Código Secreto

18 Capítulo 18 - Asas ardentes da Fênix


O prazer revelado após o desejo reprimido veio inesperado e arrebatador, impossível que eles se controlassem. E o ápice desse sentimento também veio rápido, inesperado e intenso. A sensação é que iriam se fundir, que quase mais unidos pudessem estar melhor seria, sentimento que propiciou a Camus explodir bem dentro do amante Milo.

O policial chegou ao ápice no mesmo instante que o amante, tombou na mesa com o ruivo em suas costas. O torpor e felicidade do momento não o fazendo perceber a ligação insistente em seu celular.

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Ikki desligou o telefone assim que a conversa havia terminado. Conhecia o homem do outro lado da linha e não era uma grande surpresa: Carlo. Ao menos sabia que o italiano tinha um jeito todo peculiar de agir e, se ele ainda tinha o mesmo pensamento sobre a vida, podia dizer que Shun estava mais seguro do que estaria se estivesse nas mãos de qualquer outro bandido.

Carlo era um antigo conhecido da polícia por ser um exímio assassino de aluguel. Porém, até por causa de suas habilidades reconhecidas, o italiano podia se dar ao luxo de escolher suas vítimas. E por um motivo que ninguém conhecia ao certo, ele jamais matava quem ele julgasse ser um inocente.

Era, em suas palavras, um justiceiro. Ignorava o trabalho da polícia e fazia justiça com as próprias mãos e ainda lucrava com isso. Um criminoso cujas intenções eram vilmente manipuladas. Para ele, os fins justificavam os meios, e fazer justiça justificava os crimes que cometia mundo a fora.

Era um velho conhecido da polícia por ser um criminoso procurado, mas no caso de Ikki, era mais conhecido como o amor do amigo Afrodite. O relacionamento entre os dois era cheio de altos e baixos, até porque o caminho de vida de ambos era mais do que diferente, era o oposto. Afrodite havia escolhido o caminho da legalidade enquanto Carlo havia escolhido o caminho da ilegalidade.

Era claro que o relacionamento jamais poderia dar certo e por isso era cercado de idas e vindas. O italiano nunca escondeu seu peculiar trabalho para o amigo, e Afrodite também nunca se deixou iludir que, um dia, o caminho entre os dois entraria em conflito. O que, por sinal, estava prestes a acontecer.

Carlo queria Hyoga. Havia deixado isso muito claro naquele telefonema, e Ikki não estava disposto a ceder o loiro, embora o mesmo estivesse relutante em aceitar sua proteção. Os olhos do policial miraram o teto, o andar de cima, o quarto onde deixou o loiro pensando no que faria.

Algumas horas antes Ikki flagrou Hyoga tentando fugir novamente e, naquele momento, não estava mais disposto a ceder. Hyoga tinha que tomar uma decisão entre ficar ou ir embora, e certamente qualquer uma delas seria irretratável. Se Hyoga decidisse partir, Ikki respeitaria sua decisão e o deixaria partir a própria sorte e se encarregaria de, única e exclusivamente, salvar Shun. Seu filho precisava de sua proteção além de qualquer outro e se Hyoga não estava disposto a seguir com ele, não o forçaria.

Então, antes mesmo de providenciar o que faria até o momento final, o policial precisava se certificar de que Hyoga estava, realmente, com ele. O embate final onde possivelmente descobririam a identidade do ‘chefe’ e livrariam a cidade e o próprio Hyoga dessa mancha de ilegalidade estava prestes a acontecer e ninguém poderia vacilar.

Pensando nisso, seus pés o levaram devagar até o andar de cima. Havia uma grande ansiedade no coração de Ikki, pois havia um imenso desejo de que o adolescente ficasse ao seu lado. É claro que estava sendo passional, mas não podia evitar. Não sabia dizer como aquilo aconteceu, mas o fato é que estava apaixonado pelo loiro. E, no fundo, sabia que era correspondido, mesmo que aquilo talvez não estivesse tão claro para o mais novo.

