Cuando te vi
63 Te amo
Notas iniciais
Boa leitura!
– Posso ir lá falar com ela?
Isabel arregalou os olhos. E concordou na mesma hora, parecendo até animada com asituação:– Mas é claro! É a última porta à direita do corredor.– Obrigado.Segui para lá, enquanto a senhora me olhava embasbacada. Parei em frente à porta e respireifundo. Bati na madeira. A voz dela veio abafada:– Estou deitada, mãe.Bati de novo.– Mãe, por favor ...– Angie, sou eu.Silêncio. Esperei, ansioso, mão apoiada no batente. Quando não abriu nem respondeu, testei amaçaneta. A porta cedeu e entrei, fechando-a atrás de mim. Usando uma camisola de algodão cor-derosa,os cabelos soltos espalhados pelos ombros e com os olhos arregalados, ela estava sentada nabeira da cama, iluminada apenas por um pequeno abajur. Levantou-se na hora.– O que está fazendo aqui?– Vim conversar com você. – Não tirei os olhos dos dela. Meu coração batia loucamente.Sentia as mãos suadas.– Não quero falar nada com você. – Recuperou-se do susto e ergueu o queixo. Tentou ser fria,mas a voz saiu tremida, magoada.– Por que saiu do restaurante daquele jeito? – Dei uns passos para frente.– German, eu já disse que não quero falar com você. Por favor, saia do meu quarto.– Eu não saio até conversarmos. – Parei a um palmo de distância e Angie me olhava, apertandoos lábios. Percebi a mágoa em seu olhar e respirei fundo. – Olha, me escute ...– Não quero! Quero que saia daqui! – Gritou, sem que eu esperasse, expondo seu sofrimento,seus olhos cheios de lágrimas. – Será que nem aqui você respeita?– Mas eu respeito você. Sempre fui sincero. – Ia passar por mim, mas segurei seus doisbraços, nervoso, querendo que me escutasse antes que eu perdesse a coragem.– Me larga! – Ela se debateu, irritada. Por fim parou e respirou fundo. Seus olhos encararamos meus, o queixo erguido. Dava para sentir seus tremores. – O que você quer?– Conversar. – Falei baixo.– Então fale de uma vez!Não estava sendo como eu pensara. Comecei a ficar cada vez mais ansioso, ao perceber queestava diferente, fechada, distante. Resolvi ir em partes.– Por que foi embora do restaurante?– Devia perguntar isso à sua amiga.– O que Fernanda fez?– Pode me soltar? – Sua voz raivosa me fez largar seus braços. Deu-me as costas e foi até amesinha do computador. Pegou seu celular e se virou de novo para mim, fitando-me. – Primeiro elame mandou um vídeo. Depois me convidou para transar com você e ela. E então me disse que vocêera dela e que eu devia ficar longe. Se não me engano, foi nessa ordem.Mantive-me imóvel, surpreso, sentindo a irritação tomar conta de mim. Tinha percebidoFernanda diferente desde que Angie entrou na minha vida. E então entendi que isso se devia por quesentiu que era importante para mim. Não havia se metido antes pois nunca correu o risco de meperder. Mas agora havia ido longe demais.– Que vídeo? – Perguntei baixo.– Veja você mesmo. – Angie me entregou o celular, onde já passava o filme. Reconheci deimediato minha transa com Fernanda e Adriana no clube. Não precisei ver tudo. Desliguei, tomadopela raiva. E por outros sentimentos igualmente nefastos. Quando ergui o olhar, falei: — Eu não sabiaque tinha filmado.Angie pegou o celular e jogou-o na mesa.– Esse sou eu, Angie. Foi o que fiz minha vida inteira. – Não sentia orgulho daquilo. Pelaprimeira vez senti algo semelhante à vergonha. Não pelo sexo em si. Mas pela frieza e agressividadede atos totalmente sem emoção. Ainda mais depois do que tivemos juntos.– Você dizia isso. Mas só depois que vi esse vídeo consegui compreender. – Seu olhar era demágoa, de decepção.O que eu temia estava acontecendo. Angie estava me vendo pela primeira vez como eurealmente era. E ficando horrorizada. O medo veio voraz e, sem poder me controlar, faleiacusadoramente:– Você disse que me amava.Quando não respondeu, foi como tomar um soco violento. Acho que nunca pensei napossibilidade dela não gostar mais de mim, de não me aceitar. Estava paralisado, nervoso, sem sabercomo agir.– Por que não volta para Fernanda, German? Deu pra ver que vocês se dão muito bem juntos.Não entendo o que veio fazer aqui.Aproximei-me e parei bem à sua frente, fitando-a dentro dos olhos. Indaguei baixo:– Você me ama?Ficou quieta, mais séria do que alguma vez a vi na vida. O terror começou a circular dentro de mim, deixando-me gelado. Esperei sua resposta, mal ousando respirar.– Não sei. – Murmurou. Como não conseguia disfarçar os sentimentos, eu podia ver o quantoestava magoada, com raiva, decepcionada. – Mas o que isso importa agora, German?– Importa para mim. – Passei os dedos entre os cabelos, com muita vontade de puxá-la parameus braços, beijá-la, fazer com que dissesse que me amava. Mas naquele momento qualquer atodesses seria pior.– Você tem sua vida, seus desejos e Fernanda. Treze anos juntos. Vocês se amam. Acho que já
