Cuando te vi

5 O que fazer?


Notas iniciais
Boa leitura!

Eu nunca me senti tão tensa e confusa como naquele instante. Todos os centros nervosos do

meu corpo pareciam ter sofrido um curto circuito. O que aquele homem fez comigo?

Quase dei graças a Deus quando vi Vítor no mesmo lugar onde o tínhamos deixado,

conversando animadamente com uma linda mulher alta e loira. Fui até ele ansiosa, abalada, com

medo, tentando disfarçar tudo sob a aparência mais calma que consegui. Mas era difícil manter a

calma com German tão perto de mim.

– E aí, está convencida? — Vítor brincou, estendendo a mão para mim.

Segurei sua mão e apenas sorri. German parou ao meu lado, mas nem ousei olhá-lo.

– Convencida do quê? — Perguntou a loira, fitando-me com claros olhos verdes, muito bem

delineados e maquiados.

– German está me ajudando a convencer a Angie a se casar comigo. — Explicou Vítor.

– Ah, é? Essa é nova! Pensei que casamento fosse uma palavra que não faz parte do seu

dicionário. — Ela brincou com German.

– Do meu dicionário não faz. Mas o casamento é pra ele. — Indicou o primo.

– Essa é Fernanda, amiga de German. E essa é minha noiva, Angeles Saramego.

– Angie. Que nome encantador! Como vai? — Fernanda estendeu sua mão e eu a apertei.

– É um prazer. — Sorri, notando o quanto ela era bonita e elegante. Devia ter por volta de trinta

anos, era bem alta e seus cabelos eram lisos e em fio reto até quase os ombros. Estava ao lado de

German e percebi, incomodada, que eles faziam um casal impressionante. Lembrei de tudo que Vítor me

falara sobre eles, sobre serem amantes e sobre o clube. Foi impossível não imaginá-los

transando e me encher de um ciúme tão violento que até me assustei.

– Estava procurando você. — Fernanda o fitou com carinho. — Já que você está com espírito

para dançar, que tal me levar para a pista?

– Claro, madame. — German sorriu para ela, à vontade e lhe estendeu o braço.

Eu observei como ele parecia ainda mais lindo sem a cara de mau com que olhava pra mim.

– Com licença. — German disse a mim e ao Vítor. Antes de sair, ele fixou seus olhos profundos e

de um belíssimo tom azul escuro, quase violeta, nos meus. Senti meu coração falhar uma batida, pois

seu olhar era quase uma despedida.

Eles se afastaram e por um momento tive o pensamento insano de tomar o lugar de Fernanda,

pegá-lo para mim e fugir para bem longe com ele. Então lembrei de Vítor ao meu lado e me enchi de

vergonha. Eu era horrível! Por isso German achara que eu era uma garota fácil, que traía o meu noivo.

Que vergonha, meu Deus!

– Você está tão calada. — Vítor me virou para ele e segurou minhas duas mãos. — O que houve?

– Nada. — Forcei um sorriso.

– Gostou do German?

– Sim.

– Que bom. Geralmente as mulheres ficam loucas por ele, mas sei que você não é assim.

Precisei de todo meu auto controle para não vacilar e me entregar. Mas Vítor continuou

falando:

– E confio nele. Nunca daria em cima de uma namorada minha. Percebi que você ficou meio

tímida com ele. É um cara fechado, até meio frio, mas depois que você o conhecer melhor vai se

sentir mais à vontade.

– Eu sei. — Não sabia de nada, mas o que eu poderia falar?

– Fiquei feliz quando a Fernanda chegou. Pensei que ele não a convidaria.

– Por quê?

– Ele ficou um ano na Alemanha e eles se viram pouco todo esse tempo. — Vítor deu de

ombros. — Sabe como é, amigos com privilégios. Já te falei, não é? German me disse uma vez que, se

mudasse de ideia sobre se casar, Fernanda seria sua única opção.

– Eles devem se gostar. — Falei, com um incômodo bolo na garganta.

– É. Mas duvido que German se case.

– Por quê?

– Por tudo aquilo que te falei. — Vítor me olhou indeciso. — De qualquer forma, ele não se

envolve seriamente com as mulheres. Quando o negócio esquenta, ele cai fora.

Fiquei quieta, mas estava louca para saber tudo sobre aquele homem que conseguiu se tornar

o centro do meu universo em tão pouco tempo. Ele não saía da minha cabeça e eu ainda me sentia

totalmente abalada por ele.

Tive vontade de ir embora, ficar sozinha em meu quarto, me acalmar e pensar. Parecia que

um rolo compressor tinha acabado de passar em cima de mim. Eu só sabia que tudo havia mudado.

Desde que pus os olhos em sua foto, eu recebi um aviso. Pensei que fosse besteira, que quando eu o

visse tudo voltaria ao normal. Agora eu sabia que nunca mais voltaria ao normal. Ele virou meu

mundo de pernas pro ar.

– Deixa pra lá. — Vítor sorriu e me puxou para seus braços. Me beijou de leve na boca e eu

fiquei quieta, pela primeira vez com a certeza absoluta de que ali não era o meu lugar.

