Cygnus - Fallen
33 Rancor
Notas iniciais
Rancor
– E então, você precisa arrancar o núcleo, que normalmente fica no peito. Os egípcios gostavam de colocar um escaravelho amaldiçoado para defender o corpo. – expliquei enquanto o sétimo ano assistia hipnotizado – Muitos trouxas sem instrução entravam nos lugares e eram amaldiçoados, inventando várias desculpas para explicar o que tinha acontecido. – olhei o relógio e me assustei por o horário da minha aula ter acabado há cinco minutos – Gente... Já está na hora do almoço. Se vocês não me avisam, eu não calo a boca. – murmurei.
– Eu poderia escutar o professor pra sempre. – riu uma amiga de Myrcella, Gaia Mello. Myrcella riu ao lado dela.
– Eu também.
– Muito bem. Quero que façam um relatório de como se livrar da maldição de uma múmia. Isso sempre cai nos N.I.E.M.s! – disse fingindo que não tinha escutado.
Os alunos concordaram e saíram da sala.
– O professor parece que já viu de tudo! – riu Viktor Green.
– Não é? – riu Oliver Waters – Professor, você já foi no Egito? – perguntou ele.
– Sim, Oliver. – respondi calmamente.
– Maneiro! Eu quero fazer a Rota das Artes das Trevas quando terminar a escola. – disse ele – Só pra estudar no Egito e na Rússia! – ele olhou para Viktor, que sorriu empolgado.
– Sim. Eu também quero fazer! – disse ele – Meu pai e minha mãe se conheceram nessa viagem. Todo mundo que deseja aprender a se defender deveria fazer a rota!
Os olhei com atenção.
– É... o estudo de poções no Egito é bem avançado. Os melhores certificados de mestre de poções são garantidos por lá. – murmurei casualmente.
– O professor Cygnus tem esse certificado. – disse Myrcella com autoridade – Eu vi na sala dele. E ele também tem um monte de troféus de campeonatos de duelos.
– É verdade que você já foi no Brasil, professor? – perguntou Gaia – Minha mãe é de lá!
Concordei em silêncio. Eu queria ficar sozinho.
– Alunos... vão para o almoço. Já está na hora...
– O que houve, professor? – perguntou Viktor – Você está tão pra baixo hoje...
– Não é nada. – murmurei desviando o olhar.
– Aposto que brigou com a namorada. – Disse Gaia – Homem quando fica assim, o motivo é sempre mulher.
– Aposto que deve ser a maior gata. – riu Oliver – Pra namorar o professor mais desejado da escola.
Olhei para eles.
– Vocês deveriam sair agora.
– Ah, não. Quero saber porque está todo tristonho, professor. – disse Gaia – É o nosso professor favorito! O que aconteceu?
– Isso mesmo. Pode falar! – disse Myrcella. – Você me ajudou quando eu precisei, professor. Eu me sinto na obrigação de te ajudar.
Tive certeza que ela não falou aquilo com segundas intenções. Myrcella era uma boa menina. Mas eu não consegui deixar de pensar na nossa infração e precisei controlar meu rosto para não me entregar.
– Eu estou bem... apenas... apenas descobri que minha ex namorada... me escondeu uma coisa muito séria. – murmurei.
– Iiih... – murmurou Viktor – Ela engravidou, não foi?
O olhei surpreso.
– Quando Amarilis engravidou do Coben, e não contou antes de tirar, ele ficou todo grilado. Ainda era louco por ela... – disse Oliver – Ele disse que casava com ela sem problemas. Mas depois que ela tirou, ele ficou puto e os dois nunca mais conversaram.
– E a Amarilis se arrependeu, né? – perguntou Viktor.
– Mas poxa, ela só tinha dezesseis anos. Como ela ia ter um filho dele? – perguntou Myrcella – Ela ia ter que largar a escola.
– É... mas a decisão não era só dela, né? – perguntou Viktor.
– Claro que era só dela! – ralhou Gaia – É o corpo dela, a vida dela. O que o Coben ia ter de deixar de fazer se ela resolvesse ter o filho, oras!
– Lá vem você com seu discurso feminista, Gaia. Me poupe. – resmungou Viktor.
