante, antes de suspirar.

“É só... Ele é irritante, sabia? Eu só... Tipo...” Ela tenta explicar, mas sem palavras, claramente frustrada. “Você é legal, e é bom ter alguém da minha idade por perto. O Sigma é legal também, divertido, meio besta, mas sei lá, me sinto bem perto dele. O Hunter só... Não sei, me trata diferente, sabe? Como se eu fosse uma criança precisando de proteção ou algo assim.”

“Entendi... Considerando a personalidade dele ainda por cima, faz parecer que ele tá sendo condescendente ou algo assim, né? Tipo um adulto brigando com uma criança.” Comento, ela concordando com a cabeça.

“Basicamente. É só frustrante, toda vez, ele ficar sendo aquele babaca arrogante, tomando toda a responsabilidade pra ele. E quando eu falo algo ele vai e me afasta como se eu não pudesse fazer nada. É irritante, estúpido.” Ela bufa, sua mão apertando seu outro braço novamente. “Eu sei que ele só é um idiota, e que tá preocupado comigo. Mas ele não entende que isso não tá ajudando em nada! Como se ele tivesse que carregar toda a responsabilidade do mundo nas próprias costas e me colocar no cantinho enquanto isso, como se fosse meu pai ou sei lá.”

Não tinha parado para pensar nisso, mas parecia ser verdade. A alma do Hunter era tão difícil de se entender, mas conseguia ver marcas nela, pontos, como um peso que ele se forçava a carregar. A alma da Angelyne era tão mais fácil de compreender. Brilhante, mas carregando feridas profundas. Ver almas talvez me fizesse ver mais do que o normal, mas compreender o que elas mostravam eram algo muito mais complexo no fim das contas.

“Bom, a gente vai lidar com isso. Nós dois.” Sou eu que seguro a mão dela dessa vez, sorrindo, não tendo medo de olhar nos olhos de alguém pela primeira vez em muito tempo. “E mostrar pra ele que a gente pode ajudar também.”

Angie parece surpresa por um segundo, antes de sorrir, apertando minha mão, talvez um pouco forte demais. “Você tem razão! Ah, opa! Desculpa.” Ela diminui o aperto, mas não solta. “Vem. É hora da gente ver a sua casa.” Ela anuncia, me puxando para irmos mais rápido.

Nós passamos por um parque, um parquinho no lado dele. A nostalgia era cada vez mais forte, profunda. Como ter algo na ponta da língua, eu sentia como se tudo estivesse prestes a retornar a qualquer segundo. Risadas, vozes, elas ecoavam na minha mente, quase como se eu pudesse rever e ouvir tudo que havia acontecido no passado ao meu redor.

Os passos de Angelyne diminuíram, até que ela parou completamente, olhando ao redor, então para a tela do celular. Preocupação.

“Isso não tá certo, né? Aqui...” A mão dela apertou novamente. “Desculpa, deve tá errado...” Ela diz, se recusando a aceitar.

A nossa frente havia apenas os escombros do que um dia havia sido uma casa. As outras ao redor claramente não estavam tão danificadas quanto essa. Ela havia sido explodida – provavelmente a Seraphina -, pelo menos metade das paredes haviam caído, e as outras não pareciam estar muito melhores.

Eu dei alguns passos à frente. O pequeno jardim que um dia existia ali agora estava em ruínas, pelo menos em sua maioria. Me ajoelhei, pegando a única flor sobrevivente.

“Flor de dékes, não é? Igual seu nome. Um dos símbolos de New Kingdom, a Zero me ensinou sobre nas aulas de história dela.” Angelyne comenta, dando um passo para mais perto.

Realmente... A flor de dékes era algo raro, que só florescia em New Kingdom. Ela possuía quatro pétalas contorcidas, que a faziam parecer com um cata-vento. Sua cor era interessante, mais próximo do centro era branca, porém próximo das pontas eram vermelhas.

