Cygnus - Fallen
27 A Cadeira e o Retrato, os Lestrange, A Máscara
Notas iniciais
A cadeira vazia e o buraco na parede
Draco e Rose estavam sozinhos em casa. Scorpius tinha voltado pra casa dele, com a esposa e a filha. Virgo estava agora casada.
E Cygnus tinha desaparecido. Os dois olhavam a cadeira do filho do meio, com um peso no coração. O Sinistro estava na Rússia, aparentemente. Ninguém tinha notícia de Cygnus. Draco abraçou a esposa enquanto olhavam a cadeira em que Cygnus normalmente se sentava.
– Eu quero meu filho de volta, Draco... – lamentou Rose.
– Eu também quero. – disse Draco com um nó na garganta.
Foram juntos para o escritório, olhar os retratos, na esperança que o de Cygnus não aparecesse ali. Era assustadoramente silencioso. Sem Scorpius para fazer suas piadas baixas, e a esposa do filho a rir ou censurá-lo... Sem Virgo para ficar dando ordens aos empregados, ou conversando sobre qualquer coisa...
Eram apenas Rose e Draco. E era sempre a mesma conversa.
– Onde está o meu filho, Rose...?
– Eu quero meu filho, Draco...
– Se algo acontecer com ele, eu nunca vou me perdoar.
– Não foi culpa sua, querido.
Já não tinham ânimo para nada. Já não agiam como marido e mulher. Apenas como pais desesperados. Olhando aquela parede vazia e a cadeira vazia. Desejando que Cygnus não aparecesse em um, somente no outro.
Lágrimas silenciosas desciam por seus rostos. A dor machucava o peito. Caminhavam pela enorme casa vazia, e entravam no quarto de Cygnus, olhando as coisas dele. Olhavam os álbuns de fotos em silêncio, reparando que ele nunca sorria para as fotos, com raras exceções. Sempre tão sério, aquele garoto...
Draco voltou a beber. Ele sempre bebia quando ficava angustiado. Podia ouvi-lo chorar mesmo longe. Ela não o culpava. Passava a maior parte do tempo no jardim dos pavões, chorando também. Já tinha uma lápide ali para um filho e um neto... Não queria colocar mais uma... que a próxima fosse a sua...
Nenhum pai deveria ter de enterrar um filho...
Chorou desesperada, querendo seu pobre Cygnus de volta.
Draco logo apareceu, cheirando a Whisky. Ele lhe estendeu a garrafa, ficando de joelhos ao seu lado. Ela aceitou e bebeu direto do gargalo, fazendo careta.
– Eu quero meu filho de volta, Draco...
– Eu também... eu também...
Os Lestrange
Caminhei em silêncio pelos corredores de pedra de Azkaban. Pelas memórias de Cygnus, aqueles dois homens sabiam sobre rituais de necromancia para trazer os mortos de volta. Eles seriam úteis.
Os dementadores recuavam quando eu passava. Meus pequenos bebês... minha maior criação, meu maior legado deixado para o mundo... e quase não recebi reconhecimento por isso... Não passava de uma lenda, que eu, Abraxas Slytherin, tinha criado aquelas criaturas, transformando meu próprio corpo em um deles.
A cada beijo que minhas crias davam, mais tempo aqui na terra eu ganhava. Mais um pouco de tempo para esperar. Mas agora minha espera seria recompensada. Eu iria voltar. Eu e meu pai. Prevaleceríamos quando os outros malditos fundadores pereceram...
E quem sabe, depois de estar completamente reestabelecido, eu poderia trazer minha doce Helena de volta, se ela aceitasse...
Logo cheguei na cela que eu procurava. Um homem encovado me olhou. Seus olhos estavam desfocados e ele parecia estar insano. Tempo demais com os dementadores. Só o fato de ele estar vivo depois de vinte anos já era algo para se impressionar.
Estendi o cajado para ele. Ele me olhou babando e segurou o cajado. Transferi um pouco da minha energia para ele. Os olhos dele brilharam com lucidez e ele começou a se regenerar. Tirei o cajado dele e o estudei com os olhos. Ele me olhou, admirado.
– Mestre? Você voltou? – perguntou o homem.
– Qual o seu nome?
– Rabastan Lestrange. – disse ele. Já deveria ter seus sessenta e tantos anos...
