Crônicas de uma Lâmina
3 Reino do Oeste II - Cicatriz de batalha
Apenas Hanzou estava acordado, na varanda de suas acomodações nas montanhas, olhando para os morros e o mar na paisagem, estava a noite mas era possível enxergar bem devido à luz da lua e a das estrelas. Kagani chegou e viu, logo que entrou no apartamento, que seu amigo estava em ali, em pé, acordado. Não queria ter que contar a ninguém o que teve que fazer, era uma missão secreta então ninguém ficaria sabendo, mas seus amigos o conheciam e poderiam descobrir. Pelo jeito Hanzou já tinha descoberto. Os dois se conheciam muito bem, principalmente Hanzou e Kagani, eram amigos de infância e não adiantava esconder nada um do outro, o que era guardado as sete chaves para os outros, ficava praticamente escrito na testa quando se tratava dos dois.
—Não quero falar. -Disse Kagani.
—Não pedi para que o fizesse.
Kagani foi até o banheiro, Hanzou ouviu o barulho de água, seu amigo entrara no banho rápido. O samurai dos ventos não tirava os olhos daquela linda paisagem. Ele piscou seus olhos uma vez e via fogo, muito fogo, queimando todas as montanhas. Piscou novamente e tudo voltou ao normal.
Algo tinha queimado.
→…←
Hanzou acordou com o barulho de uma explosão, abriu os olhos assustado e viu que estava na casa de Vasi, na sala. O samurai se levantou rapidamente devido ao susto e sentiu uma pontada na sua barriga, levou sua mão a ela e notou que o ferimento não tinha se aberto novamente. Ainda. Ouviu outra explosão e correu para fora, quando abriu a porta viu que Kum estava sendo atacada e saqueada por invasores, era um caos, os nômades lutavam para proteger o que sobrou de seus bens e suas famílias, se colocando na frente dos mesmos. Eles lutavam muito bem, pelo jeito o treinamento da academia que Vasi havia citado era muito bom.
—Morra!
Um homem foi atacá-lo pela direita, ele desviou e empurrou o homem, que acabou tropeçando e caindo no chão. O agressor levantou rápido e com um facão na sua mão continuou tentando atacar Hanzou, o samurai correu para dentro da casa de Vasi, ele apenas desviava dos golpes de seu oponente enquanto procurava sua espada na sala. Não a encontrou.
—Merda! Não posso confiar em ninguém! -O invasor vestia uma calça de couro com proteção interna e uma proteção no peito presa por tiras de couro que se encontram em um nó nas suas costas. Hanzou se esquivou de um golpe que atingiu a parede e a riscou, tirando uma lasca grande da argila a qual foi usada para construí-la, segurou o braço do seu oponente com o braço direito e acertou uma cotovelada com o braço esquerdo no queixo do mesmo. O homem apagou e caiu no chão, deixando sua arma para o samurai, que pegou para si.
Mais uma vez ele tinha uma escolha: comprar a luta de outras pessoas e ajudá-las ou seguir seu caminho e fazer o que bem entender. A espada era o menos importante, poderia conseguir outra. Provavelmente. Vasi a roubou? Estranho, ele com certeza não precisaria dela, talvez não tenha sido ele, não faria sentido. Mas é preciso saber, não?
Hanzou saiu da casa de Vasi e correu pelo reino, pelos vastos terrenos áridos e secos e debaixo da luz do Sol procurando pelo seu amigo, inimigo ou seja lá o que ele seja. Passar despercebido por aqueles bárbaros grandes e burros não era tão difícil, mas quando um o via, ele era obrigado a parar e perder tempo para lutar. O primeiro tinha pelo menos dois metros e era uma montanha de músculos. Já na primeira tentativa de acertar Hanzou com sua espada ele selou sua derrota, o golpe foi na altura do pescoço do samurai, que se abaixou e cortou a perna direita do invasor com um golpe preciso do facão, que por estar enferrujado dificultava um pouco o corte, levantou-se para continuar correndo e procurando Vasi.
Aquelas pontadas no estômago persistiam, eram constantes, mas aquilo não podia atrapalhá-lo agora. Correr, movimentar-se e lutar o cansava como nunca cansou antes, dependia naquele momento apenas de sua força de vontade, porque seu corpo não respondia como deveria.
