Cygnus - Fallen
28 Julgamento
Notas iniciais
Julgamento
Estava de pé, ao lado de Dominique, vendo os pavões albinos. Leon corria atrás deles, gargalhando, enquanto os mais ariscos corriam. Eram os que ele mais gostava, os que corriam. Dominique riu ao meu lado. Não era a Dominique de minhas visões. Bela de maneira cruel... Era a Dominique das minhas lembranças. Gentil e sorridente.
– Ele está crescendo tão rápido... deveríamos ter outro. – eu disse para ela a beijando na mão. Nunca amei Dominique, mas gostava demais dela. Ela sorriu para mim.
– E Lily?
E então tudo começou a perder a cor...
Não... devolvam, devolvam... não me tirem isso...
Mas então eu não me lembrava do sorriso de Dominique, nem do seu toque ou seu cheiro... Olhei desesperado para Leon, mas ele não sorria, não ouvia mais sua risada. Ele virava um borrão, cinza, branco e preto.
Não... me devolvam meu filho... não tirem Leon de mim...
Encolhi-me no chão de pedra, tremendo de frio. Os dementadores do outro lado, flutuando e fazendo aquele som de sucção.
Lembrei das noites no largo Grimmauld.
Não... Lily não...
Mas logo não conseguia mais me lembrar do que tinha acontecido ali.
– Me devolvam a minha Lily... – chorei no escuro – Me devolvam Leon... Dominique, me ajude, por favor...
Me encolhi novamente, desesperado. Só queria sair dali. Não aguentava mais.
– Por favor, alguém me ajude...
Fechei os olhos com mais força, me recusando a ver os fantasmas que me assombravam. Tremia de frio, meu corpo doía por inteiro. Por um momento pensei na minha mãe e a desejei ali, para me afagar os cabelos e me confortar. Mas eu estava preso. Preso...
“Eu sempre falei que você ia se meter em confusão, não disse? Você dizia que queria mudar o mundo! Como vai mudar o mundo preso? Ou pior, morto?”
Sim... o que eu faria agora?
Me lembrei de quando tirei a virgindade de Lily, mas logo os dementadores levaram aquilo embora... a lembrança do cheiro dela, do gosto. Não me lembrava mais das sardas dela. Nem de seu rosto eu conseguia me lembrar com clareza.
O sorriso de Scorpius era um borrão.
Como era mesmo a voz de Pascal?
Que gosto tinha o whisky que eu costumava beber com o meu pai, durante nossas conversas importantes?
Qual era a música que minha mãe cantava pra mim antes de dormir?
Como era mesmo o nome do filme favorito do Harry? Costumávamos assistir de novo todas as férias...
Qual era a cor dos olhos de Rose?
Qual era a cor dos cabelos de Virgo...
Que música Lily cantou para mim naquele dia em que eu achei que iria morrer, depois da segunda tarefa?
– Socorro... – murmurei em desespero. Estava tudo tão escuro...
Como aquele dia do porão.
– Não! Isso não! Isso não! – murmurei infeliz – Não me tirem isso... – Mas os contornos do porão da casa de Harry ficavam cada vez mais escuros. Quais histórias eu contei para Lily aquele dia? – Não, por favor... tudo menos isso... tudo menos isso... – Que roupa ela usava naquele dia? Por que estávamos trancados ali? – Não... me devolvam... isso não... isso é tudo pra mim... – Qual era a cor dos olhos dela? Por que ela chorava? Estava tudo tão escuro. – Lily... socorro, Lily... eu estou com medo... – Tudo era um borrão preto.
“James fala que você é mau, porque é da Sonserina. Mas ele é o mais malvado!”
Era a voz de Lily... Sim... James nos trancou lá... Ted, Scorpius e Remo ajudaram...
“Então você é mesmo mau... Mas eu gosto de você assim mesmo, porque comigo você é bonzinho.”
Olhei para minhas mãos, sentindo meu rosto molhado de suor e lágrimas ficar cada vez mais sujo de terra.
– Lily... eu estou com medo, Lily... não me deixe, por favor...
Lembrei do meu quinto ano, quando Abraxas me controlou... Eu não sabia quem eu era, mas Lily apareceu... era véspera de natal, não era? Ela passou a tarde comigo...
“Não precisa ter medo do escuro, Cyg. Não se estiver comigo.”
Mas eu não estava mais com ela. Estava completamente sozinho.
Fechei os olhos, me sentindo completamente vazio. Por que aquela lembrança no porão era tão importante? Eu não conseguia mais lembrar... Quem sou eu?