– Eu sou o Sinistro. Pretendo continuar a missão de Voldemort. Sou ainda maior do que seu antigo mestre. Eu tenho o sangue de Salazar Slytherin em mim, às vezes eu sou o próprio Salazar. Siga-me, eu te devolvi sua saúde, sua sanidade. Posso devolver sua liberdade e uma causa para lutar. Você é um soldado, não é, Rabastan?
Ele me olhou fascinado.
– Sim. Eu já ouvi falar sobre você... Será uma honra lutar por você.
– Ótimo.
Toquei as celas com o cajado e o metal desapareceu. Rabastan se ajoelhou e sorriu para mim, com animação. Ele já estava fascinado pelo poder do cajado. Era realmente impressionante o quanto Cygnus resistira ao poder e influência daquela arma...
Continuamos nosso caminho e fiz o mesmo com o outro irmão Lestrange, o tal Rodolfo. Ele era mais velho, mas não muita coisa. Logo eu deixava Azkaban com os dois atrás de mim. Katarina, Cerce, Leto, Alzar e Noah me esperavam do lado de fora. Todos seduzidos. Todos meus...
Me virei para os dementadores.
– Vão viver, minhas crias. Deixem esse lugar.
Eles voaram para fora, como gafanhotos, famintos por esperança, felicidade e boas memórias. Mas alguns se recusaram, me dando as costas. Alguns dementadores aprenderam a apreciar Azkaban...
– Como quiserem – murmurei para eles. Então me virei – Eu quero ressuscitar uma pessoa. Vocês ainda tem conhecimento pra isso? – perguntei para os irmãos.
– Sim. – respondeu Rodolfo – Eu escondi os livros, senhor.
– Leve-me até lá. – eu disse quando Katarina devolveu as varinhas deles.
Eles me levaram até uma caverna, fizeram vários feitiços e então pegaram uma caixa, numa passagem secreta. Rabastan a estendeu para mim e eu abri. Enormes livros de Necromancia.
– Vê, Cygnus? Logo traremos sua amada Dominique de volta. E você fará outro filho nela, para parar de se lamentar por ai. – disse sorrindo satisfeito.
No dia seguinte, era notícia nos jornais. A fuga dos irmãos Lestrange e o motim dos dementadores. Provável suspeito por causar aquilo? Obviamente, o Sinistro.
Eu estava na casa de Cerce. Olhei um espelho de corpo inteiro e mostrei o jornal para meu reflexo, que na verdade era Cygnus. Ele socava o espelho querendo sair.
– Olhe só que maravilha. – disse sorrindo – Em breve faremos o ritual para ressuscitar a mim e a meu pai. Vai ser ótimo. – eu sorri para ele – E então você estará livre. Não precisaremos mais do seu corpo. Ele já não está mais aguentando, de qualquer maneira... Mas devo dizer... você aguentou mais do que eu jamais imaginei. Você é mesmo incrível, Cygnus. – ele socou o vidro com força – Eu estava pensando... antes de fazer o ritual, eu poderia fazer uma visita a Lily, me passando por você. Se eu me esforçar um pouquinho, aposto que ela não vai notar a diferença. – Cygnus se jogou contra o vidro me olhando furioso – Oras... você é tão louco por essa ruivinha... alguma coisa de interessante ela deve ter. – O garoto se jogou contra o espelho, furioso, mas não havia nada que ele pudesse fazer.
Sorri cruelmente para ele. Como era bom estar no controle daquele corpo jovem e cheio de magia... Mas melhor ainda seria estar de volta no MEU corpo. E faltava muito pouco para isso...
A máscara
Quem sou eu? Estou aqui nessa prisão esquálida, no escuro, com os ratos a passearem por cima dos meus pés...
Quem sou eu?
Lembro-me de um dia duelar com um valente amigo, pelo amor de uma donzela, mas não pude derrotá-lo. Porém, ela não quis a nenhum de nós...
Lembro-me de beijar Helena, sentindo meu corpo esquentar. Éramos tão jovens... Eu só queria ficar pra sempre com ela. Mas a mãe dela não gostava de mim... Ela queria que ela se casasse com aquele Malfoy...
Lembro-me também de beijar uma garota inocente, embaixo de uma árvore. Uma garota sardenta de cabelos acaju...
Quem sou eu?
Lembro-me do sorriso de Dominique vindo até mim, quando éramos tolos e esperávamos viver felizes para sempre com a nossa família...
Lembro-me de prometer a Helga que iria ser relevante com os estudantes selecionados para estudar na nossa obra prima...