Essa é uma flor de dékes, o que você acha? Bonita, não é?” Uma voz tão gentil ecoava na minha mente. Sequer lembrava da aparência dela, mas a voz era tão reconfortante. “Sim, igual seu nome, é exatamente de onde veio. Dékes é o nome da cidade em que nasci, e dessa flor também. A flor nasce com as pétalas todas vermelhas assim, mas então aos poucos ela muda, até estar completamente branca!” A mulher explica, animada, enquanto regava as flores. “O que significa? Boa pergunta. Sabe, a flor de dékes é um dos símbolos de New Kingdom, sabe por quê? Porque a flor muda de cor com o tempo quando em um ambiente gentil. Ela muda aos poucos, ficando cada vez mais clara, até estar completamente branca. Dizem que ela só muda assim quando em tempos de paz, por isso as pessoas a consideram como um símbolo de esperança. Porque quando suas pétalas estão brancas, significa que tudo vai ficar bem.” Eu quase podia sentir o carinho na voz, a mão bagunçando meu cabelo. “Igual você é pra mim, minha fagulhinha! Minha esperança e paz, bom, talvez não tão paz, com você sendo tão bagunceiro.” Ela brinca, rindo levemente.

Eu peguei a flor, a segurando gentilmente. Conseguia sentir uma lágrima queimando pela minha bochecha.

“Você tá bem?” Angelyne pergunta, preocupada, se aproximando finalmente.

“Sim, tô... Só... Lembrei de algo, eu acho.” Respondo, segurando a flor com cautela.

“Quer que eu cuide dela pra você?” Angie pergunta, apontando para a flor. Ela puxa um canivete do bolso, sua própria Yinmas Blue cobrindo a lâmina, antes dela cortar o próprio ar, abrindo um pequeno buraco. “É minha dimensão de bolso! Ela é meio pequena ainda, mas eu consigo colocar algumas coisas nela. Dá pra guardar a flor dentro pra não danificar.”

Olho surpreso para a rachadura no ar. O nível de habilidade que provavelmente era necessário para fazer isso... Eu concordo com a cabeça. Angie pega a flor com bastante cautela, antes de gentilmente colocar dentro de sua dimensão de bolso.

“Obrigado...” Sorrio para ela, antes de me virar novamente para as ruínas da casa, respirando profundamente, antes de me aproximar.

Eu entro com cautela, não querendo causar mais nenhum colapso, enquanto Angie ficava do lado de fora. Por respeito e para manter guarda. Não parecia ter muita coisa resgatável pelo local, mas a sensação de nostalgia ainda era forte. Caminhando cautelosamente pelas ruínas, eu achei um quarto pequeno, mas confortável, ou pelo menos o que um dia fora um. Uma parede caída, cama queimada, roupas também. Não tinha muito para salvar, mas peguei o que pude.

Uma camisa levemente chamuscada, duas HQ de várias que infelizmente haviam queimado totalmente, uma action figure. Finalmente, eu parei ao ouvir som de vidro. Me ajoelhando, percebi que era uma moldura com uma foto. Me concentrando o suficiente, consegui identificar levemente as figuras. Uma mulher mais velha, na casa dos 30, provavelmente próximo dos 40, cabelos castanho-escuros e olhos verdes, com um sorriso gentil nos lábios. A esquerda da mulher havia uma garota, provavelmente adolescente, ou pré-adolescente no mínimo, de cabelos negros curtos e olhos verdes, com um sorriso brincalhão nos lábios. E a direita da mulher... Um garotinho, de cinco, talvez seis anos, seus cabelos negros um pouco longos e os mesmos olhos escarlate sem pupila, a garota com a mão na minha cabeça, bagunçando meu cabelo, enquanto eu fazia cara feia, mesmo que eu não estivesse realmente irritado na foto.

Eu cautelosamente retiro a foto da moldura quebrada, meus dedos passando pelas figuras. “Mãe... Lira...” Meu punho se cerra, antes de me acalmar, não era hora para me irritar.

