Código Secreto
9 Capítulo 9 - Duras verdades
Shun, que ainda estava assustado com o acontecimento, retornou para a cozinha a tempo de ver o tio Oga e seu pai se entreolhando como se esperassem para ver quem piscava primeiro.
– Mandei ficar no seu quarto... – Ikki disse, sem desviar o olhar de Hyoga. O loiro, ao contrário, resolveu mirar o chão. Shun voltou correndo, rindo, como se tivesse feito arte. – Você vai ficar? – Perguntou seriamente ao loiro.
– Tudo bem, eu só não quero que grite comigo. – Disse tentando forjar um tom autoritário. Ikki nada respondeu, apenas confirmou gestualmente, agradecendo mentalmente por não ter estragado tudo.
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Quando Milo chegou a humilde casa da família Verseau percebeu que o lugar estava vazio. Tanto Camus como Natássia deviam estar fora de casa e como o ruivo não atendia ao telefone, resolveu estacionar seu carro um pouco antes da casa e esperá-los. O bairro não era muito iluminado, então possibilitaria se manter em anonimato por um tempo, observando os moradores do local. Não levou mais de meia hora e os dois chegaram.
Natássia parecia extremamente abatida e cansada, caminhava ao lado do pai que lhe falava algo no ouvido, talvez palavras de conforto para uma mãe desesperada por notícia do filho. Pareciam distraídos, não perceberam a presença do carro do loiro. Apenas quando chegaram a porta de casa é que Camus notou um carro preto estacionado mais adiante. Ele teve um pressentimento estranho, e ficou encarando o veículo por alguns segundos, fazendo Milo sorrir discretamente. O seu carro era preto com vidros fumês, à noite, numa rua mal iluminada e relativamente distante, para o ruivo percebê-lo, era sinal de que ele era muito observador.
– O que foi, pai? – A loira perguntou, estranhando o modo como o ruivo encarava o automóvel.
– Entre, eu já vou. – Pediu, empurrando de leve suas costas fazendo-a entrar no jardim da casa e caminhando em direção ao veículo. Milo ficou quieto, esperando para ver o que ele faria, atento a expressão fria do outro. Camus o encarava nos olhos, apesar de não saber disso. Não podia vê-lo, mas essa sensação era forte, intensa, inquietante. Natássia ficou no jardim da casa, apreensiva, vendo o pai caminhar devagar na direção do carro, até que a certa altura parou.
– Quem está aí? – O ruivo gritou, num misto de altivez e insegurança. Vendo que preocupara o ruivo, Milo resolveu revelar-se. Quase pôde notar um leve suspiro de alívio em Camus quando viu que era ele.
– Desculpe, não quis assustá-lo. – Milo disse, aproximando-se. O ruivo sorriu, aliviado, e estendeu-lhe a mão para um cumprimento que foi aceito pelo loiro.
– Está tudo bem. – Camus respondeu. – Com tudo o que está acontecendo, quando notei seu carro, pensei em algo pior... –O ruivo justificou-se, emendando.
– E mesmo assim veio verificar? Uma atitude muito arriscada, senhor Camus.
– Eu sei... – Sorriu. — Mas o que faz aqui? Notícias de Hyoga?
– Infelizmente, ainda não. – Mentiu. – Vim porque gostaria de fazer algumas perguntas a vocês.
– Ah, claro. Por favor, me acompanhe. – Camus levou o policial até sua casa e antes que pudessem entrar, Natássia o inquiriu, nervosa:
– Senhor Milo! O que faz aqui? Noticias do meu filho? Diga-me! – O desespero e o sofrimento daquela mulher eram evidentes. O olhar carregado de dor fez o coração de Milo se apertar, condoído. Mas manteve-se firme, era para o bem deles mesmos.
– Infelizmente não, senhora. Mas estamos trabalhando duro para encontrá-lo. – Ela abaixou o olhar, tentando conter as lágrimas.
– Ele veio conversar conosco, somente isso minha filha. – Camus a amparou e seguiram para dentro de casa.
