Crônicas de um caderno engavetado
23 Superar se aprende superando
Superar não significa esquecer, quantas mil pessoas já escreveram algo parecido e outras tantas querem se convencer de que “estão em outra”, mas só é possível constatar essa vibe quando você entende finalmente que o passado está enterrado, que não foram apenas às pessoas que se transformaram com o passar do tempo, você também mudou muito e não é preciso declarar guerra contra ninguém para seguir em frente, a serenidade é um indicativo que não deve ser ignorado.
Se você consegue olhar para trás sem trazer de lá nenhuma mágoa, lembrar-se de quem te machucou sem o desejo de revidar na mesma moeda e pensar em quem te fez bem sem irromper em lágrimas, é mais do que certo que você superou aquilo que parecia (até então) insuperável.
Aquela amizade mal resolvida que se parecia tanto com paixão era só fraqueza. Aquele amor platônico um pretexto para não olhar para dentro. Aquela companhia que te colocava para baixo era apenas uma pessoa fraca que queria te rebaixar ao nível dela e por isso era tão tóxica.
Quantas e quantas vezes você no passado desbloqueou e fez de conta que sumiu só para que sentissem a sua falta?
As migalhas oferecidas de má vontade você engolia como um cachorrinho obediente à espera de uma recompensa, mas era veneno que penetrava seus poros e te contaminava por inteiro porque você sabia que seu papel era o da “outra” na vida de todos. Eles te chamavam no chat ou para sair quando não tinham ninguém melhor para conversar, no entanto nunca se recordaram do seu nome nos dias de festas, para as viagens, eram sempre outros rostos sorridentes que recebiam homenagens e eram dignas de serem vistas.
Você aceitou da vida tão pouco que não pode reclamar de ter sido o chão em que todos pisaram a bel prazer. Você permitiu e consentiu. E se feriu. E se reconstruiu. E cresceu, por fim. E um dia olhou para tudo o que aconteceu, suspirou alto e sentiu que os ombros estavam mais leves, que você não precisava mais esperar por migalhas, havia muitas pessoas legais à disposição, que a nova versão de você não se vê mais representada pelo papel da menininha boba chorando pelos cantos por um passado que nem sequer existiu.
Superar não significa esquecer, até porque se da memória apagado fosse o aprendizado, você continuaria lá no chão, deitada, chorando pelos mesmos motivos, olhando de longe as festanças e recebendo algumas migalhas amargas. Superar significa deixar tudo o que não vale a pena para trás, até mesmo algumas amizades e nem é preciso armar barraco, ofender, apenas saber se afastar com classe, desejando sempre o bem e o principal: sem indiretas.
Antes eu posso dizer que era a rainha das indiretas, devo ter perdido a conta de quantas vezes me prestei ao trabalho ridículo de compartilhar postagens bobas por nada, magoava alguém que não tinha nada a ver com o pato e quando via que uma indireta era para mim, me doía toda, queria esfolar a cara da pessoa no chão. Peço perdão àqueles a quem feri com isso e se usei meu dom para essa finalidade e também àqueles que me suportaram nessa fase mais belicosa. O que posso resumir, para não tornar este texto extenso por demais, é que alguma coisa mudou dentro de mim, eu senti dentro do coração que fazer silêncio era melhor do que revidar, que me calar evitava uma centena de aborrecimentos e eu também entendi que ficar sozinha de verdade pode ser muito bom porque resta tempo para pensar em todas as coisas e do meu próprio jeito tirei algumas conclusões que me levam a estar aqui agora certa de que mesmo que nem todos os meus dias sejam ensolarados, que eu enfrente lutas quase insuperáveis e às vezes sinta muito a falta de amigos, de alguma fase em especial da vida, eu só tenho o dia de hoje e não quero me deitar no travesseiro carregando mágoas, rancores, ódio. Eu quero fechar os olhos, orar, deixar a paz de Deus me tocar e se porventura eu não acordar, saber que enquanto tive oportunidade aceitei o presente como o meu presente.
Se por acaso alguém quer o meu mal e/ou me envia indiretas, o problema é dessa pessoa consigo mesma, eu não tenho nada a ver com isso; se ela tem ciúmes, inveja, raiva ou qualquer outro sentimento mal resolvido, não me responsabilizo por isso. Se ela ainda não amadureceu e acha que compartilhando coisas ofensivas vai me derrubar, ouviremos o estrondo de um tombo e não será o meu.
Superar também significa se superar. Deixar quieto. Não sofrer por tão pouco. Não se deixar abalar por pequenices. A vida é breve demais para que percamos tempo correndo atrás de quem não sairia da cadeira por nós, efêmera demais para que choremos por causa de indiretas compartilhadas por pessoas mal resolvidas que precisam atingir outras para se sentirem bem, valiosa demais para que vivamos tentando impressionar.
Então, eu poderia me queixar de não ter uma melhor amiga, sempre quis ter uma desde pequenininha e a vida nunca me trouxe ou quando me trouxe, logo tirou. Meu coração sempre bateu pela metade porque eu nunca fui a melhor amiga de ninguém, apenas um elemento a mais no grupo, sem saber por tantos anos que eu não precisava ir tão longe para ter uma melhor amiga, bastava me olhar no espelho e não me xingar, era só ficar sozinha e não ter a necessidade de mais ninguém.
Eu descobri que poderia ser minha melhor amiga e para tal, precisei deixar muita coisa para trás, superar tudo o que não me deixava avançar, entulhos sentimentais, picuinhas, aquela sede incansável de ser importante na vida de algumas pessoas. Pois bem, eu tenho Deus, eu tenho a Ele, o que mais posso querer?
Mesmo que ninguém leia este texto ou que no caso de ser lido sofra muitos julgamentos e até receba algumas indiretas em represália, o alívio de tê-lo escrito supera qualquer compartilhamento ridículo e sem criatividade de pessoas que usam todo o tempo que possuem para machucar os outros sem ganhar nada com isso.
Uma indireta a mais ou a menos, que diferença faz?
Eu sei quem eu sou, quem deixei de ser e quem luto para ser. Eles leem o meu nome, veem a minha foto, mas não sabem nem de metade e nunca saberão, afinal, deixei-os adicionados não porque os ame e sim porque eu já estou grande demais para bloquear e ficar de birra.
Superar se aprende superando.
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