Cuide Bem do Seu Amor
10 Caindo na rotina
Notas iniciais
POV. Miguel
Se apaixonar é fácil, namorar é fácil, encontrar alguém que você ame e que ame você, é fácil. O difícil mesmo é manter esta pessoa ao seu lado e superar todas as dificuldades ao lado dela.
Ao longo dos nossos quase dez anos de casados, Carolina e eu passamos por muitas coisas. Situações boas e situações ruins. Altos e baixos. Minha esposa perdeu o emprego no escritório que trabalhava, e fico até seis meses sem trabalho. Passamos por maus bocados, nesse período. Com apenas meu salário para sustentar três pessoas, não conseguíamos pagar todas as contas. Nossa luz chegou a ser cortada. Entramos em desespero durante esse curto tempo, pois tínhamos que priorizar Luísa.
Dói em um pai quando seu filho lhe pede algo que você não pode dar. Dói. Eu me esforçava o máximo para conseguir uma promoção e ganhar um pouco mais. Mas, graças à Deus, minha esposa encontrou um emprego novo, onde começou a trabalhar como louca. Carolina nunca me contou, mas acho que ela tem um receio de que tudo aquilo volte, por isso trabalha excessivamente.
E depois de oito anos juntos, quando nossa situação financeira estava boa tivemos nosso pequeno Tobias. Meu garotão! Hoje sou um craque em trocar fraldas e dar banhos em nenéns. E eu achei que já tinha aprendido tudo com Luísa. Que nada. Tobias também nos ensinou muita coisa. Não importa quantos filhos você tenha, você irá aprender coisas diferentes com cada um.
Porém, depois de todo esse tempo juntos, Carolina e eu perdemos todo aquele fogo inicial da relação e caímos na rotina. Nem tudo são flores em um relacionamento.
Acabamos nos encontrando em uma situação em que estávamos sufocados por estresse do trabalho, fraldas, filhos, responsabilidades com a casa – aí entra aquela parte deliciosa de faxina e contas -. Você se acomoda com a situação que se encontra. E não há esforço de nenhuma das partes para melhorará. Agora, que estou prestes à perder quem amo posso reconhecer que errei.
Todos os dias quando chegava do trabalho, Carolina, arrumava a casa, dava comida às crianças e trancava-se no escritório para resolver seus problemas de trabalho. Parecia que em seu itinerário não havia espaço para mim.
Houve dias em que nem trocávamos palavras. Fiquei sem saber o que acontecia no dia dela. Minha esposa ficava sem saber o que acontecia no meu. Não é assim que um casamento deve ser.
— Carolina, que conta é essa de quinhentos reais em mecânico? – digo, quando ela chega em casa com as crianças. Carolina bufa e revira os olhos.
— Ai, Miguel. Eu só bati o retrovisor – disse ela, colocando sua bolsa numa poltrona e indo para cozinha. Segui-a
— E gastou quinhentos reais? O que você fez? Arrancou o retrovisor, por acaso? Quantas vezes já disse para você ter cuidado com o carro? – disparo.
— Quando as coisas pesam no seu bolso, você vem tirar satisfação, não é? – ela diz com a voz elevada, olhando em meus olhos.
— Nesta altura do nosso casamento você quer me chamar de pão duro? – pergunto, por que é exatamente isso que ela parece ter dito.
— Esquece, Miguel...- disse ela, mexendo a mão para que eu esquecesse.
Respirei fundo, pensando duas vezes se falaria o que eu queria ou não. Mas no fim, acabo deixando para lá. Saí da cozinha depois de reprimir tudo o que queria dizer.
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Fiquei por um bom tempo jogado no sofá, com sono, mas sem poder dormir por conta da dor de cabeça que me atormentava. As crianças estavam em seus respectivos quartos. Carolina foi para o escritório, trabalhando, depois de limpar toda a casa. E eu estava ali sozinho.
Lá pelas nove da noite, ouvi meu celular tocar. Atendi sem nem olhar o visor.
— Alô?
— Quer beber uma cerveja? – disse Daniel, do outro lado da linha.
— Sim, por favor... – murmurei. Fechei os olhos pensando num copo de cerveja bem gelado.
— Desce aí. Estou no bar de esquina da sua rua. – ele disse.
— Já é. – desliguei e coloquei meus chinelos.
Fui até o quarto de Luísa que assistia um filme de comédia romântica, mas sem assisti-lo de fato por não tirar os olhos de seu celular.
