Cuando te vi

28 Passado Parte 1


Notas iniciais
Boa leitura!

Depois de ter você Pra que querer saber Que horas são?

Se é noite ou faz calor Se o sol virá ou não Ou pra que é que serve Uma canção como essa? Depois de ter você Poetas para quê? Os deuses, as dúvidas Pra que amendoeiras pelas ruas? Pra que servem as ruas? Depois de ter você...

German

Na segunda-feira retomei meu trabalho no hospital e dei um pulo à minha clínica particular na

Barra, em sociedade com dois médicos amigos, um neurologista como eu e o outro psiquiatra. Minha

secretária reabriu minha agenda para consultas e estabeleci para mim um horário praticamente

estável, de segunda à sexta. Só trabalharia nos finais de semana em caso de alguma cirurgia de

emergência.

No meio da manhã, Vítor me ligou dizendo que no início daquela noite partiria para os

Estados Unidos e para saber se não queria ir com meus tios fazer as despedidas no aeroporto.

Concordei e segui direto da clínica para encontrá-los lá por volta das sete horas.

Tentei agir o mais naturalmente possível, mas foi difícil. Mal avistei Vítor e ele veio apertar

minha mão sorrindo, fui engolfado por um sentimento horrível de culpa e vergonha. Conversamos

banalidades, meus tios participaram do assunto, tomamos um café juntos enquanto esperávamos a

chamada para embarque, mas o tempo todo eu estava consciente da minha traição com ele.

Muita coisa passava por minha cabeça. O fato de Vítor estar sofrendo e indo embora para

tentar se recuperar, a expressão de Fernanda na manhã anterior ao sair do meu apartamento, mas

principalmente Angie. Ela não saía do meu pensamento nem por um minuto. Racionalmente eu sabia

que o melhor para evitar o sofrimento de todo mundo seria eu e ela nunca termos ficado juntos. Mas

agora não dava mais para voltar atrás. E nem eu podia evitar o que sentia por ela. Pesando tudo, eu

ainda a queria. Muito.

No domingo não procurei Fernanda. Preferi ficar sozinho, pondo minhas idéias em ordem,

tentando achar um ponto de equilíbrio em meio àquele caos. Mas o tempo todo Angie esteve comigo.

Revi inúmeras vezes a sensação de estar dentro dela, do seu cheiro de morango, da percepção quase cármica que tinha sido ser seu primeiro homem, em tudo. Ao mesmo tempo, senti remorso pelo modo

como a iniciei. Eu tinha deixado meus instintos mais baixos e animalescos me dominarem quando a

amarrei na cama e fodi daquele jeito bruto, ou quando a comi por trás no chão. Bati nela. Na sua

primeira vez. Mesmo sabendo por Vítor que Angie esperava o homem da sua vida para se entregar, que

era romântica e ingênua, eu fiz questão de que conhecesse quem eu era logo, sem máscaras, meu lado

pervertido que às vezes até me assustava.

Talvez na hora tenha agido mais por instintos, mas agora, friamente, tinha certeza que a razão

estivera presente o tempo todo, como se fosse uma proteção. Para acabar com as ilusões dela, para

que nunca me acusasse de enganá-la, para provar que eu era aquele dominador do clube, não o

homem da foto que de alguma maneira idealizara. No entanto, sabia que tinha pegado pesado demais

com ela. Não sabia como Angie tinha conseguido continuar sem querer fugir. Era mais corajosa ou

mais ingênua do que pensei. O que só aumentava a sensação de que fui um escroto. De uma só tacada

eu consegui vacilar com três pessoas: Vítor, Fernanda e Angie.

Uma coisa que aprendi sobre mim mesmo na vida, foi que nasci daquele jeito. Acho que

nascemos com certas características e com um caráter, que com a criação, a vida familiar, a

educação e a cultura, acaba sendo lapidado e moldado, para melhor ou para pior. Além de ter

herdado geneticamente aqueles genes dos meus pais, possivelmente se tornaram mais fortes em mim

por tudo que vi em minha casa enquanto crescia, pelo modo em que enxerguei minha sexualidade

desde muito cedo.

