Cursed Mistakes
2 A Carta
Notas iniciais
Era mais um dia comum na mansão Phantomhive. Tinham passado cerca de duas semanas desde o velório da Lady, e Ciel agora ocupava a sua cabeça a tratar da documentação e da papelada que se encontrava desorganizada na sua secretária.
O dia decorria tal como todos os outros finais-de-semana. Aulas de violino pela manhã e aulas de Latim pela tarde. Uma pequena pausa para tratar de documentação da companhia Phantomhive, juntamente com um chá às 6 horas.
Um longo suspiro saiu dos lábios do jovem conde, carimbando mais uma carta pronta para ser enviada. Colocou a papelada de lado, e pousou a sua mão no pescoço, massajando-o de leve. Fechou os olhos por alguns segundos e afundou o seu corpo na grande cadeira que agora se tornava cada vez mais desconfortável.
Sem se dar conta, perdia-se agora em pensamentos. Pensou nos seus afazeres para o resto do dia. Bufou, relembrando-se da aula de Latim que teria em poucas horas. Para piorar ainda mais a situação, recordou-se que o seu habitual professor de Latim não estaria disponível para lhe dar a aula de hoje. Teria então que ser o seu mordomo a fazer o papel de tutor, o que Ciel odiava. Sebastian tornava-se ainda mais demoníaco durante as suas explicações. Era o único momento em que Sebastian podia controlar o conde, dar-lhe ordens e bater-lhe caso ele as desrespeitasse. Ciel rangeu os dentes ao relembrar daquele sorriso trocista do demónio.
– Jovem mestre?
O conde abriu os olhos sobressaltado, apoiando-se descuidadamente na secretária que se encontrava à sua frente. O mordomo observava-o curiosamente, novamente com aquele habitual sorriso estampado na sua cara.
Ciel recompusera-se o melhor que pôde, ainda um pouco atrapalhado por ter sido acordado do meio dos seus pensamentos de uma forma tão descuidada.
Sebastian riu levemente depois de demonstrar aquela expressão curiosa, hilariante o facto de ter apanhado o conde desprevenido, que agora se ajeitava atrapalhadamente na cadeira.
O mordomo aproximou-se do conde e pousou cerca de cinco livros com um número de páginas exagerado na secretária do conde.
– Pensei em começarmos a aula de latim um pouco mais cedo já que a sua pronúncia não seja algo de louvar. — Sebastian disse soltando um pequeno suspiro. O conde conseguia realizar todo o tipo de exercícios escritos de línguas como o alemão ou o latim mas a sua oralidade era sem dúvida, péssima.
– Apenas comece por copiar 5 textos em latim, duas vezes cada um. — O mordomo fez um sorriso escarnecido enquanto pousava uma carta no canto da mesa.
– E aqui está esta carta para quando o jovem mestre terminar.
Sebastian disse enquanto curvava ainda mais aquele sorriso falso, retirando-se da sala.
O conde preparava-se para responder ao comentário pouco agradável que lhe fora dirigido, mas o mordomo já se teria retirado do escritório. Bufou, fazendo uma expressão de descontentamento e observou a quantidade exagerada de livros que se encontravam à sua frente. Ao fim de alguns minutos a resmungar consigo próprio, dirigiu a sua atenção para a carta que se encontrava no tabuleiro de prata. Abriu-a cuidadosamente com a sua pequena navalha, e retirou o papel perfumado que se encontrava dentro do envelope.
Após a ler atentamente, permaneceu em silêncio enquanto organizava as suas ideias. Afundou-se novamente no seu cadeirão, deixando um suspiro sair de si. Cruzou as pernas, uma sobre a outra, destacando assim o salto do seu pé direito. Apoiou o queixo na sua mão e concentrou-se novamente no conteúdo da carta.
Ouviu a porta do escritório a ser aberta cuidadosamente, e os seus olhos encontraram o mordomo que acabara de entrar, trazendo consigo o habitual chá das 6.
– Um convite dos Midford... — Ciel revelou, atirando descuidadamente o papel para cima da secretária.
Sebastian franziu um pouco o cenho enquanto cuidadosamente despejava o chá numa chávena e a entregava ao seu mestre.
–Algo inesperado com certeza. Mas o jovem mestre ignorou por completo a indicação sobre deixar a carta para o final.- Disse Sebastian enquanto olhava para as folhas em branco. O mordomo depois pousou um bolo de chocolate decorado com frutos vermelhos na secretária desarrumada do conde.
