Crônicas de um caderno engavetado

5 Coração ferido, mulher consciente


Curitiba, 21 de março de 2017.

Nunca poderei me esquecer daquele dia em que escutei os últimos pedaços do meu coração se desmembrarem e romperem com o único vínculo que me prendia ao passado. Eram correntes pesadas demais para soltar, pois convinha mantê-las, eu não sobreviveria sem elas. A expectativa de escuridão preenchia a alma com medo. O desconhecido também. Nada que se opusesse à minha filosofia tirana de “amor”.

Apesar dos meus esforços para sustentar a ilusão que hipoteticamente me prendeu a um sonho que deixou de sê-lo antes que eu pudesse dominar os desmandes do destino, tive a oportunidade de concluir que embora tenha me aprisionado num refúgio seguro para me blindar das grandes transformações, elas me tocaram e eu, em função disso, entendi que não sou a mais a mesma de dois, três anos atrás, não sou mais aquela garotinha frágil e mimada que aceitava qualquer migalha de “afeto”, que delegava sua felicidade a “homens”, que precisava estar apaixonada para se sentir viva, ainda que na maior parte dos dias se sentisse mais vazia na sua concha, sem reciprocidade e garantia do que quer que fosse.

A mudança transcorreu em silêncio, alternando-se às recaídas, me revirando do avesso, me testando, me redecorando. Diante disso, por mais intensa que fosse aquela saudade que me tirou o sono por tantas noites, era apenas vício de olhar para trás e compará-lo negativamente ao presente, por pura ingratidão. O hábito de superestimar ilusões esmigalhou o meu coração, espero ter aprendido através disso que ninguém vale tanto esforço assim.

Decorreu-se um choro sem lágrimas, simbólico e sincero, nem triste nem aliviado. E eu adormeci sem pensar muito a respeito, estava cansada demais para me perder em divagações. Um leve aperto no peito permaneceu até a vontade de escrever esvaziar tudo aquilo que precisa (e deve) ser colocado em palavras, numa espécie de juramento, para que eu sempre me lembre de aproveitar cada dia com gratidão, para que eu ao me apaixonar de novo algum dia tenha em mente que é uma insanidade total amar alguém ao ponto de esquecer a mim mesma, afinal de contas, as pessoas mudam e aquilo que parecia ser amor, simplesmente pode não significar mais nada.

Se eu amar a mim mesma não importa o que aconteça, sei que terei uma boa vida porque estarei cuidando de quem estará comigo até o fim. E por esse amor, sim, eu vou lutar com todas as minhas forças, a cada braçada nessa maré resguardar o meu valor. Minha honra não vale meia dúzia de mentiras de aproveitadores, não está embasada numa convenção imposta e altamente equivocada. Aprendi a duras penas que a fragilidade emocional atrai predadores e eles atacam sem dó nem piedade.

Nunca mais, claro, serei aquela menina sorridente que confiará em alguém de olhos fechados, até porque desaprendi a ser, porém também aceito que confiar de olhos abertos significa me respeitar e eu não teria descoberto isso se meu caminho só fosse marcado por pétalas de flores e serenatas.

As feridas de um coração maltratado são o maior indicativo de que a dor que não matou me fez mulher.

Notas finais
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