Cuide Bem do Seu Amor
9 Quebra-cabeça
Notas iniciais
“Eu não quero brigar, eu só quero a vida
De amor como costumávamos viver
Eu não quero desistir, querida, eu só quero encaixar
De novo como duas peças de quebra-cabeças”
Justin Young
POV. Miguel
Carolina e eu moramos por quatro anos na casa de meus pais. Não tínhamos tantas despesas e nem precisávamos nos preocupar com contas, compras, impostos e outras coisas para pagar, mas sentíamos que aquele não era nosso espaço, sabe? Queríamos uma casa que pudéssemos chamar de nossa e sermos independentes, porque morar com os pais não é a mesma coisa.
Nossa vida no trabalho estava complicada, como está hoje. Carolina ao conseguir os primeiros casos de sua carreira de advogada trabalhava o dia inteiro, passava algumas madrugadas em claro para revisar processos.
Já eu, passava meu dia atendendo pessoas que tinham problemas com seus computadores, até conseguir um emprego em uma empresa especialista no desenvolvimento de novos softwares. Chegava em casa e ainda ajudava Lulu com seu dever da escola.
Havíamos perdido tempo para nós. Era muito cansaço, muito estresse. Chegávamos em casa querendo apenas desmaiar na cama. Eu a amo e sei que ela me ama, mas depois de um dia cheio eu só queria desmaiar na cama.
Apesar de todo o cansaço, eu ainda tinha meu sonho, não o deixaria de lado. Juntei dinheiro por três anos, para que eu pudesse pedir Carolina em casamento e saímos da casa de meus pais. Aquela era a nossa hora. Não era de agora esse meu sonho. Estive pensando nisso há anos, apenas esperando o momento certo, porque eu nunca tive dúvida de que ela é a mulher certa, e creio que este é o momento certo.
— Quer fazer alguma coisa nesse fim de semana? –disse Daniel, sentando na mesa de uma padaria para tomarmos café da manhã. – A garota com que eu estava saindo se mandou, ao descobrir da outra garota que eu também estava saindo.
Balancei a cabeça em negativa.
— Tu é um idiota, hein? – falei.
— Pode sair ou não? – ele perguntou impaciente, já que estava acostumado de ouvir aquilo e mesmo assim não mudava.
— Nesse, não. – falei, enquanto colocava açúcar no meu café. – Nesse fim de semana, Carolina e eu teremos a casa apenas para nós dois.
Meus pais haviam viajado para Paquetá com Luísa, e Matheus, meu irmão, havia saído para dormir na casa de sua nova namorada. Sim, meu irmão já estava crescendo e virando um rapaz. Só tomara que ele saiba se controlar.
Daniel me lançou seu olhar malicioso, já insinuando o que eu pretendia. Eu ri.
— Não é só isso que você está pensando. – falei. – Eu... Eu quero pedir Carolina em casamento, também. – ele arregalou os olhos e começou a sorrir, surpreso.
— Que isso, velho! Até que enfim, hein!
— Finalmente, depois de dois anos eu consegui juntar um dinheiro. Porque, olha, não está fácil, não. – falei, já me sentindo exausto logo pela manhã por conta do trabalho.
— Mas e aí? Como que você vai fazer o pedido.
— Estou planejando uma coisa especial, um pouco diferente. – falei.
— Mas o que é? – Daniel insistiu.
— Não vou te contar. – falei, implicando com ele.
— Você está de sacanagem, Miguel! Eu tenho que aprovar seu pedido. Vai que você faz algo clichê demais? Porque vindo de você não duvido nada.
— E você já pediu alguém em casamento por acaso para saber de pedidos? – perguntei, rindo e percebi então que Daniel ficou um pouco tenso.
— Não... Mas já pensei algumas vezes. – disse ele, olhando para sua própria xícara de café. Nesta época, ele já havia terminado com Bruna. Acho que Daniel nunca quis conversar muito sobre o assunto e apenas enterra-lo no passado.
— Desculpe, cara... – tentei dizer.
