Cuando te vi

51 Bolsa nas costas


Notas iniciais
Boa leitura!

Enquanto me reviro em meus lençóis E mais uma vez não consigo dormir Saio porta fora e subo a rua Olhar as estrelas sob os meus pés Recordar os justos que eu tratei injustamente Então aqui vou eu Olá, olá Não há nenhum lugar aonde não possa ir Minha mente está turva mas Meu coração é pesado, não se nota? Eu perco a trilha que me perde Então aqui vou eu (música same mistake)

Angie

Eu me sentia dopada. Andando pela rua da Barra vazia àquela hora da manhã de domingo, eu

não sabia para onde ia. Não tinha escovado os dentes, feito xixi ou lavado o rosto. Só seguia em

frente, sempre em frente. Sabendo que não tinham me dado escolha, que era obrigada a encarar uma

realidade que ainda não queria.

Não chorei. Nem pensei direito. Acho que se fizesse isso não conseguiria dar mais nenhum

passo. Que me encolheria em um canto. Olhei o mar do outro lado, senti a brisa que vinha de lá,

continuei perdida em meu caminho. Foram metros, quilômetros, até perceber que não aguentaria

mais. Então fiz sinal para um táxi que passava e dei o endereço de casa.

Mais tarde, lembrando daquele trajeto, não consegui me dar conta do que pensei. Só olhei

pela janela, a imagem de German fixa em minha mente, como um filme parado, estagnado. Paguei ao

taxista, desci, entrei em meu prédio e no meu apartamento silencioso. Agia como em piloto

automático. Primeiro as coisas de mais necessidade.

Fui fazer xixi, estava apertada. Tomei um banho, escovei os dentes, penteei meu cabelo. No

quarto, pus um short, uma camiseta, chinelos. Peguei uma mochila e joguei algumas roupas e objetos

dentro. Nem vi direito o que. Só então saí do quarto.

Minha mãe tinha acabado de levantar. Mesmo em casa, usava um belo robe de seda vermelho,

cabelo já arrumado, rosto levemente maquiado. Paramos no corredor e me olhou com aquela sua torção de boca e jeito de desagrado.

– Já vai sair de novo? Passa a noite fora e agora os dias também?

– A senhora conseguiu o que queria. Vou passar um tempo na casa de Paola. Quando precisar

de alguma coisa, venho aqui pegar. – Falei friamente. Já ia passar por ela, mas se meteu na minha

frente, sem poder esconder a surpresa.

– Do que está falando? Vai sair de casa?

– Casa? – Ri sem vontade. – Chama de casa esse campo de concentração? Um lugar onde sou

incomodada o tempo todo e não tenho paz? Onde a senhora age pelas minhas costas e se mete na

minha vida, como se tivesse esse direito?

– Ora, pare de drama! Eu só estou lutando por sua felicidade!

– Minha felicidade? Quem sabe disso sou eu. Está desesperada pois sempre achou que devia

me casar com um homem rico. Depositou todas as suas fichas nele. Só esqueceu uma coisa, perguntar

o que eu queria.

– E o que sabe da vida, Angie? Passava a maior parte do seu tempo lendo aquelas baboseiras e

agora ...

– A vida é minha! Errando ou acertando, faço minhas escolhas. – Falei irritada, bem séria,

encarando-a. – Sabe o que fez agora? Sentir mais raiva de Vítor! A cada vez que me empurra para

ele, que tenta me forçar, eu me afasto mais!

– Angie, escute com atenção ...

– Não quero ouvir mais nada. Estou saindo. E se as coisas não melhorarem aqui, se eu

continuar sendo desrespeitada, sem paz, sem escolha, vou alugar um apartamento para mim.

Ela não parecia acreditar. Pus a mochila no ombro e me afastei pelo corredor.

– Angie! Volte aqui, ainda não acabei de falar! Angeles!

Mas não a obedeci. Senti-me mais leve e liberta ao escapar de sua opressão.

– Que merda! – Exclamou Paola, ainda descabelada e limpando os olhos com as pontas dos

dedos. Eu a havia acordado e desabafado tudo. – cara, vontade de dar uma surra na Isabel e no Vítor!

E no German também!

– Sabe, eu até entendo como ele se sente. Tem amor pelos tios e por Vítor e uma dívida de

gratidão com eles, que o acolheram e o criaram. Falou hoje uma coisa que é verdade. Se fosse algo

assim entre mim e você, como eu me sentiria. Eu não poderia ser feliz fazendo você sofrer.

– É foda mesmo! Mas e você? Como fica agora?

– Sozinha. – Eu sentia algo horrível na minha garganta, como se um pedaço de osso estivesse cravado no meio dela, incomodando, dificultando engolir a saliva e respirar. O peito doía, pesado.

Tentava não me entregar, não pensar em tudo aquilo ou o quanto eu sentiria falta de German. Mas ficava

cada vez mais difícil ser forte.

– Se tua mãe não fosse fofoqueira tudo poderia se ajeitar. Porcaria! Quer dizer que aquele

chorão ta voltando para encher seu saco?

– O pior, Paola, é que sei que Vítor nem me ama de verdade. Só não está acostumado a tomar

um fora. Maldita a hora que não segui meu coração e fiquei com ele! Merda! Mil vezes merda!

– Eita! – Paola acabou rindo. – Calma, querida. Tudo vai se resolver.

E foi então, naquele momento, que a realidade veio feroz como um balde de água gelada

caindo de repente em cima de mim. Minha visão ficou turva pelas lágrimas e a dor foi tão intensa que

quase me curvei. Pensar que não veria mais German, que não o abraçaria, nem beijaria ou o teria dentro

de mim, tirou o meu ar. Eu ainda não estava preparada para perder o amor da minha vida.

– Angie ... – Paola sussurrou, com pena.

Não aguentei mais. Enfiei o rosto entre as mãos e comecei a soluçar. Paola me abraçou forte.

– Ah, meu bem, não fica assim. Com o tempo tudo se resolve, você vai ver ...

Mas não consegui parar de chorar. Por que era muita coisa contra, Vítor no caminho, a vida

de dominador de German, seu passado, Fernanda, tudo. E não bastava o meu amor para resolver tudo.

Chorei até ficar exausta, com dor de cabeça, nos braços de Paola. Eu seria forte. Mas depois.

Por enquanto, só queria morrer

Notas finais
Presentinho de natal. @WorldOfAlonsoBr @Violeteros_BR beijos Mari