Notas iniciais
Boa leitura!

Eu só quero que você saiba Que eu estou pensando em você Agora e sempre mais Eu só quero que você ouça

A canção que eu fiz pra dizer Que te adoro cada vez mais

E que eu te quero sempre em paz

Angie

Depois que tudo se acalmou, eu e Paola demos um mergulho e sentamos sozinhas à mesa onde

estavam nossas coisas, para conversarmos em paz. Torci o cabelo para tirar a água, dizendo a ela:

– Ficou chateada, não é?

– Com aquele palhaço? Aquele mimado? Claro que não!

Sua irritação só me provou o contrário. Suspirei. Eu estava chateada por toda a situação. Por

saber que Vítor estava sofrendo, pela mágoa de Paola com o comportamento dele, por minha própria

situação com German. Falei:

– Deixa pra lá. Acho que Vítor finalmente se deu conta da merda que fez. Saiu daqui

parecendo arrasado. E envergonhado.

– Ele que se dane! – Paola deu de ombros. – Fiquei com mais pena de German. Coitado, estava

puto, pois não sabia que a gente estava aqui.

– Disse isso?

– Foi, falou comigo. Hei, Angie ... – Ela se inclinou pra frente, baixando a voz. – Notei o olhar

que vocês trocaram! Caramba! Ele também está caidinho por você!

– Você acha?

– Tenho certeza! Se olharam de um jeito, um parecia prestes a comer o outro!

– Paola!

Ela riu e acabei rindo também.

– Tadinhos! Doidos um pelo outro e aquele pulha no meio do caminho enchendo o saco! –

Desabafou.

– Bem que você gosta daquele pulha.

– Deus me livre! – Paola se benzeu. – Quero distância de Vítor! Se quer saber, tava a fim de

sair hoje à noite e me acabar! Me divertir à valer! Vamos?

– Vamos. Tem idéia de onde?

– Nenhuma. Dê uma sugestão.

A minha sugestão era ir para qualquer lugar onde eu pudesse estar perto de German, nem que

fosse para olhá-lo de longe. Eu só conseguia pensar nele, ali apenas com aquela bermuda, seus olhos

azuis nos meus, o desejo forte entre nós, o modo como foi como se quisesse ficar. E naquele beijo

que trocamos na noite anterior. O desejo me consumia, meu corpo ardia, eu sentia vontade de largar

tudo e sair correndo atrás dele, me jogar a seus pés e implorar por migalhas.

Conscientemente sabia que era loucura, mas nada podia me impedir de sonhar. E eu ficava

recordando infinitas vezes a sensação de tocar nele, da textura do seu cabelo, do calor e firmeza de

seu corpo grande e duro, do seu beijo maravilhoso. De sua pegada forte, o modo como me segurou

firme e me prendeu em seu corpo, deixando que eu sentisse como me desejava. Ficava com as pernas

bambas, agoniada, desesperada para vê-lo ainda mais, nem que fosse só um pouquinho, como se

aquele dia na praia só tivesse servido para me instigar ainda mais.

Foi quando lembrei de algo. Meu coração disparou e abri rapidamente minha bolsa. Peguei

dentro da minha carteira os dois convites negros, que estavam ali desde que Vítor tinha me dado.

Olhei-a, ansiosa.

– Paola, veja isso.

– Que houve?

– Olha aqui.

Ela franziu o cenho, pegou e leu:

– Clube Voraz, festa temática hoje, às 23:00. Que clube é esse?

– É um clube de sexo. – Murmurei, lançando olhares em volta.

Paola me encarou, surpresa. Ergueu uma sobrancelha e sorriu.

– Quem te deu isso?

– German tem uma amiga, Fernanda, com quem se relaciona. Sexo. Ela é uma das donas do clube

e deu esses ingressos para Vítor. A gente namorava ainda e ele perguntou se eu queria ir, só para ver.

É claro que não quis. Então ele disse que eu podia dar, inclusive para você. Estava aqui, guardado

em minha bolsa.

– Está me dando? Mas o que rola exatamente aí?

– BDSM, sexo, sei lá. Parece que é um lugar para fetiches e só entra quem é sócio ou

convidado dos donos. E somente casais. Pode participar ou só observar.

– Ah, ta. – Ficou pensativa. – Vou ver quem pode ir comigo.

– Não precisa.

– Por que não? Disse que só entra em casais.

– Você já tem companhia.

Ela me encarou e sorriu.

– Já tenho, é? Quem?

– Eu.

Paola riu.

– Tá brincando.

– Não estou não.

– Angie...

– Podemos entrar juntas. Para todos os efeitos, somos um casal de lésbicas.

Ao me ver falando sério, Paola riu ainda mais e se recostou. Entregou-me os convites.

– Ficou doida, Angie? Sabe o que é BDSM? O negócio é pesado.

– Fale baixo! Sei. Gosto de ler e já li sobre o assunto superficialmente.

– Já viu algum filme pornô? – Viu que eu ficava vermelha como um pimentão ao dizer que não

com a cabeça. – Foi o que pensei. Lá vai ver sexo ao vivo, querida, e não é apenas Papai e mamãe.

