CUIDADOS.

Segundo.

O terceiro dia de trabalho começou como os outros e quando Sakura preparou as panquecas até enquanto preferidas do Uchiha para o café o mesmo recusou terminantemente querendo torradas para irritação da rósea que antes de deixa-lo para realizar sua vontade de menino malcriado como ela chamava em seus pensamentos.

“Óbvio”.

— Hoje vamos tomar café da manhã na sacada, o dia está muito bonito. – Ela disse em um ou dois tons animados, naquele dia usava um vestido florido branco com pequenas flores lilases, decote em V dois palmos acima da altura dos joelhos pregueado na saia, quanto a ele uma camisa preta e uma bermuda de moletom cinza.

— Se você diz. – Ele disse com desdém, entrando no banheiro Sakura se sentiu aliviada, finalmente teria um tempo para arrumar o ambiente que estava um pouco bagunçado, ajeitou os lençóis forrando a cama, tirou alguns restos de comida e algumas louças que estavam jogadas em cima do criado mudo, mesmo para alguém com aquela condição ela não poderia dizer que era um ambiente que estava de pernas para o ar, varreu um pouco mais rápido quando percebeu o silêncio vindo de dentro do banheiro, “Ele desligou o chuveiro”, antes que o mesmo saísse já estava tudo pronto e quando ela olhou para a direção da porta lá estava ele, uma toalha amarrada em sua cintura, gotículas de água escorriam de seu peitoral descendo pelo abdômen era impossível não admira-lo ele tinha uma beleza desconcertante, ela balançou a cabeça negativamente tentando afastar os pensamentos de si enquanto segurava a vassoura.

— V-Vou fazer seu café. – “Merda, Sakura, gaguejando sério? Têm quantos anos? Doze?”.

— Já deveria ter feito. – Disse o rapaz enquanto jogava os cabelos molhados para trás, ele amava provoca-la, ela mordeu os lábios tentando controlar-se, mas ele instigava seu melhor e principalmente seu pior.

— Não sabia que tinha planos para essa manhã para estar com tanta pressa. – Murmurou de maneira sarcástica, ele engoliu a seco ela era encantadora no melhor sentido da palavra.

— Vá logo. – Sibilou mostrando-se impaciente, ela foi com um sorriso satisfeito nos lábios.

Se ele gostava de provoca-la, ela gostava ainda mais.

Preparou o café e levou para varanda, era um lugar espaçoso com uma mesa e um par de cadeiras de madeira maciços, coberto com telhas de PVC e com uma visão espetacular da cidade o dia estava nublado em sua totalidade, nuvens carregas dominavam o céu, sim para ela aquele dia era magnifico podia ficar por algum par de horas admirando sem que nada fizesse falta.

Mesmo que aquela paisagem a atraísse como um imã foi obrigada a se desprender dela para buscar seu companheiro, Sakura deu um passo para trás um girou os calcanhares foi quando seu corpo veio de encontro com o de outra pessoa, ela sentiu o coração acelerar, sua boca formou um “O”.

— Sasuke? – Ela disse ainda alarmada, sem acreditar que pudesse ser ele. “Como?”.

— Sakura, mais cuidado eu posso cair. – Disse ele em um tom descontraído com um sorriso de canto.

— O que faz aqui? – Ela perguntou alarmada – Eu podia ter lhe buscado, e se você se machucasse... – Ela parecia decepcionada consigo mesma pela decisão do rapaz em ir por conta própria, seu corpo que estava completamente arrepiado e seduzido pela ideia de tê-lo tão perto, conseguia sentir a sua respiração quente envolver seu rosto, mais alguns centímetros poderia facilmente beija-lo.

Ele era uma tentação difícil de resistir.

“Não, Sakura, você não pode”.

Seu subconsciente gritava e sua voz sempre era mais alta.

“Você precisa desse emprego”.

— Não seja tão cautelosa Haruno. – Ele disse em um tom divertido chamando-a pelo sobrenome como ela fazia com ele chegando perto demais dos lábios dela ficando a tentadores alguns meros centímetros de distância, Sakura não pode deixar de soltar um riso de nervoso, ele se afastou nesse momento seu corpo inteiro implorou para que ele voltasse em uma súplica silenciosa.

