Crônicas de uma Lâmina

2 Reino do Oeste I - Passado não esquecido


Já se passaram quatro horas de cavalgada. O cavalo diminuiu seu ritmo e Hanzou já se sentia muito cansado, havia comido há algum tempo e bebido água há mais tempo ainda, precisava racionar seus recursos. Estava passando por um local mais seco, com muita terra e poucas árvores, parecia muito um deserto, e ele realmente encontraria um se cavalgasse mais à oeste, afinal, pra lá ficava o reino de Kum, onde alguns nômades há centenas de anos se encontraram e começaram a formar uma civilização. Kum era um reino atrasado, mas seus exploradores eram os melhores pois viveram a vida toda procurando por riquezas, artefatos e manuscritos em condições adversas.

A cada trote do cavalo os olhos de Hanzou se fechavam mais. Estava com muito calor, cansado, com sono… E pra finalizar, quando olhou para baixo, viu que o ferimento em sua barriga havia aberto, o sangue tinha deixado toda a gaza vermelha.

—Merda… -Disse, antes de cair do cavalo, desmaiado.

O sol ficava mais e mais quente, o cavalo após uns segundos se deitou, não aguentava mais ficar em pé, assim como Hanzou, há algum tempo não se alimentava.

→…←

Sidoh e Hanzou tomavam seu chá e conversavam sobre suas vidas quando Kagani abriu a porta da varanda e andou até os dois, o samurai estava com um semblante preocupado, pensativo, algo não estava certo, Kagani não sabia esconder seus sentimentos.

—O que aconteceu, Kagani? -Perguntou Sidoh.

—Vou sair em missão, eu vou para Kum. -Ele se sentou. -Mas tem alguma coisa errada, a ordem dada por nosso rei não faz sentido.

—Qual a ordem? -Hanzou permaneceu quieto, Sidoh era um tanto curioso.

—Confidencial.

Kagani não olhou para seus companheiros, estava concentrado pensando. Sidoh não fazia ideia do que era, mas Hanzou conhecia seu parceiro há tempo suficiente para saber exatamente o que lhe afligia.

→…←

O vento úmido e quente soprava cada vez mais forte. Após uns dez minutos inconsciente no chão, um homem o avistou, ele estava com peças de roupa que cobriam todo seu corpo, uma túnica rasgada por cima de uma roupa que parecia um macacão vermelho, grosso, nas mãos luvas de couro pretas com os dedos rasgados, na cabeça uma tira de pano enrolado, cobrindo a cabeça que já estava dentro de um capacete cinza com olhos grandes. O homem foi até ele e viu o ferimento. Resolveu ajudar.

Após cinco horas Hanzou acordou. Ele se viu novamente num quarto de hospital totalmente precário, parecia um deja vu, teria ele voltado para o mesmo lugar? A diferença é que desta vez as paredes eram feitas de barro e tijolos, tornando o ambiente mais quente que o outro

—Que porra é essa? -Ele olhou para sua barriga, não havia mais a mancha de sangue e os curativos eram novos.

—Não se mexa, não quero ter que cuidar desse machucado de novo, não sabe como foi trabalhoso. -Ele olhou e viu aquele homem, apenas com o capacete e uma blusa de manga comprida com tecido bem fino. Hanzou foi contra o que ele pediu e tentou se levantar, o homem foi até ele e o mandou deitar novamente, Hanzou, sem forças, obedeceu, encostando suas costas na cama novamente. Foi a primeira vez, provavelmente, que ele obedeceu alguém. Ao olhar para aquele homem, mesmo não podendo ver seu rosto, podia sentir aquela aura única dele, com certeza era alguém respeitado.

—Onde estou?

—Kum.

Hanzou levou as mãos ao rosto, preocupado. O tempo havia se passado, ele não queria demorar para fazer o que ia fazer, já tinha enfrentado alguns soldados, ninguém sabe quantos e quando iam ser mandados novamente pra lá. Athlon era dez horas a cavalo, agora essas dez horas viraram quatorze no mínimo, quanto mais tempo demorava, mais chance tinha de outra tropa voltar à vila em que ele estava e dizimar os refugiados.

O homem estava tirando sua blusa, o samurai olhou e viu que mais da metade de suas costas estavam queimadas. Logo em seguida ele tirou o capacete, e ao se virar de frente para Hanzou, ele viu que seu rosto estava totalmente queimado, aquele homem era cego de um olho. O silêncio permaneceu por alguns segundos enquanto o homem atravessava o quarto pra fechar as cortinas. O calor era intenso.

