Cá entre nós
7 Omissão/ Pt 1
Notas iniciais
VI — Omissão (1)
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Amparo-o em meus braços com o coração aos pulos, nossos fluidos misturados no meu ventre. Shura desmorona sobre meu peito com a respiração acelerada, soltando ofegos animalescos. Sinto suas pernas amolecerem ao redor das minhas e nos trago para uma nova posição, mais confortável, deitados frente a frente. Tento acalentá-lo, mas ele não quer gentilezas — apenas captura meu lábio inferior num beijo satisfeito enquanto afasta minha mão carinhosa em seu tórax.
O apetite e a fúria que me cavalgaram tem uma motivação: amanhã, Ares assumirá o trono do Patriarca, segundo a linha de sucessão. Isso significa que Shion está morto e eu livre. Não houve tempo para que minha nomeação fosse oficializada.
"Vem cá", ordeno num resmungo manhoso, abraçando meu amado pela cintura como se quisesse me amalgamar a ele. Shura arqueja sob meu aperto, contrariado, mas corresponde em igual intensidade. Nossos braços e pernas enrolam-se ao nosso redor e, de repente, somos uma única criatura com dois corações palpitando no mesmo descompasso; um bicho estranho, assimétrico, soluçante, de cuja pele desigual brotam suor e arrepios; uma simbiose completa, na qual uma parte não sobrevive sem a outra, inseparáveis.
Mesmo assim, eu não posso dizer que estou feliz. Minha liberdade custou-me uma vida muito querida e a estabilidade do Santuário, que jamais será o mesmo depois da partida dele.
Shion falecera repentinamente na aurora do primeiro dia do inverno, homenageado pelo canto triste dos pássaros que ainda não haviam migrado. Quem o encontrou caído à beira da cama foi sua governanta, de quem ele nada escondia. Temista negava ter recebido qualquer queixa de mal estar na véspera, todavia, relatou que o mestre vinha negligenciando uma fraqueza com evolução de meses. Desabafou que Shion mal comia e que em diversas vezes ele gritara por seu socorro em meio a crises noturnas de falta de ar; além disto, cansava-se até para tomar banho e dormia quase sentado, apoiado em três travesseiros, muito embora teimasse em afirmar que gozava de boa saúde. Quando questionada sobre o seu silêncio, Temista defendeu-se acusando o mestre de ter ameaçado exilá-la do Santuário caso expusesse a enfermidade dele.
Era difícil para nós cavaleiros percebermos qualquer coisa, pois Shion não era um chefe ativo, do tipo que discursava regularmente ou que circulava por toda a parte nos supervisionando. Na verdade, era como se ele tivesse nascido e passado toda a vida naquele trono seu.
Portanto, para o exército de Atena — e aqui me incluo com ênfase -, foi uma triste fatalidade que se abateu sobre nosso honrado Patriarca. Era-o sobretudo para Saga, que via em Shion o pai a quem ele nunca conseguiu provar seu valor e nem ser por ele reconhecido. O finado era o único a tratá-lo sem distinções, apenas como mais um cavaleiro de alta patente, e não o semideus louvado desde o alojamento dos guardas rasos até as doze casas. Isso o instigara a treinar para se tornar cada vez melhor, como se a opinião de Shion por si só fosse maior que a de todo o Santuário. Não à toa, Saga despontava no credo popular como o Aquiles de nossos tempos, detentor da força de mil homens e pronto a desafiar até mesmo os deuses.
Só que, aparentemente, estes deuses não deixaram tal ousadia barata e decidiram castigar-lhe com maldições dignas das tragédias gregas clássicas.
Ainda que eu atravessasse um período conturbado, tinha que admitir que Gêmeos estava em situação muito pior. A primeira maldição veio-lhe através da família, de modo que os problemas de Kanon e Saga, os quais Shion mencionara quando havia escalado Shura para a missão no Caribe, vieram à tona numa grave acusação de inconfidência. Quinze dias antes da morte de Shion, Saga vivera outra tragédia — a de testemunhar contra seu irmão e condená-lo à prisão perpétua no Cabo Sunion por traição. A prova definitiva foi o diário de Kanon, o qual o próprio viu ser entregue pelas mãos de Saga à corregedoria. As páginas dele estavam manchadas de ódio puro de tudo e todos — as ofensas poupavam somente Saga, que era um santo também aos olhos de Kanon.