Ele tateou a mesa com cuidado procurando a cadeira e se sentou, seguido da Haruno que o olhava atentamente, ele era como o céu nublado assustador e incômodo para a maioria, mas para ela era fascinante essas várias facetas e oscilações ficando divertido em alguns momentos ou em que todos mesmo que ela não admitisse isso com tanta frequência.

Ele repetiu o ritual matinal tateando as coisas enquanto Sakura deliciava de um pouco do suco que fizera, amava frutas passou muito tempo de sua infância difícil com somente aquilo como sobremesa desenvolvendo um gosto excessivo por apreciar todas elas sem exceção mesmo que gostasse mais de uma ou outra.

— Como está o dia? – Sasuke sibilou enquanto terminava seu suco, servindo-se com cuidado de um pouco mais, Sakura incrédula se perguntava se tinha ouvido aquilo mesmo porque ele não era exatamente a pessoa mais falante, ela se empolgou, deu uma longa olhada para o céu e soltou um suspiro.

— Nublado, nuvens carregadas cobrem o céu. – Ela ainda olhava enquanto tentava descrever da melhor maneira possível, nunca foi boa escritora por isso, nunca soube descrever muito bem coisas – Talvez chova, ou melhor, neve. – Ela não pode deixar de abrir um sorriso infantil, neve trazia de volta a todos o espírito infantil de volta, como se voltassem a serem crianças.

— Há algum tempo não neva. – Ele soltou um murmuro que poderia passar imperceptível, mas ela prestava atenção em tudo que ele dizia, em tudo que ele fazia, nele por completo, e às vezes se pegava perguntando a si mesma se era apenas pelo gordo salário que iria receber ou se havia um motivo a mais, mas sempre evitava pensar que fosse pela segunda razão. – Meu irmão Itachi amava neve... – Sakura pôde ver uma sombra de tristeza posar sob o rapaz tornando a sua fala ainda mais sombria e carregada de uma profunda tristeza, a mãe mencionou que ele teve algumas perdas e o uso do verbo no passado deixava tudo ainda mais claro para ela.

— As crianças também... – Ela sussurrou quando se deu conta às palavras tinham escapado, queria engoli-las novamente e guarda-las no mesmo lugar de onde saíram e fazer com que elas não voltassem, esperava que ele não lhe fizesse perguntas.

— Quê crianças? – Ele parecia curioso, ela mordeu o lábio inferior se odiando pela indiscrição, olhou para a mesa com os olhos perdidos tentando buscar alguma resposta que não fosse à verdade.

— Ah – ela tentava arrumar uma boa desculpa, mas não conseguia sua boca ficou aberta sem que um único som saísse dela, “Você tá parecendo uma idiota” – sabe crianças... – ele ergueu uma das sobrancelhas um pouco confuso, ele colocou o copo na mesa, tateado até encontrar a mão da moça que suava um pouco, ela não sabia exatamente o que ele estava fazendo muito menos ele, só agia por mero impulso, desde que sua visão se foi de maneira definitiva agia assim e até que conseguia seguir adiante.

— Tudo bem... – Apenas aquelas palavras tão simples tiveram uma força imensa para que ela se tranquilizasse de um jeito que ela não conseguia colocar em palavras, não estava pronta para falar sobre aquilo, mas sentia que iria estar e ele seria a pessoa certa para conversar.

— Obrigada. – Ele deu de ombros, puxando a mão para si desviando o rosto dela. – Não temos carne para o almoço, vou ter que ir ao mercado comprar.

— E?

— Você vai comigo Uchiha. – Ela disse enquanto levantava recolhendo as louças do café para lava-las.

— Eu não costumo sair, não sei se lhe disseram isso – ele disse em um tom irônico – caso não tenham dito eu mesmo estou dizendo agora. – Ele forçou um riso fazendo a jovem de olhos esmeraldinos revirar os olhos.

— Já lhe disseram que você não tem escolha? – Ela disse com um sorriso triunfante no rosto.

— Você ainda não aprendeu quem paga seu salário? – Ele rosnou.

— Ainda não aprendeu que não é você. – Deixando-o sem palavras, ajudou ele a sair da sacada e voltando aos seus afazeres para deixar tudo organizado para o almoço quando retornasse.

✿✿✿

— Minha mãe mata você caso você me mate, você sabe disso não é mesmo? – Ele disse em um tom apreensivo enquanto ela o ajudava a colocar o cinto.

