Cuando te vi
2 German vai voltar
Notas iniciais
Culpa dos malditos livros. Só podia ser. Minha mãe e Paola brigavam comigo porque eu era viciada em romances, daqueles bem açucarados, com amores intensos e eternos, onde o casal se apaixonava loucamente e vivia feliz para sempre. Elas implicavam tanto com aqueles livros ¨bobos¨,
¨fora da realidade¨, que cheguei ao ponto de ler escondido delas. Mas talvez tivessem razão. Eu tinha que parar de sonhar e viver a realidade. Aqueles romances de livro eram só ficção. Amores daqueletipo não existiam.
– O que você acha, Florzinha?
A voz bem modulada do meu noivo penetrou meu pensamento irrequieto. Olhei de imediato
para ele, encontrando seus risonhos olhos castanhos fixos em mim.
Tive vontade de pedir mais uma vez para Vítor não me chamar de Florzinha, mas eu sabia que não ia adiantar. Ele adorava, dizia combinar comigo.
Não respondi, pois não sabia do que ele falava, já que passei metade da conversa deles mergulhada em minhas próprias conjecturas. Sorri meio sem graça e falei:
– Sobre o quê?
Minha mãe suspirou e eu nem a olhei, pois sabia que ela odiava quando eu fazia isso de me desligar na conversa e me distrair com meus pensamentos.
– Quer ir ao aeroporto amanhã comigo e com os meus pais buscar o German?
– Não, eu tenho que trabalhar e...
– É à noite, querida.
– Acho melhor não. Tenho umas coisas para fazer e também ele deve preferir ver só a família.
– Você é da família. Esqueceu que é minha noiva? Estou louco para te apresentar a ele. Sabe que o German é como um irmão para mim.
Sim, eu sabia. German Castillo foi morar na casa de Vítor quando tinha doze anos de idade
e foi criado pelos tios até se formar em Medicina, começar a trabalhar e comprar seu próprio apartamento. Vítor falava muito dele. Era quase como se eu já o conhecesse, embora eu sempre tivesse vontade de saber mais.
Freei aqueles pensamentos indesejados, já ansiosa demais por não conseguir controlá-los. Eu não devia pensar naquela foto ou no que Vítor me falava. Logo eu ia encontrar aquele homem e ver que tudo não passou de um encanto superficial por um homem lindo. Sim, pois ele era lindo de morrer. Pelo menos na foto.
Droga! Não pense! Reaja!
– Realmente prefiro não ir amanhã.
– Certo. Mas sábado faremos uma festa de boas vindas para ele lá em casa e espero vocês duas lá.
– Iremos, com certeza. — Isabel, minha mãe, sorriu para ele. Ficava sempre maravilhada quando Vítor ia ali em casa, fazendo de tudo para agradá-lo e deixá-lo à vontade.
– Posso levar a Paola? — Indaguei.
Vítor não fez uma cara das mais felizes, o que me fez dar uma risada. Ele e minha melhor amiga não simpatizavam muito um com o outro. Era até engraçado ver as caretas de nojo que um fazia para o outro.
– Se você insiste, Florzinha.
– Bom, tenho um monte de coisa pra fazer no quarto e vou deixar os pombinhos namorando em paz. — Minha mãe se levantou, charmosa e elegante como sempre. Mesmo em casa ela vivia bem penteada e arrumada. Nunca era pega à vontade, desleixada ou mesmo suada. Eu sempre ficava
impressionada com sua vaidade e seu cuidado com a aparência. — Depois nos falamos mais, Vítor.
– Claro, Isabel. — Ele sorriu.
Também sorri e depois que ela saiu, virei para meu noivo. Ele me observava com carinho, de um jeito especial que fazia com que me sentisse querida e amada. Acho que por isso fiquei com ele, acabei namorando e concordando com aquele noivado tão rápido. Sempre tive dúvidas, mas ele me
envolveu de um jeito que me deixava sem justificativas para dizer não.
– Estava com saudades de você. — Ele disse, como se não tivéssemos nos visto há menos de
dois dias. A mão que não estava entrelaçada com a minha acariciou suavemente meu rosto.
Fitei seu belo rosto, emoldurado pelos cabelos ondulados e de um loiro escuro. Era lindo, com traços fortes, nariz reto e um sorriso aberto. Ninguém acreditou quando eu o recusei, na primeira vez em que nos encontramos na balada. Ele fez de tudo pra ficar comigo, eu disse não e minhas amigas gritaram que eu era louca. Nas vezes seguintes que ele tentou, também neguei e elas quase me mataram. Mas por fim a insistência dele, seu bom humor e o fato de minha mãe e Paola insistirem que eu deveria parar de sonhar tanto e viver mais, me fizeram ficar com ele. Vítor insistiu mais e uma vez virou duas, duas viraram quatro e quando vi ele já me namorava em casa.