– Ouvi dizer que todos os Black são loucos... eu sou meio Black, então devo ser meio louco...
Não conseguia mais me lembrar de uma única lembrança feliz que fosse... Ficava procurando por minha mente. Qualquer coisa que me fizesse feliz... mas nada me ocorreu...
– Quem sou eu?
Então, quando eu achei que não poderia ficar mais infeliz... Eu vi Dominique morta, nos meus braços... de novo, de novo e de novo... Eu me vi machucando Lily, quando Abraxas me possuiu... Me vi preso naquele pesadelo onde ele estuprava minha pequena Lily.
Gritei de desespero querendo fugir de mim mesmo.
– POR FAVOR, ME MATEM LOGO!
Mas ninguém veio me matar. Me arrastei pela cela, em completo desespero. Comecei a ver o que tinha feito quando Abraxas me controlara. Quando eu preferi me esconder na miragem que eles fizeram pra mim. Eu matei tanta gente. Crianças... até mesmo crianças... com minhas próprias mãos...
Céus... a culpa me corroeu de maneira avassaladora...
Rasguei a minha roupa, na intenção de me enforcar ali dentro, mas não tinha coordenação para amarrar o tecido ao redor do meu pescoço. Minhas mãos tremiam mais do que nunca. Chorei de desespero, pedindo por ajuda...
Mas ninguém veio.
Quem iria vir?
Quem se importaria? Eu era um assassino. Um mentiroso, manipulador, maldito... Eu merecia aquilo tudo.
Mas seria capaz de matar qualquer um para fugir dali.
– Se você tivesse deixado o cajado fora da caixa... – ralhou Salazar.
– Cale a boca. – rosnei – Prefiro morrer aqui do que usar aquilo de novo.
– Está mentindo. Só diz isso porque não tem nada que possa fazer...
Era verdade.
Gritei novamente.
– ME TIREM DAQUI! ME TIREM DAQUI!
Mas ninguém apareceu. Tentei bater a cabeça na parede para quebrar o crânio, como tinha feito depois da segunda tarefa, mas havia um feitiço que deixava a parede mole, como um colchão.
Gritei de novo e tentei morder os pulsos, mas as algemas eram grandes demais. Chorei de desespero. Os gritos na minha cabeça eram horríveis.
– Me perdoem, me perdoem...
– Eles mataram Dominique. – rosnou Abraxas.
– Não... – eu o olhei sentindo-me absurdamente infeliz – Eu matei Dominique... Fui eu... fui eu... Me perdoe, Nini... me perdoe... – me curvei, encostando a testa no chão, chorando como nunca antes na minha vida – A culpa é toda minha... a culpa é toda minha... me perdoe...
Mas como ela poderia me perdoar, se eu mesmo não era capaz de fazer isso?
Quanto tempo fiquei ali? Pareceram meses... talvez anos... será que tinham se esquecido de mim? Ou talvez tivessem desistido. Talvez meu pai tenha ficado tão decepcionado que preferiu fingir que eu nunca existi... Minha mãe deve ter concordado com ele... Ela nunca me perdoaria... e nem meus irmãos e nem Harry...
E nem Lily...
Arranhei meu rosto. Quis arrancar meus olhos. Mordi meus dedos com violência e chutei a parede. Mas não havia nada que eu pudesse fazer.
Um dementador se aproximou mais da grade e sugou mais de mim. Me joguei contra a grade, me aproximando dele.
– Me leve. Me mate. Vamos. – pedi – Me transforme em um de vocês, só me tire daqui...
Mas ele apenas flutuou para longe, me ignorando completamente.
Me arrastei para o fundo da cela, tremendo de frio. Uma nuvem de fumaça saía da minha boca sempre que eu expirava. Meus pulmões pareciam congelados.
E os gritos...
As imagens ruins.
Arranquei as unhas dos dedos, no desespero.
– Por favor, alguém me tire daqui... por favor, por favor...
Foi quando a porta se abriu. A luz feriu meus olhos e eu me joguei no chão, cobrindo a cabeça.
– Eu disse que ele não deveria ficar com dementadores! – escutei a voz de Harry.
– Ordens do Ministro. – resmungou o carcereiro.
Um momento de silêncio e então a voz do meu padrinho ecoou de novo.
– Expecto Patronum.
Um calor aconchegante me tomou por completo. Levantei o rosto, lentamente e vi o veado prateado. Minha mente ficou silenciosa e Dominique, Abraxas e Salazar desapareceram.
– Obrigado, tio Harry... – murmurei. Então ficou tudo escuro. Não tinha forças para ficar acordado.