– Eu concordo com ela. – disse Oliver – Ela teria que desistir de um monte de coisas por conta do filho do ex namorado? Fala sério. – Oliver olhou para mim – Mas o que foi que houve, professor?
Olhei para meus alunos, completamente perplexo.
– Eu não deveria ter essa conversa com vocês. – respondi.
– Relaxa, professor. A gente não é X-9 não. – riu Gaia. Olhei pra ela sem entender – Ah. É gíria trouxa. Quer dizer que a gente não vai te dedurar.
– Nós sabemos guardar segredo, professor. – garantiu Myrcella.
– Eu agradeço, mas... não quero falar sobre isso... – mas eles ficaram me encarando, teimosamente – Esqueçam. Não vou falar!
– É sobre você ter sido o Sinistro? – perguntou Viktor. Pisquei surpreso, sentindo um frio me subir a espinha – Qualé... não achou que era segredo, né? – perguntou ele com um ar debochado – Todo mundo sabe disso.
– Tipo isso. É por isso que todo mundo te acha tão maneiro. – riu Oliver – Quer dizer... você foi controlado por Salazar Slytherin e conseguiu sobreviver. Muito louca a sua história.
– Sim. Minha mãe estava no dia do seu julgamento – Disse Myrcella – Quando ela soube que você seria nosso professor, ela ficou super feliz por você.
– Mas conta ai, professor. O que rolou? – perguntou Viktor.
Olhei para meus alunos um tanto incerto... mas eu estava tão ferido com tudo aquilo que eu sabia que se não conversasse com alguém, iria acabar explodindo... Então eu contei. Contei tudo. Sobre Dominique, Leon, Azkaban, sobre o Mungus, sobre Angelique e as brigas que eu tive com Lily... Myrcella me olhou com um sorriso e segurou minha mão.
– Ah, professor. Se você gosta dessa Lily, você deveria conversar com ela de verdade. Tadinha... ela dele ter passado por maus bocados também.
– E é filha do Harry Potter... tá louco. – riu Oliver – Casa com a mina, fessô!
– Eu sei lá... acho que ela vacilou bastante. – disse Viktor – Eu não perdoava não. Mas sei lá... eu nunca tive um caso que nem o de vocês ai...
– Eu acho que vocês precisam sentar, como dois adultos e conversar. – opinou Gaia – E então devem falar o que sentem, e então avaliar se vale a pena voltar com ela ou não... Digo... ela vacilou não tendo te procurado antes? Sim! Mas poxa... ela tava numa situação difícil... – ela jogou os cabelos pra trás – Eu no lugar dela me sentiria super intimidada pelo fantasma da Dominique... digo... você ia casar com ela... Não deve ser fácil lidar com isso.
Sorri para meus alunos.
– Vocês são ótimos... mas perderam o almoço... – murmurei.
– Tudo bem. O próximo horário é livre pra todo mundo aqui. – riu Viktor – A gente pergunta pro Dorian onde é a cozinha.
– Eu levo vocês lá.
– Você sabe onde é? – perguntou Myrcella.
– Eu conheço esse castelo como a palma da minha mão. – respondi olhando as minhas mãos – Ei... que mancha é essa aqui?
E então todo mundo riu.
Era ótimo ser professor.
E quando a semana chegou ao fim, eu deixei o castelo para resolver meus problemas.
Eu achei que estaria mais calmo, mas quando eu vi a porta da casa de Harry, a fúria voltou do mesmo jeito. Respirei fundo e toquei a campainha.
Tia Gina quem abriu a porta.
– O que você quer? – perguntou ela. Não gostei do tom de voz dela. Desde que eu tinha deixado o Mungus, Gina sempre me tratara com frieza. Ela certamente me culpava por tudo de ruim que acontecera com Lily... isso explicava também o porque dela nunca estar com Harry durante as visitas.
– Onde está o meu padrinho?
– Ocupado. – respondeu ela friamente.
O tom dela me deixou ainda mais furioso. Então respirei fundo antes de falar.
– Ocupado demais para falar comigo?
– Sim. Por que não nos deixa em paz? – perguntou Gina.
– Você ajudou a Lily a tirar meu filho, Gina? – perguntei zangado. Ela me olhou chocada e bateu a porta na minha cara.
– ÓTIMO! – gritei.
