Cursed Mistakes
3 A Descoberta
Notas iniciais
Lá fora já tinha escurecido e os convidados estavam agora numa sala larga e espaçosa, bem iluminada. A família MidFord sabia bem quanto tocava à decoração de um espaço. A sala tinha umas grandes janelas decoradas com cortinas brancas e uma pormenorizada renda no fim, dispunha de várias mesas, decoradas com arranjos de flores brancas e com uns aperitivos servidos em buffet. Mais convidados estavam presentes, conversando uns com os outros sobre isto ou aquilo. Quanto a Sebastian, ajudava também os outros servos, servindo os mais diversos aperitivos. O demónio notara que o conde estava sentado num dos cadeirões da sala, com um ar pensativo.
Ciel observava em seu redor o espírito de convívio presente nos convidados. Já no seu caso, socializar era tudo o que menos queria naquele momento. Sendo assim, optou por ficar num canto com o seu copo de whisky, enquanto se perdia em pensamentos solitários.
Avistou o seu mordomo que se entretinha em servir aperitivos a algumas Ladies, que arranjavam qualquer tipo de desculpas para tocar no demónio. Sebastian apenas sorria e retribuía a conversa educadamente. O conde revirou os olhos perante a cena, dando mais um gole do seu copo de whisky. Descruzou as pernas e voltou a cruza-las, procurando uma posição mais confortável. Agitava ligeiramente o seu copo de vidro enquanto continuava a observar atentamente o demónio. Desta vez, uma mulher jovem brincava com uma mecha de cabelo do mordomo, entrelaçando-a nos dedos, enquanto se servia de um copo de espumante do tabuleiro de prata que o demónio levava. "Mas estas mulheres não têm vergonha na cara?" Ciel pensava irritado, completamente indignado pelo descaramento da tal mulher. Perguntava-se a si mesmo se estas senhoras não tinham maridos. Como tinham o descaramento de se atirarem a um mero mordomo durante um evento público? Estas atitudes iam além da compreensão de Ciel. Não conseguia entender como uma mulher de alta classe podia ser tão desavergonhada. Deu mais um gole na sua bebida e olhou para os outros convidados tentando esquecer aqueles pensamentos sem qualquer importância. Falhando miseravelmente, o conde deu por si mesmo a observar novamente o demónio que, desta vez, se encontrava sozinho no canto da sala. Sebastian mantinha uma posição elegante e Ciel não deixou de reparar na boa estrutura física do mordomo. Os seus cabelos negros eram iluminados pela luz suave do candelabro, deixando-os ainda mais belos do que já eram. O conde notou também na estrutura facial do demónio que era sem dúvida, atraente. Pensando melhor, até conseguia compreender o porquê de o seu mordomo ser alvo de tantas mulheres. Para além da sua aparência física, a personalidade carismática do demónio era também bastante sedutora. Levou novamente o copo aos lábios, ainda observando Sebastian, e foi surpreendido pelos olhos do mordomo que se dirigiam aos seus. Ciel engasgou-se com a bebida, corando furiosamente logo de seguida.
Assim que notou que o Conde se engasgava, o demónio apressou-se a ir a seu encontro, falando num tom preocupado:
– Está tudo bem Jovem Mestre? — Perguntou, levantando uma das sobrancelhas. — Deveria ter mais cuidado com a bebida, my lord. — Sebastian suspirou. Era óbvio que o demónio tinha apanhado o conde a analisar cada detalhe do seu corpo. “Este sentimento outra vez…” O mordomo pensou para si próprio, aquela maldita ânsia voltava a invadir o coração do demónio.
Ciel tossiu mais algumas vezes, pousando o seu copo na mesinha ao seu lado. O seu rosto tornara-se completamente vermelho e a sua pele queimava de vergonha. "Será que ele reparou?" O conde questionava-se a si mesmo, ainda com esperanças de que o demónio não se tivesse apercebido que ele o observava mais do que o habitual.
– Está! — Respondeu apressadamente, sem nunca olhar o mordomo nos olhos. — Volta ao teu trabalho. — Ordenou, e pegou novamente no copo que agora se encontrava vazio. — Espera. — Interrompeu, puxando a manga do casaco do mordomo. — Enche o meu copo.