Quando abri os olhos estava numa sala oval. Meus pulsos estavam presos numa cadeira de pedra. O Chefe da Suprema Corte dos Bruxos chamava alguém para depor. Eu estava muito fraco... meu estômago roncava de fome. Olhei para os vários bruxos que estavam ali, me olhando com desprezo.
Vão me devolver para os dementadores...
Não... eu lutaria até que alguém resolvesse me matar. Nem que eu tivesse que arrancar a bochecha de alguém a dentadas. Nunca mais voltaria para aquela cela.
– Monny Peace. – chamou Dodge, o chefe do meu pai – Você jura dizer apenas a verdade, sabendo que será responsabilizada por tudo o que disser?
– Sim. – respondeu a minha ouvinte. A curandeira que tratava dos presos antes de enviá-los para Azkaban. Minha cabeça pendeu, fraca demais para encará-la.
– Você conversou com o acusado. O que pensa a respeito dele?
– Eu o considero inocente de todas as acusações. – disse ela.
Houve um tumulto nas fileiras de bruxos que me assistiam.
– Não pode mesmo achar isso. – ralhou Dodge – Todos nós vimos o que o Sinistro veio fazendo nesses últimos anos. A última coisa que esse homem é, é inocente.
– Mas ele é. E eu posso provar que ele não estava no controle das próprias ações.
– E como seria isso?
– Ele estava sobre o domínio de um objeto das trevas extremamente poderoso. – explicou ela – O Cajado de Slytherin.
– Isso não existe. – ralhou Dodge.
– Todos os que lutaram contra o Sinistro, e sobreviveram, disseram que ele lutava com uma varinha e um cajado. Um em cada mão. – explicou a Srta. Peace – Eu insisto que ele não estava no controle de suas ações.
– E você sabe onde está o tal cajado?
– Sei.
– Ele está aqui. – era a voz de Harry.
Levantei o rosto e vi o cajado, dentro da caixa anti-magia. Meu corpo se moveu sozinho e eu urrei, desejando segurá-lo. Fiquei de pé e as correntes que me prendiam se arrebentaram. Não importava o que estava acontecendo. Eu queria aquilo. Era meu! Era meu!
– DEVOLVA!
Ouvi gritos e levei um feitiço pelas costas. Desmaiei de novo.
Mais uma vez estava sentado. Um frio absurdo me dominava. Abri os olhos e vi os dementadores, que passeavam ao meu redor. Pisquei fraco, confuso.
– Quem sou eu?
Mas ninguém prestava atenção...
– Senhorita Potter, jura dizer apenas a verdade, sabendo que será responsabilizado por tudo o que disser? – escutei Dodge falar.
– Sim.
Eu conhecia aquela voz. De onde era mesmo? Levantei minha cabeça e olhei. Era um anjo. Só podia ser. Tão linda, tão delicada...
Como um lírio...
– Lily... – murmurei muito fraco, mas ela não me olhou.
Minha cabeça pendeu para frente. Eu ia desmaiar de novo. Estava no escuro de novo...
Senti meu corpo ser carregado por braços fortes. Abri os olhos, fracamente. Dementadores...
– Não! NÃO! NÃO! — disse tentando me desvencilhar. Mas estava tão fraco – Por favor... não me levem de volta... por favor... por favor... – fechei os olhos com força, querendo chorar.
– Eu o levo. – era a voz de Harry.
– Eu ajudo. – era a voz do meu pai. Levantei os olhos pra ele. Ele me olhava com severidade e me ajudou a ficar de pé.
– Não me devolva pra lá, por favor. – pedi desesperado – Eu nunca mais vou desobedecer, papai... eu não vou mais roubar os livros da biblioteca. Eu juro. – murmurei. Porque meu pai estava fazendo aquilo? Eu sou apenas uma criança curiosa...
Meu pai pressionou os lábios e me abraçou. Quando eu fiquei tão alto?
– Meu deus, filho... o que fizeram com você?
– Eu não vou mais brigar na escola, papai... não me devolva para os dementadores. – pedi tremendo.
Afinal... quem sou eu?
Quando meu pai me colocou na cela, eu gritei de desespero. Me segurei na manga dele, mas ele se soltou de mim com lágrimas nos olhos.
– Aguente só mais um pouco, ok? – perguntou ele, emocionado.
– Não me deixe, por favor! – disse desesperado. Mas uma fúria me tomou. Aquele homem era influente. Por que ele queria nos manter presos? – NOS TIRE DAQUI, SEU TRAIDOR DE SANGUE MALDITO!