– Por favor, sente-se. Aceita um café? – Natássia tentava manter-se forte a todo custo, e Milo começou a admirá-la por isso.
– Aceito sim, obrigado. – Ela então deixou seu pai e Milo sozinhos na sala e foi para a cozinha preparar o café.
– Ela está desesperada. Nós fomos até alguns amigos do Hyoga, alguns locais onde ele costumava ir, mas nada. A impressão é que ele desapareceu, ninguém sabe dele, ninguém o viu. Se vocês não estivessem monitorando a saídas da cidade, diria que o levaram para outro lugar. Mas não, às vezes chego a pensar que ele está morto. Como se não bastasse tudo o que minha família já passou... – Camus engoliu em seco as próprias palavras. Tentava disfarçar, mas não estava sendo fácil para ele também.
O escorpião sentiu uma vontade grande de dizer que Hyoga estava vivo e bem, que não precisava sofrer tanto com isso, mas se controlou. Não tinha como dizer tais palavras sem explicar como sabia disso e era sua responsabilidade prezar pela segurança deles. Mas aquele olhar já o estava incomodando.
– Eu sinto muito por vocês... – Milo disse em voz baixa. Era um policial experiente, lidava com casos como esses já há um bom tempo, mas este caso em especial, talvez por estar acompanhando tão de perto, estava comovendo-o de um modo fora de comum. Olhar para o ruivo e ver aquele olhar perdido e confuso trazia-lhe sentimentos estranhos, como se ele também fizesse parte daquela família.
Camus o encarou confuso com o tom daquelas palavras de conforto. Elas eram atípicas para quem lidava cotidianamente com aquilo, era quase como se ele se importasse mais do que como profissional. Se fosse outro pensaria se tratar de um iniciante, mas deixou para lá. Afinal, confiava em Milo.
– Então, o que gostaria de conversar? – O francês desconversou. O loiro desviou o olhar e pigarreou, tentando espairecer aquela sensação.
– Bem, eu queria perguntar sobre um amigo do Hyoga, um em especial. Isaak.
– O que tem o Isaak?
– Vocês o conhecem?
– Sim, claro. Ele e Hyoga se conheceram ainda crianças, no colégio.
– Você poderia me dizer mais sobre ele? – Camus ajeitou-se na poltrona onde estava sentado, estranhando a pergunta, mas respondeu:
– É um menino bom, apesar de ser um irresponsável como o Hyoga. Fazem parte do mesmo grupo de amigos, até onde sei. Vão aos mesmos lugares, tem os mesmos amigos... A última peripécia dele foi pintar o cabelo de verde.
– Você sabe se ele usa drogas? — Milo perguntou.
– Porque está me fazendo essas perguntas?!
– Estamos trabalhando numa linha de raciocínio e... é importante que responda com sinceridade.
– Mas que linha de raciocínio é essa? Acham que Isaak tem alguma coisa a ver com...?
– Calma Camus. Eu só quero entender o mundo que Hyoga vive pra entender como as coisas chegaram a esse ponto. – O ruivo hesitou um pouco, mas respondeu.
– Bem, eu não sei te dizer com certeza, mas eu não duvidaria se me contassem... Hyoga usa às vezes, mas não sei se foi através do Isaak ou outro amigo.
– E quanto aos ‘pegas’? Sabe se ele participa?
– Participa sim, foi ele que levou o Hyoga para esse mundo, na verdade.
– Como foi isso?
– Quando Hyoga começou a dirigir, logo notamos que ele tinha muito talento. O carro é uma das poucas coisas em que ele realmente se interessa, pára para estudar, se interessa em saber, conhecer mais. Nessa época, realmente achei que ele teria jeito, que poderia ser alguém na vida, mesmo que fosse apenas mecânico, sem grandes pretensões, já estava de bom tamanho. Quis acreditar nisso, porque minha filha vive dizendo que sou muito duro com Hyoga, que não dou uma chance para ele mostrar seu potencial, e por isso ele tem esses problemas. Então decidi deixar meu carro com ele, queria que ele tomasse mais gosto por carros, por mecânica... Eu devia saber que isso não ia prestar.