entendi tudo.– Não, Angie, não entendeu. Fernanda foi uma amiga, uma companheira com mesmos gostos queeu, uma pessoa que me conhece pelo avesso, que sabe tudo sobre mim. Mas nunca senti por ela o quesinto por você.Angie engoliu em seco, imobilizada, ouvindo. Tentei criar coragem e prossegui baixinho:– Sempre foi diferente, desde a primeira vez que vi você. Eu tentei lutar, tentei recuperarminha vida de antes, mas ... Senti sua falta.Sem poder resistir, ergui a mão e acariciei sua face. Ana respirava irregularmente, seus olhosficando marejados, muito quieta.– E hoje percebi que não consigo mais lutar, Angie. Preciso de você.Ela mordeu o lábio. Estava abalada, mas contida, perturbada. Balançou a cabeça.– Não é o bastante, German.– Olhe para mim. – Segurei seu rosto entre as mãos e senti aquele cheirinho de morango queme acompanhou cada um daqueles dias. Quando fixei seus olhos castanhos claros, percebi que estavamuito perto de perdê-la de vez. O desespero foi tanto que criei coragem e, pela primeira vez na vida,disse a uma mulher: — Eu amo você.Saiu baixo e rouco. Ficou muito quieta, me fitando, mas tremia.– Não ama ... – Murmurou.– Amo. – Afirmei seguro, passando os polegares em suas faces, cheio de emoções violentasdentro de mim, mas tentando me manter controlado. – Eu te amo, Angie.Seus olhos se encheram de lágrimas. Então se afastou de mim, deu-me as costas enxugandoas,caminhando até o meio do quarto. Sua voz parecia de uma pessoa cansada:– Sonhei tanto com o dia que me diria isso. Parecia impossível. – Quando se sentiu maispreparada, se voltou para mim e percebi que estava perdido. – Mas hoje me sinto tão magoada, tãoarrasada com tudo. Aquela mulher ... Fez parecer tão sujo. E o vídeo, o modo como bateu nelas e feztudo aquilo ... Meu Deus, German, isso não é pra mim ...– Você não entende, aquilo foi sexo pesado, BDSM, coisas que tanto eu quanto elas jáfizemos. É diferente do que tive com você. Sabe que gostou do que fizemos, Angie. Sempre me controlei com você até onde sabia que ia aguentar.– Eu ficava assustada e excitada, dividida, mas agora sinto outras coisas. Tenho medo que umdia não se controle. E também ... Não sei o que sinto agora. Tenho raiva, ciúme e repulsa.– Angie ... – Com o desespero crescendo dentro de mim, dei dois passos em sua direção, massuas palavras me pararam:– Eu não quero mais. Preciso de um tempo. Preciso esquecer a raiva que estou de você edaquela mulher. Por que nesse momento eu estou com tanto ódio, German, que minha vontade é de meafastar de tudo isso e nunca mais ver você!– Vai ser diferente, Angie. Vou deixar de ir ao clube. Vou romper com Fernanda. Podemosconversar e ...– Não. – Sacudiu a cabeça. Embora lágrimas não parassem de surgir em seus olhos, Angie aslimpava e continuava firme. – Agora, não.Eu queria insistir. Queria agarrá-la, beijá-la, fazê-la minha, tão excitada e cheia de prazer quedissesse sim para tudo. Mas havia algo tão dolorido em tudo aquilo, tão duro de aguentar, que fiqueiapenas parado, sem conseguir aceitar que estava muito perto de perdê-la. E tive ódio de mim mesmo,pois era culpa minha.– Quando, Angie? – Foi tudo o que perguntei, uma dor estranha e pungente dilacerando o meupeito.– Não sei. – E estava sendo sincera.O que eu poderia fazer naquele momento além de dar o tempo que ela precisava? E mesmoassim não havia garantia de nada.Apenas nos olhamos. Havia uma distância enorme entre nós naquele momento. Culpa e dorme consumiram. Entendi o que era sofrer por uma pessoa, como ela devia ter ficado quando termineitudo em meu apartamento e quando deixei claro que não a queria também no carro.– Tudo bem. Eu vou embora. – Finalmente falei, mas continuei travado, sem poder tirar osolhos dela.Concordou com a cabeça, exausta. Criei coragem. Mas antes de sair, fui até ela e a abracei,beijando seu cabelo, fechando os olhos e murmurando cheio de emoções mal contidas:– Vou esperar você, Angie. Pelo tempo que for preciso.E só então saí. Arrasado, querendo ficar. Mas saí.Dirigi direto ao apartamento de Fernanda. Todos na portaria me conheciam e tinham ordensde me deixar subir direto. Quando toquei a campainha e atendeu, usando apenas um roupão negro, eujá estava mais do que furioso. Abriu a porta e me deu passagem, conhecendo-me o bastante para não tentar arrumar desculpas. Me seguiu até a sala e disse logo:– Ela te falou do vídeo.