–Irá aceitar o convite jovem mestre? — O demónio perguntou lançando um olhar discreto, frio e sério ao conde.
– Terei que aceitar... Afinal, cabe ao Conde Phantomhive resolver os assuntos que possam causar discórdia na sua família. — Disse confiante, e levou novamente a chávena de porcelana aos lábios. Inalou o adoçado aroma que provinha do chá de alta qualidade, e sem se dar conta, curvou um pequeno sorriso.
Sebastian acentuou o olhar escarlate no conde depois de ouvir aquelas palavras, não dizendo mais nada. Outra vez aquele orgulho e austeridade vinda de uma mera criança. O demónio então esperou silenciosamente que o conde terminasse o seu pequeno lanche mantendo aquele olhar discreto e observando cada traço e cada movimento do rapaz.
Ciel terminou de beber o chá, e focou o seu olhar nas cartas que acabara de carimbar. Aguardou silenciosamente enquanto o demónio recolhia a chávena de cima da mesa, e rezava interiormente para que o mordomo se tivesse esquecido da explicação de Latim.
Ao ver que o mordomo se virava de costas e preparava o tabuleiro para se retirar do escritório, Ciel lançou um pequeno sorriso de satisfação.
A porta estava prestes a fechar-se, mas antes disso Sebastian olhou para Ciel e sorriu.
– Voltarei em meia hora para corrigir o seu trabalho de latim, jovem mestre. — Disse fechando finalmente a porta.
Sebastian, já despachado de algumas tarefas ou até de remendos que tinha de fazer por causa dos outros empregados na mansão, estava agora no quarto do seu mestre. Procurava em gavetas, armários e caixas itens que pudessem despertar memórias de Elisabeth na mente de Ciel. Já o tinha feito a semana passada enquanto o conde trabalhava, por isso a maioria dos pertences já estava destruída. Sim, Sebastian preocupava-se em destruir qualquer tipo de memória de Lady Elisabeth. O demónio depois encontrou uma caixinha de prata onde estava uma fotografia da sorridente menina e Sebastian guardou o objecto no bolso, deixando uma nota mental para acabar também com aquela memória. Nem o demónio sabia ao certo porque fazia aquilo. Certamente, o seu objetivo inicial seria acabar com tudo o que fosse um obstáculo ao fazer crescer escuridão naquela alma, mas lentamente esse ideal apagava-se. O mordomo perguntava a si próprio se estaria a ir longe demais, mas aquele sentimento invadia o corpo e mente do demónio cada vez que se relembrava do conde. Sebastian não sabia sequer se era um sentimento humano, mas sabia que nunca o tinha sentido antes. Era uma mistura de dor e algo mais que o demónio não tinha conseguido decifrar ainda.
Era mais um mistério que teria que ser resolvido.
Os papéis continuavam espalhados pela mesa e Ciel bufava furioso pela sua tentativa de se escapar à aula de Latim ter falhado completamente. Olhou para o monte de livros que se encontravam à sua frente e pensou novamente no quanto detestava aquele demónio. Relembrava-se agora das atitudes pouco comuns que Sebastian andava a ter nestes últimos dias. Não seria a primeira vez que apanhara o seu mordomo a remexer em gavetas que não faziam parte da sua lista de limpeza, e quando perguntava a razão pela qual ele o fazia, recebia respostas do género "Foi apenas um equivoco" e "Não se voltará a repetir".
Também as suas saídas apressadas e as suas respostas curtas era algo bastante suspeito. Inicialmente, Ciel não deu grande importância a esses acontecimentos, mas agora tornavam-se cada vez mais comuns.
Ainda assim, o conde decidiu não questionar o mordomo. Não poderia iniciar uma discussão sem ter evidências que provassem os seus argumentos.
Ciel sabia que podia confiar no demónio, ele jamais lhe mentiria. Mas o conde também sabia que mesmo não mentindo, o demónio omitia informações e guardava segredos regularmente.
Piscou os olhos repetidamente, apercebendo-se de que se tinha deixado cair em pensamentos novamente. Pegou no primeiro livro de título "A capite ad calcem" e concordou que talvez o demónio tivesse razão. De facto precisava de estudar mais, visto que nem o título do livro conseguia compreender.