Sebastian hesitou um pouco antes de realizar aquela ordem. Não iria argumentar contra o conde que estava de mau humor, pois caso o mordomo o aconselhasse a parar de beber a resposta seria provavelmente um amargo "Estás a desobedecer a uma ordem vinda do teu mestre?"
Sendo assim, Sebastian pegou no frasco de vidro e encheu o copo, entregando-o ao conde. Depois, voltou ao seu trabalho.
Ciel bufou, descontente com o ambiente da festa. Por enquanto, a sua única diversão no meio de todas aquelas actividades era, só e apenas, o seu copo de whisky. Olhou para o líquido e sorriu ligeiramente. Ponderou em parar de beber, pois já tinha consumido demasiado, mas mudou de ideias ao ver que o seu tio se aproximava na sua direcção.
– Não se está a divertir, Ciel? — O homem questionou o pequeno, sentando-se no cadeirão ao seu lado.
– É uma festa animada. — Disse simplesmente e o seu tio rio com a resposta do sobrinho.
– Felizmente! Os outros convidados parecem estar satisfeitos. — Supôs, acendendo o charuto que retirou do bolso do seu casaco. — Só o meu querido sobrinho é que não parece muito divertido. — Deixou o fumo libertar-se da sua boca e apontou o charuto para Ciel. — É servido?
– Não, obrigado. — O conde respondeu educadamente, dirigindo o seu olhar para o mordomo que se distraia a organizar os aperitivos. — Só não estou com muita disposição para festas. — Revelou, ainda com os olhos fixos no demónio.
– Compreendo... A perda da minha filha continua a ser um grande desgosto... — O homem mais velho seguiu o olhar do conde, alcançando a visão de Sebastian. — Pensei que talvez uma noite de convívio aliviasse a tensão da minha família.
– Pelo que observo os convidados parecem mais descontraídos, incluindo a Tia Francis. — Ciel destacou, olhando desta vez para a mulher loira que ria demasiado alto enquanto se servia de mais uma bebida.
O homem mais velho rio, fascinado pela postura pouco habitual da sua mulher.
– É raro ver a sua tia Francis nestas figuras! — O marquês assegurou, soltando mais uma gargalhada. — Mas deixando as brincadeiras de lado Ciel, a tua tia anda completamente devastada. — Fez uma pausa e suspirou. — E é por essa e por outras razões que tomei uma decisão.
Ciel parou de beber e observou o tio atentamente. "Será agora que ele me vai revelar a razão pela a qual fui convidado aqui?" O conde questionou-se e logo foi surpreendido pela expressão séria no rosto do homem à sua frente.
– Não é algo que o vai deixar satisfeito... Aliás, penso que depois de termos essa conversa as coisas vão mudar bastante... — O homem mais velho informou, desta vez mostrando uma certa preocupação. — Mas depois da morte da Lizzy... Penso que esta seja a decisão mais correcta para proteger a minha família.
– Perdoe-me tio, mas não estou a perceber a onde quer chegar...
– Não Ciel, esqueça. Hoje é uma noite de descontracção, deixaremos os assuntos sérios para amanhã. — O homem suspirou e logo sorriu novamente para o pequeno. — Tente-se divertir um pouco...
Ciel preparava-se para contrapor, mas acabou por se manter em silêncio ao ver que o tio já se levantava e se dirigia para um grupo de convidados ao lado da mesa de aperitivos. Pôs-se a pensar no quão sério poderia ser a "decisão" do marquês Midford. Deu voltas e voltas à sua mente, mas não se recordava de nada que pudesse ser tão grave quanto o seu tio deu a entender que era. Precisava de saber o que se passava, precisava de se antecipar. "Sebastian." Pensou, e logo dirigiu o seu olhar para o mordomo, que também estava a par da situação. Acenou levemente com a cabeça, indicando ao demónio que precisavam de conversar em privado.
Sebastian entendeu o sinal que Ciel lhe fizera e aproximou-se. Sairam depois ambos daquela sala de uma maneira discreta e Sebastian acompanhou o Conde pelo corredor pouco iluminado. Esperava que o seu mestre lhe contasse as novidades que, pela cara de Ciel, não eram satisfatórias.
