Cupcake

27 Aproximação



“Agora ele vai ficar lá embaixo com o pai novo dele e esquecer de mim aqui.”

Jin pensava aquilo enquanto chorava de bruços na cama, com o rosto enterrado no travesseiro. A cabeça estava coberta pelas cobertas, como se pudesse se esconder do mundo inteiro ali dentro.

“Ele nem veio me ver ainda…”

Seu peito apertava cada vez mais conforme o tempo passava.

“Kookie sempre vem me ver quando eu tô chorando…”

Mordeu os lábios, sentindo os olhos arderem ainda mais.

“Já faz quase uma hora que ele tá lá embaixo conversando com aquele babaca.”

O ciúme era irracional, e até mesmo quase infantil. Mas Jin nunca prometeu ser maduro quando o assunto envolvia Namjoon ou Jungkook, ou os dois juntos.

Quando ouviu batidas suaves na porta, fungou rapidamente e respondeu sem tirar a coberta da cabeça:

— Tá batendo por quê? Entra logo… — Sua voz saiu chorosa. — Por que você demorou tanto pra vir me ver?

— Estou aqui agora.

Jin congelou. Abaixou a coberta e sentou na cama num pulo.

— N-namjoon?

Parado no batente da porta, Namjoon o observava em silêncio, com um pequeno sorriso nostálgico nos lábios.

— Pelo visto você continua manhoso como sempre.

Jin imediatamente fechou a cara.

— O que você tá fazendo aqui? — resmungou, puxando a coberta de novo e se deitando dramaticamente.

Namjoon soltou uma risadinha baixa. Mesmo depois de vinte anos, Jin continuava exatamente igual quando fazia birra.

— Nós precisamos conversar.

— Não precisamos, não — respondeu abafado debaixo das cobertas.

Namjoon entrou no quarto devagar, aproximando-se da cama.

— Jin…

— Jin, não. — Ele colocou metade do rosto pra fora da coberta só para corrigir. — Me chama de Seokjin. E vai embora, eu não quero falar com você.

Namjoon arqueou as sobrancelhas.

— Seokjin? — repetiu lentamente. — Então, eu tenho até que usar nome completo?

— Tem.

— Entendi. Então, Seokjin… pare de ser manhoso, senão eu vou começar a achar que você quer que eu mime você.

Jin bufou indignado.

— Eu não tô sendo manhoso! Só não quero falar com você.

— Vai ser rápido, prometo.

— Eu tô cansado.

— Jin… Seokjin — Namjoon suspirou, e dessa vez sua voz saiu mais baixa. — Faz mais de vinte anos que eu não te vejo. Só… me deixa olhar pra você direito.

Jin apertou a coberta entre os dedos. Odiou perceber que o coração dele ainda disparava quando Namjoon falava daquele jeito. Soltou um suspiro longo antes de finalmente tirar a coberta da cabeça. Seus olhos ainda estavam vermelhos do choro.

— O que você quer?

Namjoon hesitou por um instante antes de apontar para o espaço vazio ao lado dele na cama.

— Posso sentar aqui?

Jin fez uma careta leve, como se estivesse irritado consigo mesmo por sequer considerar permitir aquilo.

— Pode… mas seja rápido.

— Vou tentar — Namjoon respondeu baixinho.

Ele se sentou devagar ao lado de Jin, mantendo certa distância no início. Mas, assim que virou o rosto para encará-lo de verdade, sentiu o peito apertar de uma forma quase insuportável. Fazia mais de vinte anos desde a última vez que tinha visto aquele rosto tão de perto. E, mesmo assim, parecia ontem. Jin estava diferente, mais maduro e mais sério. Havia marcas do tempo ali, pequenas mudanças sutis mas, ainda assim, continuava absurdamente bonito. Talvez até mais bonito do que nas lembranças que Namjoon guardou por tantos anos.

Seu coração doeu. Lentamente, Namjoon ergueu a mão em direção ao rosto dele. Jin se afastou no primeiro instante, por puro reflexo, mas Namjoon insistiu com delicadeza. E então, Jin deixou. O toque foi suave. Namjoon sentiu os olhos queimarem imediatamente. As lágrimas escaparam antes mesmo que percebesse. Seus dedos acariciavam a pele de Jin como se tentassem recuperar todo o tempo perdido.

Jin observava em silêncio. Então, devagar, colocou a própria mão sobre a mão de Namjoon, segurando-a contra seu rosto como se não quisesse que ele o soltasse de novo. Seu coração batia forte. Jin nunca imaginou que voltaria a ver Namjoon. Muito menos que aquele homem ainda seria capaz de afetá-lo daquela maneira. Porque a verdade era cruel. Seu amor por Namjoon nunca desapareceu, só ficou escondido. Adormecido em algum lugar profundo. E agora, com aquele toque quente em sua pele, sentia como se o próprio coração estivesse despertando outra vez.