Tudo foi rápido demais. Ele dizia me amar, me enchia de beijos e de carinho, queria ser meu príncipe encantado. Fui sincera desde o início, disse que gostava dele, mas que também queria viver um grande amor, me apaixonar. No início ele riu, achou engraçado, mas quando me neguei
terminantemente a dormir com ele, compreendeu que não era brincadeira. Tola ou sonhadora, eu realmente só me entregaria ao homem da minha vida. E não sabia se aquele homem podia ser ele.
Vítor ficou abismado por eu ser virgem aos vinte e dois anos. Por nunca ter namorado sério.
E então fez de tudo para que eu me apaixonasse por ele. Chegou a me convencer que com o tempo eu o amaria como ele me amava e daí por diante eu me deixei levar pelos planos dele, gostando de ser mimada e querida, tentando realmente entender que o amor devia ser aquele carinho e
companheirismo, aquela amizade e atração. Eu gostava dele, de seus beijos, de sua conversa. O que
eu poderia mais querer? Ficaria velha e encarquilhada esperando um amor de folhetim, deixando a
vida passar?
Também acariciei seu rosto bronzeado e nos beijamos na boca. Ele era experiente, sabia beijar muito bem e me excitava. Algumas vezes pensei em arriscar, esquecer os sonhos tolos de só ir pra cama com um homem quando eu tivesse a certeza de o amar, e fazer amor com Vítor. Mas então eu sentia que ainda não queria realmente aquilo e decidia esperar um pouco mais.
Interrompi o beijo e recostei no sofá. Perguntei:
– Como vai ser essa festa no sábado?
– Nada muito grande. Minha mãe chamou alguns amigos mais próximos e parentes, contratou um Buffet, um grupo musical, e vamos nos reunir no jardim e em volta da piscina. German não queria nada, mas você conhece a minha mãe. Nunca deixaria a volta dele passar em branco.
– Você está feliz porque ele está voltando, não é?
– Claro. Somos muito amigos. Talvez ele possa me ajudar a convencer você a se casar comigo. Ele sabe como foi um custo você aceitar esse anel de noivado.
Baixei os olhos de novo para o anel em meu dedo. Estava ali há pouco mais de dois meses.
Realmente tive muitas dúvidas. Fitei-o novamente.
– Sabe, Vítor, acho que você me vê como um desafio. O fato de não nos relacionarmos sexualmente, de que relutei em noivar, faz com que você tenha pressa. Por que não vamos mais devagar e deixamos a coisa acontecer?
– Florzinha, já falamos disso um milhão de vezes! Tenho vinte e nove anos. Quero casar e ter filhos. Sou louco por você! Por que esperar? Tudo bem, você ainda vai fazer vinte e três anos, é a mulher mais romântica que já vi na vida e parece ter vindo do século passado! Mas tenho certeza de
que vai entender que me ama e logo suas dúvidas vão se dissipar. — Ele acariciou meu cabelo, me
olhando com adoração e piscando um olho. — Que tal nos casarmos no final do ano?
– Você não tem jeito. — Suspirei, fugindo de uma resposta direta.
– Certo, hoje não vou insistir. Mas conto mesmo com os conselhos de German pra me ajudar
nessa empreitada.
– Por que, ele é um bom conselheiro?
– Em assuntos de casamento, ele está fora. Duvido que um dia sequer ele cogite essa ideia. Só se ele se apaixonar louca e irrevogavelmente como eu, assim sem esperar. Mas o fato é que German é um homem muito centrado e decidido. Talvez ele me dê umas dicas eficientes de ataque.
– Parece que você vai pra uma guerra! — Tentei brincar.
– É uma guerra para conquistar seu coração, querida.
Eu ri de brincadeira, mas aquela conversa toda meincomodava. Também não queria falar de
German Castillo, mas toda vez que ele era citado em uma conversa eu me via bebendo sofregamente todas as palavras sobre ele.
Aquilo era muito louco. Eu me sentia louca. Assim, não via a hora de ver aquele homem
pessoalmente e esquecer sua foto.
Por um momento, pensei sobre o que Vítor disse sobre o primo ser avesso ao casamento. Por quê? Alguns comentários me deram a impressão que ele teve sérios problemas no passado, por isso foi morar com os tios. Mas nunca perguntei nada nem o Vítor explicou. A curiosidade foi grande naquele momento e indaguei:
– Por que seu primo é assim tão contra o casamento?