– Por que nos filmou? Com o objetivo de mandar a Angie? – Minha voz estava gelada, mas araiva me consumia.– Pedi uma amiga lá para filmar, por que gosto de rever nossas cenas. – Foi até o bar e seserviu de uma dose de uísque. – Mas também pensei nessa possibilidade. Essa garota precisavasaber o que somos de verdade. Quando vi o modo que ficou no restaurante e foi dançar com ela,peguei o número de Angeles no seu celular.– Esse era um lado seu que eu não conhecia.– Que lado, German? – Virou-se para mim com as bochechas vermelhas, os olhos brilhando depura raiva e ciúme. Parecia irreconhecível, outra pessoa. – De uma mulher que faz tudo pelo homemque ama?– Explique esse amor pra mim, Fernanda. – Estava bem frio, quase sem piscar.Tomou o uísque de uma vez e bateu com o copo no tampo do bar. Seu jeito, seu olhar, aenergia que vinha dela me lembrou muito outra pessoa, outra época. Angélica. Costumava se portardaquela maneira. E então entendi o quanto fui idiota aquele tempo todo, me agarrando em uma falsasegurança com Fernanda. Parecia o tipo de mulher que nunca se tornaria obsessiva, uma amiga paratoda hora e uma amante tão apaixonada e liberal quanto eu. Mas agora eu via o que foi aquele tempotodo. Uma mulher que esperou pacientemente que eu me tocasse de que era única para mim. Quesempre escondeu o amor e o ciúme, pois nunca se sentiu ameaçada.– Preciso explicar? Sou a mulher perfeita para você, João. Desde que éramos adolescentes eficamos juntos, eu soube disso. Sabe por que fiz Medicina? Para estudar com você, passar maistempo em sua companhia. Dermatologista não me exigiu tanto assim e tenho passado cada vez maistempo como administradora do clube do que como médica.Andou pela sala, aparentemente relaxada, mas muito atenta, ligada. Então parou, observandomemais de perto. Parecia quase orgulhosa das coisas que falava:– Fui trabalhar no mesmo hospital que você. Te dei todas as chances para que percebesse oquanto eu era primordial na sua vida. Fora o sexo, onde sempre fomos perfeitos. O que mais vocêqueria, German ? Aquela coisinha sem graça e baunilha? Pelo amor de Deus, não vê que essagarota não é nada perante tudo que temos? – Ficava cada vez mais nervosa, alterada. Foi seaproximando de mim, seus olhos brilhando estranhamente. Parecia outra pessoa. – Eu só quis teproteger de sofrimentos futuros, meu Lorde. Como sempre fiz.A fúria com que cheguei ali agora dividia espaço com outros dois sentimentos: a aversão e apena. Fernanda parecia uma louca, fora de si. Parou à minha frente, sem disfarçar mais nada.– Então convivi treze anos com uma estranha. Por que todo esse teatro?– Eu sabia como você era. Se eu me declarasse, se soubesse que eu o esperava, ia cair fora,como fez com as outras.– E agora, Fernanda?– Eu tive que me expor! Não vê? Por sua causa. Para afastar aquela mulher que só te fariasofrer!Todo o medo que tive desde que minha mãe se matou e que só se fortaleceu com a morte deAngélica, retornou agora. Medo de ser alvo de mais uma louca. De ser tão amado obsessivamenteque isso acabasse destruindo a vida de uma das pessoas envolvidas ou de ambas. E agora, eu temiatambém por Angie.– Diga que me entende. – Implorou e caiu de joelhos na minha frente, abrindo o roupão edeixando-o ir ao chão, ficando nua. – Sou sua submissa perfeita. Se está com raiva, furioso, pode mecastigar. Pode fazer tudo o que quiser comigo.– Levante-se, Fernanda.– Mas eu ...– Levante-se!Ela obedeceu imediatamente, mas continuou nua. Fui o mais claro possível:– Os jogos acabaram. Tudo acabou. E vou falar só uma vez, para que entenda. Sabe da minhahistória toda, meus pontos fracos, como me atingir. Mas escute bem: Não vou cair em chantagensemocionais. Não vou correr quando tiver uma de suas crises e me chamar. Nem transar mais comvocê.– Como pode dizer isso? Somos um só, meu amigo, como gêmeos siameses. – Apesar de tudo,
sorriu. – Tudo bem, entendo sua confusão agora. Mas vai passar. E quando entender que essa guriaridícula não é mulher para você, vai voltar para mim.Eu tinha duas opções: Deixá-la acreditar naquilo, o que a faria se manter longe por um tempo,esperando pacientemente enquanto eu buscava um modo de neutralizá-la; Ou bater diretamente defrente e provocar seu ódio, que poderia se voltar contra Angie ou contra si mesma, tentando me atingircom mais um suicídio.Engoli minha raiva, minha vontade de dizer tudo o que eu pensava, minha decepção.– Fique longe, Fernanda.E sem mais o que poder dizer, caminhei para a porta. Antes de sair, eu a ouvi murmurar:– Eu sei esperar, meu amor.
Notas finais
@WorldOfAlonsoBr @Violeteros_BR beijos Mari
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