Notas iniciais
Mais um capítulo sem revisão, mas estrelando outro casal para compensar. Boa leitura!

V — Sina (2)

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"Levante-se, Cavaleiro de Sagitário."

Desajoelhei. "Recebi sua carta e vim sem demora, grande mestre."

"Gostaria de falar-lhe a sós. Senhores, por favor, queiram deixar-nos", lançou um olhar significativo aos soldados, que se retiraram, hesitantes. Shion nunca ficava sem sua guarda pessoal, ainda mais depois do nascimento de Atena.

Finalmente sozinhos, o regente retirou de uma volumosa manga de seu traje uma folha de papel dobrada e atirou-a no chão, aos meus pés. Já prevendo o que seria, apanhei a carta e abri-a, apenas para confirmar minhas suspeitas.

"De que se trata essa ousadia? Você nunca foi de enfrentar seus superiores!", seu tom de voz severo preencheu a sala e reverberou em meu peito. Shion raramente falava assim, portanto, me contaminou com ansiedade.

"Mestre, eu apenas sugeri uma mudança estratégica na missão..."

"Não, você solicitou."

"...Para um melhor rendimento final, visto que a língua mais falada no Caribe é o espanhol", concluí, súbito cheio de coragem. Não voltaria atrás em minhas opiniões.

"Jamais um cavaleiro questionou uma ordem do Patriarca sem castigo! O que lhe fez pensar que seria uma exceção?"

"Eu não o questionei, vossa Santidade. Somente fiz uma proposta construtiva para o plano. Foram requisitados dois cavaleiros de ouro, assim, entendi que os motivos da investigação são da mais alta importância e qualquer detalhe equivocado pode colocar tudo a perder."

"Não se faça de tolo, Aiolos. Eu nunca envio dois cavaleiros juntos para longe, pelo risco de deixar o Santuário desguarnecido. Sabe que escalei Saga e você para comparar o desempenho de ambos."

O bufo irritado de Shion foi sufocado pelo seu capacete. Emudeci diante das suas intenções descortinadas, que já não eram novidade. Eu amava Shion como um professor, mas a verdade é que detestava ser cobrado e posto à prova.

"Você não leva a sério isso mesmo", ele acusou, entre cansado e indignado. "Diga-me: não ambiciona ser Patriarca algum dia?"

A resposta estava engasgada há meses. Desviei meu olhar. "Não. Eu sinto muito."

Shion me analisou com um entortar de sua cabeça. "É por causa dele?", fitei-o com susto e ele fez um gesto para que eu me calasse antes mesmo de começar a me defender. "Por favor, poupe-me das suas mentiras, sou um ancião e mereço respeito. Você se acha tão esperto que possa esconder algo desta instituição? De mim?"

Corei até a alma. No fundo, eu tinha a presunção de crer que estava enganando o regente, afinal, ele continuava tão quieto, tão pacífico... A realidade é que eu sempre seria uma criança tola perto da sua astúcia. "Mestre, eu...", ele repetiu o gesto de calar-me.

"Sei de tudo que acontece nos domínios de Atena, especialmente o que acontece debaixo do meu nariz, nas doze casas", ele se inclinou perigosamente na minha direção, na cadeira. "Quando você estava saindo das fraldas, eu já tinha mais de duzentos anos de regência. Sei de muito mais que você sequer sonha existir..."

Eis que ele olhou ao redor para se certificar de que, realmente, ninguém nos escutava e até abaixou a voz. "Eu também já tive um namorado. Nós éramos exatamente como você e Shura."

Quase caí sentado, apesar de não ser a revelação do ano — muita gente acreditava nos boatos sobre o affair entre o Patriarca e o cavaleiro de Libra. Contanto, ouvir uma confirmação diretamente da boca do líder do Santuário foi, com certeza, impactante. Não ousei tecer nenhum comentário, apenas permiti que continuasse se abrindo até onde quisesse.

