Notas iniciais
Boa leitura!

– Posso ir lá falar com ela?

Isabel arregalou os olhos. E concordou na mesma hora, parecendo até animada com a

situação:

– Mas é claro! É a última porta à direita do corredor.

– Obrigado.

Segui para lá, enquanto a senhora me olhava embasbacada. Parei em frente à porta e respirei

fundo. Bati na madeira. A voz dela veio abafada:

– Estou deitada, mãe.

Bati de novo.

– Mãe, por favor ...

– Angie, sou eu.

Silêncio. Esperei, ansioso, mão apoiada no batente. Quando não abriu nem respondeu, testei a

maçaneta. A porta cedeu e entrei, fechando-a atrás de mim. Usando uma camisola de algodão cor-derosa,

os cabelos soltos espalhados pelos ombros e com os olhos arregalados, ela estava sentada na

beira da cama, iluminada apenas por um pequeno abajur. Levantou-se na hora.

– O que está fazendo aqui?

– Vim conversar com você. – Não tirei os olhos dos dela. Meu coração batia loucamente.

Sentia as mãos suadas.

– Não quero falar nada com você. – Recuperou-se do susto e ergueu o queixo. Tentou ser fria,

mas a voz saiu tremida, magoada.

– Por que saiu do restaurante daquele jeito? – Dei uns passos para frente.

– German, eu já disse que não quero falar com você. Por favor, saia do meu quarto.

– Eu não saio até conversarmos. – Parei a um palmo de distância e Angie me olhava, apertando

os lábios. Percebi a mágoa em seu olhar e respirei fundo. – Olha, me escute ...

– Não quero! Quero que saia daqui! – Gritou, sem que eu esperasse, expondo seu sofrimento,

seus olhos cheios de lágrimas. – Será que nem aqui você respeita?

– Mas eu respeito você. Sempre fui sincero. – Ia passar por mim, mas segurei seus dois

braços, nervoso, querendo que me escutasse antes que eu perdesse a coragem.

– Me larga! – Ela se debateu, irritada. Por fim parou e respirou fundo. Seus olhos encararam

os meus, o queixo erguido. Dava para sentir seus tremores. – O que você quer?

– Conversar. – Falei baixo.

– Então fale de uma vez!

Não estava sendo como eu pensara. Comecei a ficar cada vez mais ansioso, ao perceber que

estava diferente, fechada, distante. Resolvi ir em partes.

– Por que foi embora do restaurante?

– Devia perguntar isso à sua amiga.

– O que Fernanda fez?

– Pode me soltar? – Sua voz raivosa me fez largar seus braços. Deu-me as costas e foi até a

mesinha do computador. Pegou seu celular e se virou de novo para mim, fitando-me. – Primeiro ela

me mandou um vídeo. Depois me convidou para transar com você e ela. E então me disse que você

era dela e que eu devia ficar longe. Se não me engano, foi nessa ordem.

Mantive-me imóvel, surpreso, sentindo a irritação tomar conta de mim. Tinha percebido

Fernanda diferente desde que Angie entrou na minha vida. E então entendi que isso se devia por que

sentiu que era importante para mim. Não havia se metido antes pois nunca correu o risco de me

perder. Mas agora havia ido longe demais.

– Que vídeo? – Perguntei baixo.

– Veja você mesmo. – Angie me entregou o celular, onde já passava o filme. Reconheci de

imediato minha transa com Fernanda e Adriana no clube. Não precisei ver tudo. Desliguei, tomado

pela raiva. E por outros sentimentos igualmente nefastos. Quando ergui o olhar, falei: — Eu não sabia

que tinha filmado.

Angie pegou o celular e jogou-o na mesa.

– Esse sou eu, Angie. Foi o que fiz minha vida inteira. – Não sentia orgulho daquilo. Pela

primeira vez senti algo semelhante à vergonha. Não pelo sexo em si. Mas pela frieza e agressividade

de atos totalmente sem emoção. Ainda mais depois do que tivemos juntos.