O moreno respirou profundamente ao chegar ao quarto de Hyoga, tentando manter uma postura de tranquilidade e firmeza, e depois abriu a porta. Seus olhos vasculharam rapidamente o ambiente e pousou na cama encontrando o adolescente deitado de bruços, aparentemente dormindo. Sentiu um alívio grande, embora não pudesse dizer exatamente se aquilo significava a desistência da fuga, até porque perto da cama estava a mochila feita e intacta.

Ficou alguns minutos analisando a imagem do loiro deitado sobre a cama, considerando se devia acordá-lo para conversarem em definitivo sobre a sua situação, mas preferiu deixá-lo descansar. Assim como ele próprio, o adolescente devia estar precisando descansar. Então, deixou o quarto e foi para o seu próprio, banhar-se e descansar um pouco. Ainda teria um tempo até o momento certo e precisava de toda a sua energia.

No quarto do adolescente, o sono não parecia relaxar o jovem que havia adormecido pela exaustão física e emocional. Depois que Ikki deixou o quarto, dizendo aquelas palavras que atingiram seu coração de um modo brusco e pesado, só teve forças mesmo para cair na cama, em prantos.

Durante toda a noite sua mente e seu coração foi inundado de todos os tipos de coisas, às vezes de modo atordoado. O adolescente não estava lidando bem com aquela pressão, com o sentimento de culpa, de responsabilidade e com aquela maldita sensação de sempre estragar tudo. E como se procurasse o colo da mãe, se agarrou aos lençóis e ao travesseiro. As palavras de Ikki ainda ecoavam na sua mente, mas o loiro queria apenas que tudo aquilo terminasse. Não suportava mais aquilo.

Por isso aquela noite pareceu ser imensamente longa até que conseguisse dormir. E mesmo quando conseguia adormecer, logo acordava angustiado com sonhos ruins. Estava se sentindo péssimo, e no primeiro despertar que notou a claridade do dia, resolveu levantar da cama. Sabia que Ikki cobraria uma resposta, mas Hyoga não tinha a menor condição de responder qualquer coisa. Mal tinha condições de pensar, que dirá tomar decisões de sua vida.

Não sabia o que fazer, o que dizer, se pudesse apenas fugiria para bem longe dali. Só não o fazia por causa de... Ikki. A decepção e o cansaço que ouviu nas palavras do moreno machucou mais do que poderia entender. E o moreno não merecia aquilo, não merecia o seu pior porque ele estava se esforçando por ele. E a cada pensamento se seguia mais uma lágrima e raiva dirigida a si mesmo. Sentia raiva por decepcionar a última pessoa que merecia ser decepcionado. Sentia-se incompetente e injustiçado e a ideia da morte lhe ocorreu várias vezes durante a noite.

Seus pés se arrastaram pela casa atrás de comida. O loiro era a visão exata de um zumbi, cheio de olheiras e abatido, com o fato de ser alvo como a neve contribuir para a aparência de um doente, embora Ikki não estivesse muito longe daquilo. Com apenas um short preto e uma camisetinha estilo nadador que mostrava as asas da fênix tatuada, o moreno tinha terminado seu banho e ido para a cozinha preparar um café antes de deitar um pouco quando viu o loiro descendo as escadas.

Os dois se encararam por um tempo, em silêncio. O moreno esperava que ele dissesse alguma coisa referente ao assunto da noite anterior, mas ao vê-lo naquele estado já se impressionava dele ter saído do quarto.

Está com fome? – Perguntou displicente virando-se de costas para preparar o café. O loiro não respondeu fazendo com que o policial voltasse a encará-lo, pegando-o olhando fixamente para si. Estranhou. – Hyoga?

– Um pouco... – Limitou-se a responder, logo voltando ao seu interesse, motivo de seu olhar. – Você não me contou sobre a tatuagem. – Comentou olhando para as costas do policial.

Ikki arqueou uma sobrancelha ante aquele assunto totalmente inesperado. Possuía tatuado em suas costas a imagem de uma fênix que cobria quase toda extensão da pele morena e, não havia percebido que aquilo tinha chamado tanto a atenção.