O conde olhou para ambos os lados, verificando que de facto estavam sozinhos naquele corredor. Encostou-se à parede, mantendo as costas direitas, e logo de seguida cruzou os braços, iniciando o diálogo:
– Os Midford estão a esconder-me algo e penso que irá prejudicar a minha vida de alguma forma. — Focou o seu olhar em Sebastian. — Quero que descubras o que é que eles andam a planear. Não quero aparecer no jantar de amanhã completamente desprevenido.
Sebastian curvou um sorriso confiante nos lábios, ajoelhando-se naquela pose leal com uma reverência fiel.
– Yes, my lord.
O conde acenou com a cabeça educadamente e seguiu o seu caminho de volta à sala de convívio. Não queria levantar suspeitas por se ausentar demasiado tempo da festa.
Sebastian decidiu então examinar a mansão, era grande, teria muito por onde averiguar. Decidiu procurar o escritório do Marquês, todos os outros convidados estavam na sala onde Ciel se encontrava. “Não há ninguém nos corredores, no entanto é necessário ser cuidadoso” Pensou o mordomo mas logo se deparou com Paula, empregada e antiga ama de Lady Elizabeth, a sair de um quarto.
– Senhor Sebastian? Precisa de alguma coisa? — Paula questionou o mordomo, levando nos braços três lençóis devidamente dobrados uns por cima dos outros.
Sebastian pensou eu retirar-se mas uma ideia surgiu na sua cabeça, curvando o seu melhor sorriso. O demónio decidira usar a jovem rapariga para sua própria vantagem enquanto se aproximava da rapariga e a sua face ficava exageradamente perto da dela. “Realmente. Preferia não ter de utilizar este tipo de métodos tão desrespeitoso. Não por causa de Paula mas pelo Jovem Mestre” Sebastian sentia um pequeno e leve peso de culpa e responsabilidade, mas não era suficiente para parar de usar aquele método que lhe proporcionaria informações rápidas.
– Hm, se me pudesse contar sobre os assuntos que rodam dentro da mansão MidFord eu ficaria imensamente agradecido. – O mordomo olhou fixamente para os olhos castanhos da empregada.
Paula corou intensamente ao sentir o corpo do mordomo tão perto do seu. Respirou fundo ao sentir o toque daquele homem na sua cintura, e fora empurrada lentamente até ficar completamente encostada à parede. O demónio passava agora a mão na sua perna, subindo lentamente por baixo da sua longa saia.
– E-Eu não... — A sua voz foi cortada ao sentir a respiração do mordomo, o seu rosto a poucos milímetros do seu. — Eu não sei de nada... — Sussurrou, fascinada pelo intenso vermelho que brilhava nos olhos do demónio.
– Uma verdadeira senhora não mentiria, especialmente sendo uma tão fiel empregada… – Sebastian sorriu e falou num tom confiante, segurando a mão da jovem que deixava cair os três lençóis no chão enquanto o demónio tentava ambientar o clima.
A jovem maid fora surpreendida pela a indecente proposta do mordomo. Nunca antes suspeitara que Sebastian pudesse estar interessado daquela forma numa simples empregada, mesmo que parte disso fosse apenas para recolher informações. Paula não era ingénua, e sabia perfeitamente quais eram as intenções do mordomo. No entanto, também ela tinha planos em se aproveitar da situação. Fazia anos desde a última vez que fora abordada de tal forma por um homem, e mesmo que aparentasse ser uma mulher inocente, Paula era exactamente o oposto disso. Sendo assim, decidiu aceitar o convite do mordomo, e finalmente poder desfrutar dos prazeres carnais com um homem que ela considerava bastante atraente.
– O Marquês Midford tem tido algumas visitas irregulares durante estas últimas semanas... — Paula confessou, a sua pele arrepiada ao sentir os lábios do demónio a percorrer o seu pescoço. — Mas talvez seja melhor conversarmos sobre isso no quarto... — A empregada sugeriu, sorrindo maliciosamente enquanto puxava pelo braço do mordomo em direcção ao quarto mais próximo.
