Cárcere
4 Capítulo 4
Notas iniciais
"Como assim Zeus desapareceu?" Francis perguntou perplexo.
Arthur olhou de Francis para Kiku e de volta para Francis com alguma preocupação. No entanto, sua participação meramente observadora e um tanto quanto passiva naquela história estava começando a lhe irritar.
"Ele nunca mais foi visto pelo Olimpo, tampouco no mundo dos mortais. Não sentimos mais a presença dele, ela simplesmente desapareceu. Ele ainda se manifesta ocasionalmente, mas é como se ele houvesse desaparecido do mapa não importa o quanto invoquemos o seu nome."
Francis franziu o cenho e levou uma mão ao queixo.
"Faz quanto tempo?"
"Creio que um ou dois meses no tempo dos mortais."
Arthur arqueou a sobrancelha, inicialmente surpreso com o comentário, mas depois parou e refletiu. O tempo não passava da mesma forma para mortais e imortais, como esquecera algo tão óbvio? Se ele bem lembrava, o tempo sequer parecia passar para os imortais. Tão eternos, vivendo as mesmas histórias, as mesmas intrigas enquanto observavam as mesmas coisas acontecerem aqui e ali, as pessoas nascerem e morrerem e todo aquele ciclo aparentemente interminável de tristeza, felicidade e tristeza de novo. Que vida entediante.
Não que Arthur se importasse. Ele sempre fora o tipo que tentara fazer do tédio seu aliado. E bem, quando não conseguia... Simplesmente fugia dele.
Mas então, o loiro não entendeu bem, sequer se precatou, na verdade, que havia tomado a palavra para si.
"Ele está bem."
Ambos Francis e Kiku viraram-se para Arthur, que tinha um olhar distante, meio sonhador, meio alienado, e um pequeno sorriso no rosto. As íris esverdeadas opacas, perdendo-se em algum lugar de Arthur, somente de Arthur. Seu transe fizera com que seus acompanhantes chegassem à conclusão que, naquele momento, Arthur não era Arthur.
"Eu sei que ele está. Isso não passa de um daqueles joguinhos idiotas dele. Tão teimoso. Tão covarde. Mas ele está bem. Então não se preocupem."
Francis e Kiku se entreolharam, seus sentimentos e preocupações invisíveis à falta de interesse no ambiente refletida no olhar de Arthur.
"Arthur...?" Disse Francis, tocando em seu braço com cautela.
Arthur sacudiu a cabeça e seu olhar era tão confuso quanto o de Francis.
"Eu?"
"O que você acabou de dizer?" Foi a vez de Kiku perguntar.
"Eu? Eu não disse nada. Vocês estavam falando algo sobre Zeus estar desaparecido, não estavam? Depois vocês ficaram quietos..."
Kiku entrelaçou os dedos e apoiou o queixo nas mãos.
"Arthur, nós estamos aqui para lhe contar a verdade. Mas não temos todas as peças do quebra-cabeça. Sabemos somente o essencial. No entanto, existem lacunas nas nossas versões que somente vocês podem preencher. Mas, para isso, você precisa lembrar de quem você é."
"Vocês insistem que eu devo lembrar quem sou, mas não entendo o ponto!"
"Vocês?" Kiku arqueou a sobrancelha e olhou de maneira inquisitória para Francis.
"Você, aquele fantasma idiota... É tão irritante. Eu sei quem sou, sei muito bem e não preciso de vocês para me confundir."
Tolo, tão tolo. A teimosia não leva a lugar algum e faz de seu autor um eterno cego egoísta e por que não, egocêntrico. Sempre relevando o seu ponto de vista e sempre ignorando o que os outros dizem. Tolice, teimosia, estupidez são pecados tão graves quanto a ingenuidade e alguém de seu porte e cargo não tem o direito de agir amparado por eles. Você não é um humano, não tente agir como um.
"Mas que infernos... O que você está falando, git..." Arthur murmurou, meio sonolento.
De repente, sentiu as pálpebras pesarem e seu corpo ficou mais leve. Era uma sensação tão boa que Arthur poderia ficar eternamente ali, quase flutuando em seu transe particular. Mas alguém não permitiria que seu torpor se prolongasse. Alguém que queria vê-lo sorrir, chorar, irar-se e até desesperar-se. Alguém tão cruel quanto o pior de seus inimigos e tão apaixonado e atencioso como o mais dedicado dos amantes, que Arthur conhecia tão bem, oh, tão bem.