Sem conseguir se controlar, Namjoon o puxou para um abraço apertado. E Jin não resistiu, não o empurrou e não reclamou, apenas retribuiu porque também queria aquilo.

— Jin… me perdoa — Namjoon pediu entre lágrimas, apertando-o ainda mais nos braços. — Me perdoa, por favor.

Jin fechou os olhos com força, sentindo o cheiro dele novamente, ouvindo aquela voz tão perto depois de tantos anos. E aquilo machucava.

— Eu não consigo… — respondeu, chorando contra o ombro dele. — Não consigo te perdoar tão fácil.

Namjoon assentiu devagar, entendendo. Mas não desistiu.

— Então só… me dá mais uma chance. — Sua voz falhou. — Me deixa me aproximar de vocês. Por favor. Eu só quero fazer parte da vida de vocês de novo. Quero conhecer nosso filho.

Jin se afastou um pouco do abraço ao ouvir aquilo.

— Nosso filho?

Namjoon sustentou seu olhar.

— Jin… nós fizemos ele juntos. — Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — E fizemos um ótimo trabalho, por sinal.

Os olhos dele brilharam ao falar de Jungkook.

— Ele é um homem incrível. Gentil, educado e responsável, tudo isso graças a você. — Sua expressão vacilou em dor. — Eu queria ter visto a infância dele. Queria ter acompanhado o crescimento, as fases, os aniversários… mas eu perdi tudo isso.

Namjoon abaixou o olhar por um instante antes de voltar a encará-lo.

— Então, por favor… mesmo que você nunca me perdoe completamente… só me deixa ser amigo dele. Me deixa conhecer nosso filho.

— Jungkook é adulto agora — Jin disse baixinho, desviando o olhar. — Já é maior de idade. Ele faz as próprias escolhas, então não posso proibir ele de nada.

Namjoon o observava atentamente, como se tivesse medo de perder qualquer pequena brecha que Jin estivesse deixando aberta.

— Mas eu não quero ficar bem só com ele… — confessou. — Quero ficar bem com você também.

Jin ergueu os olhos lentamente.

— Comigo?

— Sim. — Namjoon assentiu. — Nós podemos ter uma relação boa outra vez. Uma relação respeitosa. Podemos ser amigos… eu e você… nós.

Jin soltou uma pequena risada sem humor.

— Nós?

Namjoon se aproximou um pouco mais e segurou cuidadosamente as mãos dele.

— Por favor, Jin… não me afaste de novo. Me deixa ficar dessa vez.

O coração de Jin vacilou. Por alguns segundos, deixou que Namjoon segurasse suas mãos daquele jeito, como fazia tantos anos atrás. O toque ainda era familiar. Mas então respirou fundo e puxou as mãos devagar para longe.

— Como eu já disse… quem sou eu pra impedir alguma coisa agora? — respondeu, tentando soar indiferente. — Se quiser vir aqui, sair com Jungkook, conhecer ele melhor… faça o que quiser. Não vou impedir nada.

Namjoon suspirou baixinho. Não era exatamente o que queria ouvir, mas já era mais do que esperava receber naquela noite.

— Só me dá mais uma chance — pediu outra vez. — Nós somos uma família, Jin.

Jin imediatamente franziu a testa.

— Você e Jungkook são uma família. Vocês têm o mesmo sangue. — Sua voz suavizou, mas ainda carregava dor. — Eu e você não somos nada.

Aquilo machucou. Namjoon sentiu claramente, mesmo assim, não desviou o olhar.

— Mas já fomos. — respondeu baixinho. — Já fomos tudo um pro outro. E talvez… — Namjoon continuou, hesitando pela primeira vez — talvez a gente possa construir alguma coisa de novo. Uma amizade… ou não… ou talvez sim — Ele começou a se embolar nas próprias palavras, nervoso demais para organizar os pensamentos. — Quer dizer… não exatamente “sim”, mas também não “não”… eu…

Namjoon parou de falar de repente, percebendo o desastre que estava fazendo. Jin o encarou por alguns segundos. E então, contra a própria vontade, acabou soltando uma risadinha.

Namjoon arregalou os olhos, emocionado só por ouvir aquele som outra vez.

— Não ache que eu te perdoei — Jin avisou rapidamente, tentando recuperar a postura séria. — E não ache que está tudo bem.

Namjoon assentiu na mesma hora.

— Não vou achar.

— Ainda não gosto de você.

— Tudo bem. — Ele sorriu de canto. — Com o tempo você volta a gostar.

— Não vou, não.

— Tá bom, tá bom… — Namjoon levantou as mãos em rendição. — Não vai.

No fundo, os dois sabiam que aquele sentimento nunca tinha ido embora de verdade.

