Não passava por aquela estrada há um bom tempo, assim como fazia alguns anos que não ia para a iluminada Florianópolis. Era engraçado o simples fato de estar saindo da minha pequena cidade suburbana àquela hora para um simples jantar de bar de esquina. Algum sinal de rede?, perguntei a Isaac pela décima vez; na falta do que fazer eu havia contado. Soltava a mesma pergunta a cada intervalo de cinco minutos e era o suficiente para irritá-lo.

Alcance a lanterna pra mim, Amélia.

Você não vai sair e me deixar sozinha aqui, não é?

Ele arregalou os olhos cinzentos e jovens e abriu o porta-luvas de maneira impaciente para puxar a lanterna. Deixa, deixa, depois não venha com perguntas sobre o que me irrita, Amélia. Amélia, Amélia, nunca consegui manter-me longe de discussões. Aquilo que tínhamos desde a adolescência já não era um romance. Puro costume, Isaac.

O que você disse?

Ignorei, estou acostumada com os pensamentos exercendo seu papel fugitivo de minha mente. A frequência era alarmante. Queria estar sem ele neste momento, e em vários outros, aproveitando a oportunidade para ser sincera comigo mesma. Sim, certo que o motor do Fusca xodó dos Vieira havia partido dessa para melhor e ter um homem ao meu lado na rodovia deserta era válido, entretanto a situação seria bem mais leve se apenas eu estivesse aqui. As únicas reclamações a serem ouvidas viriam das minhas cordas vocais e, é claro, o barulho infinito dos grilos que entrava pela pequena frestinha que abri no vidro para libertar a fumaça do cigarro.

Vou seguir, pedir ajuda na casinha ali da frente. Não estou afim de passar a noite com mulher chata!, exclamou apertando minhas bochechas rosadas pelo frio entre seus dedos e deslizando o polegar para ligar a lanterna. Assim que a porta do carro bateu, dei um profundo suspiro e observei-o indo a passos largos até o acostamento do outro lado da pista e então se fundindo com a escuridão. É óbvio que Isaac nunca faz o que digo.

A Lua brilhava alta no céu e se parecia com um grande balão inflado sobre minha cabeça, acompanhada de suas fiéis escudeiras, as estrelas, se tornava a coisa mais interessante para observar. O resto eu sentia. Sentia o silêncio que de tão profundo já começava a ser interpretado como uma barulheira pelos meus ouvidos teimosos. Nem mesmo um único automóvel vagava. Comecei a pensar nas rodadas de bebida nas quais estaríamos nos acabando e a própria bebida imaginária e seu gosto efervescente levou o tempo em uma bolsa, atrás de si. Mais uma, mais uma pra mim, garçom!

Não senti falta de Isaac, não e não, mas seria egoísta da minha parte não procurar meu namorado marrento após um bom tempo em sua ausência e no meio do nada. Vesti uma jaqueta de couro falsificado que sempre deixávamos guardada de reserva no banco de trás e voltei a tragar meu cigarro. Cigarros tem uma capacidade incrível de nos compreender, afinal tem contato com a alma. Uma forma adorável e deliciosa de soltar minha alma no mundo, e ainda por cima aquecida, Isaac. Ouviu? Bati a porta do fusca com força e andei sem pressa. A Lua continuou a iluminar meus passos, somente ela.

Fui aspirando o ar com cheiro de capim cidreira ao longo do acostamento. Tendo como única companheira a noite e a brisa que varria insistentemente meus cabelos ruivos, a tranquilidade tomou conta do que chamamos de corpo. Respira. Respira. Solta. Solta. O cigarro tinha gosto de solidão e de paixão após um tempo. Quando por fim estava a considerar que Isaac tinha olhos biônicos e que a tal casinha nunca seria avistada por mim, a luz seca de um lampião à óleo sinalizou os contornos de um pequeno chalé caindo aos pedaços. O cheiro de capim cidreira se misturou ao cheiro das laranjeiras e da madeira em decomposição. Dentro da moradia não havia nenhuma luz ligada. Sério que aqui eles têm telefone?!

Após subir os três degraus que levavam a longa varanda que carregava os pilares de sustentação, dei três batidelas curtas na porta de entrada. Escutei o arrastar conhecido de pantufas e então o portal deu lugar a uma velha robusta com uma grande verruga no nariz. Ela ligou a luz da entrada assim que observou minha expressão assustada.

Boa noite para a senhora.