Dei a volta na casa e bati na janela do escritório. Harry estava lendo um jornal e quando me viu, deu um sorriso para mim. O odiei por sorrir quando eu estava tão furioso com ele. Harry veio até mim e abriu a janela.
– Olá, Cygnus. O que te...
Mas eu soquei a cara dele antes que ele terminasse de falar. Ele me olhou chocado.
– E você sabe o porquê! – rosnei. Depois me virei e peguei a varinha para desaparatar.
– Cygnus. Espere! – pediu ele – Eu posso explicar.
O olhei furioso.
– Estou esperando.
– Eu achei que iria atrapalhar seu tratamento se tivesse outro bebê morto te assombrando... – disse ele pulando a janela – Você nunca superou Leon e...
– COMO EU IRIA SUPERAR? DOMINIQUE MORREU NOS MEUS BRAÇOS! POR MINHA CULPA! POR CAUSA DAQUELE MALDITO CAJADO! E AI A LÍLIAN ENGRAVIDA DE MIM E NÃO ME CONTA? E AI FAZ ISSO? E VOCÊ ACOBERTA? E MANDA NÃO ME CONTAREM! – Harry me olhava calmamente e eu fiquei ainda mais furioso por isso. – EU ODIEI LILY! ODIEI! ODIEI PORQUE ACHEI QUE... Que... Que ela não ligasse pra mim.
– Cygnus...
– NÃO! – rosnei – Não! – respirei fundo tentando me acalmar – Eu vou embora.
– Espere, Cygnus... por favor... tente entender...
– Eu não quero entender! – rosnei de volta – Sabe o quão horrível é odiar alguém que você ama?
– Claro que sim. – respondeu Harry calmamente – Você engravidou a minha filha e enlouqueceu. Eu ia no Mungus e a via ali, internada, desacordada, toda roxa, quase morta, porque você fez justamente o que sempre disse pra mim que não iria fazer. – Era simplesmente impossível olhar para Harry Potter depois daquilo. Eu iria preferir que ele tivesse gritado, ou me socado de volta – Você se tornou um bruxo das trevas, fez minha filha sofrer durante muito tempo e então... – Ele tirou os óculos para coçar os olhos, soltando um suspiro – Mas eu estou aqui querendo conversar, não é?
– Porque eu vim aqui. – rosnei. Ele voltou a colocar os óculos, me olhando pacientemente.
– Sim... Porque eu nunca me senti confortável pra conversar sobre isso com você... não depois do que aconteceu com Lily.
– Ótimo. – resmunguei. Mas não sabia o que era ótimo. Nada naquela situação estava sequer perto de “ótimo” – E sabe o que, Harry? Quando eu comecei a me envolver com ela, eu quis te contar. Mas ela não. Então não me culpe sozinho!
– Claro que não te culpo. Ela é a minha filha. E eu briguei feio com Gina, porque ela sabia e nunca me contou. Eu sei o que é ser deixado no escuro, Cygnus. – respondeu Harry com uma calma irritante.
– Se sabe, porque não me contou quando eu saí do Mungus?
– Porque era a decisão da Lily. – respondeu Harry.
– Decisão da Lily? Era uma decisão minha também!
– Cygnus. Você não estava em condições de decidir coisa alguma. – ralhou Harry – Lily não sabia nem se um dia você ia sair do Mungus. No início, todos nós tivemos medo de que você estivesse irrecuperável... todo mundo...
– Todo mundo mentiu pra mim!
– E você não mentiu pra todo mundo, quando era o Sinistro?
– Eu não estava agindo sensatamente. Estava sendo controlado!
– Eu concordo que no final você não era nem um pouco responsável por suas ações, Cygnus... mas no início? Quando você achou o cajado? Você escolheu aquilo.
Tinha sido um erro ir ali.
– Ok. Pense o que quiser, com essa sua filha. – rosnei e voltei a pegar a varinha.
– Cygnus. Só uma coisa.
– O que? – perguntei zangado. E eu levei um cruzado no queixo.
Mas Lily batia mais forte que ele...
– Isso é pelo que fez com a minha filha.
– Oh! Ela gostou de cada minuto. – devolvi furioso. Harry me olhou indignado, mas eu aparatei de lá antes que acabasse apanhando de novo.
