Cuando te vi
29 Passado Parte 2
Notas iniciais
Boa leitura!
Lutei com todo empenho, usando cada golpe conhecido, desde cabeçada a cotovelada. No
final, eu com doze anos tinha recebido uns socos, estava machucado, mas não deixei que meestuprasse. Com um golpe certeiro na glote do homem, que o fez perder o ar e cair no chão, eu oenchi de socos, chutes, pisões, até deixá-lo gemendo de dor no chão. E foi ali, cheio de ódio, a pontode matar o desgraçado, que tomei uma decisão.Troquei de roupa, liguei para meus tios e saí de casa, deixando um bilhete para minha mãe.Meu tio veio me buscar e eu o esperava no portão. Dali me levou direto ao hospital, onde levei umasutura no supercílio aberto que sangrava e fui examinado, mas felizmente não havia nada quebrado.Quando me levou para a casa dele, minha tia me esperava desesperada. Perguntei a ambos se podiaficar com eles e é claro que aceitaram.Minha mãe só sentiu minha falta no final da tarde seguinte. Veio correndo me buscar einformei que não voltaria mais. Ela chorou, implorou, fez ameaças de se matar, mas me mantivefirme. Um processo judicial se iniciou. Eu aceitava suas visitas, tratava-a com o mesmo amor. Nuncaa acusei pelo fato daquele homem quase ter me estuprado. Aquilo se tornou uma página virada emminha vida. Dediquei-me aos estudos e em me tornar um homem digno, como meu tio.Foram meses difíceis. Minha mãe tentou de tudo e, quando notou minha determinação, passoua beber mais e ficar depressiva. Eu não a abandonei. Ia visitá-la, tentava animá-la, mas não voltavapara casa de jeito nenhum. Nem quando chorava dizendo que sem meu pai e sem mim não tinha razãode viver. Numa dessas vezes, pouco antes que eu fizesse treze anos, ela foi encontrada morta em seuquarto, depois de consumir um vidro de comprimidos junto com vodka. Ao seu lado, apenas umbilhete dizendo o quanto me amava. Um bilhete que eu guardava até hoje.Precisei de muita ajuda e terapia para enfrentar aquela fase. A culpa foi minha fielcompanheira, embora conscientemente eu soubesse que era praticamente uma criança e ela umaadulta, que a culpa não era minha, mesmo assim a senti de forma profunda e dolorida.Nunca dei trabalho aos meus tios. Dediquei-me com afinco aos estudos e recuperei o tempoperdido, sendo sempre o melhor da turma, lendo muito, aprendendo. Fui educado, cuidado e amadopor eles. Vítor se tornou meu melhor amigo, meu irmão. Ali decidi ser um homem de bem,responsável e digno. E usei meu temperamento agressivo e autoritário para crescer como pessoa e navida profissional, focalizando ali minhas energias, ajudando a gastá-las em esportes radicais e lutas.Comecei a sair com garotas e sempre havia um bando perto de mim. Aprendi que minhaaparência as atraía, mas era meu jeito fechado, duro, que as encantava mais. Transei com várias,experimentei com elas desejos secretos meus, mas sempre tive medo de libertar a fera dentro de mim ficar como meus pais, dependente dela. Contive a maior parte desses desejos de dominação. Eraduro, forte, mas sempre controlado. Uma parte minha, que ficava naquelas festas aguardando osmomentos mais pesados, passou a ser um segredo meu. Que crescia, mas eu tentava conter. Atéconhecer Fernanda.Eu tinha dezessete anos quando ela entrou na escola e foi da minha sala n o último ano letivo.No primeiro dia se aproximou de mim e puxou conversa. No segundo dia já estávamos juntosdescobrindo que ambos queríamos fazer Medicina. Nosso temperamento e gosto eram parecidos. Noterceiro dia saímos da escola e ela me levou em sua casa, quando os pais estavam trabalhando.Fizemos sexo em sua cama. Foi delicioso, quente, suado e agressivo. E, quando ela ficou de quatro eme pediu para bater em sua bunda, vi toda a fera contida dentro de mim sair sem controle.Espanquei sua bunda e pediu, implorou por mais. Gozamos juntos quando eu a comia comviolência e dava tapas em sua cara. Dali por diante foi sempre assim. Ficamos viciados naquilo.Quando tínhamos oportunidade, estávamos transando ou jogando. Das palmadas passei a chineladas ecintadas. Eu a amarrava e amordaçava. Ela pedia para ser minha escrava. Gostava de humilhação esubmissão, mas também possuía um lado agressivo e, enquanto na cama era minha para que eu fizessetudo que sentisse vontade, fora dali era decidida, com espírito de liderança, dominando as outraspessoas, fossem homens ou mulheres. Descobriu mais tarde que era ao mesmo tempo umadominadora e uma submissa. Curtia ambas as coisas. Comigo era sempre o último, pois no meucorpo não havia nenhuma célula submissa. E assim nos tornamos unha e carne.Passamos juntos para a melhor faculdade de Medicina do país. Moramos juntos um tempo,mas não deu muito certo. No início se tornou possessiva comigo, ciumenta, quando ambos tínhamoscombinado em ter liberdade. Eu explorava minha vida sexual com outras mulheres e ela com ambosos sexos. Apesar do sexo ser fantástico entre nós, a amizade era ainda mais. Foi a única pessoa fora