— Pelo o quê? Eu estou bem. – ele disse. Nisso Daniel era idêntico à Carolina, formando essa barreira anti-sentimentos. Até hoje acho que ele ainda não superou seu término. Por isso não tem nenhum relacionamento sério. – Ó, já que não vai sair comigo neste final de semana, vamos no outro. Leva minha sobrinha postiça. Estou com saudades dela.
Algumas vezes, Daniel sentia-se como um verdadeiro tio de Luísa. Todo Natal, minha família e a família dele se reúnem, e ele sempre enche minha filha de presentes. Já não basta, meus pais e meu irmão para mimá-la, ainda tem meu melhor amigo.
— Pode deixar. – falei, porém antes de ir embora, contei para ele o que eu realmente planejava fazer.
— Gostei. – ele disse. – Recebeu o selo Daniel de aprovação.
Dei um tapa sua nuca e ri. Despedi-me de meu amigo e parti para mais um dia trabalho.
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Eu já tinha tudo planejado em minha mente, mas parece que a prática é bem diferente. Depois de chegar em casa, tentei preparar uma das comidas favoritas de Carolina. Camarão.
Eu estava nervoso. Primeiro, eu não era um mestre-cuca, não sabia se a comida iria ficar boa ou não. Segundo, eu estava ansioso demais por essa noite, já que fazia bastante tempo que Carolina e eu não ficávamos a sós como antes.
Às sete e meia, eu estava arrumando a mesa de jantar para apenas nós dois, enquanto o camarão cozinhava. Ouvi a porta de abrindo e fiquei tenso.
— Miguel? – ela perguntou, entrando.
— Oi, amor. – falei, indo ao seu encontro e beijando-a. – Tudo bem?
— Sim. Fora esses clientes que vem com um problema atrás do outro. É cada uma que essas empresas inventam. A cada dia tiram mais os direitos trabalhistas dos funcionários. Um absurdo!
— Se acalme. Relaxe. Aproveite que temos um final de semana apenas para nós. – sussurrei em seu ouvido, chegando por trás dela e lhe fazendo uma massagem.
Carolina começou a fungar, até que também, senti o cheiro estranho, cheiro de queimado...
— A COMIDA! – falei correndo para a cozinha.
Quando abri a panela, só vi fumaça e...fumaça. Desliguei o forno e suspirei, eu havia estragado o jantar.
— O que é isso? – perguntou Carol, entrando e tossindo por conta da fumaça.
Tossi, antes que pudesse responder. Abri os basculantes da cozinha para que o ar pudesse circular, já que a fumaça estava impregnada. Passei minhas mãos pela nuca, frustrado, até que senti as mãos de Carolina enlaçando minha cintura, me abraçando.
— Eu estava tentando fazer essa noite ser especial para nós, porque não é todo dia que ficamos a sós assim, não é? – falei, chateado.
— Apesar de não ter dado muito certo... Fico feliz que tenha tentado. – ela disse me dando um beijo. – Vamos na lanchonete daqui a rua.
— Ér... – murmurei. Era nossa única opção já que eu havia estragado o nosso jantar, mas ainda havia outra parte da noite. E essa era a melhor. Eu torcia para que pelo menos essa desse certo.
Passamos nossa noite romântica na lanchonete do Seu Antônio, nos deliciando com uma de suas pizzas de calabresa. Carolina me contou sobre cada detalhe do seu dia e fiquei ouvindo-a atentamente, já que na correria do dia-a-dia não tínhamos tempo para isso. Eu a vi ficar mais leve, por cada coisa que ela desabafava. Todo o estresse que seus clientes lhe proporcionavam. Problemas e mais problemas. Rever várias vezes a lei para saber o que é realmente permitido.
— Ai, ai... – ela suspirou, após terminar de contar e de comer. – Eu estou exausta. Há muito tempo não temos uma noite assim, sabia?
— Sei. – falei, pegando a mão dela e depositando um beijo. – Eu sinto falta.
A situação que acontece hoje é como uma réplica da que aconteceu quando a pedi em casamento. Ambos trabalhando demais, sem tempo pra ficar com o outro, para ter momentos como esses. Apenas nós. Fica difícil assim, mas aquilo era apenas o início da minha carreira e de Carolina.