— Nada disso vai acontecer – disse em um tom despretensioso enquanto se ajeitava no volante, aquele carro era muito luxuoso, nunca sentou em uma máquina como aquela, sentiu-se poderosa por alguns momentos até lembrar-se de que não era seu murchando um pouco sua bola já inflada. – Relaxa. – Irritada com sua desconfiança decidiu ignora-lo, respirou fundo.

“Tudo bem que parte dele esteja certo pela desconfiança, mas não era para tanto”.

A viagem foi mais tranquila do que ela imaginou fora os gritos histéricos de Sasuke toda vez que ela freava com um pouco mais de brutalidade ou em algumas de suas tentativas bem sucedidas evitar que o carro morresse.

— Chegamos. – Disse satisfeita terminando de estacionar o carro com perfeição, quis dar um salto de felicidade era um grande feito quando olhou para Sasuke que tocava o próprio corpo apalpando o peito, pernas e braços.

— Estou vivo, eu acredito em milagres de agora em diante. – Ele disse em um tom sarcástico. – Meu padre da catequese ficaria orgulho de mim agora.

Sakura solto um riso seco.

— Engraçadinho, venha. – Ela desligou o carro.

“Ele hoje estava inspirado”.

— Eu posso ficar – ele abaixou a cabeça – não se preocupe.

— Sasuke eu o trouxe justamente para sair um pouco de casa, não quero deixa-lo. – Disse honestamente, soltando um suspiro o olhando de maneira gentil, virando o máximo que pode seu corpo na direção do carona.

— As pessoas me olham, e eu odeio isso. – Ele confessou por fim irritado. – Mesmo que eu não enxergue eu sinto e isso é suficiente. – Suas palavras carregavam frustração, Sakura ficou sem saber muito que fazer, não poderia mentir dizendo que as pessoas não olhavam, porque provavelmente sim, mas talvez não pelos motivos que ele pensasse, ponderou um pouco antes de dizer aquilo, talvez fosse se arrepender muito, mas disse.

— Talvez o olhem também pelo fato de você ser bonito... – Suas palavras saíram atropeladas uma atrás da outra, pode sentir o calor emanando de suas bochechas que coraram imediatamente, ele ficou quieto por alguns momentos refletindo sobre aquilo e sorriu seu típico sorriso de canto.

— Então você me acha bonito Haruno? – Ele sorriu de canto, mudando a expressão irritada para uma perversa e maliciosa.

“Droga, ele nunca vai deixa-la esquecer disso”.

— As pe-pessoas em geral d-devem achar. – Falei tentando desconversar, mas era tarde demais para isso, ele continuava com o mesmo sorriso nos lábios para seu terror. “Onde vou enfiar minha cara daqui por diante? Céus”.

— Não precisa ficar tímida Haruno. – Ele falava com a voz embarga “Droga” se ela não soubesse que era para provoca-la, mas não da maneira como ela gostaria seria difícil resistir à vontade de beija-lo.

— Nós temos que ir – sussurrei um pouco apreensiva – ou ficara muito tarde para o almoço.

— Tudo bem... – Ele sibilou as palavras tão suavemente quanto foi possível Sakura quis mata-lo ou morrer em seus braços, não pode deixar de dar uma generosa olhada.

— Eu sinto você me olhar. – Ele sibilou mais uma vez.

— Eu não estou te olhando. – Disse a jovem de olhos verdes cruzando os braços, ele tinha a capacidade de deixa-la desconcertada.

Era como um dom nato.

— Eu estou blefando. – Ele soltou um riso, Sakura revirou os olhos e lhe deu um leve tapa em seu ombro, fazendo-o gemer. – Vai mesmo bater em um homem cego?

— Se esse homem for você sim.

Sakura o ajudou a sair do carro e lhe deu o braço, a sensação de tê-lo tão junto e ainda assim estarem tão distantes era desconcertante, algumas pessoas olhavam, Sasuke estava de óculos escuros, Sakura em um movimento rápido tirou para indignação do moreno.

— Você não tem que se esconder usando isso.

— Você não pode me dizer o que fazer me devolva. – Sua voz era fria e autoritária, Sakura continuou com o pertence do rapaz na mão livre, relutante.

— Você é um rapaz com tanto tempo pela frente, você é bonito, tem uma mãe amorosa, sua vida não parou. – Sakura precisava dizer aquilo, Sasuke tinha qualidades extraordinárias escondidas por trás de uma amargura que não parecia ser típica dele.

