Cá entre nós

8 Omissão/ Pt 2


Notas iniciais
Boa leitura!

VII — Omissão (2)

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Aiolos me empurra molemente, seu corpo contra o meu vibrando em risadas baixas e suaves, espontâneas. Acabamos frente a frente na cama: eu exausto e ele gargalhando, com seu pomo de Adão subindo e descendo em franco deleite. É bom vê-lo rir outra vez. Percebo-me feliz quando suas feições se enternecem e seu riso termina num suspiro: "seu sorriso é tão lindo...". Sinto-me ruborizar, mas não tenho coragem de recriminá-lo, nem por sua indiscrição e nem por sua bagunça.

Eu o venci hoje. Como uma brincadeira inocente terminou desse jeito é uma história que pode ser detalhada outra hora. Preocupar-me com o cenário de destruição do quarto dele, também. As plumas de um travesseiro liquidado estão entre nós — em nossos cabelos, coladas em suor na pele nua, provocando espirros — e Aiolos apanha uma delas para fazer-me cócegas no pescoço, ainda sustentando aquela expressão boba.

Eis que revido com um punhado de penas assoprado diretamente em seu rosto, um golpe baixíssimo. Ele espana o ar, olhos fechados, tornando a rir. "Anjo", penso ao vê-lo cercado daquelas plumas como as de asas despedaçadas. O irônico é que ele poderia ser tudo, menos anjo, com curativos no rosto e marcas de mordidas em suas coxas e nádegas.

"Seria tão bom se as diferenças nesse Santuário pudessem ser resolvidas assim", ele comenta casualmente, após se livrar do meu ataque.

"Assim como?", pergunto, prevendo mais uma de suas bobagens.

Ele então responde de um jeito ao mesmo tempo brilhante e cômico: "guerra de travesseiros seguida de sexo".

Sou obrigado a soltar um riso exasperado com o nível de absurdo daquela troça.

"Oh, claro! O mestre adoraria essa sua modalidade de trégua", rebato sarcasticamente.

A simples menção ao Patriarca faz com que sua testa ganhe rugas e o tempo feche-se entre nós. Imediatamente afago seus cabelos castanhos numa tentativa de apaziguá-lo, constrangido com minha própria falta de tato. Tudo que Aiolos não quer ouvir é sobre Ares. "Desculpe, eu... Não queria trazer esse assunto agora". Um silêncio desconfortável segue-se, o qual logo trato de desfazer com uma confissão: "desculpe por hoje também, por não ter feito nada".

"O que você poderia ter feito?", ele ri pelo nariz, amargo, fitando o teto. "Não é o alvo favorito do tirano do Santuário, muito pelo contrário." As últimas palavras me atingem como um soco no estômago.

Não sei o que pensar disso tudo, mas Aiolos tem razão num ponto: está sendo perseguido por Ares desde o início de sua regência e injustamente. Já eu, no extremo oposto, sou um de seus preferidos; vivo recebendo elogios seus, que sempre são cruelmente disparados na presença de Sagitário.

O olhar magoado dele passeia pelo quarto até o relógio acima da lareira apagada. "Eu preciso ir, já é quase meu horário de ronda", ele resmunga, levantando-se e oferecendo-me a mão. Inquieto, apanho-o pelo punho com firmeza, a fim de retomar sua atenção. Quando os olhos de esmeralda dele se fixam em mim, faço questão de pontuar cada uma das palavras com seriedade: "É verdade isso — sinto muito. Eu deveria ter ficado do seu lado, tratava-se da honra de Shion também."

Ele me encara com desconfiança inicialmente, para então cerrar as pálpebras em sinal de resignação. Balança a cabeça, como quem se convencesse de que não valia a pena discutir. "Da próxima vez, posicione-se. Mas se quiser continuar sendo o soldado perfeito do mestre, eu vou entender". Dito isso, livra-se do meu aperto e parte para a banheira sem olhar para trás. Vejo que seu andar é duro e seus ombros esculpidos tremulam — de raiva? Choro contido?