Jungkook estava nervoso. Passou mais tempo do que deveria escolhendo roupa, arrumando o cabelo e se olhando no espelho. Era estranho pensar que iria jantar com o próprio pai pela primeira vez. Seu pai de verdade. O homem que tinha acabado de descobrir existir.

Enquanto terminava de se arrumar, contava tudo animadamente para Jimin pelo celular. Falava sem parar sobre Namjoon, sobre como ele parecia gentil, emocionado e disposto a recuperar o tempo perdido.

Jungkook ainda não sabia exatamente com o que Namjoon trabalhava, então não entrava muito nesse assunto. Mas, toda vez que Jimin ouvia o nome “Kim Namjoon”, um desconforto estranho surgia. Era o mesmo nome do homem que queria comprar a Magic Shop. O mesmo homem que estava destruindo seu sossego. Mas aquilo devia ser coincidência. “Kim Namjoon” devia ser um nome comum.

Jungkook terminou de se arrumar e saiu de casa sorridente. Jimin ficou feliz por ele, de verdade. Jungkook merecia ter aquela chance de conhecer o pai. Mesmo assim, aquele incômodo insistia em permanecer no fundo do peito.

Quando Jungkook chegou ao restaurante, Namjoon já o esperava sentado à mesa. Assim que o viu entrando, abriu um sorriso enorme, daqueles impossíveis de esconder. Parecia orgulhoso só de vê-lo caminhando em sua direção.

O garçom guiou Jungkook até a mesa.

— Kim… quer dizer… Kim Namjoon… é… oi — Jungkook sorriu sem graça, ainda tímido com toda aquela situação.

Namjoon riu baixinho.

— Me chama só de Nam.

O jeito natural como falou aquilo aqueceu o coração de Jungkook.

— Senta, meu filho.

“Meu filho”. Ainda era estranho ouvir aquilo. Mas, ao mesmo tempo, tão bom.

Jungkook se sentou, um pouco sem jeito.

— Então… o que você gosta de comer? — Namjoon perguntou imediatamente, claramente tentando descobrir tudo sobre ele de uma vez só.

— Hum… churrasco coreano.

— Boa escolha — Namjoon sorriu orgulhoso, como se aquilo confirmasse alguma teoria importante.

Chamou o garçom e pediu várias porções, querendo garantir que Jungkook comesse bem. Depois voltou toda a atenção para ele. E tentou, sem sucesso, controlar a própria empolgação. Porque Kim Namjoon tinha um filho. E queria contar isso para o mundo inteiro.

O jantar seguiu leve e animado. Os dois tinham perguntas, histórias e curiosidades demais pra contar. Pareciam tentar recuperar vinte anos em poucas horas.

Namjoon contou sobre viagens, trabalho e infância. Jungkook falou da faculdade, dos amigos e, principalmente, de Jimin.

Em determinado momento, Namjoon até sugeriu:

— Vocês deveriam passar um fim de semana comigo na casa de praia ou no sítio. Seria legal nós todos juntos.

Jungkook sorriu imediatamente.

— Eu topo! Só preciso convencer meu pai.

Namjoon riu.

— Boa sorte com isso.

Depois de mais algum tempo conversando, Jungkook pareceu hesitar antes de falar de novo.

— É… posso te pedir uma coisa?

— O que você quiser, meu filho — Namjoon respondeu sem pensar duas vezes, claramente adorando dizer aquelas palavras.

Jungkook sorriu, meio tímido.

— Eu queria tirar uma selfie nossa pra mandar pro meu namorado. Ele tá ansioso pra te conhecer.

Namjoon imediatamente se ajeitou na cadeira.

— Claro! Essa vai ser nossa primeira foto juntos.

Havia tanta felicidade na voz dele que Jungkook sentiu vontade de chorar de novo.

Pegou o celular e ergueu a câmera. Os dois se aproximaram naturalmente, sorrindo para a foto. As covinhas iguais apareceram ao mesmo tempo. Pai e filho. Não havia mais como negar. Jungkook olhou a imagem e sorriu enormemente antes de enviá-la para Jimin com o coração transbordando felicidade.

Do outro lado da cidade, Jimin ouviu a notificação do celular e desbloqueou a tela sorridente, ansioso para ver a primeira foto dos dois juntos. Mas o sorriso desapareceu imediatamente.

Seu corpo gelou e seus olhos arregalaram, porque o homem ao lado de Jungkook, sorrindo orgulhoso para a câmera, era ninguém menos que Kim Namjoon. O CEO da corporação que estava tentando destruir a Magic Shop. Seu maior inimigo, e agora, seu sogro.

Notas finais
Pois é Jimin, é isso mesmo 😑 Jin manhoso é tão fofo. Tadinho, ele só esta com ciúmes 😔