Sebastian devolveu o sorriso malicioso enquanto fechava a porta do quarto depois de terem ambos entrado, sem nunca largar o lado da jovem. Ainda não estava satisfeito, o mordomo necessitava de mais informações, prosseguindo então com aquela sua técnica de chantagem bastante enganosa:
–Ah, e que mais?
Paula manteve-se em silêncio por uns momentos, ponderando se deveria ou não revelar mais. O seu vestido já estava caído no chão, e Sebastian preparava-se para desapertar o corpete da jovem empregada. Recebeu mais alguns beijos do mordomo, e chegou à conclusão que se queria continuar a ser entretida, teria que revelar aquilo que sabia. Afinal, Sebastian era um dos homens mais atraentes que ela já tivera o prazer de conhecer, e Paula sabia que não iria ter outra oportunidade como aquela.
– Eles falavam alemão... — Ela sorriu, relembrando-se do quanto achava atractiva aquela língua. — Você sabe falar alemão, senhor Sebastian?
O mordomo acenou um pequeno e simples “Sim” com a cabeça, deitando a mulher na cama, com aquele sorriso malicioso sempre presente. Sebastian deduziu que fossem Alemães.
– E o que faziam eles aqui?- O demónio continuava com as perguntas num tom sedutor, sem nunca deixar de cativar Paula.
Eles trouxeram vários caixotes... — Disse, brincando com os cabelos negros do mordomo — As caixas tinham escrita uma palavra alemã... Ach... Achetem...
– Achtung. — Sebastian corrigiu.
– Isso! — A empregada respondeu animada, e logo de seguida fez uma expressão curiosa. — O que é que isso significa?
– É um sinal de aviso… — Sebastian murmurou, mas logo mudou o rumo da conversa, voltando a demonstrar aquele sorriso confiante.
–E que mais acontecimentos estranhos desses existiram?
Paula manteve-se em silêncio, e após concluir que não tinha mais nenhuma informação, suspirou. — Isto é tudo o que eu sei...
Sebastian pegou no seu fraque e vestiu-o apressando-se a sair do quarto, deixando ali a jovem naquele estado miserável. Agora que já tinha informações suficientes não precisava de desperdiçar mais tempo com a empregada. Tinha que por o conde a par do que se passava. O mordomo entrou depois na sala onde se encontravam todos os outros convidados, procurando com os seus olhos pelo Conde.
Novamente no canto da sala, Ciel mantinha-se sentado com uma expressão enfadonha enquanto dava um último gole do seu copo de Whisky. Ao seu lado, na pequena mesinha, estava não só a garrafa com apenas metade do líquido, mas também os vários copos que Ciel se teria servido ao longo da noite. Ao ver o estado lamentável do seu mestre, Sebastian foi ao seu encontro e sussurrou-lhe algo ao ouvido.
Ao ouvir as palavras do demónio, Ciel levantou-se desajeitadamente, sentindo-se cada vez mais torturado pelos efeitos do álcool, e dirigiu-se à saída da sala juntamente com o seu mordomo, que impedia que o seu jovem mestre se desequilibrasse caso fizesse algum movimento brusco.
– Onde estiveste? — Ciel questionou amargamente, finalmente se desapoiando do braço do demónio.
– Estive a tratar de concretizar a sua ordem Jovem Mestre. Recolhi informações bastante úteis. – O mordomo explicou, ainda a analisando o Conde que estava visivelmente embriagado.
O conde não ficou satisfeito com a resposta do mordomo, e ao analisar o terrível estado das suas roupas decidiu questioná-lo novamente:
– De onde recolheste essas tais informações vindo nesse estado deplorável?
– Eu apenas tive de recorrer a métodos pouco profissionais… – Sebastian confessou, agora reparando no estado das suas próprias roupas.
Antes que pudesse responder ao mordomo, Ciel virou-se para trás ao ouvir os passos apressados de uma mulher que se deslocava para perto de si.
– Sebastian! — A mulher gritou, e logo Ciel percebeu que era Paula, a empregada dos Midford, que se dirigia bruscamente até ao seu mordomo.