Sei que ele sente vontade de mandar tudo às favas, talvez até de me agredir, porém está lutando para não ceder ao descontrole. Por mais que tentemos fugir da nuvem negra que o Patriarca lançou sobre a cabeça de Aiolos, não conseguimos evitar que chova em nossa relação.

Ares vem alfinetando Sagitário aos seus limites. Não sei aonde ele quer chegar com isso, mas foi assim com Mu e este terminou por exilar-se em Jamiel. Foi assim também com Camus e ele alistou-se para o treinamento na Sibéria. Restaram nas doze casas os cavaleiros mais insensíveis ou sem escrúpulos, ou os que o apoiam cegamente — e Aiolos não se encaixa em nenhuma categoria.

Quando Ares assumiu a regência, o Santuário já contava com o desfalque de Saga — foragido desde o funeral de Shion -, e lembro-me nitidamente do que sua Santidade disse quando foi corrigido em meio ao discurso da cerimônia de posse, por não serem onze cavaleiros de ouro presentes, mas sim dez:

"É melhor que seja assim. Saga de Gêmeos foi fraco, e nesta terra os fracos não tem vez."

Aquilo era um aviso do que não tardaríamos a sofrer.

Ares, muito diferentemente de Shion e das descrições de Mu, tem mão de ferro e filosofia ditatorial. Ainda bastante alto para a idade, anda coberto dos pés a cabeça, deixando apenas os cabelos acinzentados soltos no capacete fechado, cascateando sobre sua túnica sacerdotal — uma vestimenta mais conservadora do que a usada por Shion. Sua voz trovejante tem algo de familiar, mas eu não sei definir o quê. Dizem que é irmão de criação do antigo cavaleiro de Áries, muito embora isso pareça impossível.

Arisco, o novo Patriarca não tem amigos, apenas aliados, já que é quase paranoico com a possibilidade de uma invasão ou mesmo rebelião. Logo que assumiu o cargo, difundiu uma cultura de xenofobia voltada contra os orientais, baseada na sua crença de que somente os nascidos e criados no ocidente têm fibra para proteger a deusa. Desse modo, uma série de cavaleiros e amazonas de origens consideradas inadequadas perderam prestígio, inclusive gente que ocupava postos importantes. Mesmo nas doze casas brotou a desconfiança. Se Shaka se manteve indiferente e orgulhoso, como sempre, Mu e sua linhagem peculiar se escandalizaram diante de tamanha apunhalada vinda de um beneficiário da hospitalidade lemuriana. Ares vivera a juventude em companhia de Shion, em Jamiel, muito embora, curiosamente, nunca falasse sobre esse passado. Apesar de tal, está claro através de seus dogmas e preconceitos que reprova a mentalidade e o modo de governar do antecessor.

Sob sua regência, as leis endureceram e a guarda do Santuário foi reforçada — agora Atena vive reclusa e vigora uma escala de ronda protagonizada pelos cavaleiros de ouro em pessoa. Além disso, os treinos aumentaram em frequência e intensidade, pois o mestre insiste que aprendamos técnicas cada vez mais letais e até desonestas. Dezenas de soldados e aspirantes já pereceram sob seus métodos ortodoxos de seleção, como ele se refere aos violentos testes de capacidade instituídos recentemente. Torneios sangrentos passaram a ser rotina no Coliseu, onde nenhum código de ética é respeitado e os combatentes mais monstruosos levam os prêmios. Nestas competições, Máscara da Morte reafirmou sua fama por decapitar seus rivais.