Voltei para casa e me escondi no escritório. Escrevi para Angelique, contando tudo o que tinha acontecido. Estávamos sempre trocando cartas. E eu ainda não tinha contado sobre os últimos acontecimentos.
Depois comecei a corrigir algumas tarefas.
A porta se abriu e meu pai entrou. O olhei rapidamente e voltei meus olhos para a redação de Kurt Lins, que escrevera de maneira muito bem explicada, como se livrar de um grindylow.
– O que foi isso no seu rosto?
– Levei um soco.
– De quem?
– Não importa. Eu o soquei primeiro. – respondi.
Escutei meu pai suspirar.
– Lílian Potter está ai. Ela quer te ver.
– Oh... ela quer? – perguntei zangado.
– Quando vão parar de brigar, vocês dois? – ralhou meu pai.
– Quando o sol congelar ou um de nós morrer. – respondi. – O que acontecer primeiro. – Soltei um suspiro, coloquei a nota “O” para Kurt e passei para a próxima redação – Mande-a entrar.
– Eu não sou seu criado. – resmungou meu pai.
– Então mande um maldito elfo mandá-la entrar. Se sente mais senhor assim? – perguntei zangado.
– Fale comigo assim de novo, jovem, e eu te coloco de castigo. Você ainda mora sob o meu teto.
– Se quiser eu vou embora. – resmunguei olhando-o zangado. Mas o olhar magoado dele fez com que eu me sentisse mal – Desculpe... eu ... eu estou... zangado. – murmurei envergonhado. Se tinha alguém que sempre ficara do meu lado apesar de tudo, esse alguém era o meu pai...
– Eu reparei. O que Lily fez dessa vez?
– Ela estava grávida. – respondi.
– O que?
– Mas abortou... e não me avisou... por isso não veio me ver. Ou ao menos é a desculpa dela. – larguei a minha pena – Mas do jeito que eu a conheço, ela vai vir brigar comigo porque eu dei um soco no pai dela.
– Você bateu em Potter? – perguntou meu pai sorrindo. – Oh... que lindo... eu vou chamar a ruiva.
Ele saiu e eu voltei a corrigir a redação de Miranda Clover.
Quando a porta voltou a se abrir, eu não desviei o olhar o pergaminho, apesar de não conseguir ler uma palavra sequer.
– Malfoy... – murmurou Lily. Mas o tom dela era antes triste do que zangado. Levantei o olhar para ela e me lembrei de quando ela veio me parabenizar pela primeira tarefa, quando eu fui completamente babaca com ela.
– Olá, Lílian. Por favor, sente-se. – murmurei educadamente, como se fosse fazer um comentário com alguma aluna sobre uma tarefa qualquer. Lílian obedeceu e se sentou no sofá. Eu a olhei rapidamente e então voltei a olhar a redação de Miranda. Ela tinha escrito Grindylow errado... – No que posso te ajudar?
– Meu... meu pai disse que você... que você sabe o que aconteceu... – murmurou ela. A olhei arqueando as sobrancelhas.
– É... eu fiquei sabendo. Mas se você quiser me dar a sua versão dos fatos...
Ela respirou fundo.
– Eu... eu ia te contar... no dia em que eu vim aqui, mas... mas aquela mulher estava no seu quarto e...
– Eu não quero saber o porquê de você não ter me contado. – eu disse – Eu entendo o porquê... eu só quero saber... por que não foi me visitar enquanto eu estava acordado? Por que não respondeu minhas cartas? E principalmente, como teve a coragem de fazer isso? – perguntei com um aperto no peito – Eu entendo que não era o momento para me contar o que você fez... mas... fugir de mim daquele jeito? Não querer que eu ficasse sabendo depois? Mesmo depois que eu já tinha deixado o Mungus? Você teve tanto tempo pra me explicar, Lily... mas esperou me ver com outra pessoa pra vir me contar? Tem noção de como isso soa? Que você só resolveu falar comigo depois que viu que eu estava bem com outra pessoa.
– Não! Não foi isso o que aconteceu. – disse ela.
– Então o que aconteceu? Diga!
Lily respirou fundo.
