Cupcake
25 Jantar revelação

Na Magic Shop, a notícia da gravidez de Yoongi se espalhou como um sopro de luz em meio aos dias difíceis. Pela primeira vez em semanas, o ambiente parecia mais leve. Havia risadas, abraços e olhos brilhando, uma alegria genuína que contrastava com a tensão constante causada pela ameaça de falência da loja.
Mesmo com o coração apertado, Jimin fez questão de transformar aquele momento em algo especial.
— Hoje a gente comemora — disse, decidido.
Abriu uma garrafa de champanhe, o som do estouro ecoando pelo salão quase vazio, e serviu nas taças. Para Yoongi, preparou um copo generoso de suco sem nada de álcool, não que ele tivesse escolha, já que Taehyung vigiava cada movimento como um guarda-costas dedicado.
— Nem pense em encostar nisso — Taehyung avisou, puxando Yoongi pela cintura.
— Que absurdo, nem grávido eu tenho paz — Yoongi resmungou, mas o sorriso denunciava o quanto estava feliz.
Depois que fecharam a loja, os quatro se acomodaram em uma das mesas do salão principal. As luzes mais suaves, o silêncio da rua lá fora e o cheiro doce que sempre preenchia o ambiente tornavam tudo ainda mais íntimo.
Conversavam, riam e lembravam de histórias, como se, por algumas horas, o mundo lá fora não existisse.
Jimin então se levantou, já com uma ideia em mente.
— Vou fazer alguns aperitivos. A gente merece algo bom hoje. — Olhou para Jungkook. — Vem comigo?
Jungkook sorriu na mesma hora, levantando-se sem hesitar.
— Sempre.
E os dois seguiram juntos para a cozinha, deixando para trás o som das risadas e a sensação de que, mesmo com tudo desmoronando aos poucos, ainda havia motivos para comemorar.
Yoongi se levantou devagar e caminhou até a janela. Do lado de fora, o pequeno jardim era iluminado pela luz suave da lua, criando uma cena tranquila, quase mágica. Ele apoiou as mãos no parapeito, observando em silêncio, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos.
— Tae… — chamou baixinho.
— Hum? — Taehyung respondeu, levantando-se logo em seguida. Aproximou-se por trás e o envolveu em um abraço, deslizando as mãos com carinho até repousarem sobre sua barriga, agora carregada de um novo significado.
Yoongi soltou um suspiro leve.
— Você vai ter dois bebês…
Taehyung congelou por meio segundo.
— MEU DEUS, YOON! É GÊMEOS?! — gritou, completamente eufórico.
Yoongi virou o rosto, arregalando os olhos.
— Gêmeos? Claro que não! Calma! — deu uma risadinha. — Nem dá pra saber ainda, eu não tenho nem um mês completo, seu bobo.
Taehyung piscou, confuso.
— Então… por que eu vou ter dois bebês?
Yoongi fez um bico pequeno, os olhos suavizando.
— Poxa, Tae… você tá esquecendo de mim? — disse, com um tom quase choroso. — Eu também sou seu bebê.
Aquilo foi o suficiente para Taehyung se desfazer na fofura.
— Ah, não… você não pode fazer isso comigo — murmurou, completamente rendido, apertando Yoongi contra si e distribuindo beijinhos pelo rosto dele. — Você vai ser meu bebê pra sempre.
Yoongi riu baixinho, se deixando levar pelo carinho.
— Mesmo se a gente tiver um monte de filhos?
— Mesmo assim — Taehyung respondeu sem hesitar, beijando a ponta do nariz dele e depois seus lábios com suavidade.
Por alguns segundos, ficaram ali, abraçados, como se o mundo inteiro tivesse diminuído de tamanho só para caber os dois.
Mas o momento foi interrompido quando passos se aproximaram. Jimin e Jungkook voltaram da cozinha, trazendo alguns petiscos e rindo de alguma coisa.
No mesmo instante, Yoongi se afastou discretamente, ajeitando a postura como se nada tivesse acontecido. O rosto ainda estava levemente corado, mas ele rapidamente assumiu sua expressão habitual, mais contida. Não gostava de parecer manhoso na frente dos outros. Embora todos ali já soubessem exatamente como ele era quando estava com Taehyung.
…
O fim de semana finalmente chegou e, mesmo estando completamente envolvido no namoro, Jungkook fazia questão de reservar um tempo para o pai. Era sábado à noite, e os dois estavam sentados à mesa de um restaurante refinado de Seul, daqueles frequentados pela alta sociedade, onde as luzes eram suaves, a música discreta e cada detalhe parecia cuidadosamente pensado.