Apesar disso, dentre os doze, é Milo quem, aos olhos de Ares, serve de modelo para nós: cego, obediente, mortífero, quase um robô programado para cumprir qualquer missão. Logo abaixo dele na escala de preferência vêm Afrodite e Máscara da Morte, dois cavaleiros assassinos e de índole tão duvidosa, que só não haviam sido alçados ao posto de favoritos porque ninguém pode confiar neles. Contudo, sempre que o mestre quer um serviço sujo, é a um destes que recorre. E, no meio desse circo, estou eu. Por alguma razão, o mestre adula-me o tempo inteiro, mesmo quando eu não mereço. É claro que tenho minhas habilidades e sou um fiel servo de Atena, mas vejo um certo exagero na opinião do Patriarca sobre mim. Eu nem participo de missões perigosas ou possuo tantas atribuições como os outros.

O fato é que vivemos uma nova era. Faz três meses que assistimos ao Santuário deixar de ser um lar pacato para transformar-se num quartel encouraçado em tensão e medo.

Não foi uma transição fácil para ninguém e especialmente para os irmãos de quem eu sou mais próximo. Aiolia, que vivia implicando com Escorpião, tornou-se um rebelde nos treinos liderados por ele — e também fora deles. Creio que isso tem algo a ver também com o modo como Aiolos é tratado, praticamente a ovelha negra do Santuário; o que é muito paradoxal, tendo em vista que antes ele era tão ovacionado quanto Saga o era.

Aiolos foi esquecido. Tornou-se meramente inadequado para a nova fase do Santuário.

A mudança de ventos começou no primeiro treino assistido pelo mestre, no qual este colocou-o contra mim e pôs-se a criticar nosso desestímulo ao franco combate. Desde muito antes de Ares, nossa luta era sincronizada para que os impactos fossem minimizados, e isso nunca nos trouxe problemas. No entanto, o Patriarca nos interrompeu no primeiro minuto de luta e, entendiado, ameaçou substituir um de nós por Aldebaran. Estávamos demasiado acostumados com a paciência de Shion para saber como reagir à sua personalidade marcial sem parecermos crianças destrambelhadas. Meu amigo estagnou na arena, atônito, enquanto eu tratei de mostrar serviço, apavorado com a possibilidade de não corresponder às expectativas do nosso superior. A mera ideia de aparentar despreparo diante dele aterrorizava-me.

No próximo minuto, Aiolos foi lançado contra a escadaria da arquibancada com um golpe meu, e Ares nos interrompeu novamente:

"Sagitário, isso foi patético. É assim que se comporta em batalha? Volte lá agora mesmo e mostre o que sabe fazer!"

O regente ficou sem resposta. Aiolos recusava-se a me ferir. Já possuíamos um histórico conturbado e superado de brigas na arena que ele não pretendia reprisar. Assim, ele apenas se defendeu debilmente de minhas investidas. O mestre não deixou barata sua insolência — tirou-o de campo e puniu-o com trabalhos burocráticos, considerados humilhantes para um cavaleiro da mais alta patente. Observei-o sair do Coliseu estupefato e em silêncio.

Ele não reclamou em nenhum momento.

Outros torneios vieram, outras provas, outras missões sanguinárias. Outros castigos. Mas as tentativas de embrutecer o homem mais generoso do Santuário resultaram infrutíferas e só aumentaram o desprezo natural que Ares cultivava por ele, de modo que lhe arrancou um a um os seus privilégios: o comando da guarda, a função de mestre de aprendizes de cavaleiro, a sua liberdade para escolher os dias de folga. Sobrou-lhe a armadura alada e o orgulho pisoteado.

Assim deflagrou-se sua derrocada. Somente em Rodório ainda era visto como um símbolo de bondade e esperança, que ia aos poucos minguando sob a sombra de Ares.

E eu lhe dei o apoio que nossa condição permitia, sempre às escondidas. Vale ressaltar que jamais enfrentei o Patriarca em defesa de Aiolos e isso pode ser justificado pelo meu dever primário para com a instituição. Além disso, inicialmente até tive raiva pela impassividade dele, que eu concordava ser indício de fraqueza de espírito, mas logo enxerguei a nobreza de suas atitudes e passei a admirar sua resistência pacífica. Era fácil contaminar-se com a intolerância, todavia, Aiolos preferiu se manter num caminho mais condizente com os ensinamentos de Atena.

