Crônicas de um caderno engavetado

29 Nos escombros do imprevisto


Tudo começou com aquela inquietação invasiva que sorrateiramente varreu o otimismo do coração, não só ele como um pouco da paz também porque a princípio quis negar esse desconforto interior.

As cores perderam as nuances, estavam pálidas e dispersas. As palavras se embaralharam até se desconectarem e decidirem fazer o percurso de volta para o mundo delas, onde eu sem a inspiração não sei decodificá-las.

Não estou certa se farei uma descrição justa do que se passa, se é tristeza, desânimo, cansaço. Com sorrisos e risadas procuro afastar de mim essa angústia de outros tempos, essa impressão de que algo muito ruim vai acontecer.

Mas eu nunca posso contra o destino.

Nunca posso contra ele.

Quando menos espero, todos os meus planos vão por água abaixo e numa fração de segundos os castelos desmoronam por maior que seja o esforço empenhado a fim de evitar o inevitável.

Atônita eu olho para os escombros e me perco ali entre as lembranças todas destruídas junto com o meu coração que mal tinha se refeito de outro desses golpes vis do destino e já recebeu outro. E mais outro.

De volta estou presa dentro desse dèja-vu macabro, em profundo estado de negação porque aquele sorriso interessado é uma grande mentira, estou anestesiada demais até para um rompante de raiva.

Além da raiva ainda permanece a inquietação e eu me perco fazendo perguntas aos céus que não me escutam, pois eu quero entender as razões que me levam a ter que passar por mais um calvário injusto sobremaneira.

E então eu desabo. Coloco-me de joelhos diante do meu antigo mundo e as lágrimas se rendem porque se expressam com maus habilidade do que eu.

Como das outras vezes eu não tenho para onde correr e o desespero se materializa na raiva porque a revolta ferve no peito, ver o mal triunfar é algo que não me agrada, não faz o menor sentido para mim e jamais fará.

Rezo para não perder a fé porque o foco já se foi. Vivo para sobreviver.

Tão somente sobreviver.

Todos os desejos e planos ruíram. O mal venceu outra vez. A mentira prevaleceu sobre a verdade. E ninguém, ninguém está ao meu lado porque de novo eu sou o recheio desprezado do sanduíche, de novo eu sou aquela que é interrompida quando fala, de novo e de novo eu procuro um lugar seguro dentro do coração para guardar os meus sonhos porque preciso ter pelo menos uma compensação antes de pensar em desistir.

Cheguei em algum lugar, desistir me parece uma atitude tão imatura, tão inconsequente quanto pessoas covardes que embora se gabem da boa retórica e persuasão para mais uma vez enganarem boas almas, não passam de seres desprezíveis que se não for hoje ou amanhã, terão de passar pela colheita e sem alguém tirando os espinhos do caminho, espinhos que elas próprias jogaram porque envoltas na aura da soberba se julgaram invencíveis, maiores e mais poderosas que a própria justiça.

Maa eu não estou bem convicta se a justiça é justa. A balança pode pender para o lado do mal e este mundo ser de fato o lugar onde os maus prosperam e aqueles que procuram viver com retidão sofram mesmo que seja preferível ter pouco com honestidade a ser apenas aparência, viver de uma casca frágil como a de um ovo.

A justiça tinha de ser justa sem fazer distinção ou será da minha parte ilusão?

Perdi a conta de quantos espinhos estão machucando o meu coração neste momento, só eu sei o quanto é penoso olhar para as minhas asas machucadas e não saber se algum dia elas estarão prontas para voar.

Eu quero voar, quero isso com todas as forças, mas estou ferida, magoada e sem horizontes.

Pudera ser apenas aquele sonho ruim que acaba quando se desperta, mas o pesadelo que me atormenta eu vivo com os olhos bem abertos enquanto não posso voar porque um dia almejo voar alto e fazer meu ninho bem longe para enterrar todas essas lembranças ruins num lugar onde ninguém possa desenterrá-las, queria voar alto e perder de vista o contato para ser quem sabe um pássaro feliz com suas asas excêntricas, a protagonista da própria história e não apenas o recheio desprezado numa família que aprecia em demasia uma fatia do sanduíche em detrimento de todos os outros ingredientes.

Esse amor que eu não encontro aqui eu espero ter lá fora, quando com muito custo fizer o meu ninho, um ninho construído com amor e responsabilidade onde ninguém vai tolher meu verso, meu voo, meu respirar.

Por enquanto não me peça para sorrir porque apesar de o pior já ter acontecido, de o cinza ainda ser uma cor em evidência, estou perdida nos escombros do imprevisto.

Notas finais
Esse pensamento tem a ver com o tal 12 de dezembro... :(