Jin não era rico, mas vivia confortavelmente. Trabalhava duro, e, de vez em quando, gostava de se presentear com pequenos luxos como aquele. Para ele, mais do que o lugar, o importante era a companhia. E, naquela noite, a companhia era tudo.
— E então… como está o namoro? — Jin perguntou, levando a taça de vinho aos lábios e observando o filho por cima dela.
Jungkook não conseguiu evitar o sorriso que surgiu imediatamente.
— Melhor impossível — respondeu, com um brilho evidente no olhar, enquanto cortava um pedaço do bife. — O Jimin me faz muito feliz. Eu tô… muito apaixonado.
Jin sorriu, daquele jeito típico de pai orgulhoso.
— Fico tão feliz de ver você assim… — disse, com sinceridade. — De verdade. Você merece alguém que te faça bem. — Fez uma breve pausa, apoiando a taça na mesa. — E eu gosto muito do Jimin.
Jungkook ergueu o olhar, ainda sorrindo.
— Ele é incrível.
— Eu sei que é — Jin respondeu, soltando uma risadinha ao ver a empolgação do filho. — Dá pra ver só pelo jeito que você fala dele.
Jungkook abaixou o olhar por um instante, meio envergonhado, mas ainda sorrindo.
— Mas e você, pai?
Jin ergueu o olhar, curioso.
— Eu o quê?
Jungkook apoiou o garfo no prato, inclinando levemente o corpo para frente.
— Você é bonito, jovem… — deu um sorrisinho — e, mesmo assim, nunca te vejo com ninguém. Nenhum pretendente, nenhum namoro…
Jin soltou uma risadinha baixa, girando a taça de vinho entre os dedos.
— Eu não quero um relacionamento sério, Kookie. Não me vejo namorando alguém de novo. Tenho meus… casos, quando bate a carência, e só. — deu de ombros — Já não estou mais na idade de me apaixonar. — Fez uma pausa breve. — Já me apaixonei uma vez. E foi o suficiente.
Jungkook o observou com mais atenção.
— Pelo meu outro pai?
Jin assentiu devagar, soltando um suspiro carregado de memória.
— Sim…
— Mas você pode encontrar alguém de novo — Jungkook insistiu, com cuidado. — Não precisa ser assim pra sempre.
Jin balançou a cabeça, com um pequeno sorriso triste.
— Não acho que consiga. — Seus olhos se perderam por um instante na taça. — Sinto que… não existe ninguém que vá me fazer sentir o que eu senti por ele.
Jungkook franziu levemente a testa.
— Pai, não fala isso… talvez você só ainda não encontrou a pessoa certa.
Jin soltou um suspiro leve, levando a taça aos lábios.
— E onde eu encontraria essa pessoa?
Jungkook abriu um sorriso discreto.
— Vai saber… talvez ela esteja mais perto do que você imagina.
Jin deu uma risada baixa, prestes a responder.
— Não fala essas bobag…
— Jin? — Uma voz o interrompeu no meio da frase. Voz essa conhecida e familiar até demais.
Jin congelou, ergueu lentamente o olhar e o mundo pareceu parar por um segundo.
— Namjoon? — disse, quase sem acreditar.
Parado ao lado da mesa, estava ele.
Kim Namjoon.
Os olhos igualmente surpresos, como se também não estivesse preparado para aquele encontro.
— Namjoon? — Jungkook repetiu, confuso, olhando de um para o outro sem entender nada.
Namjoon desviou o olhar rapidamente para Jungkook, analisando-o por um instante, as sobrancelhas se contraindo em leve confusão antes de voltar os olhos para Jin.
E, naquele silêncio carregado, anos de história não dita parecia ter voltado à superfície de uma vez só.
— Jin… — a voz de Namjoon saiu mais baixa do que ele esperava, carregada de algo que nem ele soube nomear. — Você… se lembra de mim? Sou eu, o Nam.
Por um instante, o tempo pareceu falhar.
Namjoon sentiu as pernas perderem a firmeza, como se o próprio corpo não estivesse preparado para aquele encontro. Aquilo não estava nos planos. Ele nunca imaginou que encontraria Jin ali, daquele jeito, depois de tantos anos.
— E-eu lembro… — Jin respondeu, claramente abalado. — Eu lembro, sim…
Seu olhar ia de Namjoon para Jungkook, e de Jungkook de volta para Namjoon, como se estivesse preso no meio de algo que não podia mais controlar.
Jungkook, por sua vez, observava tudo em silêncio, atento a cada detalhe.
