Cupcake
26 Verdades

— Ele é meu pai? — Jungkook perguntou pela quinta vez desde que tinham saído do restaurante.
— Jungkook, cala a boca! — Jin respondeu, nervoso, apertando ainda mais o volante. — Eu já falei que vou explicar tudo quando chegarmos em casa. Não consigo dirigir com você me pressionando desse jeito!
Jungkook afundou no banco, mas continuou inquieto. Olhou pelo retrovisor e viu o carro de Namjoon logo atrás, seguindo-os pelas ruas iluminadas de Seul. A pedido de Jin, decidiram continuar aquela conversa em casa, longe dos olhares curiosos e dos cochichos do restaurante. Aquilo já estava caótico demais para virar espetáculo público.
O silêncio dentro do carro era sufocante.
Jin dirigia rígido, os dedos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam esbranquiçados. Seu coração parecia bater no pescoço. Ele nunca imaginou que viveria aquele momento. Durante mais de vinte anos conseguiu manter aquela verdade enterrada, distante, segura. E agora… tudo estava desmoronando numa única noite.
Quando chegaram, Jin estacionou na garagem com movimentos rápidos e quase desajeitados. Logo atrás, Namjoon parou o carro em frente ao portão da casa. Por alguns segundos, ninguém saiu. Era como se os três estivessem tentando reunir coragem.
Namjoon foi o primeiro. Desceu devagar do carro e caminhou até o portão, parando ali em silêncio, esperando que Jin o deixasse entrar. A última vez que tinha estado tão perto dele, Jungkook sequer existia.
Jin saiu do carro sem encará-lo diretamente.
— Entra logo — disse, seco.
— Jin, eu…
— Vamos conversar lá dentro — Jin o interrompeu imediatamente, sem lhe dar espaço para continuar.
Namjoon suspirou, ainda tentando organizar os pensamentos. Tudo aquilo parecia um absurdo. Mas, no meio da confusão, uma coisa era impossível ignorar: Jin estava ainda mais bonito do que em suas lembranças. O rosto mais maduro, o olhar mais sério, a postura mais firme, o tempo tinha transformado aquele garoto doce em um homem absurdamente charmoso. E isso doía porque Namjoon percebia, tarde demais, tudo o que havia perdido.
Na porta de casa, Jungkook permanecia ao lado dele, olhando-o sem disfarçar a curiosidade. Havia ansiedade, confusão e expectativa naquele olhar. Era estranho e ao mesmo tempo familiar. Namjoon também o olhava, só que disfarçadamente, e quanto mais o observava, mais detalhes reconhecia. As covinhas, o olhar grande e o jeito de franzir levemente a sobrancelha quando estava nervoso. Seu peito apertou.
Quando Jin abriu a porta, ficou de lado, esperando os dois entrarem.
— Vamos pra sala — disse, caminhando rapidamente até o cômodo.
Namjoon e Jungkook trocaram um olhar breve antes de segui-lo. Os dois estavam igualmente perdidos.
Jin esperou que os dois se sentassem no sofá antes de permanecer de pé diante deles. Não conseguiu se sentar. Sentia que, se fizesse isso, perderia completamente a coragem.
— Agora conta — Jungkook disparou, incapaz de se conter por mais um segundo. — Ele é meu pai?
Jin fechou os olhos por um instante e respirou fundo, tentando organizar a própria mente antes de desmoronar.
— Calma. Eu vou explicar tudo… — disse lentamente. — Mas não quero ser interrompido por nenhum dos dois.
Namjoon e Jungkook assentiram em silêncio, tensos.
E então, quase ao mesmo tempo, os dois morderam os lábios e cruzaram a perna direita sobre o joelho esquerdo, exatamente do mesmo jeito. Jin quase perdeu a sanidade naquele instante. Era irritante ver o quanto eram parecidos. Os mesmos trejeitos, a mesma postura e as mesmas expressões involuntárias. Nem precisava de teste nenhum. Qualquer pessoa olhando os dois lado a lado perceberia imediatamente. Mas, aparentemente, pai e filho eram igualmente lerdos.
Jin passou a mão pelo rosto, tentando não surtar.
— Namjoon… Jungkook… — começou, finalmente reunindo coragem. Sua garganta travou por um segundo, mas não havia mais como voltar atrás. — Vocês realmente são pai e filho.
Namjoon virou lentamente o rosto para Jungkook, que fez o mesmo. Os dois estavam com os olhos arregalados, completamente atordoados, como se o cérebro ainda não tivesse conseguido processar aquelas palavras.
— Ele é meu pai? — Jungkook perguntou num fio de voz.
— Ele é meu filho? — Namjoon perguntou ao mesmo tempo.
As vozes saíram juntas, idênticas no choque e na incredulidade.