— Filha, se a mamãe perguntar onde estou, diga que fui no bar da esquina com o tio Daniel. – digo.
— Está bem. – ela respondeu sem nem me olhar, ainda teclando em seu celular. Revirei os olhos.
— Ô, vício! – falei e ela finalmente olhou para mim. – Larga um pouco esse seu celular e presta atenção nas coisas ao seu redor.
Ela bufou e revirou os olhos, soltando o celular. Saí de casa um pouco mais satisfeito. A pior coisa que fiz foi ter comprado essa merda tecnológica. Agora falo como meu pai, quando me deu meu primeiro vídeo game, meu primeiro celular, meu primeiro computador.
Encontrei Daniel na portaria.
— O que aconteceu para você querer vir tomar uma cerveja longe pra cacete da sua casa? – perguntei, estranhando, enquanto andávamos até o bar.
— Está um engarrafamento enorme para ir pra Niterói, aí resolvi fazer hora aqui. – ele disse dando de ombros. – Acho que teve algum acidente na ponte. Sei lá. Mas foi complicado até para chegar aqui.
Quinta-feira e sexta-feira, o Rio se transformar numa coisa de doido. Os engarrafamentos para fora da cidade aumentam. Com um feriado tão perto, o tamanho do congestionamento chega à triplicar. Sem noção. Uma vez fiquei parado quase uma hora na rua da minha casa por conta de um engarrafamento.
Era quinta-feira, o bar não estava tão vazio como nos demais dias da semana. Sentei-me em uma das mesas vazias e suspirei olhando as pessoas ao redor.
O garçom logo veio, Daniel pediu um energético e eu, uma cerveja. Ele não podia beber tendo que pegar a estrada.
Fiquei inquieto esperando minha cerveja. Minha cabeça ainda latejava. Fechei os olhos e massageei minhas têmporas por um tempo.
— Você está balançando tanto sua perna que parece estar tendo um ataque epilético. – disse Daniel, com seu sarcasmo. – Fala, o que houve?
— O quê? – pergunto, confuso.
— O que está acontecendo pra você estar assim?
— Sei lá... são muitas coisas... – digo. Nem eu mesmo sabia o que estava acontecendo comigo naquele momento, mas só queria extravasar todo meu estresse. Fiquei mexendo em minhas chaves como distração, até que reparei no círculo dourado envolvendo. – Já se deu conta de que estou casado à quase nove anos?
— Já, mas o que tem? — perguntou ele dando de ombros.
— As coisas não parecem mais como no início. – digo.
— Claro que não. Não tem como ser se vocês não são mais as mesmas pessoas do início. – diz Daniel como se fosse óbvio. Resolvo não falar mais nada diferente, mas ele vê minha cara. – Está tendo muitos problemas com Carolina?
— Cada dia é um problema diferente. Sei lá, cara... – digo e não tenho muitas palavras para explicar o que estou sentindo. — Sinto como se estivesse formando um abismo entre a gente. Eu a amo, mas todas estas coisas estão nos afastando.
— E você acha que a culpa é só dela? – perguntou Daniel, me encarando.
Eu ia responder pensando em tudo o que ela fez para me irritar nestes últimos dias, mas hesitei. Já fiz muitas coisas que estressaram Carolina. Não sou nenhum santo.
Retorno para casa, depois de mais ou menos duas horas jogando conversa fora, três copos de cerveja e uma mente perturbada com a minha vida conjugal. A luz da sala está acesa, mas a casa está silenciosa. Passo no quarto das crianças e elas já estão dormindo. Chego em meu quarto e minha esposa já está adormecida. Deito ao seu lado. Ela está de costa para mim. Encaro o teto.
Estou tão próximo dela, mas ao mesmo tempo Carolina me parece tão distante. Sinto um aperto no coração. Há dias não paramos para conversar. Apenas descontamos um no outro tudo o que nos estressa diariamente. Será que ela enxerga esse abismo formado entre nós? Será que isso é apenas coisa da minha cabeça?
Talvez com o tempo isso passe. É apenas uma fase, não? Pensei.
Suspiro.
Seus problemas não vão se resolver se você não mexer nem um dedinho. Problema é como uma bola de neve descendo uma montanha. Só tende à se acumular.
E veja onde estou hoje. Em comparação aos altos e baixos que vivemos juntos, este está mais para um penhasco. De pequenas brigas e estresses fomos parar aqui nesta audiência para decidir detalhes do divórcio, por que simplesmente nenhum dos dois teve coragem e dizer o que sentia.
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