Cupcake

20 Concurso



Jungkook foi até a sala e pegou uma bolsa que parecia uma maleta. Começou a remexer ali dentro, procurando por algo com certa empolgação. Jimin observava curioso, sem entender o que o namorado estava tramando.

— Achei! — exclamou Jungkook, triunfante, erguendo o objeto como se fosse um troféu.

— Uma câmera? — Jimin arqueou a sobrancelha, confuso.

— Sim! E das boas!

— Kookie, seu safado… eu disse que era pra gente trabalhar, não pra filmar uma transa gostosa e depois assistir debaixo do cobertor! — Jimin soltou uma risada maliciosa.

— Ei, eu nem tinha pensado nisso… mas agora que falou, parece uma excelente ideia.

— Bobo. — Jimin se aproximou, envolvendo os braços em torno do pescoço de Jungkook, pegou a câmera de suas mãos e a examinou com atenção. — Tá, mas… pra que exatamente a gente vai usar isso “pra trabalhar”?

— Engajamento! — disse ele, empolgado.

— Hã?

— Tive uma ideia: que tal criarmos um canal no YouTube? A gente pode te filmar fazendo receitinhas simples. Você já é lindo por natureza — Jungkook piscou — e isso com certeza atrairia muitos seguidores pra loja.

— Kookie, isso é genial! Eu adorei! — Jimin o abraçou apertado.

— Eu não sou publicitário, mas entendo umas coisinhas. E também tenho meus contatos, posso pedir ajuda. Maaas… o cargo de cinegrafista oficial já é meu!

Jimin riu, animado com a ideia.

Pouco depois, Jungkook puxou Jimin para o quarto. Posicionou a câmera num tripé, ajustando o ângulo perfeitamente voltado para a cama. Pela lente, viu Jimin começar a tirar a roupa com uma provocação descarada, como quem sabia exatamente o efeito que causava. Ele estava lindo. Lindo demais, tanto ao vivo quanto no visor da câmera.

Jungkook deixou a gravação rodando e foi se juntar ao espetáculo.

Trabalho? Bom, isso ficou pra outro dia.

…

Alguns dias se passaram, e a Magic Shop estava em plena ascensão. Os vídeos de Jimin no YouTube estavam viralizando, não só pelas receitas criativas e práticas, mas também pelo seu jeito doce e encantador diante das câmeras. Com seu carisma natural, ele já começava a conquistar uma legião de fãs.

Tudo parecia perfeito demais.

A loja estava indo de vento em popa, os bolos faziam sucesso, o trabalho de Jimin finalmente recebia o reconhecimento que merecia. E, acima de tudo, ele tinha Jungkook, seu namorado dedicado, atencioso e amoroso. Estava cada vez mais apaixonado e já se pegava sonhando com o futuro numa casa juntos, uma vida compartilhada, talvez até uma família.

Mas nem toda felicidade dura para sempre.

E a de Jimin estava com os dias contados.

Numa tarde chuvosa, em que o movimento na loja era quase nulo, Jimin organizava documentos em seu escritório, enquanto Jungkook digitava relatórios na mesa ao lado. O som da chuva lá fora era suave, relaxante. Até que, de repente, um alerta no computador interrompeu o momento de calmaria.

Um novo e-mail, sinalizado como URGENTE. O remetente: Departamento Nacional de Finanças.

Jimin clicou, curioso. Conforme lia as primeiras linhas, seu semblante foi se apagando. O sangue pareceu abandonar seu rosto, os dedos começaram a tremer levemente. Ele releu o conteúdo duas vezes, como se isso pudesse mudar as palavras que apareciam na tela.

— Kookie… — chamou com a voz baixa e falha.

Jungkook se virou imediatamente, preocupado.

— Chim? O que houve?

— Vem aqui… por favor. — Jimin o olhou com os olhos marejados, o corpo paralisado pelo choque.

Jungkook se aproximou rapidamente, agachando-se ao lado da cadeira.

— O que foi, amor? — perguntou com delicadeza, tocando seu rosto pálido e assustado.

Jimin olhou nos olhos dele, tentando manter a compostura, mas a dor já começava a transbordar.

— Kookie… é o fim da Magic Shop.

— Como assim, meu amor? — Jungkook perguntou, alarmado.

— Kookie… — Jimin começou a chorar, o desespero transbordando em lágrimas.

— Deixa eu ver isso — Jungkook se inclinou sobre o notebook e leu atentamente o e-mail ainda aberto. Sua expressão logo se tornou tensa.

— E agora? Eu… eu não fazia ideia dessa dívida… — Jimin soluçava, a voz embargada — Eu não quero perder a Magic Shop…

— Ei… primeiro, respira — Jungkook segurou o rosto dele com carinho, tentando passar segurança — Vamos resolver isso juntos.