Não obtive retribuição, apenas um breve sinal para adentrar na residência. Assim que o fiz, fui direcionada para sentar em uma poltrona de frente para lareira flamejante e procurei por qualquer sinal que significasse que Isaac havia estado ali há alguns minutos. Nada. Era apenas mais uma sala com chão poeirento típico das casas de idosos que não aguentam mais realizar os serviços domésticos e dedicam todo tempo diferente daquele que tomam chazinho de camomila para cuidar da pequena horta, esta que nem mais é de plantio direto no solo. Idosos preferem vasinhos de barro bem expostos ao sol, bem que eu sei. O que chamava atenção na verdade eram os bonecos e bonecas de cera espalhados pelos cantos do cômodo, eram muito bem feitos (li um dia sobre como esse tipo de artesanato passava de mãe para filha no século passado) e tinham tamanho realístico. Bizarro, bizarro, a velhinha é radical.

Como se lesse meus pensamentos anteriores, a velha fez mágica para voltar às suas origens e surgiu com duas pequenas xícaras floridas de chá fumegando e ofereceu-me uma delas. Talvez seja boa essa mesmice dos idosos, mas cadê a tequila... O chá não tinha gosto definido e parecia não se passar de água quente, todavia, mantive a postura e iniciei a conversa com educação, me lembrando de como era importante conseguir ligar para algum guincho.

A senhora por acaso não viu meu namorado?, indaguei receosa de sua boa audição. Alto, cabelos bem pretos e bagunçados, a barba por fazer. Olhou-me sem modificar a expressão. Dessa vez, recebi suas palavras:

A última pessoa que entrou aqui foi meu falecido esposo. Ele não conseguiu sair mais sem ser carregado pelo coveiro... Moça, moça.

Tem certeza que não o viu passar por essas bandas? Tenho certeza que ele falava da casa da senhora quando indicou que viria expliquei sentindo-me exausta. Ficar em situações como aquela não era realmente para mim. Seu nome é Isaac. Nós precisamos de um guincho para o carro, entende?

Ela assentiu com os olhos vidrados nos meus.

Eu faço bonecos. Eles adoram ter companhia de gente bonita. Você é tão bonita, moça. Eu também já fui bonita assim, sabe?

Grata pelo elogio, mas a senhora tem certeza que o Isaac não apareceu por aqui mesmo? Alto, barba por fazer, cabelos pretos...

A xícara tremelicou nos dedos enferrujados da velha e então se jogou diante da gravidade de encontro às tábuas do chão. Ó céus, deixe que eu lhe ajudo! Não, moça. Não. Eu limpo. Eu limpo. Ela voltou a andar, dessa vez com rapidez, na direção de outra portinha. Os passos ecoaram por um tempo no assoalho e em seguida cessaram movimento.

Comecei a procurar por um telefone, já suspeitando que com toda aquela caduquice fosse bem improvável que a velhota conseguisse ao menos segurar algum aparelho de comunicação direto. Nem das suas palavras ela parecia ter total controle, quem dirá em uma ligação — que não possibilitava nenhuma outra expressão.

Estava com um sono tremendo e teclei preguiçosamente dentre bocejos o número da emergência, obviamente nunca precisei de guincho para me salvar de infortúnios de viagem.

Não consegui terminar até o terceiro número. O arrastar de pantufas voltou a ecoar e apressei-me a voltar para a posição inicial: pernas cruzadas e bebericando de forma indiferente a xícara de chá que começava a esfriar.

Precisa de um lugar para ficar, moça bonita. Já passa do horário de uma mocinha como você ficar sozinha no meio dessa estrada velha.

É perigoso, eu sei. Mas preciso encontrar meu namorado, o Isaac. Não sei onde ele se meteu e estou preocupada, senhora. Preciso achá-lo.

Quem é seu namorado? Eu não sei onde ele está, moça bonita. Já falaram com o que você se parece? a velha suspirou e pestanejou enquanto arrumava seu xale sobre os ombros Parece uma bonequinha, moça. Bonita. Bonita! Esse seu rostinho...

Obrigada, obrigada. Eu preciso achar meu namorado agora, acho melhor ir. Agradecida pelo chá e pela sua recepção, senhora...

O nome dele é Malec?

Isaac, senhora... Isaac corrigi enquanto me levantava. Parei por alguns segundos quando uma tontura abrupta fez pontos negros surgirem em minha visão. A sala girou e o rosto da minha ilustre companhia se distorceu em uma carranca ainda mais desagradável. Cai de volta no acolchoado do sofá.

Está com sono, moça. Você pode procurar o Malec amanhã. Ele vai te esperar, não vai?, continuou, Está cansadinha! Mais extrapolada que eu quando era pequena e rachava lenha pra fazer fogo com meu avô!

Eu preciso encontrar com o Isaac. E o carro ainda está lá parado, senhora. Preciso que me empreste o telefone, por favor.