Algum tempo depois, Sebastian recordou-se dos deveres do conde e confirmou as horas no seu relógio de bolso. O demónio rapidamente terminou de voltar a arrumar tudo no lugar a que pertencia e regressou ao escritório do seu mestre.
Sebastian aproximou-se do conde, observando o que já teria feito.
– Já terminou Jovem Mestre? – O mordomo perguntou, novamente com aquele sorriso falso.
Ciel mordia a ponta da sua pena enquanto olhava distraidamente para os papeis que tinha à sua frente. Ao ouvir a voz do mordomo, lançou o seu olhar para cima, encarando mais uma vez o demónio que aguardava pela sua resposta.
– Ah... Ainda não... — Respondeu inocentemente, tentando controlar aquele pequeno sorriso que teimava em revelar a sua farsa.
Sebastian deixou sair um leve suspiro. – Retirar-me-ei para terminar o resto das tarefas na mansão, por favor chame quando acabado, Jovem Mestre. Com tanto tempo que teve para ter realizado o trabalho espero não encontrar erro algum. – Sebastian curvou um sorriso trocista ainda mais amplo antes de se retirar.
Ciel revirou os olhos, ainda a morder a ponta da sua pena que ficava cada vez mais marcada pelos dentes do conde. Abriu novamente o livro de Latim e começou a sussurrar lentamente o que lá estava escrito. "Ab auditione... mela non timebit." — Repetiu novamente, desta vez com menos motivação. "Ab auditione mela no timabet."
– "Mala no timebit". — O demónio corrigiu, entrando novamente no escritório e fazendo logo de seguida aquele sorriso trocista.
– ..."Mala no timebit". — O conde repetiu, sem qualquer entusiasmo. Pousou a pena na secretária e arrumou os livros, colocando-os de lado. — Penso que chega de lições por hoje. — Afirmou satisfeito. — As malas já estão prontas?
Sebastian riu um pouco devido à impaciência e infantilidade do Conde perante os estudos. Inclinou um pouco a cabeça, respondendo:
– Sim, Jovem Mestre. — O mordomo sorriu.
Também Ciel sorriu, satisfeito por ter convencido o mordomo em deixar os estudos de lado. Levantou-se da sua cadeira e dirigiu-se descontraidamente até à porta.
– Certo, podemos então partir. — Ordenou, virando costas ao demónio e retirando-se do escritório.
Sebastian e Ciel estavam agora a caminho da mansão Midford e outra vez Sebastian acompanhou o Conde enquanto Finnian os conduzia. Até agora a viagem era feita em puro silêncio, um silêncio já mais descontraído do que da última vez, mas ainda um pouco pesado. O mordomo estava sentado em frente ao Conde, olhando sem pensamentos pela janela.
– A fotografia da Elizabeth que guardava na minha cómoda desapareceu. — Ciel apenas disse, cortando aquele silêncio que já permanecia á demasiado tempo.
Sebastian fora apanhado completamente de surpresa, mas logo escondeu a expressão surpreendida com um sorriso confiante.
– Ah Jovem Mestre, ainda perdido nas memórias de há duas semanas? — O demónio desviou o assunto.
– Onde está a fotografia, Sebastian? — O conde perguntou, ficando cada vez mais impaciente com as respostas do demónio.
Sebastian sabia que não podia mentir ao Conde, nem conseguiria adiar a conversa por muito mais tempo. O demónio formou um sorriso escarnecedor e acentuou o olhar escarlate no rapaz.
– Eu fiz-lhe o favor de se desfazer dessas memórias, Jovem Mestre. Viver no passado não é saudável.
Ciel olhou estupefacto para o demónio que agora parecia não ter tanta a certeza se devia ou não continuar com aquele sorriso estampado na cara. Levantou a sua mão e rapidamente lançou-a em direcção ao rosto do mordomo.
– Sebastian! — Ciel repreendeu, agora com a mão vermelha pela punição que acabara de dar ao demónio. — Eu nunca dei permissão para tal coisa! Que tipo de mordomo se desfaz dos pertences do seu mestre sem o seu consentimento? — Interrogou-o exaltado, pronto para castigar novamente o demónio caso ele lhe desse mais uma resposta torta.