E ele começou a invocar Arthur, em um ritmo frenético, buscando dentro dele memórias que sequer sabia se eram reais, a respeito de fatos que Arthur não sabia se um dia fizeram jus à palavra ou se já pertenciam ao mundo inteligível.
Olhe para mim, Arthur.
Me veja.
Veja só a mim, somente a mim.
Você precisa me ver.
Você tem uma alma? Eu tenho milhares delas!
Mas elas não me pertencem.
Quer uma alma?
"Você está matando outra vez?" Ralhou.
Talvez.Embora Arthur não o visse, ele imaginou o seu sorriso. Imaginou os olhos azuis sorrindo junto, transbordando aquele típico brilho sádico e divertido. E ele ousou perguntar. Quer ver?
E antes mesmo que Arthur pudesse dizer não, ele viu muito, muito sangue. Vísceras espalhadas pela sala e rostos desfigurados. Havia um braço ensanguentado sobre um sofá. Em uma criança, Arthur não sabia se era um menino ou uma menina, faltava toda a pele. Ele sequer conhecia aquelas pessoas, sequer sabia onde era aquela casa, mas sabia que, provavelmente, ninguém tinha uma pista da chacina que havia acontecido com aquela família. Alguém chorava baixinho no canto da sala, alguém que Arthur não conseguia ver com clareza. Em questão de segundos, a garganta da criança foi cortada for algo que o loiro pode jurar estar invisível e o sangue jorrou para todos os cantos.
Arthur levou a mão à boca, sentindo náuseas. Sentiu raiva, indignação, revolta, ódio, tristeza e enjôo. Tudo ao mesmo tempo.
"PARE COM ISSO, PARE AGORA!"
Aww. Por quê? Você não quer os meus presentes? Não gostou dos meus presentes?
"E-Eu... N-n...ã" A cabeça de Arthur doía. Doía muito. Estava pesada, como se alguém o estivesse pressionando. Era como se alguém insistisse que a resposta que estava para dar era a incorreta e como se Arthur soubesse disso, mas fosse teimoso o suficiente para resistir. O que é a agonia de lutar contra a própria mente? Desgastante, muito desgastante. O seu pior inimigo é você mesmo, não importa o pólo em que você esteja.
Arthur ouviu a si mesmo murmurando incoerências, ora a favor, ora contra a resistência. Mas Arthur sabia que, no fundo, aquela resistência era infundada. Você não pode fugir da sua verdadeira natureza, por mais que tente.
...
Por fim, ele cedeu, com um suspiro resignado.
"Eu gosto. Você é um doce fazendo isso pra mim. Mas não é assim que se faz. Não cabe a você fazer isso. É meu trabalho, é só meu. Não enfie o nariz no meu trabalho, git."
Não! Eu quero ajudar! Você não manda em mim.
"É o MEU trabalho, wanker! Eu sou o dono dessas almas!"
Então volte. Volte para mim. Só depois disso você pode trabalhar. E você é meu, só meu. Volte logo. Não sei por quanto tempo vou conseguir me manter assim. É difícil, é muito difícil.
"O que você quer que eu faça? E como eu posso vê-lo."
Volte, eu disse. Pare de ficar perguntando e encontre as suas próprias respostas. Você nunca precisou de mim para encontrá-las. Sabe que é mais forte do que isso.
Arthur se irritou.
E finalmente viu o sujeito. O fantasma, aquele seu precioso fantasma, brincalhão, cruel, ao mesmo tempo tão tolo. Ele estava lá, sempre esteve lá, bem na frente de Arthur, acariciando-lhe as bochechas. Seu olhar era tão terno, tão terno. Aqueles olhos azuis-celeste encaravam-no com toda a dedicação do mundo, tão profundamente, oh tão profundos.
Eu te amo.
Arthur sorriu.
"Eu também te amo, git. Por que você demorou tanto?"
Eu não demorei. Sempre estive aqui. Você é que é muito denso. Nunca
pensei que tomando a forma humana você fosse incorporar tanto as qualidades das minhas preciosas criaturas.
Arthur beliscou-lhe os braços.
"Eu deveria puni-lo por isso. E você é um péssimo 'pai', matando as suas criaturas tão deliberadamente. O que os meus fiéis subordinados do submundo irão dizer quando descobrirem? Que vergonha, Zeus."
Eu amo os seus olhos. Eles são tão verdes. As íris em azul celestial penetravam o mais fundo no ser de Arthur, sequer se importando com a ameaça.