– É a fênix, a ave mitológica... – Respondeu e voltou sua atenção agora para o pão, preparando um sanduíche mais caprichado para o loiro, que se aproximava e sentava no balcão.

Eu sei o que é... A ave que renasce das próprias cinzas...

Exatamente. – Limitou-se a concordar.

Mas porque uma tatuagem tão grande? – O loiro perguntou. Sabia pelas palavras que ouvira no apartamento de Ikki que tinha uma história por trás desse belo desenho e desde então ficou bastante curioso para saber o que se tratava. O mais velho não respondeu de imediato, concluiu o lanche e o colocou sobre o balcão oferecendo ao loiro antes de responder.

– Porque eu me identifico com ela, só isso... – Desconversou.

Mas você me disse no seu apartamento que era uma história longa...

Sim, uma história longa demais para quem não tem tempo no momento pra contar... – O policial bebeu um generoso gole do seu café e mordeu um pedaço do sanduíche sob o olhar indecifrável do loiro. Devolveu o olhar, sem compreender o que se passava na cabeça do menor, e aquele olhar entristecido começou a incomodá-lo porque ele não dizia nada e ficava encarando-o. – O que foi?

Nada... – O loiro abaixou o olhar e sem dizer mais nada pegou a bandeja com o seu lanche e subiu para o quarto. Era verdade que eles não tinham tempo afinal o Shun estava nas mãos de bandidos, mas o moreno parecia mais tranquilo e o adolescente tinha uma enorme curiosidade por aquela tatuagem desde que a viu pela primeira vez. Não viu nenhum mal em perguntar de novo, mas o moreno continuava arredio.

Ikki observou os atos visivelmente entristecidos de Hyoga e seria hipócrita se não reconhecesse que fora um pouco grosseiro, mesmo sem querer. Estava ainda sob o efeito do nervoso da noite anterior, tanto com relação ao filho quanto com o que vira no quarto do loiro. De qualquer modo, não era necessário continuar com aquele sentimento já que, mesmo sem palavras, Hyoga parecia ter escolhido ficar. Ou pelo menos era o que dizia seus atos.

Suspirou pesadamente, tentando recuperar o fôlego diante de tantos acontecimentos. Mas uma coisa seu faro policial informava: Toda aquela trama estava prestes a se romper, era apenas uma questão de tempo. E o tempo estava correndo depressa, embora soubesse que aquele não era o momento para agir. Não, ainda. Mas sabia que o momento estava próximo, inclusive para Hyoga.

Por isso, e também por não ter muita certeza sobre a fibra do garoto para aguentar aquele momento, sentia-se ansioso além da conta, descontando sua preocupação no adolescente. Se até para o policial, acostumado com operações delicadas e perigosas, esse era um momento extremamente tenso, imaginava que para o loiro aquilo deveria estar parecendo o inferno na terra.

Sabia que não era justo e com a iminência das operações na cabeça, o moreno subiu para o quarto para uma conversa definitiva. E assim seria porque, ao contrário de antes, não tinha mais tempo para esperar ou tentar convencê-lo de que era confiável. Esperava que tudo o que tinha feito tenha dado segurança o bastante para o jovem. Não havia mais tempo e nem terreno para dúvidas. Ou Hyoga confiava, ou a operação desandaria. E caso assim fosse, precisaria pôr toda a sua experiência em prática para, no mínimo, protege-lo e a seu filho.

Os pés arrastando-o para o andar de cima, sentindo o peso daquele momento se abater sobre seus ombros e lembra-lo que havia algo mais além do profissional inundando seu coração acelerado. A expectativa em alta pelo momento provando mais uma vez o que já sabia muito bem.

Ao chegar a seu destino, viu Hyoga comendo numa falsa tranquilidade. Observou-o por algum tempo em silêncio e apoiou-se no batente da porta. Hyoga se sentiu incomodado com aquilo, imaginava que ele estava ali apenas para saber a sua resposta. Mas ele não precisaria de muitas palavras para que dissesse:

Não se preocupe. Eu não vou embora, vou ficar aqui e fazer o que você quiser. Vou te ajudar. – Embora o loiro tivesse proferido as palavras que queria ouvir sem nem mesmo ter perguntado, a forma como elas foram ditas e o sentimento por trás delas desagradou o policial.

