Notas iniciais
Esse capítulo foi dividido em dois devido a sua extensão. Ele foge um pouco da estrutura da fic apresentada até agora. Inicia-se aqui uma "segunda parte" da narrativa, na qual os personagens já mudados começam a reagir às transformações também no entorno deles, no Santuário. Capítulo sem revisão, mil desculpas. Boa leitura!

IV — Sina (1)

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Mais um dia eu levanto de sua cama antes do sol nascer e o Santuário despertar. Tenho pouco tempo para assear-me e tento correr. Ainda dentro da banheira, Aiolos me alcança. Ele ocupa seu espaço atrás de mim, bocejando, e pede o sabonete emprestado.

Sua pele também traz o nosso cheiro, que lavamos com urgência. Assim, deixo que ele derrame água sobre meus ombros e apague os vestígios da noite.

A madrugada é alta através da janela do banheiro e a lua cheia instiga a libido. Aiolos começa a tarefa de se enxaguar mecanicamente, sem sua prosa costumeira, mas logo se interessa mais pelas minhas próprias ações e passa a assistir. Seus olhos verdes são lânguidos quando ele me faz encará-los. Sua mão viaja além do meu queixo e vem afagar minha bochecha, indecisa. Então, recebo seus lábios sobre os meus num breve beijo de partida. Observo-o sair prematuramente da água e esfregar seu belo corpo numa toalha branca e felpuda. Aguardo algum comentário, mas ele apenas sorri, insondável, e vai em direção ao quarto.

Desde nossa última missão, há um inexplicável silêncio, o qual prefiro não contestar.

Ser invasivo nunca combinou comigo e, se Aiolos quisesse me deixar a par dos seus segredos, ele o faria. Inexistem censuras entre nós. A única exceção é nosso relacionamento — assunto banido e ignorado no dia a dia. É por isso que a principal suspeita sobre a taciturnidade do meu companheiro recai sobre algum tópico envolvendo nosso caso.

Será que tinha outro amante? Impossível, pois passávamos juntos quase todas as noites dos nossos cinco meses de fugas. Estaria insatisfeito comigo? Também não era o que aparentava, caso contrário, suas atitudes seriam violentas no lugar de misteriosas. Então, estaria interessado noutra pessoa? Sua eterna busca por mim não havia diminuído de intensidade...

Estaria desesperançoso?

Puxo o tampão e observo a água espiralar ralo abaixo.

As responsabilidades de Aiolos cresciam nos tempos mais recentes e, mesmo sem querer, fora incluído no páreo da sucessão do Patriarca. Pensando bem, talvez se tratasse disso. Nossa cautela havia redobrado, o que significava menos tempo juntos no cotidiano.

Eventualmente, se Aiolos se tornar regente, terá que abdicar do amor carnal que sente por mim. A vida dupla será impossível morando com tantos servos e obrigações. É claro que essa perspectiva não me agrada também, mas compreendo que esse pode ser o nosso destino e tento me preparar para ele. Aiolos deveria ser mais grato, afinal, assumir o trono do grande mestre do Santuário é a maior honra que um cavaleiro pode receber de sua deusa.

Minha vez de usar a toalha pertencente ao enxoval de Capricórnio — a qual levo e trago para evitar criar provas contra nós — e reunir-me a ele. Aiolos havia trocado a roupa de cama e preparava-se para voltar a dormir. Olhava-me entre as cobertas como quem vai explodir de culpa.

"Lembra daquela conversa que eu tive com o mestre?", ele rompe finalmente. Aiolos não consegue esconder coisa alguma de mim por muito tempo.

"Qual?", aproximo-me para vestir-me, sentado ao seu lado no leito. Ele vacila e lhe dou total atenção ao terminar de pôr a camiseta.

"Aquela audiência antes da missão no Caribe. Shion me disse algumas coisas..."

Aguardo que tome coragem, compreensivo. Seus lábios se crispam e ele não suporta meus olhos sobre si.

"Deixa para lá", ele desiste, beijando-me a orelha. "Depois conversaremos mais. Já é quase hora da troca da guarda, é melhor você se apressar, antes que passem por aqui."

Pé ante pé, eu me esgueiro de volta a meu templo com a cabeça a mil.

Quando foi que ele se tornou tão hesitante? Aquela missão...

Foi numa tarde em que Aiolos limpava meus ferimentos, que a convocação do mestre chegou por debaixo da porta. Ele terminou sem pressa de suturar a fenda no dorso do meu pé, apoiado numa toalha sobre sua coxa musculosa, e pediu a Aiolia que buscasse a correspondência. Nos segundos em que ficamos a sós, ele se debruçou para roubar-me um beijo. Aquilo ainda me incomodava, mas sorri entre os trejeitos de dor.

Aiolos parecia o homem mais feliz do mundo e acabava por me contagiar. Desde nossa reconciliação definitiva, aproveitávamos uma bonança inédita e muito bem-vinda. O mérito era todo dele, que aperfeiçoara seu trato comigo e, afinal, procurara se ajustar à minha conveniência.