Ciel não pôde parar de reparar no estado miserável da jovem. Os seus cabelos despenteados cobriam o seu ombro despido. O seu vestido completamente amarrotado descaía pelo o seu braço, com os cordões semi-desapertados. E para ridicularizar ainda mais o estado da mulher, Ciel notou que Paula levava apenas um sapato calçado, com a meia branca a sair por fora.
A empregada aproximou-se rapidamente do mordomo, e diante os olhos de Ciel, lançou a sua mão ao rosto do demónio. — O que você fez foi imperdoável!
Sebastian fora apanhado de surpresa. Não reagindo, limitou-se a fazer um gesto em sinal de perdão, deixando que outra marca vermelha fosse desaparecendo da sua cara.
Paula olhou mais uma vez furiosamente para Sebastian, e sem dizer mais nada, afastou-se e seguiu o seu caminho de voltar ao seu quarto.
O conde olhou chocado para o seu mordomo, e antes que Sebastian pudesse dar qualquer explicação, Ciel gritou indignado:
– Mas o que vem a ser isto?!
– O conde parece estar mais indignado com o caminho que usei do que com a informação propriamente dita. – Sebastian franziu um pouco o cenho.
Irritado, Ciel ignorou as palavras do mordomo e virou-lhe costas. Dirigia-se apressadamente, em passo pesado, para o quarto onde estava hospedado. Atrás de si, o mordomo tentava impedi-lo, esperando ter a oportunidade para dar uma explicação ao seu pequeno mestre.
O conde entrou no quarto, trancando a porta logo de seguida, e ignorava as tentativas de Sebastian em tentar chamar a sua atenção.
Ciel sentou-se na cama, furioso com o seu mordomo, irritado com toda aquela situação e com um ódio profundo pela mulher que se deitara na cama com Sebastian.
O mordomo continuava a bater à porta, insistindo em ter permissão para entrar nos aposentos do seu mestre.
– Volta ao teu trabalho! Não estou com disposição para conversar! — O conde gritou e pousou a mão da cabeça, completamente estafado com os acontecimentos daquele dia.
Não só a sua fúria por toda aquela situação, também a quantidade excessiva de álcool no seu sangue piorava a sua disposição. Dentro de si passavam sentimentos de repulsa, completamente enojado pelo facto de que um outro individuo fosse capaz de tocar daquela forma em algo que lhe pertencia. Sebastian era seu. O seu mordomo, o seu demónio. Era a sua peça do jogo e toda aquela criatura demoníaca pertencia-lhe, corpo e alma, apenas a si. Não suportava a ideia de que outras pessoas lhe tocassem, fosse de que forma fosse. Estava irritado, frustrado e aquela sensação de ciúme percorria-lhe a mente. "Ciúme?" Ciel riu, rejeitando de imediato que pudesse sentir algo assim por causa daquele demónio. "Não são ciúmes." Garantiu a si mesmo. "Só não gosto que toquem no que me pertence".
Sebastian suspirou ao fim de várias tentativas falhadas. Achou estranho o rapaz reagir daquela forma. “Talvez fosse apenas o álcool a falar, o Jovem Mestre está visivelmente embriagado”. Pensou, dirigindo-se à cozinha da mansão, onde decidiu ajudar os outros empregados com as pequenas refeições para passar algum tempo e esquecer o sucedido.
Já Ciel, mantinha-se no quarto enquanto confrontava os seus próprios pensamentos. Desde a morte de Elizabeth que as suas frustrações se manifestavam cada vez mais, deixando-o preso num mar de sentimentos que não podia controlar. E o culpado de grande parte do seu stress era, sem dúvida, o seu mordomo. Odiava-o por o fazer passar por todas aquela situações, por desrespeitar as suas vontades e por destruir a vida de Elizabeth e da sua família. Era esse ódio que Ciel se tentava agarrar, mas que fugia do seu coração aos poucos e poucos. O jovem conde queria odiar o demónio que destruía a sua vida a cada dia que passava, mas esse ódio era afastado por todos os outros sentimentos que Ciel sentia pelo o mordomo. O seu sorriso, a maneira como o provocava e estimulava o seu intelecto eram algo que deixava Ciel fascinado por aquele Ser. Aquele homem que o prendia em longas conversas sobre os mais variados temas, que o protegia com todo o seu corpo, que o fazia sorrir quando mais ninguém conseguia… Aquele homem que um dia consumiria a sua alma e esqueceria da sua existência… Um suspiro longo saiu dos lábios do conde. Novamente se perdera em pensamentos que deveria esquecer para o seu próprio bem. Afinal, aquele demónio era a razão pela a qual ainda existia neste mundo, e era também a razão dos seus pensamentos mais conflituosos. A vida de Ciel estava acorrentada àquele mordomo…
Quando terminou, notou que estava só na cozinha. Decidiu então preparar a sobremesa favorita do seu mestre, uma sobremesa de chocolate num pequeno pedido de perdão, afinal, era o favorito do conde e era praticamente impossível que este o rejeitasse.