O adolescente parecia conformado, abatido, e não ousava olhar em seus olhos. O moreno não respondeu, pois não sabia exatamente o que dizer. Era ótimo que pudesse contar com Hyoga, mas agora que aquilo tinha sido dito com todas as letras, percebia que não era daquele jeito que queria... Faltava mais, faltava o sentimento vivo, a esperança, e todas aquelas coisas que Afrodite costumava dizer, mas que nunca deu assim tanta importância. Algo estava errado e Ikki se sentia um incompetente. O loiro estava chateado, mas uma chateação que o levava ao desdém. Era como se ele não se importasse.

O moreno franziu o cenho enquanto pensava no que estava acontecendo. O loiro estava para lutar por sua vida, liberdade, segurança. No entanto, agia como se estivesse indo a mais uma aula do colégio, com preguiça de levantar da cama. Faltava-lhe algo tão importante quanto a confiança, faltava-lhe altivez.

– O que foi? Por que está me olhando assim? – Hyoga percebeu que estava sendo analisado e se irritou.

Diante daquela reação, o policial teve certeza de que o loiro estava irritado consigo. Embora o policial se achasse mais no direito de estar irritado, não entraria nessa discussão desnecessária. Ikki não queria causar ainda mais atrito com o jovem, pelo contrário. Respirou profundamente, sabendo que havia vacilado diversas vezes e com isso decepcionado o loiro com suas atitudes. Sabendo-se incapaz de dissolver todos os nós daquela história, optou pela única coisa que podia fazer. Algo que jamais havia feito, mas que se mostrava extremamente necessário.

Sem dizer nada, e com o intuito de mostrar ao adolescente que, embora lutasse para ser o que todos esperavam, havia nele fragilidade, Ikki aproximou-se lentamente. Os olhos cheios claros e cheios de dúvidas e decepção o fitavam sem saber que reação ter, aguardando o seus próximos passos. E então, retirando a própria camisa, sob os olhares atentos e ansiosos do loiro, o moreno jogou a camisa displicentemente sobre a cama e virou-se um pouco de lado, mostrando a tatuagem, acariciando a pele por sobre o ombro direito e olhando nos olhos de Hyoga.

– Eu a fiz assim que saí de casa, quando eu tinha a sua idade... – Percebeu os olhos de Hyoga correndo pelas cores e linhas do desenho em sua pele morena. O loiro engoliu em seco e voltou a olhar nos olhos do policial.

Não precisava me contar... – Eles se olharam por alguns segundos antes que Ikki continuasse.

O desenho da fênix, a sua história, suas chamas, tudo era perfeito para mim. Era a marca que eu queria deixar na minha pele me provando quem sou, o que sou e o que preciso fazer... – As palavras de Ikki ressoavam pelo quarto, enquanto aquelas linhas de um vermelho e amarelo intensos pareciam tragar Hyoga em direção a Ikki. Seu rosto ruborizou sentindo-se quente, agitado diante daquela cena.

– É uma bela tatuagem... – Falou, umedecendo os lábios.

– Mais do que linda, ela sou eu... – Proferiu antes de se virar, fitando-o de frente. Percebia todas aquelas reações inconscientes do jovem, mais ainda tentava se controlar ante a vontade de toma-lo para si. Seus olhos novamente se cruzaram, intensos, numa conversa paralela e silenciosa.

– Forte e corajosa? — Arriscou um palpite.

Capaz de resistir às chamas que parecem consumir de vez, e ainda assim voltar a vida. Mas jovem, mais forte, mais capaz. Mais do que forte, sou um sobrevivente da minha própria história.