– Você dizia isso. Mas só depois que vi esse vídeo consegui compreender. – Seu olhar era de

mágoa, de decepção.

O que eu temia estava acontecendo. Angie estava me vendo pela primeira vez como eu

realmente era. E ficando horrorizada. O medo veio voraz e, sem poder me controlar, falei

acusadoramente:

– Você disse que me amava.

Quando não respondeu, foi como tomar um soco violento. Acho que nunca pensei na

possibilidade dela não gostar mais de mim, de não me aceitar. Estava paralisado, nervoso, sem saber

como agir.

– Por que não volta para Fernanda, German? Deu pra ver que vocês se dão muito bem juntos.

Não entendo o que veio fazer aqui.

Aproximei-me e parei bem à sua frente, fitando-a dentro dos olhos. Indaguei baixo:

– Você me ama?

Ficou quieta, mais séria do que alguma vez a vi na vida. O terror começou a circular dentro de mim, deixando-me gelado. Esperei sua resposta, mal ousando respirar.

– Não sei. – Murmurou. Como não conseguia disfarçar os sentimentos, eu podia ver o quanto

estava magoada, com raiva, decepcionada. – Mas o que isso importa agora, German?

– Importa para mim. – Passei os dedos entre os cabelos, com muita vontade de puxá-la para

meus braços, beijá-la, fazer com que dissesse que me amava. Mas naquele momento qualquer ato

desses seria pior.

– Você tem sua vida, seus desejos e Fernanda. Treze anos juntos. Vocês se amam. Acho que já

entendi tudo.

– Não, Angie, não entendeu. Fernanda foi uma amiga, uma companheira com mesmos gostos que

eu, uma pessoa que me conhece pelo avesso, que sabe tudo sobre mim. Mas nunca senti por ela o que

sinto por você.

Angie engoliu em seco, imobilizada, ouvindo. Tentei criar coragem e prossegui baixinho:

– Sempre foi diferente, desde a primeira vez que vi você. Eu tentei lutar, tentei recuperar

minha vida de antes, mas ... Senti sua falta.

Sem poder resistir, ergui a mão e acariciei sua face. Ana respirava irregularmente, seus olhos

ficando marejados, muito quieta.

– E hoje percebi que não consigo mais lutar, Angie. Preciso de você.

Ela mordeu o lábio. Estava abalada, mas contida, perturbada. Balançou a cabeça.

– Não é o bastante, German.

– Olhe para mim. – Segurei seu rosto entre as mãos e senti aquele cheirinho de morango que

me acompanhou cada um daqueles dias. Quando fixei seus olhos castanhos claros, percebi que estava

muito perto de perdê-la de vez. O desespero foi tanto que criei coragem e, pela primeira vez na vida,

disse a uma mulher: — Eu amo você.

Saiu baixo e rouco. Ficou muito quieta, me fitando, mas tremia.

– Não ama ... – Murmurou.

– Amo. – Afirmei seguro, passando os polegares em suas faces, cheio de emoções violentas

dentro de mim, mas tentando me manter controlado. – Eu te amo, Angie.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Então se afastou de mim, deu-me as costas enxugandoas,

caminhando até o meio do quarto. Sua voz parecia de uma pessoa cansada:

– Sonhei tanto com o dia que me diria isso. Parecia impossível. – Quando se sentiu mais

preparada, se voltou para mim e percebi que estava perdido. – Mas hoje me sinto tão magoada, tão

arrasada com tudo. Aquela mulher ... Fez parecer tão sujo. E o vídeo, o modo como bateu nelas e fez

tudo aquilo ... Meu Deus, German, isso não é pra mim ...

– Você não entende, aquilo foi sexo pesado, BDSM, coisas que tanto eu quanto elas já

fizemos. É diferente do que tive com você. Sabe que gostou do que fizemos, Angie. Sempre me controlei com você até onde sabia que ia aguentar.