— Pai, quem é ele?
A palavra “pai” ecoou. Namjoon franziu as sobrancelhas, repetindo quase automaticamente:
— Pai? — Seu olhar voltou para Jin, agora mais atento e analítico. — Ele é seu filho?
— S-sim… — Jin respondeu, rápido demais. — Ele é meu filho. — Respirou fundo, tentando manter a calma. Virou-se para Jungkook — Ele é um… antigo amigo meu.
Mas Jungkook não parecia convencido.
— Então por que ele tem o mesmo nome do meu outro pai? — perguntou, inocente, mas direto.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Namjoon piscou, tentando processar.
— Como é que é? — murmurou, olhando agora diretamente para Jungkook. — O nome do seu outro pai é Namjoon?
— Sim — Jungkook respondeu, ainda sem entender o peso daquilo. — Meu pai, o que faleceu, se chamava Kim Namjoon.
O mundo pareceu inclinar.
— Seu… pai falecido… se chama Kim Namjoon… — repetiu lentamente, como se cada palavra precisasse ser sentida.
Seus olhos voltaram para Jin. Agora não havia mais espaço para dúvidas.
— Eu me chamo Kim Namjoon — disse, com a voz mais firme e carregada de incredulidade. — E eu tenho certeza de que não existe outro Kim Namjoon nessa história.
Deu um passo à frente, o olhar preso no de Jin.
— Jin… eu não estou entendendo. — Sua respiração ficou mais pesada. — Primeiro você desaparece, some da minha vida sem me dar nenhuma explicação e agora aparece aqui… com um filho…
Fez uma pausa. O coração batendo forte demais.
— …um filho que teve com alguém chamado Kim Namjoon.
O silêncio se tornou insuportável. Jungkook olhava de um para o outro, sentindo que algo enorme estava prestes a acontecer. Namjoon engoliu em seco. E então perguntou, de forma direta:
— Jin… ele é meu filho?
Jungkook encarava Namjoon, completamente boquiaberto, sem conseguir organizar os próprios pensamentos. Era como se todas as peças de um quebra-cabeça tivessem sido jogadas diante dele, mas nenhuma ainda se encaixasse.
— O senhor… se chama Kim Namjoon? — perguntou, com a voz falhando levemente. — O senhor conheceu o meu pai… o Jin?
Ao lado, Jin estava à beira de um colapso. Segurava o garfo e a faca, um em cada mão, mas tremia tanto que o metal tilintava contra o prato. O coração parecia querer escapar do peito, batendo rápido demais.
— Se eu conheci o seu pai? — Namjoon repetiu, alternando o olhar entre os dois. A expressão agora era séria. — Eu e o seu pai namoramos.
As palavras caíram como um peso no ar.
— Conta pra ele, Jin — continuou, dando um passo à frente. — E me diz a verdade… ele é meu filho?
Jin não reagiu. Seus olhos estavam fixos na mesa, como se olhar para qualquer um dos dois fosse impossível. O corpo rígido e a respiração curta.
— Pai? — Jungkook chamou, agora mais firme, tentando arrancar qualquer resposta.
— Jin? — Namjoon insistiu, do outro lado, a tensão evidente na voz.
Mas Jin continuava imóvel, congelado.
— Pai… fala comigo — Jungkook insistiu, a ansiedade crescendo a cada segundo. — Esse homem é mesmo meu pai? Você disse que ele tinha morrido, mas ele tem o mesmo nome. Vocês namoraram! Pai, responde!
Namjoon passou a mão pelo rosto, tentando se manter calmo, mas já visivelmente abalado.
— Você disse que eu morri? Jin, nós precisamos saber. — Sua voz saiu mais baixa — Pelas contas, ele tem mais de vinte anos, é possível, sim. Muito possível. Jin…
— CALEM A BOCA!
A voz de Jin cortou o ambiente como um raio. O restaurante inteiro pareceu parar. Algumas pessoas viraram o rosto, curiosas, outras apenas observaram de longe, incomodadas.
Jin respirava pesado, os olhos finalmente levantando, agora cheios de desespero.
— Parem de me pressionar! — disse, com a voz tremendo, mas firme. — Eu… eu vou conversar com vocês dois. — Fez uma pausa, engolindo seco. — Mas não aqui.
Ele se levantou devagar, sentindo as pernas falharem sob o próprio peso. Nunca imaginou que aquele momento chegaria. Nunca imaginou que teria que encarar aquela verdade, muito menos com os dois diante dele, ao mesmo tempo. Agora não havia mais como fugir. Ele precisava contar tudo.
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