—Olhe, eu preciso ir resolver meus problemas, obrigado pela ajuda mas não tenho compromissos com você.

—Não vai perguntar como arranjei essas queimaduras? -O homem se virou para Hanzou, que aos poucos tentava levantar da cama, sem êxito.

—Não. -Respondeu, após olhá-lo por algum tempo.

O samurai aos poucos recuperava sua memória, e logo lembrou o que poderia ter causado aquilo naquele homem… Mas estava com medo de perguntar e ser verdade. Ele tentava se levantar da cama mas estava fraco demais, sentia sua garganta seca, seu estômago dolorido, suas costelas estavam bem visíveis.

—Por quanto tempo fiquei desacordado?

—Algumas horas.

—Não, eu perdi muito tempo! -Ele ficou preocupado, nervoso. -Não posso ficar aqui, tenho uma coisa para fazer.

Uma mulher entrou no quarto, estava usando apenas uma toga completamente fina e transparente, seus seios e todos os seus traços eram visíveis para qualquer um que olhasse. A mulher estava com uma bandeja de barro, com uma jarra de algum suco e dois pães.

—Pão é uma alimentação pesada para você que está do jeito que está, mas é o que temos. -Disse o homem. -Coma e beba.

A mulher deixou a bandeja num móvel do lado da cama de Hanzou.

—Ela é minha irmã, Taze Meyve, e eu sou Vasi Meyve, o chefe de Kum.

—Prazer, senhor. -Disse ela, com uma voz doce.

—Você que me achou inconsciente? O que o chefe de um reino fazia sozinho explorando? -Ele ignorou completamente aquela mulher.

—Por quê questiona ao invés de agradecer? -Hanzou ficou quieto e Vasi colocou a blusa novamente. -Taze, pode nos deixar a sós novamente? -Ela assentiu e saiu do quarto. -Faz mais de um ano que esse reino virou ruína, desde que seu amigo veio para cá não conseguimos nos recuperar, creio eu que nem tem como mais. -Notava-se um sentimento de remorso em Vasi, mas ele contava tudo sem esboçar emoções mais intensas. -Ele e os soldados mataram milhares de civis, apenas 250 sobreviveram, os que se esconderam em cavernas subterrâneas e eu. Sim, ele me deu todas essas queimaduras, mas acho que você já sabia, todos vocês sabiam e deixaram.

Hanzou olhava para Vasi sem se movimentar, sem abrir a boca para falar nada. Realmente, ele sabia o que ia acontecer quando Kagani chegou na varanda e ficou com aquele semblante, há muito tempo atrás, mas ele não se lembrava porque não agiu. Por quê? Ele perguntava a si mesmo.

O samurai virou seu rosto e olhou pela janela, aquela única árvore, solitária, balançando com o vento quente, aquela imagem trazia um pouco de paz para ele. O local permaneceu em silêncio, nenhum dos dois se manifestou, até que, depois de cinco minutos, Hanzou resolveu pegar os pães para comer, ainda sem abrir a boca para falar, Vasi estaa sentado mas quando ouviu que Hanzou se moveu, ele se levantou e continuou a falar.

—Construções destruídas, civis mortos, crianças mutiladas, mulheres esquartejadas, pessoas queimadas. Esse foi o dia que a realidade dos humanos mais me chocou, mas não deve ter chocado mais ninguém, vocês no Sul, Jää no Norte, Ciklon no Leste, ninguém nos ajudou, ninguém nos viu afundando, nós não temos praticamente nada.

Aquilo tudo foi dito, mas parecia que entrava por um ouvido e saía pelo outro, Hanzou não dava a mínima para o que Vasi dizia. Mais um tempo de silêncio, Hanzou terminou sua refeição.

—Perdi minha memória. -Ele finalmente começou a falar. -Estou lembrando algumas coisas, acontecimentos, conversas, aos poucos. Lembro de estar sentado com Kagani e ele estar aflito, preocupado com alguma ordem que havia recebido, mas não lembro porque não fiz nada, ou se eu fiz e não adiantou, não lembro. -Ele olhava apenas para aquela árvore pela janela. -Não posso reverter o que ele fez, mas não faria algo como isso, e algo me diz que a ordem foi… Diferente das outras, porque ele não gostaria de fazer o que fez.