Lembro-me de brigar com meu pai, pois eu não seguiria os passos dele. Eu escolheria Helena, minha doce Helena... Nunca mais estaria com outra mulher além dela...
Lembro-me de prometer a Lily que não iria matar ninguém...
Somos realmente muito bons em quebrar promessas...
Acredito que minha narrativa finalmente esteja chegando ao fim... Foi bom desabafar. Só espero que não vire outra matéria de revista...
“Não, senhor, Cygnus. Isso é apenas entre eu e você.”
Obrigado. Mas bem... Onde paramos? Ah sim... Eu estava indo para o local do ritual. A floresta na Albânia, onde Salazar e Abraxas morreram. Meus algozes estavam comigo, sem saber exatamente o que eu iria fazer, olhando com desconfiança, aqueles dois Lestranges que eu trazia comigo...
Não vou entrar em detalhes sobre o ritual... Motivos morais, se é que me resta algum tipo de moralidade...
“Mas, Cygnus... A maior parte dos seus crimes, para não falar todos, foram feitos quando você estava sob efeito do Cajado.”
Oh... Você acha? Desculpe o meu sorriso debochado... Mas é que eu penso, que no fundo, eu concordava com tudo aquilo... Mas eu posso estar sendo manipulado pelo Cajado, mesmo agora... Mas isso será explicado em breve.
Então, lá estávamos nós... fazendo aquele ritual na floresta. Eu sentia um medo absurdo, mas ao mesmo tempo desejava aquilo com absoluta ansiedade. Era minha tão sonhada liberdade. Eu voltaria a ser eu mesmo, finalmente... Eu seria livre... E provavelmente seria morto em seguida.
Duas semanas tinham se passado desde o casamento da minha irmã... Duas semanas desde que Cygnus Malfoy tinha sido sequestrado, diante dos olhos de Draco Malfoy e Harry Potter, com o primeiro quase morrendo no processo... Duas semanas de profundo desespero da parte de muitas pessoas...
Dos meus pais, é claro. De Scorpius, certamente... Não acho que tenham contado para Virgo... Mas Remo, Albus e James sabiam... E Lily... O que será que Lily pensou? Que talvez meus ex companheiros não queriam que eu me aposentasse... Talvez eu pergunte para ela, antes de ser executado...
E Harry... Harry deveria estar completamente desesperado. Ele se sentia culpado, certamente sim. Ele queria me proteger, me salvar... mas como ele poderia me manter a salvo de mim mesmo?
Afinal, quem sou eu?
Eu mesmo não sei dizer, nesse momento. Minha crise de enxaqueca me atormenta e acredito que seja simplesmente porque tenho coisas demais na cabeça...
Então, eu tinha esperanças, naquele ritual, que eu finalmente tivesse um pouco de paz. Era um pensamento egoísta, mas eu não ligava. Eu estava cansado. Mais cansado do que qualquer um da minha idade poderia estar. Eu me sentia um velho... Minha aposentadoria estaria me esperando no final do ritual.
Mas Harry chegou com os aurores.
E não só aurores. Remo com ele. E tio Rony, tia Luna, o professor Longbottom... Mais um monte de rostos conhecidos. Os membros da Armada Dumbledore, com exceção de minha mãe...
Duelamos, é claro. Eu queria fugir, mas Abraxas e Salazar queriam sangue. Queriam se livrar do meu padrinho de uma vez por todas... meu zelo por ele não seria mais suficiente para protegê-lo...
Então duelei. Duelei para matá-lo, agindo como um gato brinca com um rato, antes de comer... Mas Harry também estava lutando pra valer... Ele provavelmente me queria bem machucado e depois morto.
Eu o subestimei.
De todas as pessoas do mundo, eu subestimei a única que nunca deveria ser subestimada...
Eu subestimei Harry Potter...
Esquivei de um feitiço, virando o rosto e movendo o corpo, mas pegou de raspão e minha máscara voou para o chão. Voltei a encará-lo, com um sorriso lunático no rosto, um filete de sangue escorrendo pela minha testa. O olhar furioso e concentrado de Harry se transformaram em choque assim que ele me reconheceu.
– Não... não pode ser...
– Tio Harry... – murmurei – Hoje a máscara finalmente caiu. Literalmente. – disse me abaixando para pegá-la.
– Não pode ser... é um truque.
– Não é um truque. Esse sou eu. – eu disse. Minha mente estava uma confusão. Eu era os três ao mesmo tempo. Estávamos tão fundidos uns nos outros que eu já não sei mais diferenciar quem falava o quê. Quando começavam as palavras de um e terminavam as de outro? – Eu sou o Sinistro.
