Notas iniciais
Boa leitura!
Ah, se já perdemos a noção da hora Se juntos já jogamos tudo fora Me conta agora como hei de partir Ah, se ao te conhecer Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios Rompi com o mundo, queimei meus navios Me diz pra onde é que inda posso ir Se nós nas travessuras das noites eternas Já confundimos tanto as nossas pernas Diz com que pernas eu devo seguir Se entornaste a nossa sorte pelo chão Se na bagunça do teu coração Meu sangue errou de veia e se perdeu Como, se na desordem do armário embutido Meu paletó enlaça o teu vestido E o meu sapato inda pisa no teu Como, se nos amamos feito dois pagãos Teus seios ainda estão nas minhas mãos Me explica com que cara eu vou sair Não, acho que estás te fazendo de tonta Te dei meus olhos pra tomares conta Agora conta como hei de partir.
German
De manhã, acordei com o telefone tocando, insistente. Primeiro foi o telefone de casa, que
irritado, tentei ignorar. Depois o celular. Parava e tocava de novo. Angie se remexeu e acordou,
virando-se sonolenta. Sabia que não podia ser do Hospital, pois o bip não tocou e não estava de
plantão naquele domingo. Sentei e atendi o celular sem nem olhar quem era.
– O que é? – Indaguei, irritado, ainda cheio de sono, esfregando o rosto.
– Cara, German, to te ligando desde ontem! Onde você se enfiou?
Fiquei imóvel, ouvindo a voz desesperada de Vítor. Não tive coragem de olhar para Angie ao
meu lado. A culpa veio mais forte, cercado pela voz do meu primo e por estar na cama com a mulher
que ele amava.
– Aconteceu alguma coisa? – Perguntei sério.
– Estou voltando hoje para o Brasil.
– Hoje? Mas não ia ficar o mês todo?
– Já resolvi os negócios da empresa. Sei que devia tirar umas férias, espairecer por aqui, mas
agora to desesperado com o que eu soube!
– O que foi?
– Isabel, a mãe da Angie, me ligou ontem à noite. Eu tinha pedido que ela me avisasse se
acontecesse alguma coisa. Não vai acreditar! Ela está com outro cara! Encontrou a porra do seu
príncipe encantado, por isso não quis mais ficar comigo!
Permaneci calado um momento, pesando suas palavras, seu tom de dor. Angie mexeu-se na
cama e se sentou, observando-me. Desde a noite anterior estava um clima estranho entre nós. Que só
piorava agora.
Corri os dedos entre os cabelos, cheio demais de remorsos para conseguir dizer algo. Vítor
nunca me perdoaria se descobrisse minha traição. Que por minha causa Angie o deixou, que fui seu
primeiro homem, quando era o que meu primo mais queria, e que estava apaixonada por mim. As
palavras dela na noite anterior não saíam da minha cabeça: “Eu te amo”.
– German, sei que vai dizer! Que tenho que me conformar, mas não posso entregar a mulher da
minha vida assim para qualquer babaca!
Eu voltei meus olhos para Angie. Estava bem acordada, cabelos espalhados pelos ombros nus,
segurando o lençol embaixo dos braços, recostada no espaldar da cama. Por um momento apenas a
fitei, algo forte dentro de mim pesando, ganhando força. Algo tão assustador que nem queria pensar.
Ao mesmo tempo, também senti outras coisas. O medo, por não saber lidar com os sentimentos dela.
E por acabar magoando meu irmão de alma. Senti-me um verdadeiro canalha por ter deixado as
coisas chegarem aquele ponto.
Seus olhos fixos nos meus pareciam ansiosos, sua postura tensa. Vítor continuou:
– Nada do que disser vai me impedir, German. Já estou no aeroporto. Não vou desistir da Angie.
– Não vou dizer nada. – Estava cansado. Sabia que teria decisões a tomar. Mas não podia
obrigar meu primo a nada.
– Você soube algo dela? A viu?
Eu olhava nos olhos de Angie. A tensão me deixava duro, com raiva de mim mesmo. Tudo que
falei foi:- Vítor, quando voltar, a gente conversa.
– Sabe de algo?
– Não.
– Cara, ta chateado por que não ouvi seu conselho e vou insistir, mas eu a amo demais! Não to
comendo nem dormindo direito. Preciso ao menos tentar. Olha, vou pegar o avião agora. Depois a
gente se fala.
Depois que Vítor desligou, larguei o celular na mesinha de cabeceira. Angie disse baixo:
– Ele está voltando.
– Está.
– Por quê?
– Por sua causa.
– Não acredito. Mas assim, de repente ...
– Sua mãe ligou para ele.
– O quê? – Arregalou os olhos, empalidecendo. – Mas ... Ela não podia ter feito isso! Não
aguento mais se metendo na minha vida desse jeito! Droga! Que droga!
Lembrei da noite anterior. Depois que terminamos de transar, quando a pus no chão e saí de
dentro dela, só podia ouvir sua declaração de amor ecoando em meus ouvidos. Mas eu não queria ser
amado. Gostar de mim, ter tesão, até se apaixonar momentaneamente eu até tolerava. Mas amor não.
Amor para mim era uma doença, que deixava pessoas normais capazes das maiores loucuras.
Eu tive vontade de mandá-la embora. De terminar tudo que tivemos, antes que se tornasse
incontrolável, que envolvesse outras pessoas, que me envolvesse. Tinha decidido anos atrás que não
casaria, não teria filhos, não seria nunca mais alvo de amores obsessivos. Dentro de mim um
pesadelo continuava, uma lembrança da dor que senti. Do desespero que presenciei. E se havia algo
na vida que me dava medo era aquilo.