Flechas começaram a ser atiradas e Hanzou precisou se esconder atrás de uma pedra, ele se sentou no chão e verificou se não havia sangue no estômago que cada vez doía mais. Não havia, ele ainda podia se esforçar mais um pouco. O terreno era bem aberto, possibilitando todos os tipos de barbaridades, os invasores não mediam esforços para vencer os nômades de Kum. Um dos bárbaros usava um bastão de madeira repleto de espinhos de ferro para destruir o crânio de seus oponentes com apenas um golpe. Uma morte sangrenta e rápida.
Quando a quantidade de flechas diminuiu, Hanzou continuou correndo, contornou uma pequena casa que havia ali e seguiu pelos lados do reino que havia virado um campo de batalha. Ficou atrás de um monte de areia mais alto e viu um rosto conhecido lutando, era Taze, que estava usando sua espada, deveria ele trocar a espada pelo facão e deixar aquela moça mais vulnerável? Algo o dizia para continuar com aquela lâmina enferrujada, embora ela lutasse muito bem, cortava seus adversários com uma facilidade impressionante. Por alguns segundos ele se perguntou porque ela precisaria pegar sua arma para se defender, Vasi com certeza poderia arranjar algo melhor para ela lutar.
Enfim, não era hora de se preocupar com isso, deveria encontrar Vasi agora e pegava sua espada mais tarde.
—Abaixe-se! -Olhou para seu lado e viu um rosto conhecido, era Isik, empunhando uma lança maior que ele, uma alabarda com lâmina curva e vários adereços pendurados nela.
O samurai obedeceu, abaixou-se mas preparou sua arma caso precisasse agir. ao olhar para trás viu que um homem ia atacá-lo com um machado, mas Isik apenas esticou seu braço e a alabarda cortou desde o monte de areia atrás de Hanzou até o pescoço do homem, tudo isso a mais de um metro e meio de distância. Ele foi preciso.
—Não se acostume, samurai, o ajudei porque sei que meu pai confia em você, espero que não o traia, senão será o próximo.
O rapaz tinha um olhar assustador, seu pequeno moicano castanho, pele morena e corpo magro não causava temor em ninguém, mas quando olhavam em seus olhos, enxergavam um verdadeiro guerreiro ali dentro, somente um lutador irrefreável tem aquele olhar, Hanzou, de algum modo, sabia disso.
—Onde está seu pai? -Perguntou o samurai.
—Jong o capturou, o líder desses bárbaros. Meu pai acordou cedo e a invasão foi silenciosa, alguns deles se disfarçaram e pegaram meu pai desprevenido e, quando o capturaram, o resto deles veio. -Hanzou ficou preocupado com o que poderia estar acontecendo com Vasi. -Estou tentando chegar até eles, vai me ajudar?
Isik começou a correr e Hanzou foi logo atrás. Sua barriga estava no limite, sentia isso, não aguentaria lutar muito e nem correr, acabaria sendo um estorvo e não uma ajuda. O garoto era verdadeiramente habilidoso, todos os invasores que apareciam na sua frente nem sequer o viam antes de ser cortados por sua alabarda, uma vantagem para o samurai que estava mais fraco a cada passo. Chegaram no topo de um morro médio que se localiza em Kum, o morro das lamentações, onde antigamente os prisioneiros eram executados para todos os civis assistirem. O reino do oeste sempre foi o mais primitivo, porém, eram os mais fortes em batalha, vê-los lutar era incrível, deve ter sido difícil para Kagani e os soldados terem exterminado quase todos os kumianos.
De trás de uma pedra, Isik e Hanzou pensavam em como agir pois, na ponta do morro, estavam lutando Vasi e Jong com vários bárbaros assistindo e rindo. O líder do oeste estava muito ferido, suas roupas de proteção estavam muito rasgadas e o contato da luz do Sol com sua pele o deixava desgastado e feria mais sua pele, havia sangue escorrendo de seu corpo e respingos na areia. Ele usava uma kusarigama para lutar, arma que era constituída de uma corrente de metal com uma pequena foice afiada de ferro na extremidade. Jong também era alto e bem forte, estava usando uma armadura no corpo todo e como arma um pedaço longo de madeira com espinhos perto da ponta e que continua nesta mesma extremidade uma pedaço de metal cortante no formato de uma ferradura.
Todos os golpes de Vasi eram defendidos, alguns nem precisavam ser porque a armadura que Jong usava era resistente contra os cortes de sua arma, ele já tinha vindo preparado. Estava torturando Vasi aos poucos, seus golpes não eram fatais, ele apenas cortava o kumiano para ele durar mais naquela luta injusta.
