Cuando te vi
7 Essa mulher
Notas iniciais
Boa leitura!
German
A vida tem sons que pra gente ouvirPrecisa entender Que um amor de verdade É como canção Qualquer coisa assim Que tem seu começo Seu meio e seu fimEu acabei dormindo na casa dos meus tios depois da festa, pois havia bebido e não estavabem para dirigir. Ocupei meu antigo quarto, que meus tios faziam questão de que sempre fosse meu.Se dependesse deles, eu nunca teria saído daquela casa.Tomei café da manhã com eles, conversamos agradavelmente sobre a festa da noite anterior eVítor se juntou a gente, ainda cheio de sono. Depois eu e ele resolvemos tomar um banho de piscina,pois tinha mais de um ano que eu não fazia isso naquela casa e sempre adorei nadar.Estava um dia lindo. Depois de dar várias braçadas, nos acomodamos em espreguiçadeirassob o sol e eu suspirei, satisfeito por estar de volta.– É muito bom voltar ao Brasil, estar de novo aqui. — Falei, colocando os óculos escuros e meesticando para que o sol secasse meu corpo.– Devia ser bem solitário por lá.– Eu quase não tinha tempo pra nada, a não ser minha especialização. Estudei como umcondenado para terminar o doutorado logo e retornar para casa.– E agora? Quando recomeça o trabalho no consultório e no hospital? — Vítor indagou,interessado.– Preciso de um descanso. Daqui a uma ou duas semanas volto a trabalhar.Vítor riu, me lançando um olhar.– Cara, nem parece você falando! Acho que nunca te vi tirar férias! Se não está estudandocomo louco, está trabalhando como escravo naquele hospital. O que te deu?– Estou realmente cansado. E não é tanto tempo assim. Logo volto à rotina. E como vão ascoisas na empresa?– Estressante, como sempre. Mas os negócios vão bem. Meu pai andou falando em seaposentar, mas felizmente adiou um pouco mais. Ainda não me sinto pronto para assumir maisresponsabilidade. Quero aproveitar mais a vida!– Está certo.– Mas mudando de assunto, o que você achou da minha noiva?Continuei na mesma posição, mas fiquei feliz por estar de óculos escuros. Intimamente euesperava aquela pergunta. Só não queria que Vítor percebesse o quanto aquela mulher me afetou etodo disfarce era bem vindo. Procurei palavras que não me comprometessem:– Não deu para tirar muita conclusão de um só encontro.Ele virou a cabeça e fixou os olhos castanhos em mim.– Mas você deve ter achado alguma coisa.– Ela é diferente do que eu imaginava.– Por quê? O que você imaginava?– Uma mulher mais chamativa, do tipo que você sempre namorou. Alta, malhada, sensual.Vítor sorriu.– É, a Anjinha não faz o tipo mulher fatal. Mas eu te falei que ela era diferente. Acho que foiisso que me encantou.– Está mesmo apaixonado por ela, não é?– Estou, cara. No início, quando a vi na balada, eu a achei engraçadinha. Sabe, ela frequentaquase toda sexta uma balada na Lapa, pois tem uma amiga que canta lá. Adora dançar e se acabavacom as amigas na pista de dança. Dei uma cantada e ela mal me olhou. Meus companheiros caíram naminha pele e resolvi que era uma questão de orgulho ficar com ela. Naquela noite, só tomei fora. Enão consegui nada. Passei a voltar lá toda sexta. Procurava por ela, que estava sempre rindo oudançando. Insistia, conversava, e aos poucos ela passou a falar comigo. Foi um custo conquistá-la equase não acreditei quando por fim ela resolveu me dar bola. Depois de muita luta, ela ficou comigo.Achei que era só isso, mas quando vi eu continuava a ir lá e a querer mais. Por fim começamos anamorar.– Mas ela continuou sendo um desafio.– Sim. Percebi que era muito reservada. Achei que era só timidez. Mas aí, German, fiqueicurioso. Ela me abraçava, me beijava e só. Nada de amassos no carro e nem carícias. Quando quisaprofundar a coisa, sabe o que ela falou?Olhei-o, esperando. Ele completou:– Disse que era melhor a gente não se ver mais. Por que ela esperava o homem da sua vida eesse homem não era eu. Nem acreditei! Quem falava algo assim nos dias de hoje?– E o que você fez?– Quis ser o homem da sua vida. Cerquei-a de todos os lados. Passei a namorá-la, conheci suamãe e seus amigos, trouxe-a aqui. Mas você acredita que ela ainda não disse que me ama? Como já tefalei, ela faz jogo duro, cara. Tem dúvidas, não me deixa ir muito longe nos carinhos e eu estou namaior seca. Sem transar há meses!– Ela é virgem? – Perguntei, um tanto surpreso.– É. Nem nos seios deixa eu pegar! Passo o maior sufoco! Vai fazer vinte e três anos e pareceuma freira. Tem uns pensamentos antigos, fora de moda. Uma vez perguntei se o sonho dela era casarvirgem. Ela disse que não, mas que só queria se entregar quando realmente tivesse certeza de queestá apaixonada.– E por que ela está com você, se não sabe se o ama e pensa assim?– Angie gosta de mim. E eu faço tudo por ela, tento convencê-la que com o tempo ela podeme amar. E acredito mesmo nisso. Nós nos damos bem, somos amigos, nos divertimos. Isso não é