—Isso eu sei, ele chorava igual uma criança enquanto nos esfolava, tentava permanecer sério, mostrando os dentes igual um cachorro feroz, mas não passava de um tolo que só soube obedecer ordens. E mesmo assim perdemos. -Vasi se levantou e foi até a porta. -Eu te ajudei sabendo que é um samurai também, porque você não é ele. Estou indo para minha casa, é a maior da cidade, quando quiser aparecer vá encontrá-la. Temos mais assuntos para conversar.

Vasi saiu.

A noite chegou e Hanzou resolveu tentar se levantar, conseguiu, mas com muita dor, ainda estava com sede e fome, ficou pensando durante esse tempo no cavalo que estava com ele, estaria ainda vivo? Pegou sua espada e saiu do quarto em que estava, andou pelo corredor do que parecia um hospital, era minúsculo, apenas seis salas e estava tudo vazio, havia apenas duas pessoas circulando, uma mulher, com um pouco mais de roupa que aquela de mais cedo, e um homem. Os dois olharam torto para Hanzou.

Quando saiu do prédio viu o estado do reino. Como disse Vasi, devastado. O deserto era grande demais comparado ao que sobrou da cidade, casas estavam aos pedaços e as que ainda estavam de pé pareciam que foram costuradas, remendadas. Ele andou mais um pouco e avistou a casa de Vasi, a única com uma escultura de barro de uma espada gigante, não tinha como ser outra. Foi até lá e bateu na porta. Ninguém atendeu. Ele olhou para trás e via algumas pessoas passando, todas que o avistavam, viravam o rosto. Era ruim ser discriminado por algo que não fez. Ele se sentou no chão, do lado de fora, encostado na parede da casa, sem saber o que deveria fazer, seguir sua jornada ou continuar ali esperando um homem que muito provavelmente estava lutando contra

o ímpeto de matá-lo.

Toda a situação passou rapidamente na sua cabeça, ele acordando, recuperando memórias pouco a pouco, lembrando da morte de seus amigos, ter que enfrentar o novo rei de seu reino sozinho e estar num lugar que seu amigo devastou. Estava indo para Athlon por ele, ou por Garon e os outros que foram obrigados a deixar o reino se questionassem qualquer ordem de Barthos?

Após alguns minutos de reflexão, ele se levantou, ainda estava com a mesma roupa que usava quando deixou o refúgio de sulistas em que passou meses em coma, mas estava toda suja de areia. Garon era mais cuidadoso que Vasi, com certeza suas roupas teriam sido lavadas. Quando olhou para baixo e percebeu a situação em que estava, se chocou. Seus braços estavam nitidamente mais finos assim como suas pernas, as costelas ainda visíveis, pior do que no dia anterior. Levou uma mão ao rosto e sentiu os ossos mais do que a carne, sua situação era preocupante.

Mal acordara de um sono de cinco meses e já estava indo salvar o dia? Agindo como um herói? Quem em sã consciência faria isso? Hanzou estava, literalmente, caminhando em direção a morte e, se fosse para Athlon do jeito que estava, não só estaria caminhando mas estaria cavalgando no cavalo mais veloz em direção a foice da morte. Quando parou para pensar, já foi loucura enfrentar os soldados que ele havia matado mais cedo, como ele poderia enfrentar um exército?

É difícil quando tantas dúvidas surgem, a pior delas sendo “quem sou eu?”. Hanzou não conseguia responder a nenhuma de suas perguntas, não sabia o que iria fazer, como iria fazer e nem o motivo de fazer. Mas sabia que iria. Talvez acordar do coma provoque uma epifania que influencie a pessoa a fazer uma ação altruísta. Hipóteses.

A porta se abriu e Vasi saiu de casa, ficou em pé ao lado de Hanzou. que o olhou como se estivesse nervoso de estar ali.

—Que foi? Nunca aprendeu a ter paciência?

—Preciso ir para Athlon logo...

—Está vendo aquela construção lá longe? -Ele não deixou Hanzou terminar sua frase e o ignorou. -Estamos treinando os garotos desde criança a serem guerreiros, as mulheres também, estamos enfrentando muitas gangues de saqueadores, até agora conseguimos nos defender. -Um adolescente vinha correndo na direção dos dois. -E aquele é um dos meus filho, Isik.

—Bati minha marca, finalmente! -O garoto contou o tempo que levou correndo da academia até sua casa. -Quem é esse?

—Um samurai de Athlon. -O garoto fechou a cara, olhou seu pai, olhou o samurai e entrou em casa sem dizer mais nenhuma palavra. -Isso que seu amigo causou, xenofobia. -Vasi entrou e alguns segundos depois saiu com duas garrafas de saquê. -Nem se apresentou, qual seu nome? -As noites em Kum são frias, ele podia ficar sem usar seu capacete e cobrir seu corpo, que era extremamente sensível ao Sol. Entregou uma garrafa a Hanzou, que aceitou e a abriu.