Tampei minha boca com as mãos e voltei a chorar escondendo o rosto e me escondendo no fundo da sala. Foi Abraxas quem disse. Não eu. Eu juro que não fui eu quem disse isso...
Logo o frio voltou.
Quem sou eu? Quem sou eu?
Dominique estava morta.
Meu corpo sujo de sangue.
A lápide de Leon...
Me deitei olhando pra cima.
– Alguém me ajude... Dominique, me leve embora. Eu quero ir embora...
Mas ninguém veio. Ninguém veio me buscar. Ninguém veio me ajudar...
Eu estava sozinho. Completamente sozinho.
Gritei por ajuda.
Chorei de desespero.
Gritei de desespero.
Chorei por ajuda.
Quem sou eu?
– DEVOLVAM O MEU CAJADO! DEVOLVAM! – gritei agarrado às grades – EU VOU MATAR TODOS VOCÊS. EU VOU MATAR TODO MUNDO.. NÃO VAI SOBRAR UM FILHO DA PUTA VIVO NO MUNDO! – Quem disse aquilo? Eu? Abraxas? Dominique? Salazar?
Me arrastei pela cela e me sentei o mais longe possível das grades. Eu estava morto e aquilo era o inferno.
Olhei para o lado. Dominique estava ali e gritava comigo.
– VOCÊ ME MATOU. VOCÊ NOS MATOU! ASSASSINO! ASSASSINO!
– Eu não queria que você morresse... eu não queria que ninguém morresse...
Depois de muito tempo, eu desmaiei. Acordei naquela cadeira. Katarina ao meu lado. Ela parecia completamente fora de si. Fechei os olhos. Quando os abri, era Cerce. Se Dominique estivesse viva, ela também estaria sentada ali. Então sorri por ela estar morta. Certamente era melhor do que aquilo...
A invejei profundamente.
Dois homens me levaram de volta para cela. Um deles era muito loiro e tentou me fazer comer, mas eu estava cansado demais.
– Nós vamos te tirar daqui, ouviu, meu filho. Você vai ficar bem...
Mas eu sabia que era mentira. Bati no prato de comida, o jogando no chão e engatinhei para longe dele. Me deitei encolhido e fechei os olhos.
– Cygnus... não perca as esperanças. – pediu o homem de cabelos desarrumados, com a cicatriz na testa em forma de raio.
Mas eu já as tinha perdido. Me abracei encolhendo e fiquei esperando o pior.
– Pelo amor de deus, Cygnus, olhe pra mim. – chorou o loiro – Olhe pra mim! Fale comigo. Por favor, meu filho!
Mas eu permaneci em silêncio. Por que aquele homem não ia embora? Eu nem o conhecia. Meu pai estava morto há anos. Morreu pra criar o Cajado, mas Ravenclaw o roubou de nós... maldita traidora...
– Helena já voltou? – perguntei quando fiquei sozinho – Ela está demorando pra voltar...
Peguei um rato com as mãos e o mordi, morrendo de fome. Oh... Godric ia achar aquilo simplesmente hilário... mas o sangue quente do rato era delicioso.
Mais tarde o vomitei inteiro. O que minha irmã Virgo iria pensar se me visse comendo aquilo?
Me joguei contra as grades e gritei de raiva. Mas ninguém veio. Ninguém nunca vinha...
Então voltei a me deitar no chão, me encolhendo, tremendo de frio.
Quem sou eu?
Depois de eras, voltaram a me carregar. Queria que me deixassem em paz. Pessoas brigavam umas com as outras. Alguém queria que um tal de Cygnus Malfoy fosse enviado para outro lugar, para morrer ao lado de um tal de Alzar. Quem eram essas pessoas?
Depois de muitas brigas, dois homens me levaram de volta para minha casa. Uma mulher de cabelos escuros me abraçou, chorando. Não estava entendendo nada... Os dementadores apareceram, me puxando e um homem de óculos me ajudou a ir.
Mas eu estava tão fraco, que tropecei.
Onde estava o meu rato?
O homem loiro, de olhos cinzas tirou um lenço úmido e começou a limpar meu rosto.
– Eu preciso tirá-lo daqui, Harry... ele não vai aguentar. – murmurou o loiro passando o lenço pelo meu rosto.
– Eu estou fazendo o que posso. Mas tem muita gente zangada aqui, Draco.
Draco... esse nome não me é estranho.
Um homem chamado Draco certa vez disse que tinha orgulho de mim. Se ele pudesse me ver agora... duvidava muito que ele se sentiria orgulhoso.
– Não posso levá-lo pra casa? – perguntou o loiro.
