Culpa
2 Capítulo 2 : Não pule
Notas iniciais
(capítulo 2: Não pule)
Todos estavam muito preocupados. Camila não deva notícias a pelo menos três horas. Estava começando a ficar muito tarde. Minha irmã já estava em prantos.
—Calma, ela vai voltar. – nossa mãe tentava acalmá-la em vão.
—Não, mãe. Minha filha nunca se atrasa. Algo aconteceu com ela! –chorava incansavelmente.
Ligamos mais uma vez. O celular estava desligado. Ligamos para as amigas. Nenhuma sabia onde ela estava. Mas onde raios ela estava?
—É melhor irmos para casa. Não há nada que possamos fazer amor. E o nosso filho já está enjoado – minha esposa disse.
—Ainda não, temos que esperar ela chegar. – respondi.
— Está ficando tarde, o Gustavo precisa dormir – argumentou.
—Espera só mais um pouco.
E mais uma hora passou. Faltava pouco para meia noite. Comecei a ficar impaciente. O que aquela adolescente irresponsável estaria fazendo na rua àquela hora? Estaria com medo de voltar? Ah, claro que sim. Ela sabe que vai escutar muito. Ela está passando dos limites, pensei comigo.
Irritado, fui para o quarto dela para procurar alguma pista. Não estava muito arrumado, mas dava para ver que ela andou estudando muito, até tarde para ser mais exato.
Era sempre a mesma coisa: ela chegava do colégio, cumprimentava e depois se trancafiava no quarto. Não trocava uma palavra se quer comigo. Às vezes falava com minha mãe, mas nunca se aproximava muito. Nem da própria mãe, com quem mais conversava.
Encontrei um papel amassado em baixo da mesa. Parecia lixo, mas quando abri, vi que se tratava de uma carta escrita pela mesma. A letra me chamou a atenção. Estava meio borrada e feia. Aquilo seriam lágrimas? O papel estava um pouco molhado.
Li a carta. Lágrimas atravessaram meu rosto. Nunca pensei que Camila pudesse ficar tão mal com o que me falava. Nunca pensei que ela me achasse o melhor pai do mundo. Ou que me diria isso um dia, durante sua adolescência.
Recordei bons momentos de sua infância. E também daquela maldita pneumonia que por pouco não a levou daqui. Estava citada na carta, como algo banal, que deveria ter a obrigação de matá-la.
Eu estivera muito magoado com todas essas brigas, todas as palavras cruéis, todas as caras de raiva, o jeito que agia comigo. E eu a chamei de ingrata, por muitas vezes. A ignorei também. Não procurei saber o porquê disso tudo. Por que ela se afastara, por que me tratava mal, por que passou a me odiar. E agora eu encontrei todas as respostas, aqui, nesta folha de papel amassada.
Comecei a me sentir culpado. Aquelas palavras pareceram como uma despedida.
‘... Alguém sangue do seu sangue, diferente de mim. [...] Te perdôo por ir embora. ’
Ir embora? Teria mesmo eu ido embora?
Aquelas palavras passaram a me assombrar, e de repente, seu sumiço começou a fazer sentido. Camila iria se matar. Eu detestava as bandas de rock que ela curtia, mas uma das músicas falava sobre suicídio. Lembro-me bem quando ela me disse que preferiria se tacar de um prédio a me aturar.
E inconvenientemente, no vídeo desta tal música, uma pessoa ia tentar suicídio se tacando de um prédio. Teria esta música a influenciado?
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