– Eu ficava assustada e excitada, dividida, mas agora sinto outras coisas. Tenho medo que um

dia não se controle. E também ... Não sei o que sinto agora. Tenho raiva, ciúme e repulsa.

– Angie ... – Com o desespero crescendo dentro de mim, dei dois passos em sua direção, mas

suas palavras me pararam:

– Eu não quero mais. Preciso de um tempo. Preciso esquecer a raiva que estou de você e

daquela mulher. Por que nesse momento eu estou com tanto ódio, German, que minha vontade é de me

afastar de tudo isso e nunca mais ver você!

– Vai ser diferente, Angie. Vou deixar de ir ao clube. Vou romper com Fernanda. Podemos

conversar e ...

– Não. – Sacudiu a cabeça. Embora lágrimas não parassem de surgir em seus olhos, Angie as

limpava e continuava firme. – Agora, não.

Eu queria insistir. Queria agarrá-la, beijá-la, fazê-la minha, tão excitada e cheia de prazer que

dissesse sim para tudo. Mas havia algo tão dolorido em tudo aquilo, tão duro de aguentar, que fiquei

apenas parado, sem conseguir aceitar que estava muito perto de perdê-la. E tive ódio de mim mesmo,

pois era culpa minha.

– Quando, Angie? – Foi tudo o que perguntei, uma dor estranha e pungente dilacerando o meu

peito.

– Não sei. – E estava sendo sincera.

O que eu poderia fazer naquele momento além de dar o tempo que ela precisava? E mesmo

assim não havia garantia de nada.

Apenas nos olhamos. Havia uma distância enorme entre nós naquele momento. Culpa e dor

me consumiram. Entendi o que era sofrer por uma pessoa, como ela devia ter ficado quando terminei

tudo em meu apartamento e quando deixei claro que não a queria também no carro.

– Tudo bem. Eu vou embora. – Finalmente falei, mas continuei travado, sem poder tirar os

olhos dela.

Concordou com a cabeça, exausta. Criei coragem. Mas antes de sair, fui até ela e a abracei,

beijando seu cabelo, fechando os olhos e murmurando cheio de emoções mal contidas:

– Vou esperar você, Angie. Pelo tempo que for preciso.

E só então saí. Arrasado, querendo ficar. Mas saí.

Dirigi direto ao apartamento de Fernanda. Todos na portaria me conheciam e tinham ordens

de me deixar subir direto. Quando toquei a campainha e atendeu, usando apenas um roupão negro, eu

já estava mais do que furioso. Abriu a porta e me deu passagem, conhecendo-me o bastante para não tentar arrumar desculpas. Me seguiu até a sala e disse logo:

– Ela te falou do vídeo.

– Por que nos filmou? Com o objetivo de mandar a Angie? – Minha voz estava gelada, mas a

raiva me consumia.

– Pedi uma amiga lá para filmar, por que gosto de rever nossas cenas. – Foi até o bar e se

serviu de uma dose de uísque. – Mas também pensei nessa possibilidade. Essa garota precisava

saber o que somos de verdade. Quando vi o modo que ficou no restaurante e foi dançar com ela,

peguei o número de Angeles no seu celular.

– Esse era um lado seu que eu não conhecia.

– Que lado, German? – Virou-se para mim com as bochechas vermelhas, os olhos brilhando de

pura raiva e ciúme. Parecia irreconhecível, outra pessoa. – De uma mulher que faz tudo pelo homem

que ama?

– Explique esse amor pra mim, Fernanda. – Estava bem frio, quase sem piscar.

Tomou o uísque de uma vez e bateu com o copo no tampo do bar. Seu jeito, seu olhar, a

energia que vinha dela me lembrou muito outra pessoa, outra época. Angélica. Costumava se portar

daquela maneira. E então entendi o quanto fui idiota aquele tempo todo, me agarrando em uma falsa

segurança com Fernanda. Parecia o tipo de mulher que nunca se tornaria obsessiva, uma amiga para

toda hora e uma amante tão apaixonada e liberal quanto eu. Mas agora eu via o que foi aquele tempo

todo. Uma mulher que esperou pacientemente que eu me tocasse de que era única para mim. Que

sempre escondeu o amor e o ciúme, pois nunca se sentiu ameaçada.