amor?– Você está perguntando pra pessoa errada. — Sorri secamente. Observei-o com atenção. — Evocê é feliz assim?– Muito feliz.– Mesmo na seca?– Essa é a pior parte. No início não aguentei e saí com outras garotas só pra transar, masagora não tenho mais coragem. Angie confia em mim e pra dizer a verdade, só penso nela. Cara, estoulouco por ela. Por isso faço de tudo pra que ela se case comigo.– Não acho saudável você ficar assim tão dependente de uma pessoa, ainda mais sabendo queela ainda não retribui essa paixão toda. Aproveite sua vida e deixe as coisas acontecerem.Vítor suspirou e passou a mão pelos cabelos molhados.– Não consigo nem imaginar minha vida sem ela, German. Quero que Angie seja minha de uma vezpor todas e não vou medir esforços para conseguir isso.Fiquei calado, incomodado com tudo o que ele dissera. Primeiro porque me sentia culpadopela atração tão intensa que Angie despertou em mim, mesmo contra minha vontade. Segundo,porque já fui amado daquela maneira quase obsessiva como Vítor amava a noiva e sabia que aquilonão acabava bem.Pensei também sobre Angie, seu romantismo, o fato de só querer se entregar ao homem amado.Era tão diferente do meu estilo de vida que mesmo que não fosse noiva de Vítor, possivelmente nadaver mais. Por que ela esperava o homem da sua vida eesse homem não era eu. Nem acreditei! Quem falava algo assim nos dias de hoje?Pensei também sobre Ana, seu romantismo, o fato de só querer se entregar ao homem amado.Era tão diferente do meu estilo de vida que mesmo que não fosse noiva de Vítor, possivelmente nadapoderia acontecer entre a gente. Eu tinha prazeres perversos, frequentava lugares que ela nemsonhava, fazia na cama muito mais do apenas transar. Éramos como água e óleo. Se me visse bem deperto, minhas taras e desejos, se soubesse do meu passado, ela seria a primeira a sair correndo parao lado oposto.Meus pais tinham sido loucos e acho que herdei aqueles genes também. Passei a vida lutandocontra aquilo, mas depois do que aconteceu entre mim e Angélica, da tragédia que veio para minhavida quando ela se matou, resolvi assumir de vez quem eu era. Mas uma coisa tinha ficado: minhaaversão a relacionamentos.Vítor me lançou um olhar arrependido e falou, como se notasse como eu me sentia:– Desculpa, German. Sei que você odeia quando uma pessoa fica obcecado por outra, mas nãosou louco. Sei os meus limites.– Ótimo. Não quero que você se magoe e nem que pare sua vida se isso tudo não der certo.– Vai dar. Sinto que com paciência e carinho ela está cada vez mais próxima de mim. É sóuma questão de tempo.Lembrei do modo que Angie me olhou na noite anterior e da atração entre nós que pareciauma coisa viva. E das palavras dela enquanto dançávamos, que não sabia o que tinha acontecido, masque não tinha conseguido parar de me olhar. Novamente tive dúvidas se ela era naturalmentepaqueradora pelas costas de Vítor ou se tudo foi um caso isolado de atração entre duas pessoas, semque elas pudessem controlar. Não sei qual das duas opções era pior. Só sei que eu faria de tudo paramantê-la longe e para enterrar aquele sentimento bem dentro de mim.O assunto preferido de Vítor parecia ser ela, pois ele voltou a falar:– Quando você a conhecer melhor, vai ver o quanto ela é legal, German. É carinhosa, doce, fazde tudo pra você se sentir bem. Acho que por isso as pessoas se aproveitam dela.– Como assim?– Por exemplo, Isabel, a mãe dela. Gosto muito da Isabel, mas já percebi que ela domina aAngie. Faz sempre com que ela se sinta culpada, para assim ter suas vontades satisfeitas. Parece queIsabel foi mãe solteira e deixou muitos sonhos de lado para criá-la. Nunca deixou faltar nada,incentivou seus estudos, cercou-a das melhores coisas. Mas faz as escolhas pela Angie. É um poucochantagista, sabe?