Rapidamente me movi pela casa toda, pegando qualquer coisa que pudesse recuperar dos diferentes cômodos. No fim, com um pouco de esforço para colocar tudo dentro, Angelyne consegue guardar todos os itens que eu havia pegado na dimensão de bolso dela.

“Acabou? Como você se sente? Lembrou de algo?” Ela questiona, um pouco preocupado com as marcas de queimadura que minhas lágrimas fizeram em minhas bochechas.

“Sim, não tudo ainda, mas... Lembrei sim.” Limpo meu rosto, minhas feridas se curando rapidamente. “Melhor a gente ir encontrar o Hunter, ele pode precisar de ajudar. Talvez aquele tal de Septem esteja lá no centro também.”

Angie concorda com a cabeça, mas naquele momento foi que eu percebi. A fumaça na minha visão de alma parecia mais densa, forte, até Angelyne pareceu perceber que algo estava errado.

“Okay, eu nem sinto frio, mas... É impressão minha ou a temperatura tá mais baixa?” Ela pergunta, guarda levantada, olhando ao redor. “Essa neblina não ajuda...”

“Vocês chamaram por mim?” Aquela voz, a mesma de antes, da gravação e do meu pesadelo. Uma silhueta na neblina, lentamente aparecendo. Septem, em sua camisa de força arrebentada e manchada de sangue – e com muitos furos de bala. A faca em sua mão, pingando um líquido negro estranho.

“Como...?” A alma dele era sem sentido, escura, muito escura. Óbvio que não havia percebido, a alma dele se misturava com a fumaça, era difícil de ver a diferença. Corrupção Abissal.

“Você... É o imbecil que a gente veio matar.” Angie assume uma posição de combate, puxando um facão inteiro de dentro da dimensão de bolso dela. Isso era interessante, definitivamente.

“Me matar? Engraçado, já tentaram tantas vezes. Até eu tentei, mas acho que isso é basicamente impossível. Suponho que seja o que acontece quando o Abismo te consome, não é?” Ele ri, seu sorriso aumentando, os olhos brilhando com malícia por entre seus fios de cabelo que cobriam parte de seu rosto. “Se você conseguir eu não vou reclamar, mas não pense que vai ser fácil... Porque eu vou matar vocês primeiro. Ou melhor... Eles vão.”

Septem levanta sua faca, o líquido negro pingando sem parar, a fumaça se elevando, e então do chão... Poças de sombras se formavam, mãos espectrais saindo de dentro, antes de arrastarem os restos de seus corpos de volta ao mundo dos vivos. Suas aparências apesar de similar com a humana ainda, carregavam sinais que revelavam sua real natureza. Eram espectrais, seus corpos relativamente transparentes, revelando o esqueleto por baixo, e vestidos com as roupas com a qual haviam morrido eu supus. Eles eram uma mistura de uma energia verde escura e preta, fantasmas que pareciam emanar a fumaça sobrenatural. A benção de Lúcifer. Benção? Mais para maldição. A gente pensou que quem carregava ela era o demônio, mas na verdade... Era o próprio Septem.

Dezenas de fantasmas se levantavam. Um soldado da SINK, Reyes, o pescoço ainda aberto. Um homem de olhar vazio, com um espinho do Geralt ainda cravado na cabeça. Uma mulher com parte do corpo queimado, provavelmente efeito da Seraphina. As pessoas que eles haviam matado, agora trazidos de volta como escravos para seu assassino.

Quatro das minhas correntes apareceram, rastejando pelo ar, suas pontas viradas para o exército dos mortos. Curiosidade? Raiva? Nojo? Nem eu sabia o que chamava a atenção delas, se elas sequer tivessem alguma mente própria realmente. A única coisa que eu sabia, era que eu estava absolutamente furioso.