Jin soltou um suspiro cansado, quase derrotado.
— Sim. — Seu olhar vacilou entre os dois. — Namjoon… é seu pai.
Depois encarou Namjoon diretamente.
— E Jungkook… é seu filho.
— Mas… pai… — Jungkook finalmente conseguiu falar, ainda completamente desnorteado. — Você disse a minha vida inteira que meu pai tinha morrido.
Namjoon virou o rosto lentamente para Jin. Seus olhos já estavam marejados.
— Você… disse que eu morri? — perguntou, com a voz baixa e quebrada.
Jin desviou o olhar por um instante, claramente desconfortável.
— Foi por uma boa causa.
— Boa causa? — Namjoon soltou uma risada desacreditada. — Jin, eu nem sabia da existência do meu filho. Eu…
— Seu filho? — Jin repetiu, a irritação explodindo de repente. — SEU FILHO?
Ele se levantou abruptamente do sofá, apontando para Jungkook, os olhos ardendo de raiva e emoção.
— Vamos deixar uma coisa muito clara aqui: ELE É MEU FILHO.
A voz de Jin tremia de ódio, de anos guardando aquilo sozinho.
— Fui eu quem colocou ele no mundo. Fui eu quem passou noites acordado quando ele chorava por causa de febre. Fui eu quem cuidou dele quando tinha dor de ouvido, fui eu também quem trabalhou até cair de cansaço pra não deixar faltar nada! — bateu a mão no próprio peito. — EU fiz tudo isso sozinho!
Namjoon também se levantou, tentando manter a calma, embora os olhos estivessem faiscando.
— Mas eu não sabia dele, Jin! Eu jamais te deixaria passar por tudo isso sozinho se eu soubesse.
Jungkook observava os dois em silêncio absoluto, o coração disparado. Parecia assistir a algo íntimo e doloroso, como se estivesse vendo uma ferida sendo reaberta à força.
— Você não sabia porque eu não queria que soubesse! — Jin rebateu imediatamente.
Ele estava alterado agora, respirando pesado, tentando desesperadamente não perder o controle. Maldita hora em que Namjoon tinha reaparecido.
— Mas por quê? — Namjoon perguntou, genuinamente abalado. — Por que você escondeu meu próprio filho de mim?
Jin riu sem humor algum.
— Porque você ia se casar, satisfeito?
A frase caiu como uma bomba e Namjoon congelou.
— Jin…
— Não! — Jin o interrompeu na mesma hora. — Você escolheu sua família rica, seu status, sua empresa… escolheu a vida perfeita que queriam pra você! E eu não ia deixar meu filho crescer se sentindo um erro no meio daquela merda toda!
— Jungkook nunca seria um erro! — Namjoon rebateu, a voz falhando pela primeira vez. — Ele é nosso filho… uma vida que nós criamos juntos. Você não tinha o direito de tirar isso de mim.
— E você tinha o direito de quê? — Jin retrucou, os olhos cheios de lágrimas. — Eu cuidei dele sozinho e nunca precisei da sua ajuda. Então não venha querer entrar na nossa vida agora como se tivesse perdido apenas um capítulo. Você perdeu tudo, Namjoon. Tudo.
Jungkook soltou um longo suspiro, levando a mão até a testa. Sua cabeça latejava. A discussão entre os dois parecia apertar seu peito cada vez mais, como se estivesse sendo puxado para lados diferentes ao mesmo tempo.
Ele entendia Jin, entendia o medo e os motivos que o levaram a esconder a verdade durante tantos anos, mesmo que aquilo doesse naquele momento.
Devagar, Jungkook se levantou. O simples movimento foi suficiente para fazer Jin e Namjoon interromperem a discussão imediatamente.
— Pai… — começou, olhando primeiro para Jin. — Eu não vou te julgar pelo que fez. Também não vou fingir que não estou magoado por você ter mentido pra mim esse tempo todo… mas eu sei que teve seus motivos.
Jin abaixou levemente o olhar, mordendo os lábios. Jungkook sentiu a garganta apertar.
— Você sempre cuidou de mim sozinho. Sempre me amou, fez tudo por mim… eu sei disso.
Por alguns segundos, o silêncio dominou a sala novamente. Então Jungkook virou lentamente o rosto para Namjoon. Os dois se encararam.
— Senhor Kim… — Jungkook começou, hesitante. — Eu não conheço o senhor. Não sei nada sobre você… e agora nem sei mais o que é verdade ou não nessa história.
Namjoon permaneceu em silêncio, atento a cada palavra. Jungkook respirou fundo.
— Mas… eu quero conhecer você.
Aquilo atingiu Namjoon em cheio. Os olhos dele se encheram de lágrimas quase instantaneamente.