Mas Angie tinha me olhado, talvez percebido o que me afligia, pois segurou meu braço e disse
com emoção e sinceridade:
– Isso não muda nada, German. Nosso acordo continua o mesmo. Um mês.
– Muda tudo, Angie.
– Mas você não sabia? Eu não disse que me encantei desde que vi sua foto?
Tínhamos ido até a sala, arrumando nossas roupas. Estávamos de pé na penumbra, fitando-nos
a poucos passos um do outro. Falei sério:
– Encantar, gostar, ficar. Não quero seu amor. Desde o início deixei isso claro. E agora ...
– O que você quer? Que eu finja? – Estava sendo franca, sem disfarçar ou jogar. Sem se
esconder.- Eu quero que não me ame.
Ela suspirou. Balançou a cabeça.
– Não entendo você. Parece decidido a afastar quem gosta de você de verdade. Mas está com
Fernanda até hoje. Me disse que a ama. E está mais do que claro que ela também ama você.
– É amizade.
– Amigos que transam? Então é isso? Você já a ama e por isso só se envolve com outras por
sexo?
– Fernanda não me cobra nada. Não me sufoca nem faz exigências. Nossa amizade é mais
forte que tudo. Você não entenderia. – Passei a mão pelo cabelo, sem saber por que me explicava
tanto. Era até simples. Toda vez que a coisa se complicava daquele jeito, eu pulava fora. Por que
agora estava sendo tão difícil?
Fitei-a. No fundo eu não queria que fosse ainda. Uma parte de mim tentava me convencer que
Angie não ficaria obcecada, que aceitaria o fim quando aquele mês terminasse. Podia esperar só mais
um pouco. Mas outra parte estava alerta, gritando para resolver aquilo antes que fosse tarde demais.
Angie me fitava e, sem uma palavra, começou a tirar o vestido. Ficou nua, apenas usando as
sandálias de salto alto, mais linda do que nunca banhada pela luz difusa que vinha de fora. Encurtou a
distância entre nós e sussurrou:
– Vamos para a cama. Se prefere assim, não falo mais sobre isso, German. – E me abraçou.
Quando deslizou a boca em meu queixo, até a minha, beijando-me, colando os seios em meus peito,
eu a agarrei forte. E me convenci que tudo estava sob controle. Mesmo com todas as dúvidas
gritando dentro de mim. E fomos para a cama.
Agora eu acordava com aquela notícia de Vítor. A voz de Angie penetrou minhas lembranças:
– O que faremos agora, German?
Naquela cama, onde eu a tive de noite e de madrugada, onde estávamos sentados agora, tomei
uma decisão. Olhei-a e estranhamente me acalmei. Até senti certo alívio, como se afastasse um
grande perigo de mim. Falei baixo, bem sério:
– Acabou, Angie.
Estava imobilizada. Seus olhos enormes no rosto pálido. Engoliu em seco, entendendo. Mas
buscando outra solução.
– Vítor vai entender que não há mais nenhuma chance.
– Vai. Mas até lá não vou olhar na cara dele, vendo-o sofrer por você e sabendo que
contribuo para esse sofrimento. Foi um erro desde o início, Angie. E a culpa foi toda minha.
– Que culpa? De nos desejarmos? – Inconformada, franziu o cenho, mordendo os lábios. –
Não estamos cometendo pecado nenhum.
– O que você sentiria se soubesse que está transando com o homem que Paola ama? Que vai
vê-la arrasada, tentando, enquanto você se farta na cama com ele? Poderia olhar nos olhos dela?
Angie ficou imobilizada, enfim entendendo. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Murmurou:
– Não é justo.
– Angie, começamos tudo errado. Ia acabar mesmo.
– Sabe que eu acho, German? Que o que eu disse ontem fez a diferença. Só esperava outra
desculpa para cair fora.
– Não preciso de desculpas, mas de fatos. Não sei lidar bem com a culpa e o remorso. – Fui
bem direto, sério, duro. – Acabou.
Ela me fitou um tempo, bem séria também. Então, vi sua expressão mudar. Não chorou nem
implorou. Afastou o lençol e se levantou, nua.
– Tudo bem, German. Eu entendi. – E se dirigiu à porta.
Não foi ao banheiro, nada. Simplesmente saiu do quarto. Ergui-me também, vesti a calça da
noite anterior que estava no chão e a segui. Na sala, já colocava o vestido e se sentava no sofá para
calçar as sandálias.
– Angie, use o banheiro. Vou me arrumar para te levar.
Ela me ignorou um minuto, até estar pronta. Pegou sua bolsa no sofá e se levantou. Só então
me encarou, tão séria e decidida que por um momento vacilei. Perdi o alívio, a certeza do que eu
fazia. Só o medo continuava lá, no mesmo lugar. Medo de ter me envolvido mais do que gostaria.
Desde o início ela me tocou mais do que as outras mulheres. E aquilo ainda não tinha acabado.
– Não precisa. Prefiro sair sozinha. – Ajeitou a bolsa no ombro. Por um momento, apenas nos
olhamos. E a emoção brilhou nos olhos dela, uma dor tão forte que quase desisti de tudo. Mas se
recuperou logo. – Não me arrependo de nada, German.
Se dirigiu à porta.
– Angie.
Mas ela não me ouviu. Apressou o passo e saiu. Quando a porta fechou, senti um baque por
dentro. Não me mexi, não pensei, não fiz nada além de sentir. O que mais me surpreendeu foi a
saudade, tão rápida se infiltrando em mim. Mesmo sem querer eu soube que também ainda a queria.
No entanto, tinha sido a melhor solução. A única possível.
Voltei ao quarto. E embora não estivesse mais com sono, caí na cama. Na hora fui envolvido
pelo cheiro de morango e fechei os olhos.
Notas finais
@WorldOfAlonsoBr @Violeteros_BR beijos Mari
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