— Vamos? – falei, levantando-me da mesa, após pagar a conta. Ela assentiu e me acompanhou de volta para casa.
A cada passo que dávamos mais perto de casa, eu ficava mais ansioso. Faltava pouco. Eu torcia para que ela não visse meu nervosismo, mas ela parecia ver tudo. Não foi à toa que tocou minha mão no avião anos atrás para me acalmar.
Chegamos na casa de meus pais, que havia ficado com o cheiro de comida queimada impregnada. Distraí minha cabeça ao pensar no que eu teria que fazer para tirar aquele cheiro antes que eles voltassem.
— Eu vou tomar banho. – ela disse ao chegarmos e assenti.
Desesperei e comecei a correr para planejar o que eu iria fazer. Organizei nosso quarto direitinho, deixei a caixa de quebra-cabeça sobre a cama. Repassei o que eu iria falar. Como Carol, demorava muito para tomar banho, tive tempo o suficiente para tomar o meu também.
Voltei para o quarto correndo e já nervoso novamente.
— O que é isso? – ela perguntou ao sair do banheiro com sua camisola.
— Ah, amor. Eu comprei um quebra-cabeça pra Lulu e queria saber se é bom mesmo. Quer tentar montar comigo? – perguntei, tentando agir mais natural o possível, mas parece que ela percebia quando eu agia estranho.
— Claro... – ela disse, me analisando e segurando o riso.
Carolina sentou-se sobre a cama ao meu lado. Joguei as poucas peças sobre a cama e ajudei-a no início, mas quando metade do brinquedo já estava montado, deixei-a montar sozinha.
— O que está escrito? – ela perguntou, tentando ler o quebra-cabeça, antes de terminar de montá-lo.
— Não sei. Termine de montá-lo para ver. – falei, já mordendo meus lábios de curiosidade e prendendo o riso de ansiedade.
Carolina colocou as peças que faltavam e leu a frase escrita no brinquedo. Ela ficou boquiaberta, sem saber o que fazer, se chorava, se gritava, se sorria.
— O que será que está escrito aí mesmo?– falei, tentando me fazer de desentendido. — Seria: Quer se casar comigo? — Percebi que algumas lágrimas já rolavam pelo seu rosto e um lindo sorriso se formava em seus lábios.
— Claro que eu quero. – ela disse, me beijando e deitando-me na cama e ficando por cima de mim. – Mas por quê um quebra- cabeça?
— Nós somos diferentes um do outro, iguais em alguns pontos, mas no final nós encaixamos direitinho um ao lado do outro. – falei, olhando naqueles lindos olhos castanhos, que me traziam para a realidade. Os olhos que eu queria sempre que acordasse de agora em diante.
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Dois meses depois, no dia 15 de julho de 2005...
Meus dedos tremiam e eu suava frio por baixo daquele smoking. Noivos podiam vestir algo mais fresco, já que a ansiedade acabava conosco.
Conseguimos organizar tudo em dois meses. Carolina optou por uma cerimônia pequena, simples, pois ela não se importava tanto com todas essas extravagâncias de casamento. Uma cerimônia pequena, para apenas os mais íntimos, e uma festa pequena. Ela queria gastar mais com nossa nova casa, que, aliás, já havíamos dado entrada e mudaríamos para lá na semana que vem.
Quando o dia chegou, lembro da confusão que foi. O pai de Carolina não havia comparecido ao casamento e ela apesar de durona por fora, se desmanchou por dentro. Durante todo o tempo que estávamos organizando, ela havia ficado aflita com medo do pai não comparecer ao casamento da própria filha. Ele prometeu, garantiu que estaria lá, mas, no final, acabou pisando na bola.
Meu pai se ofereceu para acompanhá-la até o altar. Ela aceitou sem hesitar. Ele a considerava como a filha que nunca teve. Bom, a falta do meu sogro não atrapalhou o dia mais feliz de nossas vidas.
— Fica calmo, cara. Vai dar tudo certo! – Daniel falou dando um tapinha no ombro. Tentei seguir o conselho de meu melhor amigo e relaxar.