Todas as palavras foram ditas carregando lembranças que, embora Hyoga não as soubesse, podia sentir que eram marcantes. Não sabia dos fatos, mas sentia que marcaram profundamente o policial. E, a julgar por todo aquele porte que ele tinha, devia ter sido um sofrimento muito grande.

O que aconteceu?

– Lembra-se do que eu te contei quando nos conhecemos? Sobre as prisões? – Perguntou, recebendo uma confirmação silenciosa. – O que sei daquele lugar não é da minha profissão e sim do que vivenciei na pele...

– Você já esteve preso? – A surpresa na voz do loiro era evidente.

Sim... – suspirou pesadamente antes de continuar, voltando seu olhar para outro ponto qualquer. – Como qualquer órfão que acaba nas ruas, se envolvendo com drogas e o crime...

E-eu não... Sabia... Seus pais faleceram ou...

– Pelo que soube no orfanato, eu fui abandonado por minha mãe. Nunca soube o motivo, mas isso não me impedia de me sentir rejeitado. Odiava aquele lugar e acabei fugindo, fui parar nas ruas, me droguei, assaltei, e acabei preso... – Era nítido pela forma atropelada que dizia o desconforto. Ele estava lutando contra si mesmo, saindo de sua zona de conforto, Hyoga percebia e sentia-se especial por ele estar compartilhando um momento tão pessoal.

E... Aconteceu tudo aquilo... Que me contou...? Na prisão? – Vacilava na pergunta, mas as palavras de Ikki sobre a prisão ainda martelavam na sua cabeça. Não precisou de uma resposta, os olhos do moreno responderam uma cruel realidade. – Sinto muito...

– Não se preocupe... – O moreno meneou a cabeça. Embora relembrar todos aqueles momentos tenha sido difícil, percebia que fora fundamental para aliviar a tensão que havia entre eles. – O que importa é que eu sobrevivi... Sou um guerreiro e não me entreguei a nenhum obstáculo. Foi muito difícil, mas o que foi fundamental Hyoga, a minha persistência, a minha teimosia, minha determinação para fazer o meu melhor, independente do que acontecesse, do que falassem, do que fosse. E é esse espírito que eu quero de você. – Disse, apontando um dedo em riste para o loiro. – Você entendeu?

O loiro ouviu atentamente e, não podia negar, ele era bom em motivações. Um sorriso discreto se desenhou no rosto do moreno ao pensar que poderia fazer como ele, e desafiar a tudo, porém não tinha certeza se tinha a mesma força do moreno. Desviou o olhar para o chão, pensativo.

– Eu entendi... – Claro que sim, porém entender era diferente de sentir. E a verdade era que Ikki acreditava nele muito mais do que ele mesmo poderia acreditar. Hyoga não tinha a mesma força, determinação, e principalmente a coragem de Ikki, era um idiota inseguro, com medo de tudo.

Hyoga? – Imerso em pensamentos, o adolescente não percebeu a aproximação do policial, só a notando quando sentiu a mão morena sobre seu queixo, erguendo-a. – Entendeu mesmo?

– S-sim... – Aquela aproximação, aquele olhar, aquela voz... Era tão estranho como a presença do moreno perturbava-o de um modo que ele não conseguia explicar. – É só... Eu não sou como você Ikki... Eu... Sou um maldito inseguro! – Desviou mais uma vez o rosto, afastando-se um pouco escondendo os olhos marejados pela dor e pela revolta contra si mesmo. Ikki sorriu discretamente, trazendo-o novamente para perto, com suas mãos segurando firmemente os braços do russo.

Quando parar de dar tanta importância ao seu passado e prestar mais atenção em quem você realmente é, conhecerá seu potencial e não será mais inseguro.

Eram belas palavras, porém o que Ikki não sabia era que Hyoga era um amaldiçoado. Era o filho de um monstro, nele corria o sangue de um estuprador e se sentia contaminado. Aquele pensamento e sentimento o deixava ainda mais vulnerável, era a razão de toda a sua rebeldia, a única forma de expressar sua raiva e frustração com a vida, com o sentimento de injustiça, com a mágoa que sentia de Camus.