da minha família a quem contei minha vida. E fui o único a saber que tinha sido molestada por um tiocom onze anos, perdido a virgindade com ele, seduzida e iniciada em um sexo violento e sujo. Nemos pais sabiam. Transou com ele até ter quinze anos, quando ela e os pais saíram de São Paulo evieram morar no Rio de Janeiro. Dizia saber que sua perversão vinha daí, mas dizia gostar daquelesprazeres. Acho que éramos dois doentes juntos.Resolvi morar sozinho, para não brigarmos mais e não perdermos nossa amizade e aqueleestranho laço que nos unia. E assim ficamos, livres, mas sempre um perto do outro. Nunca a vi seapaixonar por alguém ou pensar em acabar com o acordo e a comunhão que tínhamos. Eu tambémnunca me apaixonei. Gostava de outras mulheres, saía com elas, transava e me divertia. Mas sempreacabava. Algumas insistiam, outras iam, mas eu continuava em frente, satisfeito com a vida que tinha.Sem deixar de estudar, me dedicar aos estudos. Três coisas eram importantes demais na minha vida eeu valorizava mais do que tudo: Minha família, Fernanda e a Medicina. E enquanto isso me descobria cada vez mais sexualmente.Aos vinte e um anos conheci Angélica. E as coisas realmente se complicaram para mim. Todavez que pensava nela e no que tinha feito, uma dor absurda me dominava. Mesmo depois de muitaajuda psiquiátrica, de apoio dos meus tios, de Vítor e de Fernanda, aquela última cena de Angélicanão saía da minha mente. Às vezes acordava em pesadelos com aquilo, outras só o fato de relembrartrazia uma dor absurda, pela covardia que cometeu, por ter me tirado algo que desejei tanto, queaprendi a amar mais do que tudo, mas que foi arrancado de mim antes que se concretizasse. Eu suavafrio só de lembrar. E fiz de tudo para espantar aquele pensamento e me concentrar no presente,enterrando-o junto às lembranças dolorosas e ruins que tinha.Quando anunciaram o vôo de Vítor, eu já me concentrava nele e naquela realidade. Sedespediu dos pais e depois de mim. Nos abraçamos e, antes de se afastar, disse me fitando nos olhos:– Vou tentar esquecer a Anjinha, German. Reconstruir minha vida. Mas já estou morrendo desaudades dela. Se a encontrar, diga que mandei um beijo. Quase liguei pra ela hoje, mas tive medo deouvir sua voz e desistir da viagem. Faz isso por mim?A raiva de mim mesmo dobrou. O que eu podia fazer, além de concordar com a cabeça?– Boa viagem, camarada. – Dei um tapa em seu ombro, tentando esconder meu remorso.Depois que ele se foi e me despedi dos meus tios, voltei dirigindo ao meu apartamento etocou uma música da Maria Bethânia, de uma coleção que eu tinha. A música acabou me lembrandoAngie, como se estivesse ali.“Depois de ter você”... Percebi que depois de ter tido a Angie, nem minha culpa, raiva ouremorso me impediriam de procurá-la de novo. Já sentia sua falta. Devia a ela um pedido dedesculpas ou uma explicação, mas talvez não fizesse nenhuma das duas coisas. Pois no fundo era umamaneira de mantê-la um pouco mais afastada de mim. De ter o controle.Por que estava perdido naquela história. De todas as mulheres que tive, e foram muitas, nemFernanda ou Angélica mexeram comigo como Angie. Não era só sexo. Foi um sentimento mais forteprimeiro, aquela atração descomunal desde o instante em que a olhei. E agora, depois de transar comela, tudo parecia ainda maior, fora de controle. E eu odiava aquela sensação desconfortante, aquelaimpotência diante dos meus próprios sentimentos.No dia seguinte, na terça, fui trabalhar e fiz duas cirurgias. Quando terminei já passava dasquatro da tarde e resolvi tomar um café na sala dos médicos. Foi quando liguei para ela. Tinha mesegurado ao máximo, mas o desejo e a saudade acabaram vencendo e num impulso, cansei de resistir.Angie atendeu no terceiro toque.– Alô?– Oi, Angie. Sou eu.Ela ficou muda um instante. Mas então disse suavemente:– Oi, German.– Está no trabalho?– Sim.– Quer jantar hoje comigo?– Jantar? – Parecia surpresa. – Mas não disse que devíamos ficar em segredo, que Vítor ...– Ele viajou. E se alguém nos vir, estaremos apenas jantando juntos. Quer ou não?– Eu quero.– Passe a noite comigo. Traga uma muda de roupa e amanhã pode sair daqui direto para otrabalho. – Falei, sereno. Embora por dentro um estranho nervosismo me consumisse.– Tudo bem.– Pego você às oito e meia, em frente ao seu prédio.– Não, é melhor eu ir com meu carro. Vai facilitar amanhã quando for trabalhar. Onde fica orestaurante?Pensei em insistir em buscá-la, mas estava certa. Sem contar que ficaria estranho se algumconhecido me visse em frente ao seu prédio. Dei o endereço do restaurante. Era um que eu gostava,mas onde só ia de vez em quando e nunca vi um conhecido por lá. Por fim indaguei, baixo, excitadosó em ouvir sua voz:– Como você está?– Bem. E você?– Tudo certo. Não posso demorar, acabei uma cirurgia e preciso ver o paciente. Espero você,Angie.– Estarei lá.– Tchau.– Tchau, German.Quando desliguei, recostei no sofá e fechei os olhos. Eu estava fodido.
Notas finais
German sofreu muito? @Violeteros_BR falem cmg no tt eu sou lecal beijos Mari
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