Luísa entrou primeiro na igreja jogando as pétalas no chão. Minha pequena filha estava mais linda que o habitual, com um vestido branquinho, seus cabelos loiros e cacheados meio presos, e seus olhos e suas feições que me faziam lembrar de Carolina. Ela olhou pra mim, quando sentou no colo de minha mãe, dei uma piscadela para ela. Fui recompensado com o sorriso mais gostoso de todos.
A marcha nupcial começou a tocar e todos na igreja se levantaram. Meu coração se apertou ao vê-la entrando na igreja, me deixando com um pouco de falta de ar, a ponta dos meus dedos formigavam, era como se uma corrente elétrica estivesse passando pelo meu corpo. Tive medo de ter um troço antes que ela chegasse no altar. Quando meus olhos encontraram os seus, parecia não haver mais ninguém no local.
Ela estava encantadoramente linda com aquele vestido, que ela e escondeu por dois meses, me deixando na mais completa agonia. Ele era como eu imaginava, lindo, simples e feito para ela. Fiquei paralisado, extasiado e sem fôlego. Meu pai a trazia para o altar, e eu não parava de balançar minha perna por ansiedade, querendo que ela chegasse logo.
Foi instantâneo, ela chegar ao altar segurar minha mão para que eu me acalmasse. Ela estava ali ao meu lado. Era realidade. O pastor começou a falar e apesar de prestar atenção em tudo, eu não conseguia para de encara-la pelo canto do olho. Ela estava absurdamente linda. Depois de um belo discurso do pastor, passamos para os votos. Carolina foi a primeira.
— Bom... – minha futura esposa disse, com as mãos tremendo, com um papel entre elas. Carolina respirou fundo, dobrou-o e rejeitou-o. – ... Quando eu comecei a escrever os meus votos usei as palavras perfeitas, sentimentais e clichês que todos esperam que escutar em um dia como esse. Porém, eu percebi que não somos assim. Nós somos um casal todo estranho, como o Daniel gosta de dizer... – dei um pequeno riso e olhei para meu melhor amigo que sorria orgulhoso. — ... E o mais improvável que eu consigo pensar. Você me ensinou em pouco tempo, o que muitos levam a vida para a aprender. A felicidade está nos pequenos prazeres do dia-a-dia, aqueles que muitos não prestam a atenção.Você me mostrou que estou cercada por muitas pessoas que me amam e que se importam comigo. Você todos os dias me mostrou ser uma dessas pessoas, a que mais se importava e a que mais me amava. Eu agradeço todos os dias por tê-lo em minha vida. Você sabe que eu te amo, não é? Mesmo você vomitando em mim.
A igreja toda riu, assim como eu. Ela sabia exatamente como usar as palavras. Será que o que eu escrevi no meu papel era o suficiente para demonstrar o que ela significava para mim. Apenas percebi que era a minha vez de falar, quando o silêncio se estabeleceu pela igreja.
— Minha vez? – perguntei para o pastor e ele assentiu com um leve sorriso. – Ai, Caraca!
Como Carolina, rejeitei meu papel, onde meus votos estavam escritos, peguei o microfone e suspirei tentando ter coragem.
— Casamento não é mil maravilhas, ou felizes para sempre. Para mim, casamento é uma união de duas pessoas, onde eles enfrentam de tudo, juntos, compartilham não apenas felicidades, mas também momentos ruins. – suspirei. – Eu não procuro uma mulher perfeita, nunca procurei. Procuro sim, não posso negar, uma mulher que faça de seus defeitos a sua maior qualidade. Eu posso estar triste, mas aí você chega e derruba água quente em cima de mim, e assim como a água, a tristeza evapora.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
— Com você aprendi que a palavra egoísmo não existe. Passei a me importa mais com aqueles que eu amo, e principalmente com aquela que quero passar minha vida. Eu sempre estarei ao sei lado, para te amar, te confortar e te consolar. Enfrentarei contigo todos os tipos de situações. Deus me abençoou colocando você em minha vida. E agora para finalizar, por que você já deve estar meio cansada de me ouvir falar. – falei e ela sorriu entre as lágrimas que escorriam por suas bochechas. – Peguei esse trecho de um filme que você ama e que eu achei que se encaixa conosco. Aí vai: “Eu te garanto que teremos dificuldades, eu te garanto que um dia um de nós, ou os dois vai querer pular fora, mas eu te garanto que se eu não te pedir para ser minha, eu vou me arrepender pelo resto da minha vida, pois em meu coração você é única para mim.”. Eu te amo, Carolina!