– Eu engravidei... na semana antes do casamento de Virgo... Semanas depois você foi preso. Eu tentei ir em Azkaban, pra te ver, mas sempre que entrava lá, me dava um mal estar horrível... então notei que minha menstruação não veio... e ela sempre era bem exata. Então fiz o teste e vi que estava grávida... e a cada dia do seu julgamento, parecia que você não iria ser inocentado. Eu comecei a entrar em desespero.
– Mas eu fui inocentado...
– Sim... e me dispensou, na frente de todo mundo... eu fiquei tão envergonhada... era você me dispensando mais um vez...
– Eu te dispensado mais uma vez? – perguntei.
– Você disse “de jeito nenhum”, sobre ficar comigo... E eu pensei... como eu poderia ter um filho de um cara assim? Que tá cagando pra mim? – ela suspirou parecendo aflita – Então eu fui pra casa. Esperei você vir falar comigo, mas você não veio... você sumiu... Esperei um dia, dois, três dias... Uma semana e você não deu notícias...
– Eu estava internado! – eu disse me defendendo. Lílian concordou em silêncio.
– Mas seu pai não me contou. Ninguém me contou. Eu achei que você simplesmente não queria me ver... Esperei uma semana, e você não apareceu... e então eu tive certeza que você não viria. Eu fiquei tão... tão frustrada. Eu estava com tanto medo. E eu tinha pesadelos. Era horrível... – ela respirou fundo e eu tive certeza que ela estava se esforçando muito para não chorar.
– Pesadelos?
– Sim... eu sonhava com aquele dia... o dia da segunda tarefa. Quando você ficou possuído... Nos sonhos você me mandava tirar o bebê. Eu sentia tanta dor. Eu acordava no meio da noite e tinha certeza que você estaria ali, do meu lado. Pronto para me matar ou qualquer coisa assim. Eu estava ficando paranoica.
– O Cajado...
– Estavam tentando destruí-lo e quando o tiravam da caixa, ele me assombrava. Eu sentia quando ele estava fora da caixa, por mais que estivesse longe. Era horrível. Horrível. E você seguia desaparecido. Eu tinha tanta certeza que você não me queria mais... eu estava com tanto medo... de... de você... E de Abraxas... que... que fiz uma poção... – ela respirou fundo novamente, pressionando os lábios. A voz dela começou a ficar cada vez mais tremida – Eu tinha tanta certeza de que você não me queria mais e também... eu não sabia se eu te queria mais... Eu estava tão triste, decepcionada e confusa... talvez por culpa dos hormônios, influência do Cajado, não sei... então... então eu bebi a poção... E passei muito mal, achei que iria morrer. Assim que tomei, me arrependi. Tentei vomitar, mas foi tarde demais. Meu corpo todo parecia estar queimando... e então veio o sangue e... – Ela escondeu o rosto com as mãos – Minha mãe me encontrou e eu expliquei pra ela... Ela me levou pro Mungus, assustada e meu pai recebeu a notícia que você estava internado lá também... mas assim que minha mãe explicou pro meu pai o que eu tinha feito, ele ficou furioso... “Como você pôde fazer isso com ele, Lily?” – Lílian respirou fundo e soltou um soluço – Eu sabia que você não iria me perdoar. Então pedi para que meu pai não contasse pra ninguém... e eu fui te visitar, mas você estava completamente fora de si... eu não aguentei te ver daquele jeito... E eu tive medo... medo de encontrar Abraxas lá... eu tenho tanto medo dele... e eu tinha certeza que ele saberia o que eu tinha feito. E ele iria jogar aquilo na minha cara e eu não estava preparada pra isso... Então... então eu fiquei lá no meu quarto, esperando melhorar... Ouvido as censuras do meu pai e da minha mãe... As de Albus também... Scorpius ficou furioso. Achei que ele iria me bater... Talvez ele tivesse me batido se meu pai e Rose não segurassem ele...
– Ele é meu irmão...
– Sim... ele disse que eu tinha visto como a morte de Leon tinha te destruído... “Como você teve coragem, Lily? Eu pensei que amasse o meu irmão!”... – Lily engoliu e logo soluçou de novo – E então eu me senti tão suja... tão desprezível... E Scorpius mandou eu ficar longe de você... ou então... nem sei do que ele me ameaçou, mas não importa... eu concordei com ele... eu não deveria me aproximar de você... não depois do que eu fiz... Então não escrevi... Não fui te ver... me obriguei a te ignorar. E seus pais vieram pedir para eu falar com você... e Remo e Virgo... Mas com que cara eu ia ir te encontrar? Como eu poderia olhar pra você? Eu estava tão envergonhada... tão... tão decepcionada comigo mesma...