– Você sabe que não pode.
O loiro olhou pra mim. Tentei sorrir para ele, mas eu não sabia sorrir. Então meu rosto se contorceu numa careta.
– Eu vou ficar com ele aqui.
– Não pode...
– Eu quero ver quem vai me separar do meu filho! – rosnou o loiro.
E quando ficou tudo escuro, ele ficou ali comigo. Me agarrei nele, sentindo medo e ele fez o mesmo me abraçando. Gritamos juntos durante a noite, mas não foi tão assustador.
Meu pai estava ali comigo.
Lembrei de quando meu avô Sirius me colocou na motocicleta dele. Foi horrível, mas meu pai me pegou e brigou com ele. Fiquei agarrado na perna dele, tremendo de medo, mas sabia que enquanto ele estivesse ali comigo, eu ficaria bem e meu avô não tentaria me colocar naquela moto de novo...
Meu pai sempre fazia com que eu me sentisse seguro... Ele era sempre sério e calmo. Minha mãe era mais explosiva. Eu não sabia que eu me sentia tão seguro perto dele... sempre me achei tão auto suficiente... por isso o abracei extremamente grato.
Quando Harry apareceu para me tirar de lá, no dia seguinte, eu reconheci minha mãe ao lado dele. Ela me abraçou e abraçou meu pai.
Depois de mais um dia de negociações, quando eu voltei para a cela, minha mãe estava comigo. A abracei para que ela não sentisse medo. A noite se arrastou longamente. A escutei chorar e eu a abracei com força.
– Não quero mais ninguém aqui comigo. – eu disse.
– Mas você não precisa ficar sozinho.
– Nenhum de vocês tem que pagar pelos meus erros. Se vocês insistirem eu vou falar para Dodge que eu fiz aquelas coisas por vontade própria.
E na noite seguinte eu me arrependi, pois estava sozinho.
Gritei por ajuda.
Chorei de desespero.
E quando vieram me buscar, eu sabia que estava cada vez mais perto do meu limite.
Foi quase um mês naquele tormento. Scorpius apareceu com uma foto para mim. A segunda filha dele nascera.
– Dália. O nome é Dália. – respondeu ele.
– Ela é linda, Scorpius. Parabéns. – murmurei para ele.
– Quando você sair daqui, e tomar um banho, eu quero que vá conhecê-la. – disse ele.
– Está bem. – concordei – Posso ficar com a foto?
– Claro.
Mas durante a noite, o carcereiro pegou foto e a rasgou, me chamando de cretino.
Chorei de tristeza, tentando colar os pedacinhos, mas não consegui. Me encolhi no canto querendo morrer novamente.
Quem sou eu?
No último dia do julgamento, Dodge me perguntou se eu queria acrescentar mais alguma coisa.
– Cygnus Régulus Malfoy... – disse Dodge me encarando com desgosto – você foi trazido perante o Conselho das Leis da Magia para responder às acusações relacionadas com as atividades dos Algozes, entre elas, quebrar a lei de sigilo, torturar, matar, e se rebelar contra governos de toda a Europa. Você está sendo acusado de envolver-se com magia negra proibida, por conspirar contra a paz e contra as leis de diversos países. – disse Dodge – Já ouvimos as provas contra você e estamos prestes a alcançar um veredicto. Você tem algo mais a acrescentar ao seu depoimento antes de lavrarmos a sentença?
– O Cajado controlou meus companheiros. – eu disse – Nenhum deles faria o que fizeram se não fosse pelo Cajado. Eles foram controlados.
– O julgamento dos seus amigos não lhe diz respeito. Estou falando se tem algo a dizer em sua defesa.
Apenas baixei o rosto, envergonhado.
– Eu só quero ir pra casa...
– Deveria ter pensado nisso antes de fazer o que fez! – rosnou Dodge. Concordei em silêncio. Ele se voltou para a Corte. – Eu agora peço aos jurados – gritou Dodge – que levantem as mãos se acreditarem, como eu, que estes crimes merecem uma sentença de prisão perpétua em Azkaban.
Foi um silêncio mortal. Levantei o rosto e notei que ninguém levantou as mãos.
Uma bruxa enorme e elegante ficou de pé.
– Gostaria de parabenizar Cygnus Malfoy por seu impressionante desempenho no Torneio Tribruxo de anos atrás. – só então reconheci Madame Máxime.
– Gostaria de falar que eu acredito completamente na inocência desse garoto. – concordou a diretora McGonagall – Cygnus é um bom menino.
E então ela começou a bater palmas.
