Crônicas de um samurai desempregado

7 No dia de folga, passe longe do local de trabalho


Algum tempo se passou, com o inverno dando lugar à primavera. Tal como as folhas rebrotavam e as flores desabrochavam, o movimento no Distrito Kabuki voltou a ser o mesmo de antes da estação fria. Otose abria a porta do bar para terminar de varrer o chão e, após recolher a pequena quantidade de lixo numa pá, jogou um pouco de água em frente para conter alguma poeira. Olhou para o andar de cima, cuja porta ainda não se abrira e tinha certeza de que seu morador ainda estava dormindo.

Hoje era dia de folga para ambos, Gintoki tinha um dia por semana para tirar uma folga do trabalho em seu bar. Já fazia cerca de três meses que vivia naquele segundo andar e percebera que ele se tornara um pouco menos retraído. Durante a convivência com ela e com os clientes do bar, ele tentava ser um pouco mais sociável e até sorria um pouco mais.

Mesmo assim, ele continuava sendo bastante fechado no que se referia ao seu passado, preferindo falar de outros assuntos quando conversavam. Para alguém jovem, tinha o olhar de um homem cansado das batalhas da vida que queria apenas um pouco de paz.

Cerca de três meses não eram suficientes para conhecer satisfatoriamente aquele jovem que prometera protegê-la até o fim de sua vida. Apesar disso, não tinha em mente qualquer tentativa de investigá-lo mais a fundo ou insistir em saber sobre sua vida antes daquele encontro no cemitério. Não se importava em receber apenas migalhas de informações a seu respeito que ele mesmo deixava no ar.

O mais importante Otose já sabia. Ele se chamava Sakata Gintoki, lutara na guerra – mais especificamente no finalzinho – perdera muitas coisas e pessoas importantes em sua vida e vivera um bom tempo na miséria enquanto vagava pelas ruas. E já honrara sua palavra quando foi necessário.

Ela se conformava com isso e qualquer informação extra que lhe viesse seria lucro.

Não demorou muito para que ouvisse a porta corrediça do andar de cima se abrir e os passos despretensiosos das botas calçadas pelo homem que descia as escadas de madeira. A viúva o cumprimentou, sendo respondida com um breve aceno.

Gintoki caminhava sem pressa pela rua de chão batido, sentindo a brisa da manhã bater em seu rosto e balançar sua permanente natural prateada. E, falando em rosto, percebeu que já era hora de fazer a barba, mas o barbeador que possuía já estava com a lâmina cega. Teria que ir comprar outro barbeador descartável e aproveitaria para adquirir também outras coisas de que precisava. Já havia recebido seu salário e não teria problemas para fazer a compra, mesmo tendo feito seu pedido de uma nova bokutou por telefone e tendo gasto uma boa quantia para tal aquisição.

O ex-samurai entrou na loja de conveniência e pegou uma cesta, na qual pôs barbeador descartável, shampoo, papel higiênico, algumas caixas de leite de morango, além de um pedaço de bolo confeitado e um pequeno pacote de pirulitos. Mas, antes de ir ao caixa, passou por uma pequena banca na qual estavam expostos vários tipos de revistas: de moda, política, celebridades, eróticas... Mas seus olhos focaram uma revista em especial. Não só focaram, como brilharam ao ver aquela capa.

A Shounen Jump... A revista na qual são impressas inúmeras aventuras que transmitem os ideais de amizade, esforço e superação.

A revista que ele aprendeu a amar... E, claro, ele não iria deixar de comprar o novo número recém-lançado. Pegou o exemplar, deu uma rápida folheada com interesse e o colocou também na cesta, para só depois ir ao caixa.

Após fazer o pagamento e acondicionar as compras em sacolas, ele saiu e, antes de ir para casa, abriu o pacote de pirulitos e pegou um para chupar. Enquanto sentia o sabor de cereja do pirulito que chupava, Gintoki caminhava pela rua observando o movimento. Muitas pessoas andavam para lá e para cá nas ruas de chão batido, entrando e saindo de comércios e de outros tipos de estabelecimentos. A modernidade contrastava com o tradicional, e os humanos cruzavam “pacificamente” seus caminhos com um ou outro alienígena... Ou quase isso, se não houvesse uma ou outra briga.