— Jungkook… — tentou responder, mas a voz falhou antes que conseguisse dizer qualquer coisa.
No impulso, tomado pela emoção, Namjoon o puxou para um abraço e desabou em lágrimas. Jungkook hesitou por um segundo antes de retribuir o abraço, mas quando o fez, sentiu algo estranho apertar seu peito, um sentimento novo. Então começou a chorar também, escondendo o rosto no ombro do pai.
Enquanto os dois se abraçavam, tentando lidar com aquela avalanche de emoções, Jin observava a cena parado no mesmo lugar. E odiava aquilo, odiava profundamente.
Não queria que Jungkook tivesse descoberto a verdade daquele jeito. Não queria Namjoon de volta em suas vidas. E, acima de tudo, não queria sentir aquele aperto ridículo no peito ao ver os dois juntos. Porque, apesar de tudo, eles pareciam pai e filho.
Enciumado, Jin mordeu os lábios com força e desviou o olhar. Não aguentava mais assistir àquela cena. Virou-se rapidamente e saiu da sala, subindo as escadas com passos pesados e barulhentos, deixando bem claro o quanto estava irritado. Poucos segundos depois, o som da porta do quarto batendo ecoou pela casa inteira.
Namjoon e Jungkook se afastaram lentamente do abraço, mas a emoção ainda permanecia entre eles. Os olhos dos dois continuavam marejados, como se ainda não conseguissem acreditar que aquilo era real.
Namjoon ergueu a mão com cuidado e tocou o rosto de Jungkook, acariciando sua bochecha como se estivesse tentando memorizar cada detalhe.
— Meu filho… — murmurou com a voz falhando no meio das palavras.
Jungkook sorriu emocionado, mesmo com as lágrimas ainda escorrendo.
— Meu pai…
Aquilo acertou Namjoon em cheio. Seu peito apertou de uma forma dolorosa. Durante anos viveu sem imaginar que tinha um filho. E agora, de repente, havia um homem adulto na sua frente chamando-o de pai com aquele sorriso doce e acolhedor.
Namjoon soltou uma pequena risada emocionada, ainda sem conseguir desgrudar os olhos dele.
— Quero saber tudo sobre você, Jungkook. Tudo. — falou rapidamente, como se tivesse medo de perder tempo. — Tenho tantas coisas pra perguntar…
— Eu também quero conhecer você, Senhor Kim — Jungkook respondeu, enxugando as lágrimas.
Namjoon riu baixinho.
— Me chama só de Namjoon… por favor. — Ele parecia nervoso e feliz ao mesmo tempo, completamente perdido naquela avalanche de sentimentos. — Quando é seu aniversário? Você já se formou? Está namorando? Mora sozinho? Tem algum hobby? — começou a disparar perguntas sem nem respirar direito.
Jungkook caiu na risada ao ver o desespero animado do pai.
— Calma! Uma pergunta de cada vez.
Namjoon riu também, meio envergonhado.
— Desculpa… é que eu perdi mais de vinte anos, então tenho muita curiosidade acumulada.
Jungkook sentiu o coração apertar ao ouvir aquilo.
— Meu aniversário é primeiro de setembro. Já me formei em gestão e… — um sorriso automático surgiu em seus lábios — estou namorando o homem mais lindo do mundo.
Namjoon abriu um sorriso enorme imediatamente.
— E você? Quando faz aniversário? Já foi casado? Tem outros filhos?
Namjoon pareceu pensar por alguns segundos antes de responder.
— Nós fazemos aniversário no mesmo mês. O meu é dia doze de setembro.
Jungkook arregalou os olhos.
— Sério? Que legal!
— E sim… eu me casei há muitos anos. Minha esposa faleceu já faz um tempo. Nós nunca tivemos filhos porque ela não podia engravidar.
Por um instante, sua expressão suavizou em tristeza. Mas logo voltou a olhar para Jungkook.
— Seu pai foi meu primeiro amor. — Sua voz saiu mais baixa dessa vez. — Nós nos conhecemos quando éramos crianças. Crescemos juntos e, em algum momento, percebemos que estávamos apaixonados.
Namjoon soltou um pequeno suspiro nostálgico.
— Eu amava muito o Jin… mas fui um idiota. Fiz escolhas horríveis… e então ele foi embora.
Jungkook ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo tudo aquilo. Então sorriu de forma carinhosa.
— Mas estamos aqui agora.
Namjoon ergueu o olhar. Jungkook tocou seu ombro levemente.
— E olha pelo lado bom… quando formos comemorar meu aniversário, podemos comemorar juntos.
Namjoon piscou, surpreso.
— Juntos? Eu também?
Jungkook assentiu sem hesitar.
— Claro. Você é meu pai… e eu quero que faça parte da minha vida agora.
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