E os jurados se uniram a ela. Fiz uma careta, emocionado e então baixei a cabeça, querendo chorar. Os aplausos aumentavam mais e mais.
– Estou declarando Cygnus Régulus Malfoy completamente inocente de todas as acusações. – escutei Dodge proclamar a contra gosto.
Fechei os olhos com força, aliviado. Eu não voltaria para os dementadores. Eu iria pra casa...
Alguém abriu as algemas que me prendiam na cadeira de pedra e me ajudou a levantar. Ele me ajudou a caminhar. Eu queria sorrir. Iria ir pra casa. Estava livre...
Mas uma sensação de peso me tomou.
Que vergonha...
Que vergonha...
Perdão
– Completamente inocente. É incrível como os Malfoy sempre escapam de tudo. – Riu tio Rony.
Harry estava tirando as algemas dos meus pulsos. Eu apenas seguia parado, sem querer olhar para ninguém. Estava tão envergonhado...
– Está tudo bem, Cygnus? — perguntou Harry. Apenas desviei o olhar, virando o rosto, sem responder. – Você está livre, não está feliz?
Feliz? Como eu poderia ficar feliz depois de tudo o que tinha acontecido? Depois de tudo o que eu tinha feito? Tudo o que eu tinha causado?
Logo minha família chegou. Minha mãe pulou em cima de mim, me enchendo de beijos. Mas eu merecia levar uma surra. Não merecia beijos.
– Oh! Graças a Merlin que conseguimos provar que aquele cajado te obrigou a fazer tudo aquilo.
– Quem não iria acreditar depois do chilique que ele deu, não é? – perguntou tio Rony – Olhos vermelhos, aquele rosto esquisito. Umas três pessoas desmaiaram achando que ele era Você-Sabe-Quem reencarnado.
– Que sirva de lição. Magia negra não presta. – Ralhou Scorpius.
Agora era Virgo quem me abraçava. Por que estavam sendo gentis comigo? Eu não merecia a gentileza de ninguém.
– Eu fiquei com tanto medo, Cyg! Nunca mais mexa com essas coisas. Por mais interessantes que sejam! – pediu minha irmãzinha.
– Nunca confie em algo que você não possa ver o cérebro. – Disse Harry com autoridade.
Logo, James, Albus e Lily chegaram. James apertou a minha mão como se eu tivesse acabado de ganhar um prêmio.
– Cara. Você já pode contar as lendas de Azkaban. As mulheres vão cair aos seus pés! – disse James. Albus apertou minha outra mão, mas não tão empolgado.
– Relaxe, Cygnus. Ninguém te culpa pelo que aconteceu.
Mas eu estava apenas escutando só parcialmente o que eles diziam. Eu só conseguia olhar para Lily. Estava tão envergonhado. Ela me odiava. Tinha certeza que sim. Mas então ela sorriu gentilmente, me olhando nos olhos e eu soube que ela me perdoara mais uma vez...
Me soltei de James e de Albus e corri para ela, para abraçá-la. Nem liguei para o fato de todos estarem ali.
– Me perdoe, Lily... pelo que eu fiz... pelo o que eu disse... eu nunca quis que você me visse daquele jeito... – sussurrei no ouvido dela, com o rosto afundado em seus cabelos acaju.
– Está tudo bem, Cygnus. Está tudo bem. – murmurou Lily me abraçando apertado. Poderia passar o resto da minha vida ali... mas...
A lembrança dos meus pesadelos me atingiram em cheio. Eu não a merecia... não depois de tudo. Mesmo que eu estivesse sendo controlado... quantas vezes ela tentara me ajudar e eu fiz pouco disso?
Senti meu padrinho me dar uns tapinhas nas costas, mas não consegui largar Lily. Ela era tão quente... tão aconchegante...
– Ela disse que está tudo bem, Cygnus. Já pode soltar. – Murmurou Harry.
– Deixe a Lily viver o sonho, tio. Sabe há quanto tempo ela sonha com isso? – riu Virgo.
– Isso o que? Ele ser preso? – perguntou Harry.
– Oh... Primeiro uma Weasley. Agora isso. – Brincou meu pai.
Eu não a mereço...
Soltei Lily e recuei, envergonhado.
– De jeito nenhum. – Murmurei.
Olhei minhas mãos manchadas de sangue. Lily merecia mais do que eu... e eu nunca mais trairia a confiança de Harry novamente...
Mas Lily não entendeu. Ela me olhou magoada por eu a estar dispensando novamente. Era o que ela achava que eu estava fazendo. Não consegui encará-la.