— Como? — Jimin sacudiu a cabeça, em negação — É uma dívida de meio milhão. Eu não tenho esse dinheiro… nem o Tae. É o fim, Kookie… é o fim.

— Olha pra mim. — Jungkook segurou o rosto dele novamente, firme, mas gentil — A gente vai dar um jeito, tá bem? Eu estava pesquisando e tem um concurso anual de confeitaria que oferece um prêmio de seiscentos mil. Eu ia te contar depois, mas agora é a hora.

— Um concurso? — Jimin perguntou entre fungadas, os olhos marejados.

— Sim. É promovido por uma grande empresa, super renomada. E se você se inscrever, já tô contando como vitória.

— Você acha mesmo que eu conseguiria vencer?

— Eu tenho certeza absoluta — Jungkook sorriu, o polegar acariciando sua bochecha molhada — Você é o melhor confeiteiro que eu já conheci… e olha que eu conheço muitos.

— Tem que ver se eles vão achar isso também… — Jimin murmurou, abraçando Jungkook com força — Mas, pra ser sincero, ainda estou com muito medo.

— Eu sei, amor. E tá tudo bem sentir medo — Jungkook o envolveu nos braços e acariciou seus cabelos com delicadeza — Mas você não está sozinho. Eu tô com você.

…

Um mês depois, no tão aguardado dia do concurso, Jimin estava um poço de nervosismo. Havia treinado por semanas, testado inúmeras receitas e ensaiado cada detalhe. Para impressionar os jurados, escolheu doces finos, receitas de alto nível, conhecidas pela complexidade e delicadeza. Era preciso concentração. E muito sangue frio.

Na plateia, Jungkook estava inquieto, vibrando como um verdadeiro fã. Ao seu lado, Taehyung gritava e dançava, fazendo dancinhas esquisitas de incentivo, enquanto Yoongi tentava, sem sucesso, manter a discrição escondido sob a aba do boné.

— Por favor… só não me façam passar vergonha — murmurou Yoongi, desviando dos olhares alheios.

— VAMOS, JIMIN! VOCÊ É O NOSSO PODEROSO CHEFÃO DO AÇÚCAR! — Taehyung berrou.

— JIMIN, TE AMO! ACABA COM ELES — completou Jungkook, sem qualquer vergonha.

Enquanto isso, no andar superior do mesmo prédio, em uma sala de reunião elegante e silenciosa, Namjoon tomava um café com alguns dos jurados do concurso, entre risos e conversas leves sobre o mercado de confeitaria.

Um toque discreto no ombro interrompeu sua fala.

— Senhor Kim… — o secretário se aproximou, chamando-o em voz baixa.

Namjoon levantou-se e os dois se afastaram para um canto reservado.

— Algum problema com o evento? — perguntou, franzindo o cenho.

— De certa forma, sim. Achei importante avisar que um dos participantes do concurso é Park Jimin… o dono da Magic Shop. Aquela loja que temos tentado comprar há meses.

Namjoon arqueou uma sobrancelha, intrigado.

— Ora, ora… parece que a crise financeira está cobrando seu preço. Imagino que ele esteja apostando tudo nesse concurso para tentar se salvar. — Ele fez uma breve pausa, pensativo. — Nesse caso, precisamos garantir que ele não ganhe.

O secretário assentiu discretamente.

— Já entendi, senhor. Tomarei as providências necessárias.

Namjoon sorriu com satisfação e deu um leve tapinha no ombro do homem, antes de retornar para junto dos jurados.

— Onde estávamos mesmo? Ah, sim… sobre critérios de avaliação — disse, como se nada tivesse acontecido.

…

Quando o concurso começou, Jimin mergulhou no preparo dos doces com agilidade e precisão. Enquanto os outros competidores ainda organizavam seus utensílios, ele já misturava ingredientes com um sorriso no rosto, calmo e confiante. Aquela segurança toda começou a deixar os demais inquietos.

A primeira fase foi tranquila. Jimin passou sem dificuldades. Na segunda, os participantes precisavam criar uma sobremesa sofisticada usando ingredientes baratos. Para Jimin, aquilo era quase nostálgico. Criado numa família humilde, ele aprendera desde cedo a substituir ingredientes caros por alternativas acessíveis, sem perder o sabor ou a beleza da receita. Era como voltar às origens.

Mas, ao chegar à fase final, o cansaço já pesava nos ombros. Mesmo assim, ele não podia vacilar. Só restava ele e um confeiteiro francês, o último obstáculo entre Jimin e o prêmio que poderia salvar a Magic Shop.

Foi então que tudo desandou.

Ao se aproximar de sua bancada para começar a receita final, Jimin notou algo estranho. Os ingredientes estavam trocados, alguns em más condições, outros simplesmente ausentes.

— Senhor — ele levantou a mão, chamando o responsável pela supervisão. — Meus ingredientes estão errados.

O homem nem se incomodou em verificar.