Fizemos nossos juramentos. Amar, respeitar, ser fiel... independente da situação... Como, hoje, ela pode ter esquecido de tudo o que falamos. Foram pro ares? Caramba!
— Você aceita Miguel Rebouças Soares, como seu legítimo esposo? – o pastor perguntou para Carolina que ainda chorava um pouco, mas tinha um sorriso em seus lábios.
— Sim. – ela disse sorrindo ainda mais em meio ao choro.
— Você aceita, Carolina Morais Toledo, como sua legítima esposa? – o pastor perguntou para mim. Eu não estava tão diferente dela. Meus olhos marejavam um pouco e eu só queria agarra-la e abraça-la.
— Claro que sim! – respondi fazendo-a rir.
— Pelo poder a mim concedido, eu os declaro marido e mulher! – ele disse e todos na igreja aplaudiram.
Eu fiquei confuso sem saber se poderia beijar Carolina, já que o pastor não havia dito nada. Até que ele reparou em minha ansiedade.
— Pode beijar a noiva, rapaz. – disse ele com um sorriso no rosto, também.
Puxei Carolina pela cintura para mais perto de mim e beijei-a. Não demorou muito para que Luísa viesse correndo nos abraçar. Peguei-a no colo e enchemos nossa pequena filha de beijinhos, fazendo-a rir. De agora em diante, eram elas e eu.
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— Boa noite, galera! – disse meu irmão já com seu violão no pequeno palco. – Eu gostaria de dedicar minha primeira música ao casal da noite. Felicidades aos noivos!
Todos o aplaudiram, ele endireitou seu microfone e deu um sinal para a banda. Eu estava um tanto apreensivo por ver meu irmão tocar, já que foram raras as vezes que o assisti. Porém, como no avião, Carolina pegou minha mão. Percebi que ela me fitava com um leve sorriso e acalmei-me. Eu devia acreditar mais no potencial do meu irmão, por que se não como iria fazer isto com minha filha?
— Olhos fechados... pra te encontrar... não estou ao seu lado, mas posso sonhar... — cantou meu irmão, com uma voz leve. Meu irmão cresceu. Olhei em volta e todos o admiravam, pelo jeito eu não era o único Eu estava orgulhoso do meu irmão. Ele havia me surpreendido.
— É a nossa música. – sussurrou Carolina, toda animada e encantada.
— Quer dançar? – perguntei, tentando fazer uma voz sedutora, mas apenas tentei, mesmo. Carolina parecia indecisa. – Vamos... prometo que não vou pisar no seu pé... E nem parecer um esquisito dançando.
— Se é assim, então aceito. – ela disse se levantando.
Peguei sua mão e puxei-a até a pequena pista de dança. Eu podia não me dar muito bem com outros ritmos, mas ali, com a nossa música e com Carolina em meus braço, até que eu estava me saindo bem.
Todos começaram a vir para pista também para dançar. Os primeiros foram meus pais com Luísa. Sorri ao vê-los dançando.
É possível congelar momentos? Porque se fosse, eu congelaria este momento para que eu nunca pudesse o perder.
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Cheguei em nossa nova casa depois de um dia de trabalho. Carolina havia tirado férias para poder tomar conta de Luísa e ajeitar tudo em nosso apartamento do jeito que ela gostasse. Não me opus a nada, porque, aliás, nunca gostei muito dessas coisas de decoração. Para mim qualquer coisa estava ótima.