Durante oito meses tentei me convencer que ele era o homem certo pra mim. Todo mundo

dizia isso, ele me cercava de carinho, satisfazia todas as minhas vontades. Lutei contra o meu íntimo

romântico, que me avisava que não era ele, que me deixava sempre na dúvida. Tentei ser como todas

as outras garotas, que namoravam e não se importavam tanto se aquele era o único, o homem certo.

Paola me disse que vários poderiam ser certos, que não existia aquilo de alma gêmea. E eu achei que

os livros que eu lia estavam me influenciando negativamente, me fazendo deixar de viver para seguir

um sonho tolo.

Agora eu sabia que meus sonhos não eram tolos. O que senti aquela noite por German foi o

sentimento mais profundo e incontrolável que senti na minha vida. Ele me anulou para os outros

homens, pois nada que senti até então me preparou para isso. E nem saber de seus desejos diferentes

ou sua aversão a relacionamentos me impedia de sentir assim.

Lamentei que eu tivesse deixado meu relacionamento com Vítor chegar aquele ponto. Agora

eu o magoaria, pois não poderia mais ficar com ele, me sentindo daquele jeito. Se eu tivesse

acreditado em meus instintos desde cedo, não precisaria fazê-lo sofrer.

No dia seguinte, eu teria uma conversa com ele. Mesmo German tendo deixado claro que nunca

teria nada comigo e sabendo por Vítor que ele era complicado e avesso a relacionamentos, eu não

poderia mais continuar noiva.

Afastei-me dele com cuidado, segurando só as suas mãos, e falei:

– Preciso voltar para minha mesa. Deixei minha mãe e Paola sozinhas desde a hora que

cheguei.

– Vamos lá. — Ele caminhou comigo na direção da minha mesa. Franziu o cenho e indagou: -

Aquela arrogante veio mesmo?

– Que arrogante? — Sorri. — Minha mãe?

– Engraçadinha. Sabe que estou falando daquela antipática que você chama de amiga.

– Minha amiga Paola é muito simpática.

– Ah, é. Muito!

Minha mãe ficou radiante ao ver que Vítor me acompanhava. Ela vivia sempre séria,

reclamando das coisas. Mas desde que fiquei noiva de Vítor, era só ele chegar que ela se abria em

sorrisos e elogios. Quase gemi ao imaginar o inferno que seria a minha vida quando eu me separasse

dele. Minha mãe nunca me perdoaria.

– Onde você se enfiou? — Indagou Paola mal humorada, pois minha mãe devia tê-la irritado

como sempre fazia. Olhou com cara de poucos amigos para Vítor e os dois se cumprimentaram

friamente com acenos de cabeça.

– Isabel! Você está linda!

Enquanto Vítor ia cumprimentar minha mãe, sentei ao lado de Paola. Vi minha tulipa cheia de

cerveja sobre a mesa e tomei um gole, sedenta.

– Isso deve estar quente. — Paola avisou-me tardiamente.

Bebi assim mesmo, quase metade do conteúdo do copo. Deixei a tulipa na mesa e suspirei,

um pouco mais controlada.

– O que houve, Angie?

Olhei para Paola, que me fitava com o cenho franzido.

– Nada. Por quê?

– Sei lá, você está esquisita.

– Estou bem.

Paola não se convenceu e continuou me encarando. Fiquei nervosa e fitei Vítor e minha mãe,

que ainda trocavam amabilidades. Olhei de novo pra ela.

– O que é, Paola?

– Estou esperando você me contar.

– Como você me conhece tão bem?

– Esqueceu que somos amigas desde a sexta-série?

– Não. — Sorrimos uma para outra.

Éramos diferentes em tudo. Mas desde que nos conhecemos na escola, nos tornamos amigas

inseparáveis. Agora morávamos em prédios vizinhos na mesma rua, nos víamos quase

todos os dias, saíamos juntas e sabíamos tudo sobre a outra. Senti uma vontade enorme de desabafar

com ela, dizer como eu me sentia, mas ali era impossível.

– Depois eu te falo.

– Tá. Mas deve ser sério. Você parece nervosa.

– Nem me diga!

– Estão sendo bem servidas? — Vítor perguntou, incluindo Paola por educação.

– Muito. Nada como uma festa de gente rica. Acredita que comi caviar pela primeira vez? -

Paola sorriu docemente pra ele.

– Ah! É mesmo?- Ele fingiu interesse. — Por que não aproveitou e experimentou champanhe

também?

– Prefiro cerveja. Combina mais comigo.

– Pode crer.

Eu sorri. Algumas coisas não mudavam. Mas até que eles se suportaram daquela vez melhor

do que das outras.

Vítor ficou na nossa mesa conversando por um bom tempo, até que o pai o chamou para

cumprimentar uns tios que haviam chegado. Ele queria que eu fosse junto, mas disse que preferia

ficar ali e ele se afastou prometendo que voltaria logo.

Quando minha mãe levantou para ir ao toalete, Paola se virou para mim, afastou os pesados e

ondulados cabelos escuros para trás das orelhas, fixou seus olhos escuros, sempre delineados por

lápis, em mim e me intimou:

– Agora fale.