— Estão certos, sim — respondeu friamente.

— Mas…

— O cronômetro está prestes a começar. Vai desistir, senhor Park?

Jimin sentiu o estômago revirar de raiva e frustração. Aquilo estava armado. Ele sabia. Mas também sabia que desistir não era uma opção.

— Não — respondeu com firmeza, apesar do coração acelerado. — Eu não vou desistir.

— Então, volte para seu lugar.

O supervisor o encarou com desdém e se afastou. Logo em seguida, o cronômetro foi disparado. O visor digital acendeu em vermelho: 01:00:00. Apenas uma hora. E Jimin teria que improvisar tudo com o que restava. Mas ele não ia recuar. Não agora. Nem mesmo com o jogo sujo do inimigo.

…

Os jurados provaram as duas sobremesas com atenção. Ao experimentarem os cookies de Jimin, não conseguiram esconder a surpresa nem a aprovação imediata. No meio do desespero, com poucos ingredientes e o tempo contra si, ele havia pensado em Jungkook, no trocadilho carinhoso com o nome, e então os cookies surgiram quase como um instinto.

A casquinha crocante quebrava sob os dentes, enquanto as gotas de chocolate ainda quentes derretiam na boca. O aroma era envolvente, reconfortante. Era simples, mas perfeito. Tão perfeito que, antes mesmo de perceberem, os jurados já estavam no segundo cookie, trocando olhares satisfeitos, quase esquecidos de que havia outra sobremesa a ser avaliada. Só então lembraram do outro finalista.

O confeiteiro francês estava visivelmente nervoso. As mãos tremiam. O creme de sua sobremesa havia passado do ponto, queimado, deixando um gosto amargo e desagradável. Os jurados se esforçaram para manter a postura profissional enquanto davam, no máximo, uma mordida cautelosa, engolindo com dificuldade.

O resultado parecia óbvio. Qualquer pessoa podia ver. O prêmio deveria ser de Jimin.

Após algumas palavras formais e elogios genéricos, chegou o momento do anúncio final. Jimin apoiou-se na bancada quando ouviu o nome do vencedor. Suas pernas ficaram bambas, o mundo pareceu girar por um segundo.

O francês com sua sobremesa queimada eram os vencedores.

Não foi exatamente uma surpresa. No fundo, Jimin já sentia que aquele concurso tinha sido comprado, que o jogo estava decidido antes mesmo de começar. Ainda assim, a decepção doeu.

Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo e engoliu o choro que ameaçava escapar. Não tinha perdido por falta de talento. Não tinha desistido. Lutou até o fim, com tudo o que tinha. E isso, ao menos, ninguém poderia tirar dele.

— Amor… — Jungkook correu até Jimin e o envolveu em um abraço forte, protetor, como se pudesse afastar toda a dor apenas com os braços.

— Kookie… eu falhei — Jimin murmurou, a voz embargada, quebrada pelo choro que já não conseguia conter.

Jungkook afastou o rosto apenas o suficiente para segurá-lo com firmeza.

— Não. Você não falhou. — Sua voz saiu firme, cheia de convicção. — Você venceu. Todo mundo viu isso. Aquele concurso foi forjado. Não deixe isso te convencer do contrário. Vamos embora… esse lugar não te merece.

Jungkook o levou para casa. Os planos daquela noite era comemorar, rir com os amigos, brindar a vitória que todos tinham como certa. Mas nada saiu como o esperado.

Jimin chorava amargamente, o corpo curvado pela frustração. Mesmo sabendo que o resultado havia sido injusto, a dor não diminuía. Não era só sobre perder um concurso. Era sobre perder tudo o que havia construído com esforço, noites em claro, sacrifícios e amor. A Magic Shop, seu sonho, sua vida, agora parecia escapar por entre os dedos.

— Amor… — Jungkook acariciou seus cabelos com cuidado. — Eu prometo que vou dar um jeito. Vou salvar a Magic Shop. Amanhã vou estudar todas as possibilidades, cada solução, cada saída. Mas hoje… — ele o puxou de volta para o peito — hoje deixa eu cuidar de você. Só isso. Está bem?

— Tá bom… — Jimin choramingou baixinho, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu tô tão triste, preciso mesmo do seu carinho.

— Então eu vou te dar todo o carinho do mundo — Jungkook sussurrou, apertando-o com ainda mais cuidado.

Por dentro, Jungkook fervia. Amaldiçoava em silêncio quem quer que tivesse comprado aquele resultado, quem tivesse tirado o sorriso de Jimin daquela forma cruel. O ódio pulsava em seu peito. Para ele, se tratava apenas de um rival influente e um sistema corrupto, nada pessoal.

O que Jungkook jamais poderia imaginar era que o responsável por destruir aquele sonho era alguém ligado a ele pelo sangue. Kim Namjoon, seu outro pai.

Notas finais
Poxa, Nam...