O demónio fazia agora uma expressão bastante séria. Esperou um pouco antes de começar a falar, pensando com cautela enquanto a marca vermelha na sua cara desaparecia levemente. Sem qualquer argumento, o mordomo desculpou-se.
– Perdoe-me pelos meus actos, my lord – Nem o próprio demónio sabia o que responder.
Ciel manteve-se em silêncio por alguns segundos, ainda a tentar compreender a razão pela qual Sebastian fizera aquilo. Olhou fixamente para os olhos do mordomo, que agora formavam uma expressão arrependida. Mesmo sabendo que era apenas uma farsa do demónio, Ciel não conseguiu evitar em se sentir mal por ter atingido Sebastian com tanta brutalidade. Respirou fundo, tentando controlar a mistura de emoções que se estava a formar dentro de si, e calmamente questionou o mordomo:
– Do que mais te desfizeste?
Sebastian fez novamente uma pausa antes de responder.
–Basicamente de tudo o que lhe pudesse lembrar da Lady Elizabeth. – Claro que o demónio não poderia responder ao Conde que era apenas por causa da sua alma e de qualquer maneira isso era mentira.
– Mas porquê?! — O conde exaltou-se novamente, ainda insatisfeito com a explicação do demónio. — O que fica a teu favor ao fazeres isso?!
Sebastian procurou argumentos, mas nada, não diria a verdade, mas também não iria mentir ao conde. Então, pela primeira vez, o mordomo resignou-se a manter-se em silêncio enquanto fitava o olhar agitado do Conde.
O silêncio manteve-se por mais algum tempo, até que a paciência de Ciel finalmente chegara ao fim.
– Sebastian! Responde às minhas questões! Agora! — O conde exigiu irritado, fitando os olhos do demónio intensamente.
Sebastian abriu a boca para dizer algo mas logo a carruagem parou chamando a atenção do demónio. Tinham chegado e o mordomo suspirou levemente sentido um alívio enorme.
– Chegámos jovem mestre! — Finnian anunciou, maravilhado com o incrível jardim da mansão Midford.
A fúria de Ciel não podia ser mais visível. Ao ver Sebastian a sair da carruagem apressadamente, Ciel ainda tentou impedi-lo para obter as respostas que necessitava, mas foi interrompido pela sua amável tia Francis que o envolveu num abraço apertado.
– Ciel! Ainda bem que vieste... — Disse num tom carinhoso, ainda num estado frágil pelo o acontecimento de há duas semanas atrás.
– Tia Francis... — Ciel retribuiu a palavra enquanto se tentava libertar da exagerada demonstração de afecto. — Como está? — Perguntou educadamente, seguindo o seu caminho até à entrada da mansão, juntamente com a mulher que caminhava ao seu lado.
– Estou a sentir-me melhor, menos angustiada. — Respondeu com um sorriso tristonho. — Só o tempo pode curar as feridas do passado... Não é verdade?
Ciel entendeu ao que a sua tia se referia, comparando a morte de Elizabeth com a dos seus pais. De facto, o tempo era a melhor solução para esquecer os momentos de grande sofrimento, e Ciel bem sabia disso.
O conde olhou pelo canto do olho para Sebastian, que caminhava ligeiramente atrás deles. De certa forma, estava agradecido ao mordomo por ter eliminado os objectos que o faziam relembrar de Elizabeth... Mas a sua grande questão ainda se mantinha. "Porque iria o mordomo preocupar-se com o seu bem estar? O que ganharia ele com isso?"
Sebastian caminhava seguindo o conde e a sua tia. Teria pouco tempo até que o conde lhe perguntasse o porquê de tudo aquilo. De maneira alguma iria dizer aquilo que sentia, algo que nem o próprio mordomo sabia o que era. Esperava então que o conde se esquecesse daquela conversa.
Entrou na mansão, e foi recebido pelo o seu tio, o líder da família Midford. O homem aproximou-se dele, e mantendo uma expressão séria cumprimentou Ciel e agradeceu por ter aceite o seu convite.
– Eu é que agradeço. — Ciel retribuiu, sorrindo educadamente. Entregou a sua capa e o seu chapéu ao mordomo que se mantinha junto à porta e seguiu o seu caminho juntamente com o Marquês Midford que mantinha uma postura rígida ao andar, ambos se dirigindo para a sala de convidados.
– Pois bem meu querido sobrinho, hoje vamos ter que conversar sobre algo muito importante...
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