Ainda assim, ele nunca precisou tanto de mim, e sinto que somente o desaponto. Entretanto, não posso simplesmente abandonar tudo para tomar seu partido. Minha vida sempre dependeu do equilíbrio entre sua companhia e minhas obrigações. Desse modo, a satisfação do mestre é também fonte de impasse para mim, já que ocorre na medida em que sou aplaudido e Aiolos é rebaixado. É quase como se Ares também pretendesse me penalizar dessa maneira, e minha alma pecadora secretamente acredita nisso.

Mas mesmo não podendo ajudar Aiolos diretamente, faço o que posso por sua sanidade em conjunto com Aiolia. Quando ele busca consolo no vinho ou no ostracismo, eu intervenho e tento prendê-lo à realidade como uma âncora. Já Aiolia, mais imprudente, não mede esforços para defender a honra de seu irmão mais velho; mete-se em brigas por causa de comentários maldosos e aceita todo tipo de provocação. Mas não há muito que possamos fazer. Aiolos continua sofrendo ataques covardes e pressão para abandonar o Santuário, do jeito que sofreram Mu e Camus antes de partir.

Sagitário, em contrapartida, não me faz cobranças. Enquanto o isolam na Acrópole, fica cada vez mais nítido que minha amizade é a única despretensiosa. O Santuário, uma vila hostil, está dominada pelos invejosos — as bestas de estimação do mestre, que não param de latir.

Noto o quanto seu brilho está apagado pelas injúrias. Ele, que era tão altivo, agora se arrasta pelos cantos do Santuário como um fantasma de si mesmo. Machuca ver o quanto seus olhos lindíssimos perderam da característica determinação. Ele realmente tentou seguir incólume, mas se nem o frio Camus aguentou, quanto mais Aiolos!

Um homem como ele jamais deveria habitar um ambiente tão desumano.

A grande prova disso ocorreu hoje. Aiolos perdeu para Shaka em mais uma exibição de poderes sem serventia no Coliseu. Ambos foram coagidos a lutar entre si, apesar de ser conhecida a opinião de Sagitário a respeito dessas rinhas (e talvez por isso mesmo insistam em forçá-lo a participar delas).

No alto de seu trono especial na arquibancada e ladeado pela elite dourada, o regente comportava-se feito um imperador romano a assistir a um duelo entre gladiadores. Desdenhou que Virgem tinha aplicado uma surra "de olhos fechados" em meu amigo, e a audiência de bajuladores veio abaixo em gargalhadas. Eu soube no momento em que vi Aiolos erguer o rosto sujo de terra que aquela tinha sido a gota d'água.

Seu cosmo acendeu numa fogueira de raiva e o seu brilho dourado cegou a todos por um momento, até que diminuiu gradativamente, pulsante, reprimido à muito custo. O suor escorria por suas têmporas e misturava-se ao sangue já seco da luta, descendo pelo pescoço e peito resfolegante. Ele buscou-me furtivamente na plateia e, quando nossos olhares se cruzaram, pedi sem palavras que não se perdesse ali.

No entanto, o mestre estava decidido a levar suas provocações a outro nível: "Você é mesmo muito frouxo, Sagitário. Não consegue nem revidar uma ofensa, que dirá um golpe de Shaka? Com quem aprendeu isso? Com Shion?".

Desta vez, ninguém riu. Alguns entreolharam-se com espanto e um silêncio constrangido instalou-se. Na arena, aquele que era o preferido do falecido Patriarca tremulava. "De que está falando, Ares? Por acaso debocha também do seu irmão?".