Sasuke franziu o cenho claramente aborrecido.

— Você não sabe do que está falando – ele cuspia as palavras, ainda de braço dado a ela ambos emanavam uma corrente de raiva e negatividade pesada – você não passa de uma garotinha com um curso de enfermagem ridículo que vai ganhar a vida limpando bunda de velhos e cuidando de pessoas que não te suportam.

Sakura sentiu lágrimas invadirem suas esmeraldas, ele agiu de uma maneira desprezível, naquele momento podia jurar a quem fosse que não chorava pela maneira como ele falou ou pelas coisas ditas, e sim como ele descontava suas próprias frustrações nos outros sem se preocupar, ou melhor, com o desejo de ferir e magoar intencionalmente, ela queria solta-lo e ir embora, mas não podia.

— Você vai morrer sozinho. – Ela disse com os dentes semicerrados, entregando a ele seus óculos escuros, ele segurou com firmeza colocando-os novamente no rosto.

— É a intenção.

Depois disso nenhum dos dois disse mais nada, não somente ali no mercado, mas como também no caminho inteiro e comportavam-se como dois estranhos dentro do apartamento, Sakura falando o indispensável e Sasuke apenas acenando ou grunhindo palavras sem muito sentido que ela não se dava ao trabalho de interpretar, olhou para o relógio da cozinha – lugar onde passou a maior parte do dia – seu horário de ir embora 18h12mins, não sabia ao certo se sentia alívio por estar indo embora ou tristeza por ser daquele jeito.

— Tenho que me despedir dele. – Saiu da cozinha e pôde vê-lo deitado no sofá da sala, lia um livro, “Ser doente e ter dinheiro é outra história...” Sakura pensou com amargura, mesmo cego continuava com o privilégio da leitura já que tinha condições de ter acesso a livros em Braille.

Sakura aproximou-se do sofá ficando a centímetros do rapaz.

— Eu já vou. – Seu tom de voz era seco, Sasuke levantou subitamente, deixando-a desconcertada.

— Eu quero me desculpar. – O olhar de Sasuke era vago e perdido, ela soltou um suspiro pesado, não sabia o quão sinceras tinham sido suas palavras, mas afinal ele não tinha obrigação alguma de se desculpar, por fim deu de ombros.

— Você não tem que se desculpar você paga meu salário e eu faço meu trabalho. – Sakura disse ressentida e magoada, mesmo que não fosse sua intenção o magoou como há muito tempo ninguém o magoava e aquilo o desarmou completamente, ela tinha um poder incrível sob ele, um poder que nem mesmo ele tinha noção até aquele momento.

— E-Eu – ele tentava falar, mas era difícil, ele começava a perceber como havia sido infantil e babaca – não pago seu salário, minha mãe paga, você cuida de mim... – Disse com a voz embargada. Sakura virou-se para ele um pouco tocada. – Tão bem quanto ela... – Ele admitiu sem jeito, com sua face voltada para o chão.

“Droga... Olha o que ele faz com você garota”.

— Tudo bem Uchiha... – O que mais ela poderia dizer, seu coração estava magoado, mas não tinha direito de magoa-lo também e ela não foi exatamente justa ao dizer que ele morreria sozinho, naquele momento sentiu vergonha de si mesma por ter si cruel com ele.

— Não, não está e eu sei, não minta pra mim. – Sua voz era sexy e sombria, ele claramente estava arrependido.

— Nós dois podemos recomeçar então, eu não sei, mesmo que tenha sido para me defender, eu errei também. – E definitivamente não sabia como proceder já que tinha razões fortes para ficar magoada, mas sabia que isso não levaria ambos a lugar nenhum já que ela não podia simplesmente abandona-lo, porque deixa-lo era deixar o emprego.

1. Ela precisava do emprego.
2. Ela queria ficar perto dele.

“Mesmo ele sendo um completo babaca”.

Ela ponderou um pouco enquanto se aproximava dele e depositou em sua face alva um beijo doce e gentil que o fez sorrir e arregalar os olhos, ele não esperava por aquilo.

— Só seja bonzinho Uchiha... – Ela sussurrou.

— Eu lá tenho cara de cachorro?

— Não me faça responder. – Disse aos risos, enquanto se afastava indo na direção da porta. – Até amanhã Uchiha.