O ciclo vicioso deu vez a uma troca. Era como se fôssemos amigos novamente, ressalvando-se, é claro, nossa sexualidade. Ainda vivíamos em alerta, mas nossa rotina foi facilitada sem as brigas. Complicado mesmo era fingir que cultivávamos apenas amizade um pelo outro.

Eu descobrira com Aiolos uma outra espécie de compromisso que valia a pena. Mesmo que diferente e inferior ao amor puro pela deusa, este segundo também me engrandecia. Se Atena me conectava com o sobrenatural, Sagitário me fazia aceitar e compreender minha humanidade.

Ele havia me transformado numa pessoa melhor.

O problema é que isso começava a se tornar evidente no meu tratamento com outros indivíduos; meus companheiros de armas não se manifestavam, mas os habitantes simples de Rodório elogiavam as mudanças. Eles notavam meu espírito mais leve e me questionavam — quem lhe faz tão bem?

Estava assim tão claro que minha paz era obra de alguém?

Aiolos, tanto quanto eu, demonstrava melhoras no humor e até no seu desempenho como cavaleiro e mestre. Nesta nova fase, Aiolia dera um salto impressionante nas suas qualidades como aprendiz, e era anunciado por todo o Santuário que ele estava pronto para assumir mesmo uma armadura de ouro. Finalmente, com sua vitória no torneio pela armadura de Leão, Aiolos viu-se livre e com poucas atribuições enquanto cavaleiro de Sagitário. O fato de novos cavaleiros de ouro aportarem todas as semanas nas doze casas só contribuía para seu ócio. Saga, que ainda capitaneava a guarda no recesso indefinido do arqueiro, não viu momento melhor para devolver-lhe o cargo, entretanto, se manteve nele sem dar satisfações.

Não era de se espantar. Gêmeos isolava-se da vida social na Acrópole em exaustiva sobrecarga de trabalho, já que acumulava todas as tarefas emergentes para si, como se quisesse mostrar a todos, em especial a Shion, que era o único suficientemente forte e disciplinado para comandar o Santuário. A atribuição mais recente era uma missão investigativa no Caribe, para a qual Aiolos também fora escalado.

Contudo, o telegrama daquela tarde colocaria em teste as preferências do Patriarca.

"Olos, é um documento oficial de Atena", Aiolia lhe estendeu solenemente o envelope timbrado com o símbolo do báculo da deusa. "Nunca vi nada do gênero. Daí, fui procurar o carteiro e ele ainda estava por aqui. Ele me disse que esse tipo de correspondência é o mais urgente e importante de todos."

Nós, cavaleiros veteranos, também desconhecíamos o formato. Aiolos abriu a carta receosamente e franziu ainda mais o cenho à medida que leu seu conteúdo. "É um aviso de penalidade disciplinar."

Empalideci. A primeira coisa que me veio à mente foi que haviam descoberto nosso relacionamento. Como, isso era um mistério. Mesmo Aiolia, que convivia conosco intimamente, não dava o menor sinal de suspeitas. "O que mais diz aí?", precipitei-me sobre seu ombro.

Aiolos fitou-me com preocupação. "Nada. Só me intima a comparecer ao salão do mestre para receber minha pena".

"Só isso?", Aiolia arrancou a carta de suas mãos e me desesperei, embora Aiolos tenha se limitado a assentir, pasmado.

Se fosse alguma coisa sobre nós, a mesma carta estaria chegando em Capricórnio naquele mesmo instante. Desejei sorte ao meu amante e dirigi-me à minha casa; ele sabia bem o que eu pretendia e não me impediu de partir.

Felizmente, chegando na décima casa, me deparei com nenhuma correspondência. Aliviado, pus-me a imaginar em quê Aiolos teria se metido para estar em inédita enrascada com o mestre — e absolutamente nada me vinha à cabeça. Alguns minutos mais tarde, senti o cosmo dele pedindo passagem para sua audiência com o Patriarca.

Foi uma longa hora de temor por Sagitário até que ele retornasse à minha porta, intacto, porém visivelmente abalado. Ele ignorou todas as minhas perguntas e me entregou uma carta ordinária antes desfazer-se da armadura e desabar no meu sofá. Nela havia uma convocação para a missão no Caribe, a mesma a que foram designados Aiolos e Saga. "Você foi cortado da investigação?", deduzi, mas ele negou com um gesto. "Diga logo o que aconteceu!"

"Saga foi dispensado. O mestre o substituiu por você, graças à sua fluência em espanhol. Faz bastante mais sentido, não?", Aiolos esticou as pernas sobre a mesa de centro e deitou os braços e ombros no espaldar do sofá, exausto.

"E a punição?", demandei com impaciência.

"Shion me devolveu o cargo de capitão da guarda. Ele disse que não posso transferi-lo sem seu OK e me criticou por não ter feito uma solicitação formal. Meu erro foi deixar tudo sob a responsabilidade de Saga, inclusive a parte burocrática que era meu dever."

"Sua punição foi ganhar um cargo?", parecia muito estranho. Por que um ressentimento tão tardio? Fazia mais de mês que Saga assumira o posto...Apesar de tanto, tinha consciência de que desconfiar dele não era o melhor apoio que eu podia lhe oferecer naquela hora. Aiolos tinha os olhos fechados e o corpo largado quando me contou sobre sua penalidade, então não pude avaliar completamente sua linguagem corporal.