– A vida do German é meio complicada. – Vítor pareceu pensativo, um tanto sem graça. Eu já ia dizer que não precisava contar nada, mas ele continuou: — Os pais eram meio doidos, viviam em farras e ele assistiu muita loucura. Meus pais ficavam cheios de preocupação e fizeram de tudo para ficar com a guarda dele, mas só conseguiram quando tinha doze anos. Muito estrago já tinha sido
feito na cabeça dele. Felizmente, German deu a volta por cima. Mas aí conheceu uma mulher, bem mais
tarde. Nem gosto de falar sobre isso, é pesado demais.
– Não precisa falar. – Disse rápido, embora querendo saber tudo sobre ele.
– Confio em você, Florzinha. Vou te contar depois com calma. O negócio é que não deu certo
com essa mulher, acabou mal. E ele ficou um pouco desconfiado com as mulheres. Menos com a
Fernanda.
– Quem é Fernanda?
– Amiga do German há um tempão. Ela estudou com a gente na mesma escola e os dois se tornaram unha e carne. Depois fizeram faculdade de Medicina juntos e ambos trabalham na santa Casa, só que ela é dermatologista e ele neurocirurgião.
– Eles são namorados?
Vítor deu uma risada.
– Você não entenderia, meu amor.
– Por que não? – Estava curiosa.
– Eles transam e são amigos. E um pouco mais. Ah, droga, vou te falar! Olha isso aqui. –
Vítor pegou sua carteira e tirou de dentro dois convites pequenos e negros, com letras em vermelho e
chamas ao fundo. Eu peguei um e li:
NOITE DO BAILE DE FANTASIA
EXCLUSIVA PARA CLIENTES VIPS
SOMENTE NO CLUBE VORAZ
E havia o endereço e data para dali a uma semana, no sábado, com horário marcado às 23:00 horas. Franzi o cenho:
– Mas o que é isso?
– Fernanda me deu. Ela é dona de uma parte desse clube e na verdade é o que mais gosta de
fazer. German costuma dizer que ela vai largar a Medicina e se dedicar só ao clube. É exclusivo, só entram sócios ou convidados dos donos. German é sócio. E ela me convidou. Posso levar uma acompanhante.
– Mas é um clube de que?
Ele sorriu sem graça.
– De sexo.
Eu o olhei quieta. Pensei um pouco. German era sócio. Por fim, perguntei com cuidado:
– As pessoas vão lá para transar?
– Sim, entre outras coisas.
– Mas ...
– Tem de tudo, querida. Mas o principal são as sessões de sadomasoquismo. Alguns vão apenas assistir. Outros participam.
– Você ... Já foi?
– Algumas vezes.
Fiquei um pouco chocada.
– Quer dizer que seu primo e a tal Fernanda são tarados? Gostam de bater e apanhar na frente de outras pessoas?
Vítor deu uma gargalhada e me abraçou, mas eu estava preocupada demais para retribuir. Por fim acariciou minha mão e explicou:
– Fernanda curte essas coisas e German a acompanha de vez em quando. Ele me disse que não é bem adepto, mas curte. Aprendeu muitas coisas durante esse tempo todo com Fernanda.
Ei, que carinha de decepcionada é essa? As pessoas tem seus desejos e taras, querida. Você ainda é virgem e muito pura, mas quando começar a sua vida sexual, vai descobrir vários outros desejos. E não se preocupe, até que sou bem tradicional! Já te falei que estou disposto a ter você como discípula a hora que quiser.
– Vítor ...
– Tá, eu sei, não vou insistir. Mas vi que ficou curiosa. Quer ir comigo nesse clube?
Arregalei os olhos.
– Está louco?
– Não precisa fazer nada. É só olhar. Juro que não toco em você. Vamos, você pode até gostar. – Piscou para mim.
– Não. – Falei na hora. Mas só de imaginar German lá, eu me enchia de pensamentos malucos.
Muito mais do que curiosidade. Como se sentisse que eu vacilava, Vítor enfiou os dois convites em minha mão. – Pra que isso?
– Guarde. Se mudar de idéia, é só me avisar.
– Não vou mudar.
– Só pode entrar em casal hetero ou homossexual. E não vou sem você. Se não quiser mesmo ver, só por curiosidade, dê para alguém. Aquela sua amiga maluca deve gostar.
– Não tenho amiga maluca. – Retruquei sorrindo de leve.
– Sabe que falo da Paola, aquela que troca de homem mais do que de roupa. Aposto que vai adorar o lugar!
– Não provoque. Mas Vítor...
– Fique aí, menina. Agora vem cá, meu bem. Estou louco pra te beijar de novo.
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