– Porque diz isso?
– Não durou muito essa minha esperança... Logo quando Isaak percebeu o talento do Hyoga, o levou para participar de um pega. Ele ganhou uma grana alta e torrou o dinheiro com festas, bebidas e roupas de marca. Ele usava meu carro para participar dessas corridas. Quando descobri, nós brigamos feio. Não deixei meu carro com ele, que comprei com tanto sacrifício, para ele sair por ai fazendo besteira! Eu tentei falar com os responsáveis do Isaak sobre isso, mas ele mora com a avó, uma senhora de idade já avançada e que não tem nem condições e nem saúde pra tomar conta de um adolescente como Isaak.
– Sei... — Milo murmurou.
– Então peguei meu carro de volta. Sem carro, ele não teria mais como correr, por isso estranhei quando ele foi pego por vocês. Ele não tinha outro carro, usava o meu, não entendo como ele poderia ter um carro como aquele se ele torra todo o dinheiro que ganha.
– No depoimento que Hyoga deu, disse que quem insistiu para ele correr foi o Isaak. Acha que ele teria um carro, ou alguma forma de conseguir esse carro?
– Não, ele não tinha.
– Mas tinha o dinheiro para fazê-lo correr... – Camus pensou um pouco.
– Minha filha, qual o nome daquele rapaz que Hyoga falava? Namorado da prima da Eire? — Gritou para a filha, que veio para respondê-lo. Natássia se aproximou.
– O Hagen? – Ela indagou.
– Sim, esse mesmo! O Hagen faz parte do grupo deles, e o pai dele tem dinheiro. Se o Isaak pagou para o Hyoga correr, certeza que foi com o dinheiro dele.
– Hagen...
– Eu já vi esse menino... Ele é muito educado, muito bonzinho. Vocês acham que ele tem alguma coisa a ver com meu filho? — Natássia perguntou.
– É possível que ele tenha dado o dinheiro para o Hyoga correr... – Milo respondeu. – Você pode me dar o endereço dele?
– Claro... Eu vou pegar para você. – Natássia disse, indo ao seu quarto buscar seu caderno de anotações.
– Mas pelo que Isaak me disse, ele só queria que Hyoga corresse porque ele era muito bom...
– Ele nos disse isso também, mas não temos tanta certeza.
– Aqui está... – Natássia entregou um pedaço de papel com o nome e endereço de Hagen. – Venha tomar um café conosco, senhor Milo, tem bolo de laranja. – A loira convidou.
– Ahh, obrigado, mas eu preciso ir...
– Que isso Senhor Milo, fique mais um pouco. Experimente o bolo da Natássia, é ótimo! – Camus pediu. Milo sorriu, rendendo-se.
– Bom, mas eu não posso demorar. – Sorriram.
– Certo, eu vou terminar de fazer o café... – Natássia disse voltando para a cozinha.
– Acho que sua visita a animou um pouco mais... – O ruivo comentou, olhando para onde a filha tinha ido.
– Eu imagino a dor que você e a sua filha estão sentindo, eu realmente sinto muito por isso. – Milo falou fazendo Camus suspirar amargo.
– O senhor é um homem religioso, senhor Milo? – Camus perguntou sem encará-lo.
– Mais ou menos... Acredito numa força maior, mas não sei definir ou entender muito bem.
– Pois se essa força existe, ele se esqueceu da nossa família há muito tempo... – A forma amargurada e sofrida contida na voz e no olhar do ruivo atingiu em cheio a Milo, que se sentiu estremecer.
– Não pense assim, muitos jovens hoje em dia acabam fazendo besteiras, mas muitos deles conseguem sair...
– Senhor Milo...
– Por favor, chame-me apenas por Milo.
– Milo... seria bom se a única sombra de nossas vidas fosse esse problema de Hyoga. Mas não, já não é de hoje que ele a faz sofrer. – Camus estava tão imerso em sua dor que não percebia o modo preocupado com que o loiro o encarava.
– Mas Hyoga é só um adolescente, seu neto... – Milo perguntou, um tanto surpreso pelas palavras ditas de forma até rancorosa.