– Qual o seu problema? – gritou Lily. Ela me acertou um tapa no rosto, mas eu não reagi. Eu merecia aquilo. Meus cabelos escondiam meus olhos cansados – Por que não se permite ser normal? Só pra variar?
Por que eu não mereço... afinal... quem sou eu?
Continuei em silêncio, sem olhar pra ninguém. Estava envergonhado demais. Decepcionado comigo mesmo... simples assim. Decepcionado... Mas Lily não entendeu.
Por isso ela saiu, pisando forte, os cabelos ruivos balançando atrás dela.
– Lily não é perfeita, Cygnus. – Resmungou Albus – Pare de colocá-la num pedestal. Você só a magoa fazendo isso!
Pra mim, ela era perfeita sim...
– É o que eu sempre digo! – ralhou Scorpius.
Mas ela simplesmente merece mais do que eu... E Harry jamais aprovaria... não depois do que eu me tornei...
– E pra variar, eu sou o último a saber. – disse meu pai. Mas eu sabia que ele estava apenas se fazendo de bobo, para que Harry não se sentisse idiota por nunca ter notado o óbvio.
– Oh, Draco. As tragédias adolescentes dos nossos filhos não são da nossa conta! — resmungou minha mãe.
– Adolescente? Quem é adolescente aqui? – perguntou meu pai. – Na idade dele eu já era casado com você. Na idade dele estávamos tendo a Virgo, diga-se de passagem. – meu pai coçou os olhos e acertou o topo da minha cabeça com um tapa. O olhei sem entender – Agora larga de ser imbecil e vai atrás da garota! Os Malfoy SEMPRE ficam com a garota. Quer ver a Lílian casada com um Zé ninguém da vida? Tipo o filho do Weasley aqui?
– Como é que é? – ralhou Rony. Harry sorriu achado graça. Olhei para o meu pai, simplesmente chocado.
– Quer que eu vá atrás dela? – perguntei confuso. Desde que ela recusara meu pedido de casamento, meu pai passara a tratá-la com muita frieza.
– Tá brincando comigo. As únicas vezes que eu vi você parecer mais do que um Inferi sem emoção é quando você está com ela. Agora vá e pegue a menina!
Pisquei surpreso. Então me virei para Harry. Jamais correria atrás dela sem que Harry soubesse e aprovasse. Ele sorriu para mim, gentilmente.
– Vai lá.
Senti um calor no peito. Um delicioso calor. Meu rosto se contorceu num sorriso. Eu nem sabia que conseguia sorrir daquele jeito. Ainda mais depois de Azkaban. Por isso saí correndo desenfreadamente. Quase derrubei um velho qualquer, ao esbarrar nele.
– LILY! LILY! – gritei a plenos pulmões. Ela se virou para me encarar.
– O que você quer?
Mas eu a abracei. A puxei pra mim com força. Meu deus, como eu a amo... Como eu a amo. A beijei na testa, prometendo a mim mesmo que nunca mais a deixaria ir.
Mas ela me empurrou fazendo careta.
– Lily, eu...
– Não! – rosnou ela me empurrando – Eu cansei, ok? Cansei desse seu humor bipolar. Uma hora você me ama e na outra você não quer saber de mim. Eu cansei disso, ok?
– Eu amo você. – eu disse.
– Prove! Porque... sinceramente, Cygnus. Sou sempre eu provando meu amor por você. Você nunca faz isso.
– O que quer que eu faça? – perguntei a olhando – Eu larguei a rebelião por você. Eu me entreguei por você...
– Eu não acredito. Você fez isso porque você não aguentava mais.
– Não... foi por você, Lily, eu juro...
– Eu não acredito. Adeus.
E então ela me deu as costas.
– Lily! – mas ela não se virou. Ela brandiu a varinha e desapareceu.
E aquele calor que tinha me tomado se transformou num frio absurdo. Caí de joelhos, fraco. Quebrado. Incompleto.
Como eu poderia provar?
Fiquei ali durante muito tempo, até que meu pai apareceu. Ele me ajudou a levantar e me levou para casa.
Me fizeram tomar um banho e minha mãe me fez comer. Depois me mandaram para a cama. Mas eu não conseguia dormir. Os pesadelos voltaram e eu jurava que ia acordar na minha cela em Azkaban.
Gritei de desespero e me levantei, assustado.
Onde eu estava?
– Dominique! Dominique! – gritei assustado.
Mas então lembrei que ela estava morta. Morta... nos meus braços.
Me levantei e fui para o túmulo de Leon e dormi ali.