O regente não se comoveu nem um pouco e, a despeito de sua relação de proximidade com o antigo cavaleiro de Áries, continuou a horrorizar-nos com sua maledicência escancarada: "Shion foi muito condescendente em permitir que um cavaleiro da sua mediocridade ocupasse o comando da guarda por tanto tempo".

Aiolos oscilou a amplitude do cosmo, passando a gesticular enquanto respondia com a voz alterada: "Shion era um homem sábio e honrado, suas decisões jamais foram pautadas por preguiça ou ignorância!".

Então, se voltou para Shaka à espera de apoio, mas este, muito embora franzisse o cenho com os disparates do mestre, não se manifestou. Esbaforido, o arqueiro procurou na plateia alguém que o endossasse: Aldebaran encolheu os ombros em sinal de impotência; Máscara da Morte cruzou os braços; Afrodite zombeteiramente ergueu uma sobrancelha; Milo fugiu do contato visual e comprimiu os lábios. Aiolia estava suspenso por mau comportamento, como costumeiro.

Ele nem me procurou: sabia que era caso perdido. Apesar de compreender bem os seus motivos, sua desistência de mim me atingiu inexplicavelmente.

"Vossa Santidade é um difamador!", ele explodiu e o mestre riu, satisfeito. Assim, Aiolos recebeu mais uma punição para somar-se às outras várias — faria hora extra na ronda noturna.

Após o incidente, eu o persegui até sua casa. A culpa consumia-me por dentro, e tentava me agarrar à desculpa de que o mestre era uma autoridade incontrariável, mas aquilo não me consolava totalmente. Foi arrependido que me ofereci a limpar suas feridas e acompanhá-lo no seu plantão da guarda. Era o que estava ao meu alcance e ele aceitou, permitindo-me entrar em Sagitário.

Depois que eu espalhei curativos por sua pele ferida, ele falou pela primeira vez, reclamando de sono. Disse que gostaria de cochilar antes da ronda, e logo emendei que também me sentia cansado, temeroso que aquele fosse uma recurso para me expulsar. Já estávamos sobre sua cama e era ali que eu pretendia permanecer, de preferência abraçado a ele. Amuado, Aiolos passou-me um travesseiro com tanto descaso, que ele veio parar em minha barriga. Encurvado por súbita náusea, devolvi-lhe uma travesseirada na nuca. Meu amigo entreabriu os lábios grossos num círculo perfeito, cheio de falsa indignação, e levei um contragolpe numa orelha com o travesseiro dele. Seu perfume, que estava impregnado na roupa da cama, deixou-me mais tonto do que a investida.

Penso em como ainda somos imaturos...nossa infância negligenciada às vezes vem cobrar atenção tardia e, de repente, nos entregamos a uma brincadeira inadmissível para um cavaleiro de Atena — por exemplo, uma guerra de travesseiros. Longe de julgamentos, era o único tipo de duelo que poderíamos desejar para aquela noite. Nunca antes um golpe meu havia produzido efeitos tão positivos; vi Aiolos reerguer-se de um estado catatônico para uma alegria radiante, e isso me deixou igualmente feliz.

Quando ele, enfim, conseguiu explodir seu travesseiro nas minhas costelas, viu-se sem armas e decidiu puxar-me pela cintura e desequilibrar-nos. Desabamos corados e aos risos sobre lençóis bagunçados; as penas caíam ao nosso redor como confetes. Sagitário e eu lutamos deliciosamente por dominância — mais um jogo do que uma disputa -, até que eu prendi seus punhos acima de sua cabeça e sentei-me em seu ventre, triunfante.

"Cansado ainda?", ele provocou, olhos felinos cintilando na penumbra do quarto.

"Nunca estive", acabei confessando com a voz rouca, atraído pela musculatura contraída de seus braços. Uma pluma pousou em seu nariz, a qual ele adoravelmente soprou para longe.

"Ei, você me deve por esse travesseiro destruído!"