– Eu te entendo. – murmurei desviando o olhar dela.
– E no início eu não sabia se você realmente queria me ver. James subornou metade do Mungus para que eu não recebesse as suas cartas... Eu já estava para ser liberada quando a sua curandeira apareceu com uma caixa enorme, cheia de cartas suas. Ela recuperou algumas das que você escreveu e decidiu me entregar pessoalmente. Eu voltei pra casa e briguei feio com o James. Quebramos metade dos móveis e ele pegou as coisas dele e foi embora. Mas antes de ir ele jogou na minha cara o que eu tinha feito. Me chamou de assassina de crianças... Eu li cada uma das suas cartas e quis responder, mas... as palavras de James ficaram me assombrando... Eu não tive coragem de te responder... Não tive.
– E quanto ao seu namorado?
– E então o Murlock ficou me chamando pra sair... me pentelhando pra isso... mas eu não estava em condições de me envolver com ninguém... mas ele insistiu tanto... que eu cedi... e logo depois você recebeu alta, apesar de eu não saber que você tinha recebido alta. Ninguém quis me falar... E então eu te vi no baile com aquela mulher...
– Com Angelique... – murmurei.
– Sim... com Angelique... – concordou ela desviando o olhar, parecendo ainda mais desconfortável – Eu fiquei tão... tão enciumada... que quis fingir que não dava a mínima... mas assim que você foi embora, eu fui também... E fiquei me perguntando... o que eu deveria fazer? Então vi sua aliança... a de quando você me pediu em casamento... Eu não quis te esquecer... não quis desistir de você... não depois de tudo... então eu vim aqui, para falar tudo e pedir desculpas... eu achei que talvez você me desculpasse... afinal, eu sempre relevei tudo não é? Mas ai... Angelique jogou todos os meus erros na minha cara... E disse que ela quem iria cuidar de você... na hora eu fiquei furiosa e fui embora... mas então eu pensei... e se fosse verdade? E se aquela fosse a minha última chance? Por isso voltei, mas quando a gente começou a conversar... eu vi o quanto você estava magoado... o quanto estava ferido... e eu tive certeza que você não iria me perdoar... então eu comecei a chorar desesperadamente e voltei pra casa.
– Chega... – murmurei sem olhar pra ela – Eu já ouvi o suficiente.
Fechei os olhos, com a cabeça pesada.
– E... e então?
– Eu te perdoo, Lily... por não ter me contado e nem por não ter respondido minhas cartas, ou me visitado... eu entendo agora. – murmurei cansado. Mas o buraco no peito era profundo demais... – Mas eu não posso te perdoar por ter tomado a poção sem me consultar... – murmurei – Desculpe... mas eu não posso esquecer isso... não agora... talvez um dia, no futuro... mas... – eu escondi o rosto com as mãos – Você poderia me deixar sozinho?
– É claro... – murmurou ela – Mas... Você... você poderia ao menos me dar um abraço?
Eu a olhei e neguei.
– Desculpe, Lily... mas eu não posso. Só saia daqui, por favor...
Ela soltou um suspiro e se virou. Ela caminhou até a minha mesa e colocou uma caixinha ali. A caixa com a aliança que eu deixei para ela, quando me recusei a largar a revolução.
– Eu... eu nunca vou esquecer você... – murmurou ela – Espero que possa me perdoar um dia, Cygnus... e se resta alguma dúvida em você, sobre o meu amor... – Ela pegou a varinha – Expecto Patronum... – E um cisne prateado saiu da varinha dela – Você sempre foi, ainda é e sempre será... meu pensamento feliz...
Por um momento quis me levantar e beijá-la, mas não consegui.
– Você sempre foi meu pensamento feliz, Lily... Adeus.
– Adeus... – murmurou ela. Lílian guardou a varinha e assim que ela foi embora, o cisne desapareceu.
Me levantei e me sentei no sofá. Então me deitei e fiquei assim pelo resto do dia.
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