—Chamo-me Hanzou… Eu posso beber isso em recuperação?

—Você de qualquer maneira já vai amanhã para Athlon antes de se recuperar, estará morto logo mesmo. -Vasi riu, Hanzou também. Os dois beberam. -Tive 6 filhos, Isik é o mais novo com quinze, dos outros 5, dois foram para Jää, um morreu para um saqueador e os outros dois estão se comendo em algum lugar do mundo. -Vasi tomou um gole da bebida. -Perdão meu linguajar, somos descendentes de nômades, não temos muito escrúpulo.

—Eu entendo.

O líder de Kum convidou o samurai para entrar em sua casa, se fosse visto pelos civis conversando com aquele homem, seria apedrejado no dia seguinte. Sua casa era feita de uma argila especial, resistente e não permitia que o ambiente ficasse tão abafado como o barro normal. Era um lugar pequeno, humilde para um rei, mas era o que ele podia ter.

Os dois se sentaram numa mesa de madeira que tinha três cadeiras e beberam do saquê, isso iria deixar Hanzou mal bem rápido, afinal não tinha se alimentado direito nos últimos tempos, estava bem magro e visivelmente cansado, mas como Vasi disse, ele iria morrer de qualquer maneira, melhor que morresse bêbado e alegre. Isik desceu as escadas e viu o samurai dentro de sua casa, ele se virou e subiu as escadas novamente, enfurecido.

—Não ligue, as pessoas são rancorosas, só porque seu amigo destruiu tudo com os soldados dele, besteira. -Ele riu, mas sentia um aperto no coração de lembrar do que aconteceu.

—Como você sobreviveu?

—Não sei, acho que não se pode se livrar tão fácil de algo tão ruim. -Vasi sorriu mais uma vez e fez Hanzou sorrir também.

O samurai bebeu mais um gole do saquê. Ele teve um sentimento incomum, estava criando laços? Ele não se lembrava de detalhes que aconteceram antes da sua “morte”, mas sentiu que estava iniciando a criação de uma conexão com aquele homem, algo que ele não se lembrava de sentir, as poucas emoções que ele lembrava de ter eram relacionados às suas obrigações, não lembrava de ter sido feliz em algum momento, ou de ter se sentido triste, de ter ficado furioso… Apenas de ter sentido medo na luta contra aquele maldito esgrimista que feriu não só seu corpo mas como a proteção que impedia emoções supérfluas de adentrar em sua mente. Talvez ele tenha realmente morrido e renascido, só assim para explicar todas esses sentimentos que ele teve desde que acordou, a vontade de fazer uma ação altruísta, o gosto por começar uma amizade e a decepção de ser rejeitado por algo que não fez.

→…←

Todos os soldados mandados por Ganeshi retornaram ao reino com a missão cumprida: bases rebeldes detonadas. Apenas alguns não haviam voltado, o que teria acontecido? Barthos e Ganeshi não se preocuparam muito, tinham soldados de sobra para mandar novamente se preciso. Mas era estranho, porque não voltaram?

—Posso eu mesmo ir. -Disse Ganeshi.

—Perda de tempo você ir resolver algo que meia dúzia de soldados podem resolver. -Disse Barthos.

—Seria mais rápido.

—Seria perda de tempo, sendo ele pouco ou não. -O rei teve que ser grosso para calar a boca de Ganeshi. -Mande mais alguns de manhã e tudo será resolvido.

O esgrimista assentiu e saiu da sala principal. Andou pelos grandes corredores sem olhar para os lados, sem olhar pro tapete extremamente comprido, pras paredes esculpidas, apenas olhando para frente, focado. E enfurecido.

Odiava ter sua opinião descartada, sendo pelo rei ou não, sabia que deveria ir por conta, sentia que algo estava errado. Ganeshi foi para sua acomodação de elite, onde tinha uma cama enorme com lençóis vermelhos da cor do sangue, a favorita dele, uma mesa onde organizava seus documentos, ou pelo menos dizia que organizava, pois os papéis estavam espalhados pelo quarto inteiro. Havia também um banheiro e uma estante que continha diversos modelos de espadas. Ele tirou sua roupa de serviço e colocou apenas uma calça confortável para passar a noite.

Deitou-se e dormiu. O dia seguinte seria cansativo.



Fim do capítulo 2