Cruzei os braços sobre meu peito, livrando suas mãos no processo. "Foi você quem rasgou esse saco de penas! Não espere que eu vá arrumar outro."

Contornando meus lábios com um polegar, Aiolos riu maliciosamente — "Quem disse que eu quero o pagamento em travesseiro?" — e sugeriu o que desejava em restituição ao empurrar minha cabeça para baixo.

Agora, ele deixa o banheiro exalando o frescor de seu perfume citrico. Ainda estou deitado sobre sua cama enquanto ele se veste para a ronda noturna, ajustando as manoplas de sua armadura com um ar deprimido. Aquele é pior horário de todos, não deixo de pensar.

Esmagado por seu silêncio, decido tomar a iniciativa de uma reconciliação. "Eu ainda posso ir com você? Prometo nunca mais falar naquele homem quando estivermos juntos."

Aiolos repete aquele seu gesto de balançar a cabeça. "Você está com tanta dó assim de mim?" — essa é uma pergunta que prefiro não responder. Ele amarra a faixa vermelha na nuca e somente então olha para mim. "Pois não deveria. Pare de se desculpar, apenas venha!"

Obedeço-o, aprontando-me em tempo recorde. Mas quando saio do banho, o arqueiro ainda está se demorando nos preparativos, perdido em pensamentos.

De repente, sem nem erguer a cabeça das flechas douradas que contabiliza, ele comenta tão baixo, que não passa de um sussurro: "Sabemos que Shion é mil vezes melhor do que este crápula. Mas quer saber? Eu jamais preferiria do outro jeito. Se Shion ainda estivesse vivo, eu não teria escolha; seria eu o Patriarca, e não poderia ficar com você".

Então, sinto como se houvesse uma revoada de borboletas no meu estômago. Aquela confissão é tão magnificamente inapropriada, que me arrepio por inteiro, o sangue correndo rápido sob minha pele eriçada. Uma sensação de importância cresce em mim, que não sou vaidoso; dentro de tantas possibilidades melhores para sua carreira, Aiolos prefere ficar comigo.

Ele sacrificaria tanto por mim...O fato de que sei que ele já não espera ser correspondido da mesma maneira faz com que a entrega pareça ainda maior e mais...sublime. Não sou uma divindade, mas poderia causar inveja aos deuses por ser alvo de tamanha adoração — tão intensa que me desarma toda vez que tento evocar algum bom costume. Nosso mundo regrado jamais poderia compreender a dimensão do seu sentimento impuro, mas pleno em devoção.

Aiolos levanta o olhar esverdeado e nota meu desconcerto.

"Você quer dizer alguma coisa agora?"

Eu deveria assumir que me preocupo consigo. Deveria dizer a verdade: que aprecio sua estima, que meu coração dança ao escutar tais declarações...

"Não."

...Mas ainda sou o soldado perfeito do mestre, como ele acusou.

"Não vai me criticar pelo que eu acabei de te contar?", sua expressão muda para algo debochada.

"Também não", respondo num fio de voz.

Nos encaramos, inertes. O vazio de palavras o machuca e me trai. O silêncio por si só diz muito, mas não diz nada. Minha omissão é mais nociva que qualquer disparate.

"Então vamos logo, não temos mais tempo a perder!", Aiolos finalmente desvia seus olhos decepcionados e abre a porta para a noite estrelada.

Eu o sigo, envergonhado por minha canalhice, porém não há nada que possa ser feito. O que ele idealiza da minha parte em nossa relação não depende em nada de mim; meu corpo e minha vontade pertencem ao Santuário. Eu nunca colocaria a instituição em segundo plano.

Mas também não nos liberto do nosso relacionamento de dependência desequilibrada, em que ele se encontra em clara desvantagem. E não é como se eu não o fizesse por pena, definitivamente não é isso.

Você é uma pessoa melhor e mais sincera que eu, Aiolos, essa é a diferença entre nós dois.