Crônicas de um samurai desempregado

6 Previsão do tempo é mais do que meteorologia


Por ter dormido e acordado mais cedo do que o costume, Otose resolveu que naquela manhã de sábado encararia a neve e o frio para procurar algum carpinteiro para poder fazer o orçamento dos reparos necessários nas mesas e cadeiras danificadas do bar. Precisaria não apenas de alguém disposto a fazer o serviço, mas também que tivesse um preço justo e um prazo satisfatório.

O bar não podia ficar muito tempo sem funcionar, era o seu sustento. Depois dos reparos, vinha a parte da limpeza pesada e, para tal, pensava em contar com a ajuda de Gintoki. O jovem, com sua força física, seria de grande valia e agilizaria bastante para poder retomar com as atividades do estabelecimento.

Procurou pelos carpinteiros das redondezas, mas recebera respostas com as quais não contava. Ou davam um prazo mais longo, ou um preço mais alto... Outros tinham muita demanda, de tal modo que não seria possível atendê-la no prazo desejado. E por conta dos prejuízos causados por Murayama e seus homens, mesmo sendo ressarcida, não tinha tanto dinheiro assim em caixa. Adiantara uma quinzena de salário para Gintoki e não queria deixar de garantir-lhe o pagamento da outra parte.

Provavelmente ele seria do tipo que não se importaria tanto. Levando-se em conta o estado em que o encontrara, podia ser que ele se contentasse em ter um teto e roupas que o protegessem do frio, além de alimento para não morrer de fome. Para alguns samurais isso bastava como uma contrapartida por seus serviços antes da guerra e da derrocada de tal classe. Mas em sua opinião, isso não bastava para aquele jovem de cabelos prateados.

Pouco sabia a respeito dele, apenas o que ele deixara no ar na última conversa. Com apenas duas décadas de vida, ele possuía mais marcas da guerra do que até mesmo pessoas com mais idade. Talvez não apenas marcas de uma guerra, mas de toda uma vida, ainda que breve. Não era a primeira vez que encontrava um jovem que parecia carregar um fardo tão grande de sofrimento nas costas. Terada Ayano – esse era o nome real de Otose – refletia a respeito durante sua caminhada após passar pela loja de conveniência para comprar algumas coisas para o desjejum.

Era triste ver alguém tão jovem se entregando à morte tão cedo. Não era a primeira vez que via alguém em tal situação e que algum tempo depois se entregava à morte, ou a buscava incansavelmente após sofrer tanto durante e depois do massacre imposto aos valorosos samurais pelos amantos. Era triste ver tantos jovens com marcas e até sequelas do que sofreram e não tendo forças para tocar a vida.

Se Tatsugoro tivesse sobrevivido, provavelmente seria um homem amargo e fatalista, no mínimo... E talvez sofresse mais com ele vivo do que sofreu ao saber de sua morte anos atrás.

Suas passadas ainda bem cadenciadas de uma senhora idosa bastante ativa a levaram de volta ao seu estabelecimento, no qual entrou enquanto pensava em como começar a arrumar aquela bagunça e em quais pessoas procurar por telefone para lhe prestar serviço no conserto dos móveis do bar.

*

Esfregou os olhos enquanto bocejava escancaradamente. Descansara razoavelmente, apesar de ter dormido no sofá sem lá muito conforto. Os pesadelos o deixaram em paz pelo menos desta vez. A julgar pela luz que entrava pela janela por trás da cadeira giratória de estofamento roxo junto à mesa de escritório, já deveria ser bem tarde.

Levantou do sofá e se espreguiçou amplamente, enquanto ia ao quarto guardar o cobertor e pegar suas roupas para usar ao longo do dia. Teria que dar um jeito de consertar a muda de roupa danificada por aqueles idiotas que causaram toda a confusão da última noite no bar de Otose. Olhou o despertador em forma de justaway marcando dez horas da manhã e, em seguida, foi ao banheiro, onde tomou uma rápida ducha quente e se viu obrigado a trocar os curativos.

A velha lhe dera alguns materiais para tal e, enquanto procedia ao tratamento dos ferimentos, lembrou-se da conversa que tivera com ela. Recordou-se de que ela parecia ser muito boa em perceber coisas só por um papo mais olho no olho, como uma mãe conversava com um filho. Enquanto vestia a camisa preta com debruns vermelhos, encarou seu reflexo no espelho. Estava bem mais descansado por ter dormido mesmo depois de um pesadelo terrível como o que tivera.