"Não mude de assunto e pare de me bajular." Arthur fez beiço. "Eu quero um beijo. Agora que o vejo, um beijo vai me ajudar a lembrar o que as lacunas em minha mente não me permitem ver, você sabe que vai."
Eu sei.
Ele sorriu, se inclinando para frente e selando os lábios juntos.
Arthur sentira muita falta daquele contato. Fazia séculos que não o sentia. Séculos de que fora privado daquela sensação arrepiante, mas viciante.
A língua do outro não esperou por permissão, ela invadiu a boca de Arthur com toda a discricionariedade do mundo, divertindo-se com sua língua como queria. Arthur, tendo o pescoço dele envolto por seus braços, o puxava para mais e mais perto, mesmo que já não restasse distância entre eles.
As mãos do maior percorreram as costas de Arthur, por cima de suas roupas. Pequenos choques percorreram-lhe a espinha. Ao mesmo tempo, as línguas não se cansavam de batalhar pela dominância.
Eles se beijaram por minutos, gozando das sensações causadas em seus corpos. O ar não lhes faltava. Parecia que nada os interromperia e que o ato seria eterno.
Mas quando a cabeça de Arthur parecia que ia explodir, ele precisou parar. Um som agudo preenchia-lhe os ouvidos e ele começou a gritar. A dor era tanta, o barulho era tanto, que Arthur não via nem ouvia nada. Estava tão centrado em si, tão inundado pelas memórias que lhe atormentavam, que nada mais importava.
Arthur viu todas as cenas das quais deveria se lembrar.
Viu quando ele sorriu daquele modo sugestivo, quando ele o abraçou, quando finalmente entendeu os sentimentos, o primeiro beijo, as indiretas a Hera, a raiva dela quando descobriu, os olhos enfurecidos, clamando por sua destruição.
A vida pareceu esvair-se do corpo do loiro. Ela o estava abandonando.
Simultaneamente, exatamente por isso, Arthur sentiu-se mais forte. Ele não precisava mais de vida, de qualquer forma. Não precisava porque a vida não tinha nada a ver com ele. Não era a vida que o circundava. Era a morte, a própria morte. O ar, a essência do submundo. Os gritos desesperados das almas perdidas eram uma doce melodia aos seus ouvidos.
Hades estava de volta.
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A primeira coisa que Arthur viu quando abriu os olhos foram os rostos preocupados de Kiku e Francis.
"Artie, você está bem? Você estava gritando incoerências."
"Quem estava com você?" Kiku perguntou.
Arthur sentou-se. Sequer percebera que fora parar no chão. Provavelmente dera um belo de um show.
"Tsk. Estava conversando com aquele wanker. Ele é tão genial que irrita." Sua voz estava diferente, mais séria e ao mesmo tempo mais intimidadora.
Francis lançou um olhar inquisitor para Arthur e depois para Kiku.
Kiku pigarreou. "Não tenho certeza de quem você está falando, mas é bom tê-lo de volta, Hades."
Arthur sorriu.
"É bom estar de volta também."
"O-o-quê? Q-quando exatamente você voltou?" Francis estava visivelmente confuso.
"Gostaria que você explicasse isso também."
Arthur deu um risinho sinistro.
"Como eu já disse, ele foi genial. Agora tudo faz sentido, obviamente."
Kiku pareceu começar a perceber o acontecido.
"Você estava com Zeus."
Arthur assentiu, cruzando as pernas.
"Mas somente você pode vê-lo ou conversar com ele."
"Exato."
"Espera." Foi a vez de Francis. "Se Zeus desapareceu do Olimpo e Arthur começou a ver um fantasma não muito depois, então... Isso quer dizer que..."
Arthur assentiu novamente.
"Exatamente. Zeus tomou a forma de um fantasma para não ser percebido por Hera, nem por nenhum outro Deus, e isso inclui vocês. Ele queria sigilo e também um pouco de diversão. Ele estava me presenteando durante todo esse tempo. Dessa forma, como um fantasma e me dando almas, ele pensou poder me ajudar a lembrar tudo e voltar a ser quem eu era antes. E bem, até que deu certo."
Francis se sobressaltou enquanto Kiku levou a mão à testa.
"Ele disse o nome." Suspirou Kiku.
"Esse estúpido... Antecipar uma vingança dessa forma tão impensada... Ele não tem jeito."
Não demorou nada para que uma Hera enfurecida se materializasse na sala de Francis.
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