—Não ficarei aqui vendo meu pai ser derrotado. -Isik se mostrou. -Ei, Jong. -O chefe dos bárbaros o olhou, surpreso, assim como Vasi, que naquele momento ficou com medo por seu filho estar ali. -Lute que nem um verdadeiro guerreiro, seu inútil!
Hanzou não acreditou na ação do garoto, ele tinha que ser tão descuidado? Junto de Jong havia em torno de uns 15 invasores, todos se colocaram na frente de Isik para que a luta entre os líderes não cessasse e não houvesse interrupções. Neste instante, Hanzou se mostrou, movimentou-se rápido para o flanco esquerdo daqueles homens e cortou a garganta de um antes que ele pudesse reagir, aquilo incentivou os bárbaros a lutarem, todos foram para cima dos dois.
—Usem uma proteção decente igual o mestre de vocês pelo menos! -Isik em apenas um movimento de sua alabarda cortou a barriga de cinco deles sem que pudessem se aproximar, ter uma arma tão longa tinha suas vantagens. -Deixar o mesmo ponto fraco a mostra em todos vocês é uma idiotice sem tamanho. -Ele finalizou estes cinco. Todos usavam a mesma roupa que o primeiro homem que atacou Hanzou na casa de Vasi usava, uma calça de couro e uma proteção no tórax.
Hanzou tentava se esquivar e atacar com seu facão, conseguiu cortar o ombro de um deles mas levou um chute e um golpe com um bastão de metal no peito, fazendo-o cair no chão. O mesmo homem tentou acertá-lo no chão, mas ele rolou para a direita e conseguiu se levantar.
—Não, agora não. -Seus curativos estavam sujos de sangue, o ferimento se abriu e a dor era tamanha que não conseguia mais mandar nem mesmo nas suas pernas, sua pressão começou a abaixar e sua mão não tinha mais firmeza para segurar o facão. -Mais um pouco, eu preciso aguentar. -Sua barriga doía e agora seu peito estava com um hematoma enorme do golpe que acabara de levar, tudo estava dolorido.
Enquanto perdia tempo conversando consigo mesmo, o bárbaro que havia tido o ombro cortado e o golpeou, acertou ele de novo com o bastão em sua barriga.
—É um idiota por vir para a luta machucado! Não iria aguentar aqui mesmo, eu só estou te fazendo um favor.
Levantou sua arma para finalizá-lo mas a alabarda de Isik perfurou seu estômago antes que ele pudesse fazer algo. Hanzou estava vendo tudo embaçado, não estava em condições nem de se levantar desta vez. Ele tentou enxergar o que aconteceu, viu que Isik ainda teria que lutar contra alguns deles. Vasi tentou correr até seu filho para ajudá-lo, aproveitando que aqueles que antes impediam sua fuga, agora estavam distraídos, porém, Jong o impediu acertando um golpe com sua arma na sua testa. O humano que sobreviveu a uma luta contra Kagani, o samurai do fogo, agora estava quase morrendo para enfrentar um bárbaro? Talvez se ele se rebelasse não seria uma boa ideia, antes de Isik e Hanzou chegarem teria sido onze contra um.
Vários pensamentos viajaram pela cabeça de Hanzou, ele conseguiu matar soldados do sul, com armas estranhas e treinados e não conseguia lutar contra aqueles brutos sem cérebro? Como as condições de alguém podem mudar tanto de um dia para o outro? A viagem a cavalo, a bebida do dia inteiro, a distância que ele havia corrido, tudo contribuiu para ele estar naquele estado lamentável. Um dos grandes samurais não conseguia defender mais ninguém, nem a ele mesmo.
Quando ouviu aquele som reconfortante de uma lâmina afiada dilacerando pessoas, olhou para ver o que estava acontecendo, era Taze, ela chegou para ajudar seu filho e seu irmão.
—Vasi! -Ela chamou seu irmão depois de cortar dois dos bárbaros que ainda estavam vivos ali, Isik aproveitou a deixa e matou mais um. -Conseguimos conter os invasores!
Vasi tentou se levantar, pegou sua arma que estava perto de seu corpo e ficou de pé.
—Quantas … baixas? -Estava cansado demais para falar duas palavras sem parar para respirar.
—Quarenta. -As técnicas de luta rudimentares daqueles sacos de carne sem cérebro não tinham como superar as de Taze e Isik lutando em conjunto, os bárbaros restantes pereceram. -Isik, vá ajudar seu pai, vou cuidar do samurai.