O mestre suspirou e voltou a recostar-se no trono. Então, recolheu as mãos sobre seu colo, quase parecendo sonhador, embora estivesse falando mais seriamente do que nunca. "É difícil estar na juventude e ter que abdicar da plenitude dela para se sacrificar pelo futuro de outras pessoas, mas essa é nossa vida, Aiolos. Somos soldados de Atena. Nós não vivemos para nós mesmos. Por que você acha que existe proibição para o romance entre cavaleiros?"

Mantive-me silente, acreditando ser uma retórica. Shion atingia o clímax do seu discurso: "Porque o amor substitui a matemática das nossas decisões e nos embaralha a razão; energiza o corpo ao mesmo tempo em que enfraquece a mente. Um homem apaixonado é um carro desgovernado cheio de combustível. Não é esse tipo de guerreiro que queremos em campo..."

"Porque o amor... ele é uma força da natureza, uma arma poderosa, mas que não conseguimos controlar. Pode ser um trunfo, mas também pode ser nossa ruína. No meu caso, o amor me salvou, mas não salvou a todos os meus companheiros" o ancião concluiu com amarga sinceridade.

Foi a hora em que encontrei espaço para as minhas verdades: "Mestre, entendo sua visão, mas eu nunca quis ser Patriarca!", tentei argumentar, sem sucesso; Shion me interrompia a todo momento.

"Você não deseja ser Patriarca porque isto o privará do pouco de liberdade que tem com Shura. O que não consegue enxergar, pois está cego de paixão, é que você é a melhor alternativa para a segurança de Atena e o governo desta instituição. Se não está convencido disso, veja bem o meu exemplo: eu não tive escolha e assumi a regência em condições muito piores do que as de agora. O Santuário estava destruído."

"A diferença entre nós dois, Aiolos, é que eu tinha sobrevivido a uma guerra santa. Na batalha, percebi a dimensão de tudo que estava em jogo e vi cavaleiros mais poderosos do que eu caírem. A carnificina me tirou do meu mundinho alienado de treinos e missões fáceis e abriu meus olhos para a única razão da minha existência, minha única prioridade real: nossa deusa. Portanto, quando fui obrigado a virar Patriarca, eu me encontrava em situação de não poder sofrer mais derrotas, com o Santuário esvaziado. Eu precisava ser prático e fiel à deusa. Não podia me arriscar a permanecer acorrentado pelos meus sentimentos e fraquezas. E por isso, não me arrependo de ter mantido meu amado em outro continente no final da guerra e me dedicado ao fortalecimento do Santuário. Creio que esta foi a decisão mais acertada."

"Eu consegui ser um bom regente. Você também é capaz."

As palavras me acertaram como golpes. Mal podia crer que ele estava inclinado a me amaldiçoar com sua mesma sina! Não conseguia entender: eu rezava para não ser escolhido, enquanto Gêmeos carregava o Santuário nas costas para tornar-se o grande mestre — e ele era o mais forte dentre nós, bem mais maduro que eu e possuía o perfil de liderança ideal para substituir um ícone como Shion. O desespero veio a meus lábios: "Mestre, por que não escolhe Saga? Ele quer tanto sucedê-lo..."

Ele não se dobrou à minha teimosia. "Porque você ainda é a primeira opção. Não vou desistir tão facilmente dos meus planos."

Suava frio. Àquela altura, vi-me à beira de prostrar-me à barra de suas vestes e implorar. O orgulho e o resto de minha lucidez me impediram. Shion estudou-me por alguns segundos e interpretou meu silêncio como rendição.

"A partir de hoje, você vai voltar a ser o capitão da guarda." ele sentenciou. "Não deveria ter entregado o posto a Saga, em primeiro lugar; não sem antes me fazer uma solicitação formal." eu pedi desculpas, mas ele me ignorou e continuou. "Deixei passar em branco porque seu desempenho estava péssimo. Foi bom que Saga segurasse as pontas enquanto você chorava pelos cantos pelas brigas com o seu namorado. Preste atenção: é melhor você tomar jeito logo e se esforçar de agora em diante."

