Culpa

1 Capítulo 1: Esqueça meus erros


Notas iniciais
Escutem -> Sorry blame it on me - akon : durante a leitura da carta. ->Leave out all the rest - Linkin Park : no resto do capítulo

(capítulo 1: Esqueça meus erros)

Bem, aqui estamos nós de novo. Brigados. Por quê? Não me lembro e nem vale a pena. Sei que nunca fui perfeita, mas você também não. Juro que daria o melhor de mim para isso mudar, embora não precise. Continuamos os mesmos, mas tudo ao redor mudou. Eu cresci, você casou. Você teve um filho, eu ganhei um padrasto. Isso era para nos afetar tanto? Então porque eu estou tão fria? Por que só consigo te magoar, por mais que eu não queira? O que estou fazendo? Preciso de uma luz, me sinto sóbria. Só sei me agarrar ao passado e odiar o presente.

Ninguém sabe como me sinto. Não há nada aqui que eu queira ver porque toda vez que eu abro a boca, as coisas só pioram e eu me arrependo de saber falar, de ver e de viver.

Queria pedir desculpas pelo que eu tenho feito, pelo que ainda posso fazer de errado, e pelo que ninguém quer assumir a culpa.

Desculpe por tudo. Desculpe por ter crescido tão rápido, por me tornar detestável, por ter nascido, por não ter morrido de pneumonia aos dois anos, por não ter coragem de me matar, por ser eu. Desculpe por ser teimosa, por ser orgulhosa e ter um gênio muito forte. Por dizer que te odeio com todas as minhas forças quando tudo que eu mais queria era voltar no tempo e poder anunciar aos quatro ventos que você é o melhor pai que alguém poderia ter. E como o melhor pai, você merece o melhor filho, alguém sangue do seu sangue, diferente de mim.

Eu queria não ter sido tão cruel contigo. E mesmo que eu não demonstre, me martirizo severamente por dentro. Cada palavra áspera que digo dói mais em mim do que pensa, me dilacera e piora meu sofrimento. Por que sei que estas palavras aprofundam minha solidão. Me distanciam.

E mesmo que eu seja uma energúmena incapaz de te dizer, quero que saiba que eu te amo e te perdôo por não estar aqui quando eu queira dizer isso. Te perdôo por me fazer tanta falta . Te perdôo por ir embora.

Camila.

Escrevi as últimas palavras e desabei. Já não agüentava mais segurar as lágrimas. Segurar tudo que estava sentindo. Eu precisava liberar tudo aquilo que me fazia mal, tudo que alastrava minha dor.

Solidão, angústia, tristeza... Estava fraca o suficiente para ceder a toda essa negatividade. Eu me sentia o pior ser humano do mudo. O mais desgraçado e infeliz.

Reli a carta. Era mais um desabafo escrito. Mais um para minha coleção. Eu era orgulhosa e estúpida demais para conseguir falar tudo que aquele papel falava. Um mísero papel. Mísero papel que se chegasse às mãos dele poderia mudar tudo.

Pai? Era tudo que eu mais gostaria de chamá-lo. Tudo que eu mais gostaria de realmente ter. Mas ao passar dos anos, percebi que aquela pessoa que cuida que ama e que se preocupa vale mais do que aquela que te fez. Aprendi que a vida pode se tornar injusta da noite para o dia e que a felicidade é finita.

Peguei o porta-retratos que estava ao lado do caderno onde eu escrevera a carta. Era uma foto antiga. Uma foto de quando eu ainda conseguia mostrar um sorriso verdadeiro de orelha a orelha.

Naquela foto, havia uma garotinha muito feliz nos ombros do tio. Tio o qual sempre tratara com muito amor e carinho. O qual sempre substituíra seu pai biológico.

Mal sabia aquela pobre garotinha o que o futuro a reservara. Toda a tristeza que passaria, todo o sofrimento. A perda.

E bastou apenas um acontecimento para a amável criaturinha se transformar na rebeldia em pessoa. Para de meiga, tornar-se ríspida e insensível por fora.

Um casamento.

Apenas isso mudou todo curso de sua vida. Minha vida. Eu ainda poderia chamar assim? Aquela garota era realmente eu? Eu realmente resultei dela? Não, isso não era possível. Ou pelo menos ninguém acreditaria que alguém pudesse mudar tanto a ponto de parecer outra pessoa.

Mas essa era a verdade. Aquela garota continuava sendo eu. Eu do passado. Sem qualquer semelhança com o ‘eu’ do presente. Mesmo assim, ela continuava em mim, adormecida. Eu sentia isso.

Nada acontece ao acaso. Eu, pelo menos acredito nisso. Então se as coisas tomaram esse rumo, foi por que ele não tinha que ser quem eu queria que fosse: meu pai.

Notas finais
reviews? *--*