Parei na entrada, retirei meus sapatos e deixei a caixa que eu carregava do lado de fora. Entrei no apartamento que estava colorido e alegre do jeito que Carolina gostava. As paredes da sala eram vermelhas, decoradas com diversos quadros modernos. A mesa de jantar era de madeira branca, com uma luminária posta sobre ela, e com várias cadeiras de cores diferentes. O sofá tinha uma estampa floral, com várias almofadas coloridas.
Nosso quarto não era muito diferente disso. Para minha alegria, consegui convencer Carolina de pintá-lo de cinza, mas ela o encheu de quadros no estilo pop art.
Nunca tive uma casa e uma vida tão colorida como agora que tenho Carol. E sabe... até que é divertido. Tudo aquilo me alegrava, pelas manhãs. Ela havia colorido a minha vida, que se baseava apenas no branco.
Nosso “escritório”, que era na verdade o quartinho de empregada reformado, era a única parte da casa sem muitas decorações, para que não nos distraísse demais.
Entrei no apartamento com cuidado e encontrei Carolina deitada no sofá da sala parecendo exausta pela arrumação.
— Oi, amor. – falei, sentando-me ao seu lado e depositando um beijo em sua testa.
— Oi... – ela respondeu se sentando e me dando um beijo. – Como foi seu dia?
— Meio bagunçado, mas teve um final feliz. – respondi. – E o seu?
— Eu estou exausta. Não agüento mais abrir caixa e tirar uma cacetada de coisas de dentro de casa uma. Não acaba! – ela disse indignada e respirando fundo.
— Amor... Se eu adotasse dois cãozinhos. O que você faria? – perguntei como quem não quisesse nada.
— O que EU faria? – Carol, se levantou do sofá, se mostrando cada vez mais indignada. — Eu simplesmente te esganaria, porque a gente não tem mais espaço para nada nessa casa. Para dois cães muito menos. Você sabe quanta sujeira eles fazem?
Eu ri do desespero dela. Fui rapidamente à porta de entrada e peguei a caixa que eu havia trago, levando até Carolina.
— Bom, amor... – falei, deixando a caixa no chão da sala e pegando dentro dela um vira-lata filhotinho, preto e branco. — ... Ainda bem que eu só trouxe um, não é?
Sinceramente, achei que Carolina bateria o pé, reclamaria, gritaria, faria um estardalhaço, mas ela, simplesmente desmanchou sua armadura e se encantou com o filhote.
— Oh... Mas que coisinha mais gostosa! – ela disse com uma voz bem mais fina que a sua habitual e pegando o cachorrinho em seu colo.
Pronto. Foi ali que ela se apaixonou pelo Pulguento. Eu me apaixonei por ele no momento em que passei em frente à uma feira de adoção. Aquele filhote, pequeno e indefeso. O nome foi ideia de Carolina.
Eu me sentia feliz. Extremamente feliz. Eu tinha minha casa, uma linda filha, um cachorro e a melhor esposa que eu poderia pedir à Deus. Uma família. Eu estava completo, e no auge da minha felicidade.
Minha vida não seguiu meus planos. Aliás quase nunca a vida segue os nossos planos, e isso é até bom sabe? Porque no final vemos que estamos mais felizes do que se seguíssemos nosso roteiro que conhecemos de cor.
Se eu fizesse tudo o que planejava quando saí do colégio eu estaria em São Paulo estudando na USP, namorando Fernanda à distância, acabaria me casando com ela por insistência e nunca encontraria a felicidade que tenho agora.
Não quero um conto de fadas, não quero um “Felizes para sempre” porque eu sei que o “para sempre” não existe. Iremos brigar, em algum momento a tristeza virá, mas nada é eterno. E apenas a tristeza, me faz reconhecer o quão feliz eu sou por ter tudo o que eu tenho.
Carolina e eu somos peças de quebra-cabeça. Cada um com suas diferenças, iguais em apenas algumas coisas, mas apesar de tudo nos encaixamos direitinho. Bom... até agora...
“Você é minha tempestade do bem
Trazendo chuva ao meu deserto
Me fazendo alguém,
Amada simplesmente pelo que é,
Ontem namorada, noiva e agora sua mulher.”
— Bruna Karla
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