Sabe-se lá que sessões vão fazer.

– Já foi em um lugar assim?

– Já. Um namorado uma vez me levou, até que curti. Mas é muito pesado. Que loucura é essa

em querer ir a esse clube de repente? Tá pensando em virar uma virgem sadomasoquista?

Acabei rindo com ela, mas continuava nervosa. Rolei os convites entre os dedos e confessei:

– Acho que German vai estar lá.

– Ah ... Entendi.

– Sei que é loucura, mas eu preciso vê-lo. – Fitei-a rapidamente. – A festa é à fantasia, posso

ir disfarçada.

– Angie ... – Pacientemente, Paola segurou minha mão e me fitou nos olhos. – German deve ser um

cara experiente e, se frequenta esses lugares, gosta de coisas com as quais você não está acostumada.

Sabe o que pode ver lá? Já imaginou as coisas que ele pode curtir? Talvez fique chocada e nunca

mais queira nem olhar para ele!

– Eu duvido. Do jeito que me sinto, acho que se German fosse um assassino eu continuaria

apaixonada. Mas pense comigo. Se você estiver certa e eu presenciar algo que me faça ter nojo dele,

não será bom? Assim eu o esqueço de vez e acaba esse desespero, essa saudade que está me

deixando louca!

– O que eu faço com você?

– Diga que vai comigo. Se o negócio for pior do que pensamos, voltamos na hora. Mas

preciso ver o German, saber do que gosta, o que faz ... Quero saber tudo dele. Tudo.

– Está preparada para vê-lo transando com outras pessoas?

Senti um aperto terrível no peito.

– Sim. – Embora eu soubesse que não.

– E se ele estiver lá transando com um homem?

– Paola!

– Ué, pode ser! Ou for um escravo sexual de alguma dominatrix? Se for humilhado na frente

de todo mundo? São muitas opções.

– Por isso preciso ir e ver! Agora isso vai ficar na minha mente me perturbando. Por favor,

vamos. É só ver e sair.

Paola suspirou.

– É uma loucura, Angie. E se German reconhecer você?

– Vou escolher uma fantasia com máscara. Por favor!

– Acho que vou me arrepender disso. – Suspirou. — Mas tudo bem.

– Obrigada. – Eu a abracei forte, excitada, nervosa.

– Se ficar traumatizada e nunca mais quiser olhar na cara de German ou transar na vida, não me

culpe.

– Isso não vai acontecer. – Afirmei, com o coração disparado. – Temos que correr para

arrumar as fantasias.

– Conheço um lugar que tem cada uma linda. Fica aberto hoje até a noite. E geralmente nesses

lugares o traje é dresscode.

– O que é isso?

– As fantasias são fetichistas, com couro, vinil, ou mesmo fantasias com fardas, enfermeiras,

vitorianas, alguns ficam nus com o corpo pintado ou tatuado, são várias coisas. Mas não entra jeans

ou roupa casual, por exemplo.

– Tá.

– Mas não se preocupe. Sei onde conseguimos as fantasias. Angie... – Paola pegou seu celular,

fitando-me. – Sabe que sempre entendi seu lado romântico e sonhador, mas queria que fosse mais

esperta, para não sofrer. Às vezes você é muito ingênua. Não quero me meter em sua vida, mas posso

falar só um coisa antes que faça toda essa loucura?

– Claro, sabe que pode me dizer tudo que quiser. – Esperei, atenta.

– Mesmo com o que aconteceu ontem entre mim e Vítor, ou levando em conta que eu o acho

um babaca, tenho que admitir que ele era bom para você. É rico, bonito, bom caráter, normal na

medida do possível. Ele pode realizar todos os seus sonhos de casar e ter filhos. Acho mesmo que

pode te fazer feliz.

– Paola ...

– Não, deixe eu terminar. German é lindo de morrer. Pode ter virado sua cabeça, deixado-a

doida, mas o que sabe dele? O cara frequenta um clube de sadomasoquismo. Não quero dizer que por

isso é louco ou tarado. Mas não sabemos. Além de ser quase um irmão de Vítor, o que já dificulta

tudo para vocês, ainda é mais complicado. Romantismo e sadomasoquismo não combinam, meu bem.

Respirei fundo, a fitei nos olhos e fui sincera:

– Agradeço por se preocupar comigo. Mas não posso recuar agora, Paola. Sempre penso

demais antes de agir, sou até medrosa. Mas agora quero pagar para ver. E como eu disse, German nem

vai saber que estou lá. Só preciso ir e ver mais um pouco dele. Nem que seja para me decepcionar e

desistir.

– Certo. Vamos lá então. – Ela capitulou.

Enquanto Paola ligava para a loja, olhei para os convites em minhas mãos e respirei fundo.

Eu sabia que aquilo era uma loucura. Mas acontece que desde que conheci German, eu não me sentia

mais normal. Ia pagar para ver. Deus que me ajudasse pelo que me esperaria lá.

Notas finais
@Violeteros_BR beijos Mari