– Preciso explicar? Sou a mulher perfeita para você, João. Desde que éramos adolescentes e

ficamos juntos, eu soube disso. Sabe por que fiz Medicina? Para estudar com você, passar mais

tempo em sua companhia. Dermatologista não me exigiu tanto assim e tenho passado cada vez mais

tempo como administradora do clube do que como médica.

Andou pela sala, aparentemente relaxada, mas muito atenta, ligada. Então parou, observandome

mais de perto. Parecia quase orgulhosa das coisas que falava:

– Fui trabalhar no mesmo hospital que você. Te dei todas as chances para que percebesse o

quanto eu era primordial na sua vida. Fora o sexo, onde sempre fomos perfeitos. O que mais você

queria, German ? Aquela coisinha sem graça e baunilha? Pelo amor de Deus, não vê que essa

garota não é nada perante tudo que temos? – Ficava cada vez mais nervosa, alterada. Foi se

aproximando de mim, seus olhos brilhando estranhamente. Parecia outra pessoa. – Eu só quis te

proteger de sofrimentos futuros, meu Lorde. Como sempre fiz.

A fúria com que cheguei ali agora dividia espaço com outros dois sentimentos: a aversão e a

pena. Fernanda parecia uma louca, fora de si. Parou à minha frente, sem disfarçar mais nada.

– Então convivi treze anos com uma estranha. Por que todo esse teatro?

– Eu sabia como você era. Se eu me declarasse, se soubesse que eu o esperava, ia cair fora,

como fez com as outras.

– E agora, Fernanda?

– Eu tive que me expor! Não vê? Por sua causa. Para afastar aquela mulher que só te faria

sofrer!

Todo o medo que tive desde que minha mãe se matou e que só se fortaleceu com a morte de

Angélica, retornou agora. Medo de ser alvo de mais uma louca. De ser tão amado obsessivamente

que isso acabasse destruindo a vida de uma das pessoas envolvidas ou de ambas. E agora, eu temia

também por Angie.

– Diga que me entende. – Implorou e caiu de joelhos na minha frente, abrindo o roupão e

deixando-o ir ao chão, ficando nua. – Sou sua submissa perfeita. Se está com raiva, furioso, pode me

castigar. Pode fazer tudo o que quiser comigo.

– Levante-se, Fernanda.

– Mas eu ...

– Levante-se!

Ela obedeceu imediatamente, mas continuou nua. Fui o mais claro possível:

– Os jogos acabaram. Tudo acabou. E vou falar só uma vez, para que entenda. Sabe da minha

história toda, meus pontos fracos, como me atingir. Mas escute bem: Não vou cair em chantagens

emocionais. Não vou correr quando tiver uma de suas crises e me chamar. Nem transar mais com

você.

– Como pode dizer isso? Somos um só, meu amigo, como gêmeos siameses. – Apesar de tudo,

sorriu. – Tudo bem, entendo sua confusão agora. Mas vai passar. E quando entender que essa guria

ridícula não é mulher para você, vai voltar para mim.

Eu tinha duas opções: Deixá-la acreditar naquilo, o que a faria se manter longe por um tempo,

esperando pacientemente enquanto eu buscava um modo de neutralizá-la; Ou bater diretamente de

frente e provocar seu ódio, que poderia se voltar contra Angie ou contra si mesma, tentando me atingir

com mais um suicídio.

Engoli minha raiva, minha vontade de dizer tudo o que eu pensava, minha decepção.

– Fique longe, Fernanda.

E sem mais o que poder dizer, caminhei para a porta. Antes de sair, eu a ouvi murmurar:

– Eu sei esperar, meu amor.

Notas finais
@WorldOfAlonsoBr @Violeteros_BR beijos Mari