Ao mesmo tempo em que seu comportamento destrutivo contribuía para que se sentisse ainda mais perigoso para aqueles que amava. Era um circulo vicioso que simplesmente não conseguia se libertar. Estava preso dentro daquela teia, dentro daquele sentimento de injustiça, de ser amaldiçoado, de ter o sangue de um monstro correndo em suas veias, sentimentos que o faziam se expressar pela rebeldia e que contribuía para confirmar que ele não passava de um miserável filho de um estuprador.

Ikki rapidamente percebeu nos olhos claros e bonitos do mais novo que algo estava errado.

Hyoga, você está bem? – Perguntou realmente preocupado, vendo algumas lágrimas rolarem pela face alva do loiro enquanto ele resistia a elas em vão.

– Eu... Não... Eu... – O mais novo havia guardado aquele sentimento por toda a sua vida e naquele momento parecia que tudo queria sair de si ao mesmo tempo. Sentiu uma falta de ar e uma vontade absurda de gritar, de chorar, de extravasar toda a revolta que sentia, por tudo e todos.

Hey, fica calmo! – Foi por instinto de proteção que Ikki o abraçou, sem saber muito bem o que fazer com aquele garoto chorando na sua frente. Ele não estava nada bem e não sabia o porquê, mas queria ajudar. – O que está acontecendo, Hyoga? Não posso te ajudar se você não me disser...

– Você não pode me ajudar... – O loiro se afastou do abraço sentindo-se em puro desespero. A falta de ar se intensificou, fazendo-o puxar ainda mais o ar. – Eu não consigo... Respirar... – Disse apoiando-se na janela, buscando por ar. Ikki não pensou duas vezes, seguiu-o e o abraçou por trás, com a palma da mão sobre o peito dele e com o rosto colado no ouvido do loiro, ambos com o rosto virado para janela.

Calma, isso é estresse... É seu corpo exigindo que você desafogue, desabafe... Então, respire e faça! Joga pra fora!

Ikki não sabia se estava fazendo o certo, apenas seguia sua intuição. O que Hyoga estava sentindo era uma reação física a tudo que ele acumulou dentro do coração. E já era experiente o bastante para saber que quando não se canaliza bem essas emoções, eles explodem fisicamente. E era isso o que estava acontecendo com Hyoga.

O loiro, por sua vez, não conseguia processar o que ele dizia. A falta de ar aumentava ainda mais o seu desespero, o seu medo, tudo o levando a um vórtice de angústia e medo, e sua única reação era chorar e puxar o ar, cada vez mais compulsivamente, como se sua vida dependesse daquilo, e realmente dependia.

Mas o calor do corpo de Ikki o abraçando teve um efeito inesperado para ambos. Aos poucos Hyoga se acalmou e a respiração se regularizou, as lágrimas cessaram e um sentimento de torpor tomou seu corpo. Sua mente estava vazia, o silêncio quebrado apenas pelo som de suas respirações, estava leve. Chorar sem medo e vergonha fez muito bem para acalmá-lo, mas Ikki ainda estava ali e fez questão de fazer notar sua presença.

– Está melhor? – Perguntou ainda abraçado a ele.

– Sim... – Respirou e virou-se de frente para o outro. Estavam tão próximos, tão íntimos. Mesmo após aquele silêncio, não desfizeram o abraço. Mesmo que um contato tão intenso pudesse confundir a cabeça de Hyoga, naquele momento, ela estava anestesiada e não causava tantas dúvidas no adolescente, permitindo que seus sentimentos o domassem por completo.

– Vou confessar, você me assustou... – O policial sussurrou como uma verdadeira confissão, rindo baixo logo depois. Tão sexy...

Desculpe... – Sussurrou igualmente sexy, com o olhar fixo nos olhos e na boca do moreno. Seu corpo se arrepiou e sua mente viajou para outro canto, seu cheiro era excitante.

Sem problemas... – Foram suas últimas palavras antes de se render ao desejo e tomar a boca do adolescente, não encontrando nenhuma resistência àquela carícia carregada de malícia e desejo.

Continua...