PRAÇA NEW DAWN – CIDADE DE DAISY

HUNTER POV

Eles realmente não haviam se segurado nem um pouco. No caminho até o centro da cidade, a destruição era cada vez mais evidente, caótica. Espinhos cravados em paredes, asfalto e carros. As marcas negras de explosões e incêndios que haviam claramente ocorrido recentemente.

Meus olhos escaneavam o local, porém aquela neblina dificultava a visibilidade. A gravação de vídeo não possuía aquilo, e considerando como todo o resto da cidade estava parada no tempo, era óbvio que aquilo não era o clima, proposital. Inteligente, dificultar a visão, faz sentido, porém não vai ser o suficiente contra mim.

Me concentrando levemente, consigo sentir a matéria escura que me rodeava, a mesma energia invisível que eu controlava para manipular a gravidade, a forçando a se expandir.

Terceira Lei, Reação.’ Terceira lei, ação e reação. Se existe uma força sendo emitida, sempre haverá uma reação oposta e equivalente. Meu domo de matéria escura se expande de uma única vez. Um embate direto com a magia imbuindo e criando aquela névoa. ‘Não é o suficiente, tenta de novo.’ Minha terceira lei absorveu a magia da névoa, antes de devolver com o dobro de força, causando uma reação em cadeia que a fez se dissipar, pelo menos pela região ao redor.

Logo a minha frente estava a Praça New Dawn, uma enorme área circular, verdejante com algumas árvores, com caminhos para caminhada e bancos para conforto e apreciar a vista. Uma larga fonte em seu centro, com a estátua do fundador da cidade de Daisy no topo, usando uma armadura, o símbolo de New Kingdom em seu peito – uma estrela de quatro pontas, com uma flor de dékes sobre ela, que formava algo parecido com uma flor dos ventos. Ao redor da fonte havia margaridas de múltiplas cores. Do lado oposto da praça havia a prefeitura, um prédio antigo, mas bem cuidado, imponente.

Entretanto, o que realmente chamava a atenção acima de tudo aquilo, era o vermelho. A água da fonte, os campos de flores, a grama, os caminhos, as ruas. Vermelho e mais vermelho, sangue, em sua maioria seco, porém obviamente recente, mesmo que não visse quaisquer corpos por perto.

Minhas mãos estavam nos bolsos, tremendo. Medo? Não... Ódio, simples e absoluto. Meus olhos escaneavam toda a região, procurando sinais de vida, vozes, qualquer coisa, mas nem mesmo animais pareciam existir aqui mais. Parecia uma piada de mal gosto, como uma cidade falsa feita apenas para um filme e nada mais.

Me aproximei da fonte, olhando para a estátua, então para a base dela onde havia uma frase escrita: ‘To sink tyranny’s shadow into the abyss, and bring up a new dawn.’ A frase da revolução que havia acontecido milênios atrás. Sir Markýs, Sacred Insurrection of the New Knights. SINK.

“Um dos cavaleiros da New...” Sussurro para mim mesmo. História antiga, para minha família é um legado, para mim... Responsabilidade. “Tudo que eles fizeram, por nós, por você, por esse país... Será que sequer consigo fazer algo assim, New...?”

Suspiro, respirando profundamente. Precisava me concentrar no objetivo agora, nada mais. Meu alvo obviamente está por aqui, a questão é onde. A sensação de estar sendo observado tem me perseguido desde que a gente entrou, o que não ajuda muito. Ele obviamente tem controle da barreira e sabe da gente, então...

Meus olhos se moveram em direção ao largo prédio da prefeitura, especificamente para seu topo, franzindo o cenho. Era óbvio, o centro, o melhor palco e ponto com melhor visibilidade, e ele obviamente sabia disso, não hesitando em se aproximar da beirada. Ali estava ele.