No mundo doentio do gêmeo sem armadura, eu e Shion éramos demonizados e apontados como os carrascos de Saga, sendo que o Patriarca "não passava de um velho obtuso incapaz de sequer enxergar a diferença entre o cavaleiro mais brilhante de toda a história e um moleque sem talento travestido de querubim" — no caso, eu. Várias passagens delirantes e escritas por ele tachavam Shion de "maldito conservador", "razão do atraso do Santuário" e "general indolente". Até me surpreendi com tamanha eloquência, já que Kanon, feito selvagem, vivia a espionar os outros cavaleiros de ouro, mas fugia de qualquer tentativa de aproximação.
O mais grave nem era seu escárnio, e sim seus planos de assassinar Atena. Tinha tramado tudo: envenenaria a criança e plantaria indícios contra o grande mestre. Então, com a crise instalada e a necessidade urgente de um novo líder, chegaria ao trono através do carisma e credibilidade de Saga, de longe o favorito entre civis e cavaleiros. Reinaria ao lado de seu irmão e acima até mesmo de Atena.
O gêmeo mais jovem, que sempre existira à margem do mais velho, degenerara seu complexo de inferioridade em rebelião.
Saga, por mais que o amasse, não viu outra saída além de denunciar e sentenciar seu próprio sangue. Justo como era, esperava-se nenhuma outra atitude dele. Assim, foi com grande espanto, admiração e lástima que o Santuário recebeu a notícia do drama familiar de seu heroi. Santificavam Saga por toda parte, por sua devoção extrema à deusa e sua instituição. Àquela altura, ele se tornou ainda mais popular que Shion e as apostas na sua escolha para sucessor do trono eram unânimes.
Foi seu último e maior sacrifício antes da decisão definitiva de Shion.
Na tarde em que convenci Shura da caridade de levar água potável e mantimentos para Kanon na prisão marítima do Cabo Sunion — um dos cárceres mais cruéis ainda em uso -, uma nova convocação do mestre fez-me cancelar meu compromisso. A carta fatídica chocou-se contra as sandálias de Shura no momento em que ele destrancava a porta de minha casa, ralhando comigo para que eu tirasse logo minhas mãos de sua cintura. Não sei o que contribuiu mais com a palidez dele — o fato do mensageiro estar rondando Sagitário enquanto ele quase gritava para que eu parasse de apalpá-lo ou o selo do báculo de Atena na carta aos seus pés. Eis que quebramos o lacre e lemos juntos o chamado do grande mestre, que desta vez não especificava o motivo da audiência. Pressenti o momento da nomeação e vi na boca torcida do espanhol que ele também se inquietava.
Seus olhos rasgados, tão duros e confiantes, enfim vacilaram e eu pude reconhecer neles o meu sofrimento. Sussurrei alguma besteira com a voz trêmula, algo como que adiássemos o passeio para a noite — talvez Kanon nem ligasse se trocássemos o destino do nosso passeio para uma praia mais deserta. Tinha certeza de que meu sorriso forçado era triste, porque Shura não teve nem iniciativa de socar meu ombro, como sempre reagia às minhas obscenidades. Apenas piscou compulsivamente, lábios comprimidos a engolir as frases erradas, e mandou-me ir depressa.
Então, num ato de despedida incerta, iniciei um beijo melancólico, que ele atropelou ao avançar sobre meus lábios brutalmente, mordendo, sugando, afogando, consumindo; devorar-me-ia até a alma, se pudesse. Esforçamo-nos para que durasse para sempre, mas terminou logo que nossos fôlegos se extinguiram e nossas testas uniram-se enquanto buscávamos ar.
A ideia de confessar-lhe meu amor pareceu ao mesmo tempo tentadora e terrivelmente tardia. Shura deve ter adivinhado o que eu ensaiava, pois tratou de me despachar com uma série de recomendações, feito uma mãe preocupada. Eu ainda me virei uma única vez a caminho do décimo terceiro templo, porém Shura não estava mais no portal de Sagitário.