O silêncio permanecera-se na cozinha, apenas visível o demónio que dançava de um lado para o outro em busca dos ingredientes para concretizar o belíssimo bolo. Iria com certeza deixar o seu mestre satisfeito, mesmo que o conde não estivesse com a melhor disposição.
Mexia o espesso chocolate que acabara de ser fervido, delicadamente, enquanto se perdia em pensamentos. O seu tronco estava coberto apenas pela camisa branca e pelo fraque. As suas mangas arregaçadas para cima evitavam que se sujasse, e deixavam os músculos do seu braço mais sobressaídos do que já eram. Os seus cabelos negros num corte selvagem, despertavam curiosidade e fascínio a todos aqueles que observassem cuidadosamente o demónio. A estrutura física do mordomo era, sem dúvida, atraente. E fora exactamente em tudo isso que a mulher de cabelos loiros reparara mal entrara na cozinha.
– Hmm Sebastian... — A marquesa Midford gemeu baixinho, claramente alterada devido à garrafa de vinho que levava consigo. — Sabe... Sempre o achei muito elegante, envolvente... fascinante. — Deu enfase na última palavra, e passou delicadamente com a sua mão no braço do mordomo.
O mordomo olhou para a mulher, franzido um pouco as sobrancelhas. Sebastian tentou afastar-se numa tentativa falhada enquanto largava os utensílios de cozinha.
– Obrigado, mas eu sou apenas um mordomo e tanto. — Sebastian sorriu.
– De facto um mordomo e tanto... — A mão de Francis percorreu as costas do demónio, subindo, finalmente chegando até aos seus cabelos negros. — Vou ser honesta consigo, Sebastian... — Fez uma pausa e entrelaçou os dedos nos fios de cabelo descaídos, brincando com eles, e logo aproximou os lábios da orelha do demónio, sussurrando:
– Neste momento só quero que me deite nesse balcão e que me faça gritar o seu nome.
A boca de Ciel abriu-se inteiramente, completamente chocado ao ouvir as palavras da tia. Escondido atrás da porta da cozinha, decidiu não anunciar a sua presença e simplesmente observar o estranho acontecimento. Até há uns momentos atrás não faria ideia de que se depararia com uma visão tão perturbadora. Teria acabado de chegar, estando simplesmente à procura do seu mordomo para, desta vez mais calmamente, poderem conversar sobre as informações que Sebastian recolhera mais cedo. Jamais imaginaria que ao chegar à silenciosa cozinha fosse confrontado com algo que nunca sonhara antes: A sua tia, a marquesa Midford, a oferecer o corpo ao seu mordomo.
Ainda chocado e indignado pelas palavras da mulher loira, Ciel decidiu não intervir. Queria descobrir qual seria a resposta do demónio quanto àquela proposta tão indecente. Queria mais uma vez certificar-se se podia ou não confiar naquele que prometera que era inteiramente dele, e de mais ninguém. Sebastian era dele. E isso Ciel sabia perfeitamente. Mas até os simples prazeres carnais eram algo que o conde jamais aceitaria que Sebastian desfrutasse. E Ciel já teria deixado isso esclarecido. Agora restava-lhe apenas confiar no demónio, mesmo que não estivesse inteiramente positivo de que Sebastian se fosse preocupar com tal capricho do seu mestre.
Sebastian mantinha uma cara séria agora que ouvia tais palavras vindas da Marquesa, mas não demorou um segundo para que o mordomo a rejeitasse bruscamente depois de a mulher terminar de falar.