Um mágico? Era como estava vestido pelo menos. Ele era um homem alto, de pele completamente branca, seus cabelos penteados para o lado, de uma cor azul forte com múltiplas mechas vermelhas, seus olhos demoníacos, com escleras negras, suas írises prateadas. Uma marca de coração tatuada logo abaixo de seu olho direito. Seus chifres eram brancos, nascendo perto de sua testa e rodeando sua cabeça apontando para trás. Sua cauda simples, fina, com a ponta em forma de coração e nada mais. O demônio estava vestido em um terno bem cortado roxo escuro com detalhes em preto, sapatos pretos, luvas brancas – uma com o naipe de Espadas nas costas da luva, a outra com o naipe de Paus. No topo de sua cabeça, perfeitamente colocada por entre seus chifres, uma cartola roxa escuro, com uma carta de Sete de Ouros presa a ela. E em suas costas, uma capa de mágico roxa escura no exterior e azul no interior, com estampa dos naipes do baralho.

“Então você é o demônio que eu tenho que matar, é? Veio vestido pro show, ou só gosta de aparecer mesmo?” Pergunto, tirando as mãos dos bolsos, girando meu anel saturno de forma inconsciente.

O demônio estava sério, olhar distante, porém focado em mim. Ele respirou profundamente, antes de abrir um sorriso calmo, tirando sua cartola e se curvando de forma educada. “Daemon Ashburn, um mágico, sim. E um dos Anjos de Lúcifer, é claro, o primeiro para ser mais exato e mais leal.” Daemon coloca sua cartola novamente em sua cabeça, perfeitamente entre seus chifres. “Presumo que seja Hunter Whirl, certo? Herdeiro da família real, mais recente reencarnação de New, e receio que agora... Meu inimigo.”

“Daemon... O mágico demônio, braço direito da deusa da morte, e Grigori com maior poder da história recente.” Rio levemente, sorrindo. “É, era o que eu esperava com todo esse poder. Mesmo que, uma bagunça toda dessa? Esperava mais de alguém que tem tantas habilidades. E pelo quê? O Dékes? Não, não ele em específico, mas o que tem nele, não é? É óbvio, só não tinha como provar ainda, mas pra você estar aqui, então é porque a Hel tá nele.”

Daemon suspira profundamente, olhos fechados. “O que Lady Lúcifer deseja não importa, é meu dever garantir que minha missão seja concluída, enquanto Sebastian captura o objetivo.” Ele abre seus olhos novamente, uma expressão mais séria no rosto, enquanto ele ajusta suas luvas. “E isso inclui lidar com a principal ameaça no momento, Hunter Whirl.”

“Garantir que seja concluída é? Bom, acho que vocês tão subestimando o Dékes. Mal conheço ele, e já vi tudo o que precisava. Ele não vai cair tão fácil, não importa pra quem, definitivamente não pra um moleque com a cabeça fodida por causa dos Filhos do Abismo.” Dois dos meus anéis saem dos meus dedos, começando a orbitar ao meu redor através da matéria escura que sempre me cercava. Esses anéis não eram apenas estilo, mas minhas próprias armas especialmente feitas para se usar com minha magia. “E eu nunca vou cair pra um mágico de circo. Então só tenta, vamos ver o que vai acontecer.”

Daemon suspira novamente, nervosismo? Ansiedade? Impaciência? Eu não era o Dékes pra saber, mas isso não importava mais. Ele simplesmente deu um passo para frente, se jogando do topo do prédio. Sua capa se moveu por si só, a queda se tornando mais e mais lenta, até que Daemon aterrissa gentilmente no chão. O demônio junta suas mãos, invocando um baralho do absoluto nada, um leque de cartas personalizado se abrindo em sua mão.

“Que assim seja. Demonstrarei meus truques em um show particular apenas para você, um presente de despedida.” Daemon anuncia, focado em mim. “Deus ou não, todos morrem, eu já o vi com meus próprios olhos, e hoje não será diferente.”

Em um lado da cidade, Dékes e Angelyne enfrentam Septem e seu exército de almas. No outro, Hunter e Daemon se preparam para um duelo, provavelmente até a morte. Enquanto isso, a própria morte observa tudo, com um sorriso no rosto, enquanto seu plano entra em ação novamente.