Quando vi Saga outra vez na antessala do templo do mestre, minhas esperanças desfizeram-se. Ele trazia um semblante abatido, a ferocidade no olhar enfraquecida por largas olheiras, e pensei ter visto fios grisalhos em sua esplendorosa cabeleira loira. Parecia ter rastejado até ali, mesmo com a convocação possivelmente se tratando de um objetivo que um dia cobiçara ardentemente. Não tivemos tempo de trocar palavras, um soldado já foi empurrando-nos para dentro do salão do grande mestre.
Shion recebeu-nos com vênias e impediu que nos ajoelhássemos, avisando que falava de igual para igual. De canto de olho, vi acender nas cinzas de Saga uma excitação que julgava impossível em seu atual estado de nervos. O regente discursou brevemente sobre os requisitos para ser um líder do Santuário bem sucedido, apanhando exemplos da história, e então justificou os critérios que empregara na escolha do seu sucessor.
E, enfim, anunciou-me futuro Patriarca do Santuário de Atena.
Saga digeriu aquela informação sem demonstrar nenhum sentimento, para depois cair de joelhos aos meus pés e jurar-me lealdade. Assisti àquela cena atônito. Logo que o mestre veio felicitar-me com um aperto de mão, Gêmeos recompôs-se e pediu-me permissão para se retirar. Gaguejei uma autorização e Saga agradeceu com uma mesura antes de sumir dali a passos apressados. Ele fugiu como um ser minúsculo e descartável; era a primeira vez que eu o via daquele jeito: desprezado.
Apesar de tanto, o Patriarca nem percebia a situação que havia causado e apenas me cercava com seus elogios. "Já é hora de você assumir seu lugar por direito", Shion tirou o capacete e o estendeu para mim, revelando cabelos brancos e uma face senil que ainda conservava traços de uma beleza lemuriana.
Despedaçado por dentro, aceitei minha coroa de espinhos. Tirei o elmo de Sagitário e experimentei o capacete do Patriarca, sem saber que meu suplício não duraria nem um dia.
Enquanto Shion programava meu retiro de purificação em Star Hill, entre outros trâmites necessários antes de sagrar-me oficialmente o novo mestre, fui dispensado até a nona casa com a incumbência de prepará-la para o próximo cavaleiro de Sagitário. O ainda regente avisou que eu não me antecipasse e mantivesse segredo até a cerimônia oficial.
"Esquecemos de pedir silêncio a Saga.", lembrei, e então o mestre chamou seu mensageiro outra vez. Quando me despedi dele, Shion estava animado como nunca. Talvez agora, velho e em vias de aposentar-se, pudesse reencontrar seu amor da adolescência e terminar a vida ao lado dele. Talvez fosse com isso mesmo que sonhasse, mas o futuro tinha outros planos para seu fim.
Eu me sentia pior que derrotado. Era como se a forca me esperasse. Então, mudo de tristeza, lhe devolvi o capacete sagrado e parti para nunca mais vê-lo.
Em Sagitário, ordenei a meus servos que encaixotassem meus poucos pertences, sob o olhar confuso de Aiolia. Justifiquei-lhe que faria uma viagem em curto prazo, o que não deixava de ser verdade. Então, Shura surgiu, viu a mudança que progredia e trocou comigo um olhar compreensivo. "Vejo que não terá onde dormir hoje, Aiolos. Por que não se instala em Capricórnio até essa viagem?", sugeriu, com um tom tão neutro que quase acreditei em suas boas intenções.
Seguiu-se uma noite tétrica, na qual mesmo nossas carícias falharam em provocar alívio. Afinal, deitamos lado a lado encarando o teto mortificados. Por mais sedutor que o espanhol fosse, não me distraiu da aflição de tornar-me Patriarca.
Não tenho certeza se dormi realmente, se fui assombrado por divagações pessimistas ou pesadelos; mas o fato é que, ainda de madrugada, Shura levantou-se para treinar sem mim e veio me despertar com a única notícia que verdadeiramente mudaria minha vida.
"Aiolos! Aiolos!", ele entrou no quarto transtornado, tanto que nem ligou para minha falta de roupas, ainda entre lençóis. "Você precisa vir! Aconteceu uma coisa horrível!"
"O que foi? Já vou, preciso me vestir primeiro."