Na sala, vestiu o yukata branco e se sentou no sofá, encarando por alguns instantes o que colocara sobre a mesinha de centro para seu café da manhã. Enquanto comia um pedaço de bolo confeitado e bebia chocolate quente, Gintoki ligou o aparelho de TV para fazer algum barulho e quebrar o silêncio. Para tanto, sintonizou em um dos canais onde o noticiário matutino exibia a previsão do tempo para o restante do dia. Os olhos do albino quase nem piscaram ao ver a garota do tempo, com aproximadamente vinte anos de idade, um sorriso doce e encantador e uma voz que transmitia animação e otimismo. Seus curtos e lisos cabelos marrons se agitavam com a suave brisa de inverno, visto que estava fora do estúdio naquela manhã.

Segurando a caneca de chocolate quente fumegante, ele não desgrudava os olhos da TV, prestando atenção nas palavras da jovem chamada Ketsuno Ana. Naquele momento ela dizia que o dia ainda seria frio, mas com ocorrência de precipitação de neve apenas em áreas isoladas. E também falava do horóscopo do dia, fazendo-o se interessar até mesmo por isso. Segundo ela, os librianos teriam um pouco mais de motivos para se sentirem úteis.

De algum modo, aquele momento de previsão do tempo do noticiário da TV OEDO lhe deu um ânimo a mais... Como se aquela bela garota chamada Ketsuno Ana fosse um raio de sol extra para seus dias ficarem menos cinzentos.

Tão logo a previsão do tempo terminou, vieram as propagandas do intervalo comercial, anunciando uma infinidade de produtos oferecidos por televendas. Gintoki assistia a tudo com certa atenção enquanto mastigava sem pressa mais um pedaço de bolo. Foi quando apareceu uma oferta bastante tentadora de uma bokutou, que não era uma espada feita com qualquer madeira, mas sim com uma madeira alienígena do tipo hoshikudaki (“destruidora de estrelas”), extremamente resistente. Além disso, era oferecida também uma personalização gratuita para o objeto. Olhou para a sua bokutou escorada em um dos sofás, bastante desgastada e danificada devido ao uso frequente para se defender nas ruas. Era uma lembrança do passado que, embora possuísse carinho por ela, precisaria abandonar.

Mas para comprar uma nova bokutou, precisaria desembolsar uma boa quantia de ienes... A qual estava longe de possuir. Se quisesse, teria que guardar alguma grana do restante de salário que receberia ao final do mês.

A luz do sol continuava embaçada por conta das nuvens, mas clara o suficiente para encorajá-lo a descer até o bar da velha. Enquanto calçava seu par de botas, viu em um canto uma caixa de ferramentas que parecia abandonada havia algum tempo e teve uma ideia.

Munido com a caixa de ferramentas, desceu até o bar da velha.

*

Dentro do bar de Otose, ouvia-se o som de alguém torcendo o pano de chão, de tal modo que a água excedente escorria de volta para o balde. A água fria molhava os dedos calejados, machucados, cortados, martelados e com farpas de madeira que seriam tiradas posteriormente. Mesmo assim, isso não impedia Gintoki de passar o pano úmido no assoalho do bar, após a viúva terminar de varrer o chão, tirando a serragem e resíduos do conserto meio amador do jovem, que travou um duelo ferrenho para dominar o martelo... Não sem antes acertar os dedos com várias marteladas, e um deles ter um corte devido ao uso do serrote. E, obviamente, ele também gritou de dor várias vezes e praguejou bastante durante o processo.

Mas, no fim do serviço, a viúva e o ex-samurai – com esparadrapos nos dez dedos das mãos – contemplaram por alguns instantes o bar, que voltava a ficar em ordem.

― É... – Otose sorriu. – Nada mal para um amador, Gintoki...

Gintoki sorriu em resposta e se lembrou do horóscopo do dia. Ele era um libriano e aqueles móveis que consertara o fizeram se sentir realmente mais útil. Decidiu que passaria a assistir todos os dias à previsão do tempo só por causa Ketsuno Ana.

De alguma forma, sabia que não iria se arrepender de ver aquele sorriso na tela da TV.