Um garçom havia substituído minha cerveja quente por uma geladinha. Tomei um gole,

ansiosa. Parecia que a coisa seria verdadeiramente real quando eu contasse pra ela.

– Depois a gente conversa em casa.

– Não vou aguentar esperar. Vamos, desembuche. Estamos sozinhas aqui.

– Paola, eu...

– Não enrole, Angie. E aí?

Suspirei e falei baixinho:

– Hoje conheci o homem da minha vida.

Paola, que nunca se surpreendia com nada, arregalou os olhos.

– Acho que não ouvi bem.

– Você ouviu, sim.

– Caralho!

– Fale baixo!

– Mas... e o Vítor?

– Eu não posso... Não posso mais ficar com ele. Você sabe, sempre tive dúvidas. Você me

disse várias vezes que era perda de tempo não namorar alguém para esperar um homem que talvez

nem existisse, mas... Paola, ele existe.

– Caralho! — Ela repetiu, erguendo as sobrancelhas. — Isso vai dar o que falar.

– É.

– Quem é ele? Como isso aconteceu? Você tem certeza que...

– Só sei que é ele, Paola. Estou confusa, nervosa, sem certeza de nada, a não ser que me

apaixonei por ele à primeira vista.

– Angie. — Ela se debruçou sobre a mesa e apertou minha mão. — Você é sonhadora demais.

Como pode ter se apaixonado nessa meia hora que saiu para procurar Vítor?

– Não foi nessa meia hora. Foi há dois meses. Hoje eu só tive a certeza.

– Não estou entendendo mais nada! — Ela franziu o cenho. — Dois meses? E não me falou nada?

Quem é esse cara?

Eu apoiei os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. Me sentia exausta, com vontade de

sumir dali.

– Angie?

– Podemos falar disso depois? Aqui não é o melhor lugar.

– Mas agora que você me deixou nervosa também?

Naquele momento, minha mãe retornou e nós nos calamos.

– Laurinha me apresentou agora ao sobrinho dela, que chegou da Alemanha. — Ela se sentou

elegantemente, voltando-se em nossa direção. — Um belo rapaz. Trinta anos e já é um neurocirurgião

renomado. Você o conheceu, Angie?

– Sim, mamãe.

– Laurinha disse que o criou desde os doze anos. É por isso que ele e Vítor são como irmãos.

– Eu sei.

– Ah, olha ele ali, conversando com aquela loira.

Eu o procurei de imediato com os olhos. Ao vê-lo, meu coração deu uma grande acelerada.

Tirei os cotovelos da mesa e me recostei na cadeira, aproveitando que ele estava de pé ao lado de

algumas mesas adiante, conversando com Fernanda e uma senhora, para apreciá-lo mais uma vez.

– Qual deles é o primo do Vítor? — Perguntou Paola.

– Aquele ali, a umas três mesas daqui. — Explicou minha mãe. — Moreno, de camisa branca.

– Uau! Caral... amba! — Paola olhou-o de cima abaixo com lascívia. — Que homem é esse!

Animada, ela se virou para mim pronta para fazer mais comentários, mas parou e fitou meu

rosto.

– Ah, não... — Murmurou, entendendo tudo e me fazendo corar e olhar rapidamente para minha

mãe. Mas ela não prestava atenção. Paola e eu nos encaramos novamente, nosso olhar dizendo tudo.

Ela soletrou sem som: — Que merda!

Suspirei e me recusei a olhar na direção de German. Eu precisava me controlar e manter a

calma. Aquela noite tinha sido intensa demais e eu não aguentava mais tanta emoção. Recostada na

cadeira, mantive meu olhar de Paola para minha mãe.

Minha mãe puxou assunto e tentei me distrair. No entanto, estava consciente de que German

estava por ali e que eu tinha vontade de olhá-lo só mais um pouquinho, mas me controlei. Paola não

ajudava muito, pois parecia também ansiosa e curiosa, como se estivesse louca para me encher de

perguntas.

O resto da noite foi uma tortura. Fiz o possível para parecer normal. Foi mais difícil com

Vítor, que como sempre queria ficar perto, me tocando, beijando, dançando. Inventei a desculpa de

uma dor de cabeça e como eu dificilmente ficava doente, ele ficou preocupado e até se ofereceu para

me levar embora. Fiquei até o que pareceu um tempo razoável, mas por fim convenci minha mãe a ir

embora. Paola, é claro, me ajudou.

Eu preferia sair de fininho, mas seria falta de educação. Vítor nos levou para nos despedir de

seus pais e eu já tremia com a possibilidade de me ver frente a German novamente, fingindo estar tudo

bem e trocando amabilidades, quando eu estaria a ponto de ter um infarto.

Foi sorte ele não estar em lugar nenhum. Vítor quis procurá-lo, mas consegui dizer que estava

tudo bem e por fim fomos embora. Só quando me acomodei no carro da minha mãe, indo finalmente

para minha casa, é que pude respirar normalmente pela primeira vez naquela noite.

Notas finais
@Violeteros_BR beijos Mari