– Eu vi você sendo levado pelo Sinistro...
– Você viu? Tem certeza? – perguntei – Sim... O Ministério desconfiava de Cygnus Malfoy, mas ainda não era o momento para que soubessem da verdade. Então precisei forjar aquilo.
– Você quase matou o Draco.
Não vou dizer que aquilo não me afetou. Mas eu não era apenas eu naquele momento... e quem era Draco Malfoy para Abraxas ou Salazar?
– É... efeitos colaterais. – eu disse simplesmente – E então? Deveremos lutar a batalha final, padrinho? Acha que é capaz de matar seu querido afilhado? – perguntei voltando para a posição de duelo.
Harry me olhou chocado e então decepcionado. Ele olhou para a própria varinha e a jogou no chão. Foi minha vez de ficar chocado. Ele caiu de joelhos, me olhando magoado...
– Eu não sou capaz de tentar te machucar. – disse ele.
– Levante-se. – rosnei.
– Não. – respondeu Harry, sem piscar.
– Levante-se!
– Não vou lutar contra você.
– EU MANDEI LEVANTAR!
Mas ele não se levantou.
– Não vou lutar contra você.
– Se não lutar, vai morrer assim. De joelhos. – ameacei.
– Como quiser.
Apertei a varinha. Mas então me lembrei... eu tinha prometido a Lily. Eu tinha prometido a ela, no Escritório Secreto... Eu tinha prometido que não machucaria o pai dela... Eu prometi que não mataria mais ninguém... eu prometi que falaria a verdade e arcaria com as consequências...
Céus, o que eu estava fazendo?
– Levante-se, Harry Potter! – mas ele apenas me olhou, determinado. Teimoso. Assim como Lily. – LUTE! DEFENDA-SE!
– Por que está chorando, Cygnus? – perguntou Harry.
Lembro que uma vez, quando eu era criança, fomos ao zoológico trouxa com meus pais, Harry e a família dele. Eu era muito novo e adorei os cisnes... Mas meu irmão ficou rindo de mim, porque ele queria ver os animais mais legais, como os leões... Enquanto eu, queria ficar vendo aqueles animais ridículos.
Concordei em ir com eles, mas fiquei muito chateado. Eu tinha adorado os cisnes, mas fiquei com vergonha de falar aquilo. Apenas segui meus pais. Mas Harry segurou a minha mão e se abaixou para ficar da minha altura e perguntou aquilo... “Por que está chorando, Cygnus?”... Eu só queria ver os cisnes...
Então ele me colocou nos ombros e me levou de volta, compramos comida para as aves e eu dei comida para elas. Elas eram mansas como os nossos pavões... Foi tão divertido...
Foi nesse dia que eu comecei a gostar tanto de Harry. Eu sempre me senti a vontade para conversar com ele coisas que eu não sentia confortável para falar com mais ninguém... Eu contei para ele sobre ser solitário em Hogwarts, sobre como James era cruel comigo, sobre como eu achava Dominique bonita. Contei para ele sobre meu primeiro beijo, sobre ter perdido a virgindade, sobre estar sendo popular com as garotas, sobre quando fumei narciso pela primeira vez, sobre estar ansioso com o Torneio Tribruxo... Contei para ele que ainda me sentia quebrado depois da segunda tarefa...
Por isso tive tanto receio de vacilar com Lily. Eu a amava, mas eu tinha um sentimento muito forte por Harry, também. Eu tinha prometido a ele que contaria caso rolasse algo entre nós. Eu tinha traído Harry. E eu tinha me tornado a coisa que ele mais desprezara.
– Não fique ai de joelhos. Me enfrente. Me mate! – pedi desesperado – Eu traí você, Harry... acabe com isso, por favor.
– Não. Não vou te machucar, Cygnus. Eu nunca machucaria você. – ele se levantou e veio se aproximando.
– Pare! PARE! NÃO SE APROXIME!
– E eu sei que você nunca me machucaria. – disse ele calmamente – Tanto é que nunca machucou.
Recuei um passo e aparatei para longe dali. Olhei ao redor, sem saber exatamente pra onde tinha ido. Estava no meio da rua, próximo à casa de Alzar. Escutei o som de uma buzina e um trouxa quase me atropelou. Joguei o carro dele para longe com um feitiço, no susto. Minha mente era uma completa confusão. Eu queria fugir, Abraxas queria matar e Salazar queria concluir o ritual.