"Sim. Mas você conhece a peça, ele ficou me passando sermão até que eu estivesse quase preferindo receber chibatadas como castigo. Shura, me desculpe, eu gostaria ficar em silêncio agora. Minha cabeça vai explodir a qualquer momento."

Assim, deixei que o assunto evaporasse.

Não tocamos mais no ponto, porém Aiolos esteve reticente e um tanto distante até a viagem da missão, que foi nada desafiadora. Uma aparição submarina, a princípio relacionada a Poseidon, fora avistada nas águas do Caribe e coincidira com um acidente envolvendo o iate da célebre família Solo. O casal e seu herdeiro haviam sobrevivido, e a suposta "sereia" desapareceu logo após aquele último incidente. Eis que levamos cinco dias para descobrir uma aprendiz de amazona expatriada do Santuário usando partes roubadas da armadura de Golfinho para assaltar navios. Confiscamos os itens furtados e entregamos a garota à prisão numa base de treinamento na América Central conhecida como Ilha da Rainha da Morte. Soubemos posteriormente que ela não durou nem uma semana lá.

Vale ressaltar que os seis dias poderiam ter se resumido a muito menos, se Aiolos não insistisse em transformar a missão numa lua de mel. Ele trocou nossas acomodações separadas no hotel por um bangalô privado, sem me consultar, e brindou com todas as bebidas do frigobar, para meu pânico.

"Vamos aproveitar, Shura! Quando teremos férias assim outra vez?", era a justificativa dele e, por mais que parecesse absurda somente pelo fato de estarmos em missão, não deixava de ter sentido. Quando mais ele poderia me tocar à luz do dia e sem se importar com a opinião de terceiros?

Foram dias em que eu me alienei de brios e, surpreendentemente, isso não me causou arrependimento. Longe dos olhos vigilantes do Patriarca e da deusa, e perto dos homens comuns, o pecado aparentava menor gravidade. Entreguei-me à volúpia de Sagitário e ele tratou-me com tanto carinho e fogo, que parecia mesmo um homem recém-casado.

Enquanto as noites enluaradas reservavam um estímulo à lascívia, os amanheceres eram experiências raras, dado que jamais dividíramos intimidades durante a manhã, até aquela viagem. Caminhávamos pela praia pelo simples prazer de admirar o oceano cor de esmeralda refletindo a aquarela da aurora, e eu permitia que ele abraçasse meus ombros. Aiolos tinha fascínio pelo mar e passávamos a maior parte das horas livres próximos a ele. Desde treinos físicos até o sexo eram praticados à beira das águas.

E eu tinha que admitir: entre Aiolos e o mar havia um entendimento perfeito. Achava-o mais feliz e belo do que nunca quando imerso n'água, até invejava as ondas que o acarinhavam. Ele estava no paraíso e eu num sonho do qual não queria acordar.

Seis dias — os dias que recompensaram o sofrimento por ter dividido meu coração jurado à Atena com um de seus melhores soldados. Ao término da missão, retornei ao Santuário com a pele bronzeada e a certeza de que nosso relacionamento ganhava contornos que me assustavam e me embeveciam.

E tive um delírio.

No aeroporto, segurei sua mão com força antes de desembarcarmos de volta à realidade, e quando ele me lançou um olhar maravilhado, desejei que quebrasse a regra do silêncio e me declarasse seus sentimentos. Precisei de que seus lábios traduzissem o que estava estampado em seus olhos. No entanto, ele apenas massageou-me o o dorso da mão com o polegar e desatou-nos para pendurarmos nas costas as urnas de nossas armaduras — o fardo da nossa existência.

O mesmo peso que curva meu corpo ao subir para Capricórnio.

Atiro a toalha no cesto de roupas sujas e deito-me com a janela aberta para a lua. Se Aiolos for escolhido o próximo Patriarca, eu deverei serví-lo com a mesma neutralidade com que trato Shion. É impressionante o quanto este homem virou minha cabeça; o provável destino dele, em trajes cerimoniais e delegando-me tarefas, é um quadro mais surreal do que o de nós dois passeando feito namorados numa praia caribenha.

A tormenta de Aiolos é uma placa apontando para o fim dessa coisa entre nós. Eu não deveria estar surpreso. Eu nem deveria estar tão apreensivo. Apenas não deveria estar inconformado.

Pois não deveria estar só na minha cama e aos prantos.

Aiolos, eu me enganei quanto às piores consequências do nosso atrevimento...

Notas finais
Nota: Citei por cima a chegada dos outros cavaleiros, apesar do fato certamente ser impactante no cotidiano do casal. Não dei muita ênfase a esse tópico porque Saga e Shion são os personagens secundários de maior destaque aqui. A Ilha da Rainha da Morte fica no Pacífico Sul, eu sei, mas fiz essa pequena alteração porque, convenhamos, o Caribe é muito quente também e bem mais romântico! ;) Até a próxima!