Acordei no dia seguinte me sentindo muito fraco. Minha mãe brigava comigo. Mas eu não entendia direito. Minha cabeça doía tanto... meu peito também. Doía respirar. E o frio... o frio era terrível. Eu não parava de tremer.
– O que ele tem? – perguntou meu pai.
– Ele está doente. Só isso... acho que pegou uma pneumonia. Ele está muito fraco, Draco.
– Mas você pode dar um jeito, não pode?
– Só se ele não fugir de novo. – disse ela me olhando com censura.
E quando a noite chegou, com os pesadelos, eu quis sair do meu quarto, mas a porta estava trancada.
Eu estava em Azkaban. Só assim para sentir tanto frio. Gritei de desespero.
– POR FAVOR! ME TIREM DAQUI! ME TIREM DAQUI!
Arranhei tanto a porta que meus dedos sem unhas se cortaram e rastros do meu sangue ficaram na madeira. Quando alguém abriu a porta, eu corri para fora, mas me seguraram.
– Cygnus! Calma!
– EU NÃO VOU VOLTAR PRA AZKABAN! NÃO VOU! NÃO VOU!
– É O SEU QUARTO, FILHO. NÃO É AZKABAN! – gritou meu pai me jogando no chão e subindo em cima de mim, me olhando nos olhos com preocupação – Você está bem. Está a salvo!
Meus olhos encheram-se de água. Eu estava na mansão. Eu estava em casa. Um pouco de lucidez começou a me tomar e eu entendi que estava apenas surtando.
– Eu estou ficando louco, pai...
Escondi o rosto com as mãos e comecei a chorar. Meu pai se sentou ao meu lado e me abraçou.
– Está tudo bem, Cyg. Estamos aqui com você, ok? – perguntou meu pai calmamente.
Nem vi quando caí no sono. Mas quando acordei, estava no sofá, segurando a mão do meu pai, que estava sentado numa poltrona ao meu lado. Ele me olhava com preocupação, o rosto vermelho e inchado, com enormes olheiras em seu rosto normalmente impecável.
– Está tudo bem, meu filho? – perguntou meu pai tentando sorrir. Mas ele não conseguiu... meu perguntei se alguém da minha família seria capaz de sorrir de novo depois de tudo o que eu tinha feito...
Eu destruí a minha família...
– Estou... – murmurei deprimido.
Meu pai me mandou tomar banho e eu obedeci. Depois me obriguei a comer alguma coisa. Meu pai parecia terrivelmente cansado, a barba por fazer, as olheiras... ele nunca parecera tão velho. Minha mãe se sentou ao meu lado para remendar as minhas mãos. Ela também estava com olheiras e parecia cansada.
– Você está em casa, ok, Cygnus? Nada de ruim vai acontecer com você, ouviu? – perguntou ela.
– Está bem... – murmurei envergonhado.
Depois do café, fui para a sala e tirei um cochilo no sofá.
Quando acordei, olhei ao redor sem saber exatamente onde estava. Onde estavam os meus algozes?
– Alzar! Alzar! – gritei pela casa – Onde ele se meteu? Katarina? Cerce?
– Cygnus. – me virei e vi meu pai.
– Pai? O que está fazendo aqui? – perguntei sem entender – Cadê os meus amigos?
– Que amigos, Cyg?
– Alzar, Cerce, Katarina, Leto, Noah, Dominique... – então sorri – É mesmo, pai. Você veio pro meu casamento? – perguntei feliz – Dominique está grávida. Ela acha que é um menino. Ela te mandou uma carta?
Meu pai me olhou parecendo infeliz e assustado. Ele se sentou no sofá escondendo o rosto com as mãos. O encarei confuso. Por que ele estava daquele jeito?
– Meu deus, Cygnus...
– O que foi, pai? Não gostou? – perguntei me sentando ao lado dele – Eu vou ter um filho... não está feliz?
Ele respirou fundo e me olhou tristemente.
– Cygnus... Dominique está morta.
Pisquei e escutei o som dos tiros na minha mente. Me levantei. Dominique morta nos meus braços. Quanto sangue... ela me pediu ajuda, mas eu não pude fazer nada... nada...
– Não... não pode ser... – olhei para o lado e vi o trouxa com a arma. O maldito trouxa que assassinou Dominique – SEU MALDITO!
Eu nunca briguei bem sem minha varinha, mas não liguei. Apenas avancei contra ele. Mas assim que o alcancei, ele desapareceu. Então me lembrei. Eu já o tinha castigado.
Então foi voltando tudo, lentamente...
– Cygnus... está tudo bem?
– Me leve pro Mungus. – murmurei angustiado – Eu estou louco.
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