Deixe o Malec, moça bonita. Vá dormir um pouco e depois telefonamos. Tem um telefone no quarto que você vai ficar! Até deixei arrumada a roupa de cama, pois sabia que uma boneca de menina viria visitar eu e minhas bonequinhas! Ah, como eu sabia!

Não haveria outra forma de conseguir uma ligação para o guincho além de passar algum tempo com a idosa. Era isso que eu precisava fazer. Isaac não dera sinal de vida e seria puro risco ficar à deriva do perigo lá fora, sentada com cara de trouxa em um banco desconfortável de carro.

Está bem, está bem. Eu fico... Só tome mais alguns golinhos de chá, moça bonita. Vou colocar minhas bonequinhas para dormir. Ah como elas odeiam ficar longe de mim! Bonecas bonitas me amam, são todas minhas filhinhas!

Escorei-me melhor na poltrona, ignorando o cheiro de mofo que a dominava e deixei a música inexistente no ambiente me levar, um pé sabe-se lá onde que as pessoas ficam quando dormem e o outro pé em uma conversa confusa e virada do avesso com minha anfitriã biruta.

Você é uma boa bonequinha, sabia? Alfred... Ah! Malec, gosta de brincar com bonequinhas? Eu adoro, moça bonita! Eu adoro! Adoro! ela continuava a dizer enquanto enfiava as unhas dentro dos pontos de crochê do xale. Está exausta, não é? Eu sou uma boa senhora para deixar que me faça companhia nessa noite. Sabia que a última pessoa que entrou aqui foi o meu velho? O coveiro o levou dai da frente do chalé, não dava mais de andar, o meu velho...

Eu precisaria falar com o Isaac. Posso usar o telefone?

Descanse. Você será minha bonequinha, moça bonita. Quando acordar será minha bonequinha, sabia? Não vai precisar sentir nada. Só uma picadinha no coração. É isso que as bonecas sentem quando viram bonecas, né? Mamãe diz que sim, mamãe sabe como dizer sim para as coisas! Você é uma moça tão bonita... Já disse que parece uma bonequinha? Uma bonequinha de cera?!

Minhas pálpebras brincaram diante da situação e por fim se entregaram a exaustão. Mesmo em sonho conseguia escutar a voz rouca bem próxima a meus ouvidos, no entanto o que me assustou realmente foram as batidas fortes na porta de entrada.

Só mais um pouquinho... Um pouquinho, moça bonita. Você parece uma bonequinha, já te disseram isso? falou. Pude ouvir novamente o arrastar de pantufas. Ela se distanciara para outra direção. Eu estava imóvel pela preguiça, algum sofá nunca parecera tão confortável como aquele.

O ranger da porta cortou o ar e já me parecia mais do que distante.

A senhora por acaso viu minha namorada, Amélia? Achei uma bituca do cigarro dela ainda acesa aqui na frente. Nosso carro quebrou, a senhora tem telefone aqui?

Um instante se passou e tentei alguma forma de locomoção, os músculos de meu corpo pareciam congelados, qualquer movimento brusco poderia os quebrar. Isaac estava ali. Nunca estrara naquela casa! Isaac, Isaac.

O telefone está quebrado, meu caro jovem. Sabia que a única pessoa que entrou aqui foi o meu velho? O coveiro que teve que carregar o corpo gordo ela riu galhardamente. Dentro da minha casa só ficam bonequinhas lindas! Elas estão vivas, sabia?

Eu preciso sair daqui, preciso sair daqui, preciso sair daqui. Isaac!

A porta se bateu em outro rangido extremo e não consegui escutar mais nada além de algumas palavras em alto e bom som:

Não vai doer nada, moça bonita. Você será minha filhinha logo, logo!

Cansada, amor? Olhei para Isaac ao meu lado no pequeno fusca, xodó da família Vieira. Pisquei algumas vezes só para ter certeza. O sono ainda se apoderava do meu corpo e, pelo visto, já dominara a alma de brinde.

Acho que você pegou no sono falou passando a mão direita atrás de meu pescoço. Sabe de outra coisa que eu acho? Que teremos que passar a noite aqui.

O ar cheirava a capim cidreira. Laranjeira. Madeira em decomposição. Felizmente havia sido só mais um sonho tortuoso. Ele esperou um breve momento e olhou em meus olhos ainda sonolentos em uma mudança de humor interpretável.

Vou seguir, pedir ajuda na casinha ali da frente, não estou afim de passar a noite com mulher chata!

E apertou minhas bochechas rosadas pelo frio enquanto deslizava o polegar para ligar a lanterna.