Meu pai era irmão caçula de tia Laurinha e era dono de parte das empresas da família, tinha

dinheiro próprio de herança e vivia do lucro das empresas, sem nunca ter trabalhado na vida. Minha

mãe a mesma coisa. Juntos, passaram seus dias em festas, farras, bebidas, comemorações

dionisíacas. Eu fui um acidente em toda aquela orgia. Não sei como não nasci com problemas de

saúde, pois soube que até na gravidez minha mãe bebeu e fumou. As drogas só vieram um pouco

depois.

Lembro que nunca encostaram a mão em mim, brigaram comigo ou me criticaram. Pelo

contrário, deixavam eu fazer tudo que queria, se divertiam com minhas birras, me arrastavam com

eles para onde quer que fossem. Apesar de ter residência fixa no Rio de Janeiro, de repente decidiam

viajar e lá íamos nós. Quantas vezes perdi a escola, pois antes de terminar o ano letivo arrumavam as

malas e íamos para algum lugar do Brasil ou de outro país. A vida era uma eterna comemoração.

Deixavam que eu circulasse nas festas até determinado momento. Com oito anos eu já tinha

provado bebida alcoólica e cigarro, oferecidos por eles, que achavam graça. Às vezes de propósito

meu pai me mandava acender seu cigarro ou charuto e dizia: “Dê uma tragada, filho”, todo satisfeito

quando eu fazia direitinho. Depois, quando a coisa esquentava, me mandavam para o quarto.

A curiosidade me fez descer a primeira vez e nas seguintes, sempre escondido, observando o que acontecia com meus pais e seus convidados. Mais tarde entendi que eram orgias. Muito sexo,

sempre com novidades. Todos participavam ativamente, fosse com troca de casais, apresentações

sadomasoquistas ou homossexuais. Vi meu pai com outros homens e minha mãe com outras mulheres.

Tudo sempre regado a drogas, bebidas e música. E risadas. Muitas risadas. Uma vez ou outra

acabava em confusão, mas resolviam entre eles.

De tudo aquilo, sempre o sexo mais violento do BDSM chamava minha atenção. Às vezes

ficava escondido a noite toda só esperando aqueles momentos e, quando começava, meu coração

disparava, eu não desviava mais os olhos, todo meu corpo reagia, desde pequeno, a tudo aquilo.

Eram sensações únicas, embriagantes, diferente de tudo que já senti na vida. Quando fiquei mais

velho, por volta dos onze anos, até gozava só assistindo determinadas cenas.

Meus tios se preocupavam demais comigo. Meus únicos momentos de normalidade na vida,

eram quando passava algum período com eles. Estranhava, pois tinham horário para tudo, desde

comer até dormir, me cobravam lições de casa, ficavam inconformados por eu estar atrasado na

escola sendo tão inteligente, por conta das viagens loucas dos meus pais que me arrancavam da

escola e me faziam perder o ano letivo. Outra coisa era o modo como me olhavam e conversavam

comigo, realmente interessados no que eu tinha a dizer. Meus pais sempre me trataram bem, mas

superficialmente, como se eu fosse um mascote ou um filhote engraçadinho. Minha opinião nunca

importou muito.

Tia Laurinha e tio Bernardo insistiam para que eu fosse morar com eles. Conversaram com

meus pais, pediram, mas eles não aceitaram por nada. Eu me sentia dividido. Amava aos dois casais,

Vítor era meu melhor amigo e, por um lado queria a segurança e o afeto genuíno que meus tios

ofereciam, por outro desejava a liberdade e os prazeres clandestinos que meus pais me

proporcionavam.

As coisas mudaram quando tinha onze anos. Numa daquelas festas loucas, meu pai exagerou

nas drogas e na bebida e teve uma overdose. Quando a ambulância chegou, já estava morto. Eu, que

via a festa como sempre do meu canto, fiquei aterrado, quis ir junto com minha mãe ao hospital, criei

o maior escândalo. Polícia foi envolvida, Conselho Tutelar e acabei parando na casa dos meus tios,

ou seria mandado para uma instituição. Sofria muito pela morte do meu pai, que eu amava. Foi uma

fase difícil, onde senti ódio de todo mundo e acabei culpando minha mãe e aquelas festas. Quis ficar

de vez com meus tios.