Concordei com a cabeça, incapaz de expressar sequer um dos zilhões de pensamentos que gritavam na minha mente. Eu ansiava pelo retorno ao cargo de capitão da guarda e isso teria me colocado contente, se não fosse a ameaça de perder tudo que eu amava ao ser promovido a Patriarca. Minha casa, minha espontaneidade, minha proximidade com o povo de Rodório, os mimos a Aiolia e Shura — seria obrigado a deixá-los para trás. O pouco da minha mocidade, ralo abaixo.

Shion analisava-me como quem me desafiasse a desobedecer. "É só isso, temos punição suficiente por ora. Pode ir."

Arrasado, fiz uma vênia automática e preparei-me para sair, porém ele me chamou quando eu me dirigia à porta.

"Ah, tem mais uma coisa...eu resolvi aceitar seu pedido de substituir Gêmeos por Capricórnio na missão caribenha. Mas não porque acredito nas suas boas intenções, que fique bem claro. Saga está tendo problemas graves com Kanon e não deve se ausentar da terceira casa. Além do mais, eu concordo que um hispanofalante na missão vai me dispensar gastos com tradutores."

Confuso, me detive na porta e esperei que ele desmentisse aquilo — era totalmente incoerente. Porém, Shion já havia saltado do trono e desaparecido atrás do cortinado.

Quando saí, Saga e Kanon aguardavam uma audição com o mestre na antessala. O olhar de ambos era tão igualmente feroz, que não se podia distingui-los, exceto pelo uso da armadura de Gêmeos. Fiz-lhes cumprimentos que fingiram não ouvir. Estranho o comportamento deles, pensei, sem me dar mais outro trabalho — o de me ofender. A última hora fora tão esquisita, que nada teria o poder de causar-me mais surpresa ou desconforto.

Aliás, não podia contar a Shura sobre o conteúdo daquele meu confronto com Shion. Ele jamais entenderia meus motivos para recusar a regência do Santuário e tentaria de todos os meios sair do meu caminho para me fazer subir ao trono.

O fato é que havia outras opções melhores que eu. Eu era um bom preceptor e um hábil líder da guarda, mas certamente seria um desastre como Patriarca. Eu tinha fraquezas que deviam ser ponderadas, as quais o mestre ignorava por se enxergar equivocadamente em mim.

Pensei muito na missão que Shion me deu de presente antes de embarcar nela. Ele queria que eu me despedisse do meu namorado - nas palavras dele — antes de ser arrastado para o trono. E foi isso que não fiz. Aproveitamos os seis dias no Caribe sem que eu sequer tocasse nos assuntos que me afligiam. Se fosse para eu me tornar regente em breve, então que tivéssemos nossos dias até lá totalmente despreocupados.

Escondi o assunto dele e de mim mesmo enquanto pude, tentando viver como se a possibilidade de seguir os passos de Shion não existisse. Contudo, Saga tem me evitado cada vez mais e tratado-me com uma frieza atípica, uma máscara polida para sentimentos de raiva ou ressentimento, creio. Ele me vê como um rival e isso já é mau agouro por si só — e um lembrete de que ainda estou sob a mira do Patriarca.

Hoje à noite, Shura se agita na cama primeiro, acordando-me. Ele se põe de pé para tomar banho e rastejar de volta à casa de Capricórnio, seguindo nosso ritual de segredo. Sonolento, vejo-o levar as mãos acima de sua cabeça para se espreguiçar, alongando os músculos bem desenhados do dorso e dos braços. Visões como essa, que antigamente eram puro êxtase, agora são um suplício com nossos dias ameaçados.

Meu corpo arde de saudades antecipadas. Nunca vou deixar de idolatrá-lo, nem irá se apagar a chama do meu desejo por ele.

É isso que me preocupa.

Notas finais
Shion sendo tão lindo e devoto quanto Shura, como não amar? Mesmo que somente sugerida, aqui foi uma pitadinha de Dohko e Shion - mais um casal separado pelo dever. Aliás, preciso introduzir uma curiosidade sobre o enredo: ao longo da fic, aparecerão os dois mestres, Ares e Shion. Mais adiante haverá esclarecimentos, mas tenham em mente que Saga não vai se passar pelo carneirão. Até a próxima!