Foi quando um outro trouxa apontou uma arma pra mim. Me lembrei imediatamente do meu casamento. Um pavor absurdo me tomou e eu lancei uma maldição da morte no trouxa. Quando ele caiu no chão, as pessoas apontaram para mim e gritaram.
Foi a maior confusão. Eu estava morrendo de medo de levar um tiro. Tentei fugir, mas logo os aurores trouxas apareceram, me seguindo. Eu queria matar a todos, mas ao mesmo tempo, tudo o que eu queria era me esconder... Acabei explodindo a rua inteira e então desaparatei.
O cajado na minha mão.
Dois dias de fuga. Me escondi em Hogwarts. Precisei enfeitiçar Damian primeiro e então me escondi no escritório. Fiquei ali durante vários minutos. Tremendo. Perdido.
– Volte lá e termine o ritual! – mandou Salazar.
– Deixe que a gente faça, se não tem coragem. – rosnou Abraxas.
Me abracei, perdido, chorando, soluçando... o que eu iria fazer? O que eu podia fazer? O que teria acontecido com os meus colegas?
– Você já não pode mais fugir, Cygnus. – sussurrou Dominique – Você está condenado. Então ao menos termine a sua missão...
– Não...
Lembrei-me de Lily novamente. De todas as promessas que eu tinha feito a ela. De todas as promessas que eu tinha quebrado... Mas estava disposto a cumprir com pelo menos uma...
Tranquei o cajado, na esperança das minhas assombrações desaparecerem, mas elas seguiram lá, assim como seguem aqui... Estávamos permanentemente ligados... mas ao menos eu não seria possuído, ou ao menos era o que eu esperava. Então olhei para minha varinha.
Voltei para a Borgin&Burke e aparatei para Godric’s Hollow. Caminhei calmamente até a casa de Harry, mas antes que eu pudesse me aproximar o suficiente, me vi cercado.
– Cygnus Régulus Malfoy. Você está preso. – disse uma auror – Renda-se.
– Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete... sete aurores para me prender? – eu sorri com desdém – Isso é quase uma ofensa. – Soltei um suspiro. – Mas tudo bem, eu me rendo.
E então larguei a varinha. O primeiro feitiço machucou, o segundo foi excruciante e o terceiro me fez desmaiar.
Acordei aqui, nessa cela, sozinho, no escuro... Salazar e Abraxas furiosos pela minha fraqueza... mas... francamente... me entregar foi a coisa mais corajosa que eu já fiz...
Você já viu aquilo?
“O que?”
Aqui, na parede. Me dê sua mão. Não tenha medo, querida, não vou te machucar. Isso... sente a parede? Algo foi escrito aqui, mas foi riscado. Sabe o que é?
“Não.”
Chama-se Perda. É um poema, creio eu.
“Não tem nada escrito. Só uns rabiscos... alguém riscou tudo.”
Exatamente. Não se pode ler a Perda... apenas sentir...
E eu sinto. Eu perdi minha família, eu perdi meus amigos, eu perdi a mulher que eu amo...
Ela veio me ver, sabe? Harry estava aqui, fazendo um discurso moralista, tentando entender o que tinha acontecido comigo... E Lily chegou. Posso me lembrar perfeitamente do que ela me disse:
– Eu sempre falei que você ia se meter em confusão, não disse? Você dizia que queria mudar o mundo! Como vai mudar o mundo preso? Ou pior, morto?
Eu fiquei tão envergonhado por ela me ver desse jeito... Tão frustrado por tê-la decepcionado tantas vezes... e tão furioso, pois foi meu sentimento por ela quem me convenceu a me render... tão furioso que falei o que não deveria... Eu queria que ela fosse embora... Que ela se lembrasse de mim de outra maneira... que se lembrasse de mim como aquele cara apaixonado por ela, que viveu com ela no Largo Grimmauld, ou que passou a semana com ela, antes do casamento de Virgo... não como um prisioneiro moribundo...
Acho que Harry entendeu. Ele a fez ir embora quando meu pai chegou... Contei uma versão bem resumida dos fatos para o meu pai... Falei sobre o Cajado, mas não tive como contar sua exata localização. Salazar e Abraxas não permitiram... Mas agora eles não podem me controlar. Por isso estou te falando tudo isso.
“Obrigada, Cygnus... eu realmente gostei de entender tudo.”
E eu realmente gostei de contar tudo. Obrigado, Monny.
Sinistro

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