– Perdoe-me pela minha rudeza mas não me interesso por palavras dessas vindas de uma mulher que oferece o seu corpo tão facilmente a um simples mordomo, ainda mais sendo ela casada e de um estatuto superior. – Sebastian falou com calma mas de uma maneira fria, séria e bastante directa.
– Como se atreve! — Ofendida pelas palavras do mordomo, Francis atingiu fortemente o rosto do homem, e logo de seguida afastou-se ao ver a expressão pouco amigável do demónio.
Ciel, ainda escondido em silêncio, não conseguiu conter a pequena gargalhada ao assistir a cena. "Já é a terceira vez hoje..." Concluiu rindo para si próprio enquanto observava o rosto do mordomo que já demonstrava algum inchaço.
Sebastian suspirou, aliviando aquela expressão séria e resignando-se a continuar a preparar o bolo para o seu mestre. Não queria ser castigado novamente, três vezes já era o bastante para um só dia.
A mulher loira retirou-se furiosamente do local, ainda lançando alguns insultos ao mordomo enquanto se distanciava. Este, decidiu apenas ignorar e continuar com os seus deveres.
Poucos segundos depois, Sebastian ouviu o ranger da porta que se abria lentamente e foi surpreendido pela imagem do seu pequeno mestre com um sorriso formado no rosto.
Sebastian sorriu levemente de volta, ora ver o seu mestre sorrir por nenhuma razão aparente era sem dúvida algo raro, mas talvez o álcool da bebida ajudasse um pouco. Sebastian continuava com o lado esquerdo da face dorido e vermelho mas nem se lembrara da pequena dor tal era a surpresa de ver a expressão do Conde. O mordomo não disse nada para não acabar por estragar aquele momento, limitando-se a continuar a preparar a sobremesa que com todas aquelas intervenções, estava longe de ser concluída.
Ciel aproximou-se do mordomo, e manteve-se ao lado dele em silêncio enquanto observava as natas a serem mexidas cuidadosamente.
– Parece delicioso. — Comentou, e passou o dedo na borda da taça que se mantinha ao canto do balcão, levando consigo um resto de chocolate e passando-o nos lábios, provando-o. — Petit gâteau? É para mim?
Sebastian curvou mais o sorriso, que para sua surpresa, era completamente genuíno. – Sim, pensei em fazê-lo como um pequeno pedido de perdão para o Jovem Mestre. – Momentos daqueles em que Sebastian e Ciel falavam normalmente, deixando para trás os joguinhos psicológicos que passavam o dia a jogar ou a falar de assuntos como o trabalho ou do género eram completamente escassos, então o mordomo tentava agora equilibrar o estado emocional do conde para que não o deixasse de mau humor outra vez.
O conde manteve aquele sorriso raro e encantador ao ouvir as palavras do demónio. Dentro de si passava uma sensação quente, acolhedora, algo que não sentia há bastante tempo. Os olhos de Ciel brilhavam, o seu rosto que normalmente demonstrava uma expressão neutra ou pouco satisfeita, agora revelava o rosto de um anjo, quase inocente. Sentia-se confortável e num ambiente protector. Não só em si, podia ver que o sorriso do demónio também era genuíno.
O demónio voltava agora a sentir aquele sentimento estranho que pensava dado por terminado. “É a primeira vez que sinto algo assim, não penso que seja um sentimento digno de um demónio. É certo que aprecio bastante este jogo de mordomo… Não. Não é apenas um jogo. É o estilo de vida que me fora dado pelo Jovem Mestre.” Sebastian pensava enquanto existia silêncio. “Afecto?” O mordomo pensou, referindo-se àquela sensação indefinida que sentia. “Não, afinal, demónios não podem sentir algo assim… Podem?”. Sebastian questionava-se sobre aquela pequena ansiedade e felicidade cada vez que olhava para o rapaz. O mordomo cerrou os olhos durante algum tempo. “Com tais pensamentos…Deverei certamente estar a enlouquecer”.
– Posso ajudar? – O conde perguntou apenas, guardando a sua resposta às palavras amáveis do mordomo para si mesmo.