– Entendo.– Angie estudou Direito porque a mãe a perturbou. Ela nem sabia que curso queria seguir, entãoresolveu fazer Direito mesmo. Passou num concurso público federal do TRF e trabalha em umtribunal de segunda à sexta. Sei que ela não gosta, acha chato, mas continua porque era o que a mãequeria, é o que várias pessoas lutam para conseguir e lhe dá um bom salário. Uma vez perguntei oque ela realmente queria fazer. Sabe o quê? Casar, ter filhos, cuidar da casa e do marido. Ela atédisse que se envergonhava disso, pois era bem pouco feminista querer ser uma dona de casa.Acredita nisso? Se ela se casasse comigo, ficaria feliz em tê-la em casa cuidando dos nossos filhos.Tudo o que Vítor disse, me fez pensar que aquela história não acabaria bem para ele. Angie poderia ter seus sonhos realizados se aceitasse se casar com ele. Vítor era rico, bem apessoadoe apaixonado. Se ela ainda não aceitou, talvez realmente tivesse sérias dúvidas. E talvez o magoasse.– Isabel também é muito vaidosa. Trabalha como corretora de imóveis e está sempre elegante,com cabelos arrumados, maquiagem perfeita. Faz ginástica e tratamentos para se manter magra. Acasa delas parece um quartel, com hora pra tudo. E a Angie é totalmente o contrário. Adora comerdoces. Você acredita que ela só come na rua, escondido da mãe? Se recusa a fazer ginástica, masgosta de dançar e correr. Mantém a forma assim, mas Isabel sempre acha que Angie deve ser maismagra e de vez em quando elas discutem por que Angie não quer frequentar a academia. E é assim emtudo. Em relação às roupas, ao cabelo, aos amigos. Só tem duas coisas com a qual concordo comIsabel: ela é minha aliada, faz de tudo para que Angie fique comigo, e além disso implica com Paola, amelhor amiga de Angie e que eu não suporto.Eu quase tive pena de Angie. Doce, romântica e submissa. Quando ela fazia o que tinhavontade e não o que a mãe queria? Ou o que Vítor queria, pois pelo visto ainda estava com ele porpressão e não por realmente desejar.Eu tinha experiência com mulheres submissas. Conhecia várias e geralmente elas eram assimna cama, na vida real costumavam ser mais decididas. Por tudo que Vítor falou, Angie devia sersubmissa também na vida. Mas até que ponto?Naquele momento o celular de Vítor, que estava sobre a mesa ao lado, começou a tocar. Ele opegou e seu rosto se abriu em uma grande sorriso, enquanto dizia:– É ela! Oi, meu amor! Claro, já acordei um tempão. É, a festa foi até tarde. E a dor decabeça, melhorou?Ele ouviu um pouco, com o semblante sonhador. Eu me recostei melhor e fechei os olhos.Mas era impossível não ouvir a conversa.– Sairmos para almoçar? Claro, onde você quer ir? Tudo bem. Hei, o que houve? Sua voz estádiferente. Tem certeza? Quer vir almoçar aqui? O German está aqui e acho que vai almoçar com a gente.Quer sair mesmo? Não, ele não se importa. Saio com você.– Vou almoçar com Fernanda. — Avisei, sem abrir os olhos sob os óculos escuros.– Viu, não tem problema. O German vai almoçar com Fernanda. Vamos sair, sim. Esse horárioestá ótimo. Eu pego você em casa. Mas por quê? Não precisa ir de carro, vai comigo. Se é assim.Então te encontro lá. Tudo bem mesmo? Tá. Beijos, meu amor.Vítor pôs o celular de volta na mesa e disse com voz preocupada:– Ela parecia estranha. Não quis vir almoçar aqui, queria sair e conversar. Será que... Putamerda!Eu o fitei. Pensei por um momento se aquele almoço significava o fim daquelerelacionamento. E se aquilo tinha algo a ver com a atração que sentimos um pelo outro. Fui engolfadopela culpa. Mas Vítor não pensava assim, pois sorria amplamente.– Cara, será que ela vai aceitar meu pedido de casamento? — Ele levantou de um pulo. — German,preciso ir. Vou almoçar com a futura esposa Reze por mim!Ele saiu correndo como um garoto. Não tive coragem de alertá-lo, para que ele não sedecepcionasse. Mas e se ele estivesse certo?Suspirei e voltei a fechar os olhos, sentindo o corpo ficar quente sob o sol. Mas não estavamais relaxado. Mesmo contra vontade, pensei em Angie e no que ela tinha a dizer a Vítor.Independente do que fosse, não me dizia respeito. No entanto, ela não saiu do meu pensamento.
Notas finais
@Violeteros_BR beijos Mari
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