Quando as coisas se acalmaram um pouco, ela conseguiu na justiça minha guarda de volta.

Estava tão triste e desesperada, que desejei ficar com ela. Meus tios respeitaram minha vontade,

embora preocupados, deixando claro que estavam de braços abertos esperando por mim.

Foi um ano difícil. Minha mãe se agarrou em mim como uma tábua de salvação, como se pudesse ocupar o lugar do meu pai em sua vida. Aos poucos as festas voltaram, cada vez mais

descontroladas e até violentas. Eu temia por ela, reclamava, mas acabava sempre como um

expectador. Lembro uma vez em que uma das convidadas, uma jovem linda, foi colocada nua em uma

Cruz de Saint Andrew, em forma de X. Ali foi usada, humilhada, açoitada, enquanto gozava e gemia a

noite toda. Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça, nem o orgasmo mais forte que tive até então,

como se naquele momento me tornasse homem aos doze anos e soubesse que eram prazeres como

aquele que queria para minha vida.

Vivi na época uma relação de ódio e amor com minha mãe. Ficava com ela, pois me sugava,

me queria o tempo todo ao seu lado para não ficar sozinha. E pelas festas, das quais tinha ficado

viciado. Mas via Vítor estudando, sendo bem cuidado pelos pais e sabia que poderia ter o mesmo,

pois meus tios sempre estavam comigo me cercando de carinho e amor, deixando claro que fariam

por mim o mesmo que por Vítor, me aconselhando sobre o valor de estudar, tentando me incutir

valores.

Tentei recuperar o tempo perdido na escola, lia demais e me dedicava aos estudos. Queria

muito ser médico e sabia que devia ser exemplar nos estudos para seguir uma profissão de

neurocirurgião. Quando minha mãe inventou a primeira viagem desde a morte do meu pai, no meio do

ano, eu me recusei a ir e perder dias letivos. Ela chorou, implorou, teve uma crise de depressão. Mas

me mantive firme. Foi quando começaram as chantagens e acusações. De que eu não a amava mais,

que preferia meus tios, que estava ficando chato e careta como eles. Passamos a discutir. A cada dia

eu me sentia mais sufocado e menos compreendido. Até que veio a maldita última festa que assisti. O

ponto final na minha vida errante e de voyeur. E o fato que fez meus tios entrarem de vez na justiça

com o pedido da minha guarda.

Enquanto minha mãe bebia, ria, se drogava e transava com os outros, eu permanecia sentado

no alto da escada, observando, esperando as sessões de BDSM. Nisso um dos convidados circulou

pela casa e me viu. Era um homem alto e forte, por volta dos quarenta anos, bem vestido, com um

copo de uísque na mão. Foi educado e simpático, puxou conversa e, quando vi, já estava nos degraus

sentado ao meu lado. Me deu atenção como meu tio fazia, parecendo realmente interessado no que eu

dizia, cheio de perguntas sobre a minha vida.

Quando as perguntas se tornaram mais íntimas, sobre se eu tinha namoradas, se gostava

daquelas festas, se tinha curiosidade em participar, comecei a ficar incomodado. Algo me alertou.

Educadamente me levantei e disse que estava com sono. Me despedi e fui para o meu quarto. Nunca

imaginei que me seguiria. Só me dei conta quando fui agarrado por trás e jogado na cama de bruços.

Rasgou minha roupa, tentou me imobilizar, dizendo o tempo todo que me faria ser a mulherzinha dele.

Fui engolfado pelo medo e pelo nojo. Mas o ódio foi maior que tudo. Desde cedo era

decidido, firme, até duro. Meus pais diziam que eu era um dominadorzinho. Fazia lutas para extravasar todos aqueles sentimentos ambíguos e minha agressividade natural. Era alto e com

músculos bem definidos para minha idade. Não facilitei para ele.

Notas finais
Pesado? @Violetteros_BR beijos Mari