Notas iniciais
Acho que devo mudar o nome disso, afinal.

O conhaque queimou-lhe a garganta, uma sintonia perfeita com a vida rotineira; a alma cansada de ver pela escolha que fora levada ao vento, junto da maresia, naquele apartamento. Pouco tempo atrás, quando ainda era menina. Não era velha, não e não, afinal é tudo questão de opção. Amélie escolhera ser jovem para sempre; e era assim, de fato. Cansada. Cansada. Cansada de ver o pouco que via.

"Uma mocinha enterrada com o coração", uma vez a avó lhe dissera. Quando a gente é pequeno, só mais um grão de areia nesse mundo, não imagina o quanto se pegará em frangalhos na hora de amar, desmoronando diante da dor que vem junto da vida adulta; a dor da culpa de amar. Amor, este que é remédio e doença. Amar, que é ferimento profundo e tal como qual deixa sequelas na alma.

Mais um gole longo, era preciso bastante para varrer o gosto daqueles beijos que hoje lhe pareciam ácidos que a queimavam internamente, o gosto da vida que renovara-a e do medo que tinha em ser só mais um barco e ficar à deriva, boiando na imensidão do abandono superficial. Mais um gole, mais um gole. Beba mais um pouco.

O fogo que a queimava não mais aquecia, as labaredas abraçavam-na sem dó. Ah, a capacidade humana de cair na armadilha, a ilusão da caça e da alegria que torna-nos tão auto-mutilantes, de novo e de novo. Ela se cansara rapidamente, fora algo tão extremo. O conhaque conseguia dominar, fechava seus olhos com carinho e isolava um coração, o coração de Amélie; é, o coração sempre e somente de Amélie. Um sorriso foi pintado pela lembrança na carne de seus lábios, prosseguido por uma lágrima, a dor da pele dele na sua. O gole amenizou, a dor foi amortecida com uma almofada confortável, porém que a deixava inconsciente de estar encostada em uma parede gélida e amarga como si.

O vento vagava pela moradia, desrumado de escolhas, somente ciente de onde vinha: a janela do oitavo andar. Ele batia em seu rosto, o baque da realidade de um bloco de concreto também chamado de realidade. A mais pura realidade não fugia de sua ideologia. Questão de opção, aquele próximo gole também era.

O relógio da cozinha badalava insistente sobre a prateleira. Três horas da tarde. Mais um gole. Só mais um devaneio e pôde escutar os mocassins de James em passos ritmados do outro lado da porta, já sentia a agitação no peito. Era isso.

"Amélie, meu amor".

Aquelas palavras a dilaceravam e reconstruíam. Mas sabia além de tudo que não vivia para ser um simples vasinho de porcelana medíocre. Largou a garrafa na bancada, girando-a junto de seu próprio mundo. Andou serenamente em contraste com a brisa do momento; o roupão arrastava pelo chão.

Seu esposo trajava um Armani escuro e recebeu-a oferecendo em uma bandeja, os olhos de chocolate quente temperados em ternura. Os lábios dele naquele instante deixaram de ter o sabor tão bem conhecido, Amélie os interpretou. Liberdade. Os cabelos negros de James estavam espantados, ela os apertou entre os dedos magros.

O silêncio foi o próprio barulho, e quando o estouro o interrompeu com o eco, foi difícil denunciar uma respiração agoniada. O sorriso do amor se desfez, seus dedos não conseguiram mais suportar o peso da morte. Tive que ajudar Amélie a segurá-lo, fui só eu. Acompanhei a jovem enquanto o tapete rajado de sangue se estendia atrás de seu amado. Tingiu o preto no branco. O desenho voltara enfim a sua forma original. A face de James era agora um esboço. Era isso. Matar uma arma com outra.

Restamos nós três, o homem estava refazendo sua mala de memórias. Eu tive que esperá-lo, só então poderíamos fazer nossa viagem. Amélie virou arte depois daquilo. É, sim. Uma incrível arte abstrata, com suas lágrimas, gargalhadas e uma desculpa esculpida sem demora no olhar. Ela sincronizou sua respiração junto das batidas preguiçosas do coração de James, quando deitou em seu peito. Estava quente aonde um botão de sangue havia se formado.

A maresia invadiu suas narinas.

Ela assistiu. Sentiu o fim com seus ouvidos, e dessa vez voltamos a ser três. Com uma diferença.

Eu.

Seu esposo.

E seu amor.

E todos fomos embora.