Taze foi ajudar Hanzou e largou sua espada do seu lado. Esses momentos pareciam ser seus últimos, tudo estava completamente embaçado e não tinha energia para nada. Taze retirou seus curativos para ver o estado do ferimento. Estava bem feio. O corte parecia ter sido feito de uma maneira que dificultaria a sutura e a cicatrização, quem o fez, o fez bem. Ela cobriu o machucado e quando o fez, a dor fez Hanzou ficar inconsciente. Taze arrastou seu corpo para trás de uma pedra, para que ficasse numa sombra, pegou a espada e voltou à luta.
O garoto tentou cortar a cabeça de Jong no seu primeiro golpe, o bárbaro afastou a alabarda com seu antebraço protegido por sua armadura, do outro lado, Vasi lançou sua arma e a corrente girou e prendeu no outro braço do brutamontes, o que segurava sua arma, ele puxou para tentar fazer com que Jong não pudesse mais usar aquele braço. Isik acertou o calcanhar desta vez, porque seu oponente não poderia se abaixar sendo puxado pelo seu pai.
—Não, não! Não vou perder aqui, Vasi! Esse reino é meu por direito! -Ele puxou o braço que estava preso e jogou Vasi morro abaixo, o guerreiro comandante de todo o reino estava rolando na areia para chegar no chão, no caminho, sua cabeça bateu por pouco numa pedra e ele ficou inconsciente. Sorte que o morro não era alto.
—Pai! -Isik gritou. Taze tinha voltado para o campo de batalha para ajudar os feridos e finalizar os invasores que ainda estavam lutando. -Não vou deixar você sair daqui vivo!
A raiva no rosto daquele jovem era insana, Jong ficaria com medo se ele não fosse metade do seu tamanho. Isik tentou golpeá-lo em todos os pontos que sua armadura possuía uma abertura, mas os golpes eram impedidos pela arma que Jong empunhava. Os dois ficaram trocando golpes e se moveram tanto que trocaram de posições, o garoto estava mais perto da ladeira da qual seu pai acabou de cair.
—Não vou cair daqui, não pense que vai conseguir me jogar. -Disse Isik.
—Não precisa cair, não vivo.
A troca de golpes continuou, nenhum tinha sucesso nos ataques, Isik era claramente mais habilidoso e mais rápido, porém a defesa de Jong parecia impenetrável. Já havia notado que nas suas costas possuía um ponto fatal sem cobertura em sua nuca, mas atingi-la parecia ser impossível. Sua confiança começou a se transformar em medo, não estava mais com toda aquela fúria e o medo de perder a batalha e a luta apareceu.
—Nós, bárbaros, encontramos esse lugar antes de vocês, agora vocês pensam que podem simplesmente tomá-lo de nós? Juntei meu exército e agora vou acabar com isso e tomar meu reino de volta!
—Vocês não nos permitiam viver. -O garoto falava de algo que aconteceu há mais tempo do que ele tinha de vida. -Precisávamos de comida, água e vocês nos negavam! Precisávamos fazer aquela rebelião para termos um lar e conseguimos. Lutamos pela justiça enquanto vocês não estavam nem aí. Veja, ainda com número reduzido, ganhamos de vocês. -Jong olhou para o terreno no chão, abaixo do nível do morro, e viu seus companheiros mortos e os kumianos vivos, reunindo-se para cuidarem dos feridos. -Você pode matar meu pai, pode me matar, mas não tomará nosso lar!
No mesmo instante em que Isik ergueu sua voz para falar, viu que algo atingiu Jong, em sua armadura começou a escorrer sangue que vinha de suas costas. O grandalhão caiu no chão e o garoto pôde ver que tinha um facão cravado na nuca de Jong. Hanzou havia acordado, pego o facão e o lançado no pescoço do adversário de Isik. Lá estava ele, o samurai inútil e fraco, em pé a alguns metros de seu parceiro de luta, com sua barriga sangrando e suando frio.
—Hospital… Rápido….
Hanzou caiu no chão e ficou inconsciente novamente.
Isik parou por alguns segundos tentando entender a situação, quando lembrou de seu pai, correu para chegar na base do morro das lamentações rapidamente, deixando Hanzou lá em cima, ferido, inconsciente e sozinho. Taze cuidava de alguns feridos quando olhou para o morro e não avistou nada em cima dele, mas embaixo viu um homem caído e um garoto correndo em direção a ele.
—Irmão…
Ela finalizou o curativo que estava fazendo e correu para ajudar Vasi. Isik tentou acordar seu pai, que após alguns tapas leves no rosto, recobrou a consciência. Sua cabeça estava sangrando e seu corpo estava cheio de cortes, incluindo suas roupas
—Isik… -Ele viu que seu filho estava bem. -Taze, Hanzou, onde estão? -Ele viu sua irmã correndo em sua direção. -O samurai, como está?