– É o que venho tentando me convencer desde o dia em que ele nasceu, mas as nossas vidas teimam em me confirmar as suspeitas... – O escorpião franziu o cenho.
– Há algo mais que você queira me contar...? – Induziu.O ruivo o encarou seriamente.
– Não tem a ver com esse problema, pelo menos não diretamente.
– Qualquer coisa que possa esclarecer nos será útil, Camus.
– Desde que Hyoga nasceu estamos afundados em dor e sofrimento. Ele é o retrato do ódio humano, o fruto do pecado, o presente do mal. Desde que ele nasceu vivemos na dor, às vezes penso que ele é um amaldiçoado...
– Camus, não acha que está exagerando?É só um adolescente rebelde como tantos outros... – Milo teve a certeza de algo muito profundo e doloroso marcava a vida do adolescente e sua família, e poderia ser o motivo para Hyoga ser do jeito que é. O ruivo pensou por um instante.
– Eu me faço essa mesma pergunta todos os dias, mas todas as vezes que olho em seus olhos, eu vejo dor, morte, sofrimento, desgraça... E quando vejo seus atos, seus caminhos, suas escolhas, eu vejo o seu pai... – Murmurou cansado.
– Porque você nunca o chama de neto?
– Porque eu não o vejo como neto... – Respondeu, apesar de considerá-la como impertinente para o caso. — Mas não sei em que minhas impressões sobre Hyoga podem ajudá-lo...
– Não ajudam diretamente, mas me ajudam a entender as escolhas dele... – Milo respondeu de forma séria e tão segura que o ruivo não soube o que dizer de início. Natássia já o acusava de ser responsável pelas escolhas de Hyoga, mas era a primeira vez que um estranho o acusava disso.
– Está sugerindo que a culpa disso é minha? – Arqueou a sobrancelha, levemente ofendido.
– Diretamente não, mas indiretamente... – A certeza com que ele proferiu as palavras desconcertou o ruivo.
– Pois você está enganado...
– Será?! – Inquiriu olhando firme e até duro nos olhos do ruivo. Por alguns segundos, o ruivo ficou encarando-o, algo surpreso pela afronta poucas vezes sentida, algo ofendido por algo que ele julgava ser um disparate.
– O café já está pronto... – Natássia chegou, alheia ao que acontecia.
– É uma pena, mas o senhor Milo já está de saída... – Camus se ergueu de modo sério.
– Ah, mas já? Não vai nem tomar um café conosco? – A loira insistiu. Milo encarou os olhos fugitivos do ruivo, mas não insistiu.
– Infelizmente, eu preciso ir agora. Mas eu volto... – Disse olhando de lado para Camus. – Eu queria que a senhora ficasse calma, sei como deve estar sendo difícil, mas estamos trabalhando ao máximo pelo bem estar do Hyoga. – A loira o encarou surpresa com as palavras de carinho.
– O senhor que meu filho está com aqueles bandidos?
– Minha experiência diz que não senhora... – Ela sorriu, aliviada. – Bom, mas eu agora tenho que ir... Tenham uma boa noite... - Milo despediu-se.
– Boa noite, senhor Milo... – Ela disse, mais aliviada. Ao contrário de Camus, que ainda remoia as palavras do loiro.
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A música suave junto com o delicado jogo de luzes deixava o fino restaurante o melhor lugar para um conversa íntima. Ele adorava esse que era também o restaurante mais caro da cidade. Mas não se importava em se dar esses luxos, principalmente nos dias em que ele estava na cidade...
E não se arrependeu quando, ao caminhar em direção a mesa reservada, se deparou com aquele homem de olhos tão escuros e enigmáticos que o fazia se arrepiar. Carlo* estava impecável e elegante, como sempre, trajando um fino terno risca de giz, contrastando com seu jeito naturalmente rústico. Aquele jogo de estilos e temperamentos que se insinuavam com graça e destreza eram a sua maior perdição.
– Oi... – Dite sorriu sedutor assim que se aproximou o bastante.