O mordomo olhou para o rapaz num pequeno e discreto espanto, no entanto Sebastian não impossibilitou Ciel de ajudar. Acenou um confortável sim com a cabeça e deixou um pouco de espaço para o conde enquanto lhe entregava uma outra taça com uma mistura dos ovos, manteiga e chocolate. – É preciso que esteja bem mexido, o chocolate necessita estar suave sem qualquer vestígio de grânulos. – Sebastian alertou aconselhando o pequeno rapaz, mantendo o sorriso aconchegante.
Ciel acenou com a cabeça confiante de que iria fazer um bom trabalho, e aceitou cuidadosamente a taça das mãos do mordomo. Delicadamente, começou por mexer o conteúdo e olhou satisfeito para Sebastian, orgulhoso de si próprio ao finalmente ajudar na cozinha ao fim de tantos anos. A última vez que fez algo parecido, foi com o seu pai e com o seu tio Diederich ao preparar um bolo para a sua mãe que estava doente. O seu rosto voltou a formar uma expressão carinhosa ao relembrar das memórias de quando ainda vivia uma vida normal e feliz. Agora, aqui estava ele, novamente, a preparar uma sobremesa. A única diferença era que ao seu lado estava o seu mordomo, e Ciel não se sentia nada incomodado com isso. Pelo contrário, sentia-se bem. Jamais utilizaria o adjectivo "feliz" novamente, mas sabia que naquele momento sentia algo perto disso.
Acordou dos seus próprios pensamentos e voltou a focar-se em mexer da forma correta.
– Assim? — Perguntou, dando o seu melhor para deixar a massa nas condições que o mordomo lhe impusera.
– Não tão delicadamente. Mexa um pouco mais depressa, pode demorar um pouco até obter o resultado esperado. – Sebastian avisou. Decidira não colocar as palavras “Jovem Mestre” nas frases, sentia que realmente não fazia sentido estar com tantas formalidades.
– Yes, sir!– Ciel respondeu, sorrindo sarcasticamente logo de seguida. Olhou pelo canto do olho para o mordomo, e recebeu também um pequeno sorriso vindo de Sebastian. — E agora, chef?– Agitou a colher mais depressa, aumentando cada vez mais a velocidade das batidas. — Está forte o suficiente? — O sorriso inocente de à momentos atrás tornava-se agora num sorriso malicioso.
“Esse sorriso…” Sebastian pensou e riu levemente. – Depressa mas com cuidado para não sujar a cozinha. – O mordomo sorriu ao ver que finalmente via uma atitude de uma criança normal em Ciel e de alguma maneira, a diversão que sentia vinda do rapaz era quase como contagiosa. No entanto, Sebastian também se apercebera daquele pequeno sorriso provocante que se formou nos lábios do conde.
– Ups... — O conde pronunciou inocentemente ao observar uma gota do líquido saltar por fora da taça. Ciel estava claramente ainda sobre o efeito do álcool que consumiu durante a noite de convívio, e Sebastian divertia-se com as atitudes pouco comuns do seu pequeno mestre.
O conde parou de mexer o conteúdo da taça e pousou-a no balcão. Fora então que, surpreendendo o mordomo, Ciel encostara a sua pequena cabeça no braço do demónio. — Estou cansado... — Disse baixinho e fechou os olhos lentamente.
Era realmente tarde. Ciel estava exausto, mas aquele curto momento fora algo bastante agradável. Sebastian segurou o rapaz ao colo, deixando que este descansasse sobre o seu peito. O mordomo carregava cuidadosamente a criança enquanto subia até ao quarto onde o conde estava hospedado. Sebastian tratou de despir e vestir a camisa branca no conde sonolento.
Ciel estava agora confortavelmente deitado na cama, os lençóis sobre o seu corpo. O mordomo apagou a vela com um único sopro e preparava-se para se retirar dos aposentos do seu jovem mestre, até ser interrompido:
– Sebastian... — O conde sussurrou, sem dar sinal de qualquer movimento. — Fica até eu adormecer…
Sebastian assentiu com a cabeça, aproximando-se e mantendo-se perto da cama.
– Boa noite, Jovem Mestre – O mordomo sussurrou antes de fazer puro silêncio.
– Boa noite, Sebastian.
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