—Lá em cima, ferido. -O garoto não sabia o que falar. -Ele me salvou, matou Jong com o facão enferrujado que estava usando.
—Por quê um facão? Onde estava a espada dele?
—Eu peguei… emprestada. Precisava de uma arma rápido. -Ela analisava cuidadosamente cada machucado no seu irmão.
—Você é louca? Ele podia ter morrido, e se tivesse talvez meu filho estivesse morto agora também! -Ele afastou a mão dela com um tapa. -Não roube de nossos hóspedes, nem pegue emprestado.
Vasi se levantou e tentou andar até o topo do morro. ele conseguia andar normalmente, Isik e Taze foram atrás. Quando chegou e viu o corpo do samurai debruçado no chão, pediu aos dois que realizassem os procedimentos necessários para suturar e cuidar de seus ferimentos.
—Não sei se temos o que ele precisa pra ficar melhor. -Disse Taze.
—Dê seu jeito, quero ele bem.
"Hanzou gostava de caminhar a noite. O silêncio que as estrelas e a lua faziam o acalmava e o distanciava de seus pensamentos, era relaxante, quase uma terapia para ele. As ruas de Athlon eram feitas de pedras, as calçadas eram de grama bem curta, cuidadas diariamente pelos jardineiros do reino. Já havia passado da meia noite, as ruas estavam vazias salvo um ou dois bêbados e um mendigo dormindo no coreto da praça principal. Ou talvez não fosse um mendigo.
—Tobi, o que está fazendo aí? -Hanzou olhou por fora e viu seu colega samurai estirado no chão. -Tobi. -Ele continuou chamando, mas ele parecia estar inconsciente.
O samurai subiu no coreto, se aproximou de seu amigo e agachou para ver se ele ainda respirava. Sim, ele respirava. Hanzou chamou mais duas vezes e não teve resposta, foi obrigado a dar um tapa forte no rosto de Tobi, mas antes que sua mão atingisse o samurai, ela foi segurada pela de quem iria sofrer o golpe.
—O que foi? -Ele estava claramente bêbado.
—Vamos para casa.
—Aqui nunca foi minha casa. -Ele se virou e voltou a dormir. Estava vestindo uma túnica que cobria todo seu corpo, era como se sentisse com medo, tímido.
Tobi sempre foi mais isolado, mas por opção própria, não se sentia bem entre os samurais, não gostava de Athlon, apenas estava ali porque era bom no que fazia, se não fosse por isso, talvez já tivesse se matado faz tempo.
—Quanto puder, apareça lá... Temos um aprendiz agora."
Hanzou abriu os olhos pela terceira vez no dia. A dor era excruciante, ele olhou para sua barriga e estava com gaze e sem uma gota de sangue, olhou ao seu redor e viu que estava em um hospital. De novo. Estava de noite, o dia todo havia passado e ele tinha permanecido inconsciente. Imaginou que teriam ganho a batalha, afinal, se tivessem perdido ele não estaria ali.
—Conseguimos. -Vasi apareceu na porta e entrou no quarto.
O samurai não esboçou emoção ou teve alguma reação, apenas ouviu e voltou a se concentrar em como sair dali. Perdeu tempo no dia anterior e perdeu tempo naquele dia lutando uma luta que não era dele… Pelo jeito ele devia se acostumar a isso.
—Estava esperando você acordar para te contar uma novidade. Vou te dar uns remédios para melhorar logo essa porra e vou com você para Athlon amanhã de manhã.
—O que? Por que? -Perguntou, com dificuldade.
—Você salvou não só a vida do meu filho mas como a de todo meu povo, nada mais justo do que eu dever uma para você, e resolvi pagar desse jeito.
—Quem irá cuidar de Kum?
—Isik, ele luta bem, nunca o havia visto lutar como hoje, seu físico é impressionante e ele é muito inteligente, lutou sem medo e mostrou que pode tomar conta daqui, com certeza se dará bem. -Vasi dizia com peso na consciência. -Vai ser difícil para mim, estou velho, doente, corpo fraco, resistência baixa... Seu amigo acabou comigo mesmo, mas ainda dou pro gasto, o problema é que provavelmente não voltarei para cá, não vivo. Sei de minhas limitações.
Teria uma época em que Hanzou não aceitaria trabalhar com uma dupla.
E não é essa.
Fim do capítulo III
Fale com o autor