– Oi, Afrodite. – Carlo sorriu em resposta, levantando-se para ajudá-lo a sentar-se, numa clara provocação. – Está terrivelmente belo, pesci... –Disse e assim que ele sentou-se, sussurrou rente ao seu ouvido: É tudo para mim? – Sorriu quando ele riu baixo, divertido.
– Teremos tempo para saber... – Disse após o italiano voltar ao seu lugar. – Mas devo confessar que esta mais elegante que o normal. O que é? Não me diga que voltou... apaixonado? – Devolvei a provocação, fazendo o outro rir.
– Pelo mesmo de sempre... – Concluiu com um belo e sedutor sorriso. Era uma característica dele, tão belo e atraente, e igualmente fatal.
– Se continuar assim, esse belo rosto restará debaixo da terra. O que seria uma pena... – Ajeitou os próprios cabelos, despretensioso.
– Não posso evitar, você sabe que certas trilhas não tecem retorno. A propósito, o que vai beber?
– Deu-me vontade de um Rossini*, se bem que ninguém mais faz um como você... – Sugeriu, mordendo o lábio inferior.
– Oh, não me fala isso! – O canceriano riu baixo, divertido.
– Porque não? Essa temporada em Praga o deixou pudico? – Riram.
– Não, caríssimo! Apenas me resguardo. – Dite o interrogou num estreitar de olhos. – Vamos de champagne, então! Para brindar esse nosso reencontro. O que acha? – Sugeriu ao chamar o garçom, ignorando a pergunta muda feita por Afrodite.
– Perfeito! – Disse com um largo sorriso, interrogando-se mentalmente o que estava se passando na cabeça daquele homem. O garçom veio para atendê-los e entregar o cardápio. – Por favor, de entrada vou querer canapés de queijos e ervas finas. E depois, salmão recheado. – Pediu.
– Pra mim também, obrigado. E traga-nos champagne. O melhor da casa. – Assim que o garçom saiu, Dite comentou:
– Você não imagina a minha surpresa ao saber que você estava na cidade. O que aconteceu? Cansou-se da Europa?
– Digamos que estava com saudade de Tóquio... – Disse e riu da cara do pisciano. – Ok, nem tanto. Na verdade, eu vim a negócios...
– Já imagino que tipo de negócios... – Opisciano meneou a cabeça, já o conhecia muito bem.
– Não é o que imaginas, é bem pior! E por isso mesmo voltei a procurá-lo, pesci. – Dite arqueou uma das sobrancelhas, curioso.
– Alguma informação importante a me dar?
– Sim, tenho. Sabe muito bem o quão caro você é para mim, não é? Por isso mesmo me sinto na obrigação de te falar, nesse lugar mais reservado. Ninguém pode saber dessa nossa conversa, que isso fique claro...
– Não me enrole tanto, Carlo. Fale de uma vez! – Dite o cortou, ansioso e ao mesmo tempo preocupado pelo que ele diria, mas eles acabaram por se calarem com a chegada do garçom que trazia a champagne. Assim que eles foram servidos, Carlo continuou, deixando o brinde para depois.
– Muito bem, você sabe que tive que sair dessa cidade há alguns anos, fui para a Europa porque a situação estava desgastada para o meu lado, criei algumas inimizades e quando soube o que eles planejavam, eu fugi. Não tenho vergonha disso.
– Eu já conheço essa história...
– Mas não sabe que o sujeito que tentou me matar agora está morto.
– Morto?! – O pisciano sussurrou, surpreso.
– Sim, recebi um email com uma foto da cabeça dele. O homem foi degolado e isso sequer passou pela polícia.
– E quem tinha interesse na morte dele?
– Além de mim? – Riu jocoso. – O interesse de vê-lo morto era simplesmente me ter como aliado. Trazer-me de volta para essa cidade.
– Então eliminaram seu inimigo para te ter como amigo... – Dite concluiu rapidamente.
– Exatamente.
– Mas porque trazer alguém de fora?Ele deve ter homens próprios para esse trabalho...