"Isso é sério, vem logo!", ele me atirou algumas peças que estavam separadas no cabideiro.
"Calma!" rebati com irritação, e só então vi as lágrimas correndo por seu rosto. Shura nunca chorava abertamente e vê-lo tomado por tamanho arroubo de emoções assustou-me sobremaneira.
O motivo era mais que justo: Shion estava morto. Reunimo-nos aos outros cavaleiros de ouro no décimo terceiro templo e comprovamos, um a um, a veracidade do alarme da governanta. Shion, nosso professor, o sobrevivente da última guerra santa, fora vencido por uma doença comum.
Eu mal sabia, mas se tratava da solução para o problema de tornar-me regente — a qual eu jamais havia considerado nem em minha mais mórbida frustração. Como que tirada de uma cartola e a um preço muito caro, essa solução libertou-me com tanta dor e culpa... É claro que inicialmente eu não a enxerguei, porém, depois que velaram o corpo de Shion no que foi talvez o dia mais triste do Santuário, e as autoridades menores se viram obrigadas a deixarem de lado o luto para confrontarem-se com questões burocráticas, ficou evidente que a escolha informal de Shion para seu sucessor não tinha valor perante as leis do Santuário.
A oficialização da sucessão foi sugerida ainda no enterro de Shion pelo conselheiro-mor. Ao final do texto de suas homenagens, ele mencionou quão insubstituível era o lemuriano e que Ares de Altar deveria esforçar-se imensamente se almejasse ser tão bom Patriarca quanto ele. Saga, que mirava o esquife com olhos vermelhos, finalmente tirou-os da mortalha para entreolhar-me. Ele, que segurara o caixão na frente de todos e interrompera educadamente seu discurso fúnebre por "ser incapaz de continuar sem emocionar-se", crispou a boca de surpresa com a reviravolta.
Como assim?– lemos na face um do outro.
Como nenhum anúncio formal fora realizado, o herdeiro por direito do cargo era o vice de Shion e seu irmão de criação, Ares de Altar. De ilustre desconhecido, Ares passou a ser o homem com mais comentários a seu respeito no Santuário, a maioria de caráter especulativo. Mu era o único que antes tivera algum contato com o antigo cavaleiro de Altar e pôde fornecer um pálido perfil do novo líder. Segundo o discípulo do falecido, Ares era tão ou mais idoso que Shion e vivia recluso num templo de divinação na Turquia. Solitário, falava baixo, tinha passos leves e parecia onisciente de tudo; uma criatura sobrenatural, garantia Mu.
Enquanto todos aguardam a chegada de Ares e sua comitiva, eu só consigo pensar em Saga e na última vez em que o vi. Lembro-me o tempo inteiro de seu rosto exausto, dos cabelos grisalhos em abundância, de seus olhos manchados de vermelho, da sua túnica enlutada acentuando o emagrecimento que o vinha consumindo a largas passadas. Lembro-me da voz quase irreconhecível discursando no púpito, do tom dolorido com que se despedia de Shion, de seus dedos de unhas roídas apertando suas anotações. E lembro-me do olhar que me lançou quando descobrimos que eu não seria mais Patriarca: inflamado, esperançoso. Debochado. Ou foi isso que pensei ter visto naquele breve segundo em que a vermelhidão pareceu se ramificar ainda mais em seus olhos — provável ilusão derivada do meu choro e cansaço.
E é com Saga que preciso falar, mas ele não é mais encontrado em parte alguma do Santuário. Antigamente, eu teria pedido a ajuda de Kanon, mas este também se foi. E já que estamos vivendo novos tempos, preciso que Saga guarde mais um segredo crucial — o meu e de Shura.
Nosso segredo, celebrado e coroado hoje com a dança mais antiga da humanidade. O mundo ruindo ao nosso redor não nos importa, pelo menos não agora, quando nada mais irá nos separar. Saga evapora da minha mente, assim como Kanon, Shion e qualquer outro que não o cavaleiro de sangue quente abraçando meus quadris com suas pernas musculosas. E já que ele, sim, está vivo e tão deliciosamente carente, eu posso esquecer de tudo para atender aos seus desejos.
Vou me encontrar com Saga, oferecer e pedir-lhe ajuda, mas só amanhã.
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