O pós-guerra era realmente muito louco, pensou. Mesmo tendo terminado de chupar o pirulito, manteve a pequena haste na boca, a fim de sentir os resquícios de sabor do doce. Ao mesmo tempo, sua mente voltava no tempo e lhe trazia uma pergunta que vez em quando martelava sua cabeça.

Como estariam seus companheiros remanescentes da infância, e dos tempos de guerra? Que caminhos haviam traçado para si mesmos? Esperava que ao menos não fossem tão tortuosos como os seus.

Já se passara um bom tempo após aquela tragédia que viveram...

Jogou o palito do pirulito numa lixeira, ao mesmo tempo em que afastava de sua mente aquelas lembranças. Não queria que seu dia de folga fosse estragado por memórias tão desagradáveis. A última coisa que precisava era de se deprimir enquanto remoía o passado recente.

Mas realmente era inevitável querer saber como estavam seus antigos companheiros.

Seguiu seu caminho até sua casa e, após se desfazer das botas, entrou e guardou tudo o que havia comprado. Mais tarde, talvez, ainda se barbearia... Se não decidisse deixar para o dia seguinte. Não significava que seus pelos faciais estivessem tão evidentes que não poderiam esperar até amanhã, apenas o incomodavam quando fazia coisas como coçar o queixo.

Não demorou muito para guardar as coisas e se jogou no sofá, já abrindo a Jump recém-adquirida. Lembrava-se do primeiro exemplar adquirido, quando recebeu a outra metade do seu primeiro salário. Como ainda era inverno, precisava de algo para passar o tempo dentro de casa, sobretudo nos dias de folga em que ele não se atrevia a sequer botar o nariz para fora.

Fora numa dessas suas idas à loja de conveniência para comprar algumas coisas, como seus alimentos, doces e produtos de higiene pessoal, que se interessara em uma Shounen Jump.

Tivera a ideia de comprar algo para ler e espantar o tédio que às vezes aparecia por morar sozinho. Também era uma forma de manter a sua mente ocupada, não a permitindo remoer os fatos passados ou pensar besteira. Sua vida no período imediatamente após a guerra podia ter sido uma verdadeira merda, mas ele queria de alguma forma continuar a reverter isso e ter dias melhores.

E ocupar a mente com algo interessante era o primeiro passo.

Olhou para o expositor no qual estavam jornais, livros e revistas. Havia revistas de todos os tipos, como moda, teen, economia, notícias, eróticas... Mas a sua criança interior fez com que seus olhos se direcionassem para os exemplares da Shounen Jump. A capa colorida com os personagens dos mangás do momento era o convite perfeito para que ele folheasse um exemplar e se interessasse logo de cara pelas aventuras daqueles personagens, que o fariam mergulhar de cabeça naqueles mundos de papel, nanquim e muita imaginação.

Tal como na primeira vez, Gintoki lia atentamente cada fala, cada onomatopeia e observava cada cena. Sua imaginação o levava aos lugares mostrados nas páginas da Jump, fazendo-o passar horas esparramado no sofá. Devorou cada página e, ao fim, bolou mentalmente teorias sobre os capítulos seguintes que viriam nas próximas edições da revista.

― Cara... – o albino suspirou ao olhar para o relógio na parede da sala. – O dia ainda não acabou...? Tá longo demais...

Ele se levantou preguiçosamente do sofá e decidiu sair novamente. As memórias sobre seus antigos companheiros insistiam em voltar à sua mente, o que significava que, por tabela, voltariam também aquelas terríveis lembranças da guerra. Desceu novamente os degraus até a rua, que agora estava banhada pela luz dourada do sol que se punha num entardecer de céu com poucas nuvens.

Optou por caminhar calmamente pelas ruas e observar as pessoas indo e vindo na tentativa de arejar a cabeça, mas sem muito sucesso. Poderia acontecer de reencontrar nesses rostos alguém familiar. Sem querer, começou a procurar pelos antigos companheiros naquelas faces. Sacudiu levemente a cabeça para abandonar essa ideia estúpida.

Avistou um bar aberto, no qual entrou. Estava decidido a esquecer, por aquela noite, as lembranças ruins que o incomodavam.

― Ei, tio! – ele pediu. – Desce aí um saquê barato e bem forte!