– Eu me fiz essa mesma pergunta... Mas pagando bem, não me importa o porquê. – Dite pensou um pouco antes de perguntar:
– Imagino que a pergunta que farei agora não seja pertinente para um assassino de aluguel, mas considerando o teor da nossa conversa... Quem é a próxima vítima? – Arriscou a pergunta.
– Um rapaz chamado Hyoga... – Dite empalideceu imediatamente. Carlo pigarreou. – E olha que estão me pagando muito bem para encontrar e tirar o moleque de circulação! Deve ser algo de suma importância...
– Hyoga... eu não entendo! Se o queriam para se passar pelo chefe... porque querem matá-lo agora? – Agora o pisciano ficara realmente confuso.
– A morte tem diversas utilidades, principalmente quando se quer calar alguém. – Carlo considerou. Afrodite pensou um pouco, a morte de Hyoga o deixaria com a suspeita de ser o chefe para sempre. Com tantos indícios, seria quase impossível continuar com as investigações. Não só Kanon, mas toda a corporação emitira a ordem de arquivar o inquérito somente com esses indícios.
– Você deve saber também que estou exatamente com o caso desse rapaz em mãos... – O italiano confirmou gestualmente. – Então porque está me dizendo essas coisas? Acha que eles o chamaram justamente por isso?
– Te digo justamente porque sei que se você o protege. Eles já estão atrás do rapaz e não vão parar por conta de uma escolta policial. É até provável que nos encontremos nesse... campo de batalha pela vida desse loiro. É só uma questão de tempo até eu encontrá-lo. – Comentou naturalmente e depois se calou para receber os canapés de entrada. – E porque me chamou, como disse, não me importa...
– Está querendo dizer que... me mataria se fosse preciso? – Dite perguntou receoso, num fio de voz. Ele era um assassino, sempre soube disso, não deveria se espantar caso a resposta fosse positiva, mas não podia negar que aquela ideia o perturbava. Carlo o encarou sério por um momento, para logo depois segurar nas mãos do pisciano.
– Como disse, você me é muito caro, mas sou um profissional. Entende que entrei em um dilema? Se eu o deixar viver e com isso meu cliente perder o rapaz, quem morrerá serei eu e... nada contra o loiro, mas eu sou um apaixonado pela vida. Especialmente a minha... – Dite riu de lado, irônico.
– Não devia ser muito estranho ouvir isso de um assassino de aluguel... – Zombou, fazendo Carlo suspirar.
– Não fique bravo comigo, pesci... Só estou tentando nos ajudar.
– Eu é que devia tê-lo mandado para a cadeia desde logo! — Murmurou raivoso, mas Carlo apenas sorriu discretamente. – Hyoga é inocente e não bandido! Uma criança! — Ralhou, mas sabia que não adiantaria. – Não espera que eu me acovarde com o que diz, não é? – Continuou, altivo como sempre.
– De modo algum, o conheço muito bem para saber que você é muito profissional e nunca arreda o pé. – Sorriu malicioso, pegando as mãos dele e levando a sua própria boca, beijando-a sensualmente. – Também por esse espírito justiceiro e corajoso que acabei por me envolver contigo... Eu não quero saber como as coisas vão se desenrolar, só não quero encontrá-lo no meu caminho, pesci... Por favor, não quero isso! – Dite amansou o semblante com o que ele havia dito, mas ainda estava preocupado.
– Devo agradecer a valiosa informação? – Perguntou, sendo o mais sugestivo possível. Tivera uma ideia do que fazer e talvez seu antigo amante pudesse ajudá-lo. Carlo riu.
– É claro, da forma que eu mais gosto. – Dite lambeu os lábios, provocante, e olhou para os lados antes se sussurrar.
– Dê-me um minuto. Preciso ir ao toilet. – Continuou com seu sorriso e saiu, provocando com seu andar, sabendo que era observado, mas seu pensamento estava em outro lugar. Precisava ligar para Ikki, então aproveitou o momento sozinho no banheiro para ligar para o parceiro.
Continua...
Notas finais
*Rossini é um drink típico italiano.
*Carlo é o Máscara da Morte. Esse nome não é de minha autoria e sim da Ficwriter Pipe.
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