Crônicas de Feras
11 The Queen of Love and Beauty
Notas iniciais
Nunca na história dos torneios de Westeros, as lutas de espada a pé ficaram mais lotadas que as justas, mas todos se espremiam para ver o rei lutando. Tanto Cersei quanto Lorde Jon Arryn tentaram dissuadir Ned daquela ideia, ficando em seu encalço até o último segundo antes da luta. Mas agora que não havia como impedir, Cersei observava com os olhos felinos sem piscar, aflita de perder qualquer mínimo movimento que pudesse levar ao pior. O único consolo da rainha era saber que Sor Barristan também se inscrevera para proteger o rei, e Sor Brynden, a pedido de Lorde Arryn.
As lutas de espadas a pé eram feitas em três etapas. Primeiro, os competidores eram divididos em dois grupos; depois, os membros de cada grupo lutavam uns contra os outros simultaneamente na arena até restar apenas um de pé; os vencedores de cada grupo então se enfrentavam para ver quem seria o grande vencedor. Era uma modalidade perigosa de sua própria maneira, cansativa, e com pouca glória, mas aquilo parecia não importar nem um pouco para o rei.
Haviam cerca de 14 ou 15 homens em cada grupo. O do rei era formado por maioria nortenha, mais Sor Barristan e Sor Brynden. Cersei primeiramente achou que aquilo poderia ser positivo, afinal os súditos do Norte, os mais leais ao novo rei, não machucariam seu senhor, certo? E novamente a rainha se viu em aflição… Eddard não aceitaria uma competição se soubesse que o deixariam ganhar. Deveria julgar que todos aqueles lordes não facilitariam para o rei para não ofendê-lo, além disso, havia o ardiloso Lorde Bolton, em quem até seu pai avisara para não confiar. Cada giro de espada parecia arrancar mais e mais o fôlego da jovem rainha, receosa se seu doce e gentil rei seria páreo para aqueles homens enormes e selvagens… Nunca se preocupara daquele jeito com Jaime… Mas nem precisava, Jaime era um campeão desde antes de ser um homem feito, e justas não eram tão selvagens quanto aquela modalidade. No fundo, Cersei temia que aquele torneio trouxesse de volta feridas da guerra, e algum súdito insatisfeito, lorde infiel ou corrupto tentasse dar cabo da vida do rei ainda na semente de seu governo.
—Um homem bastante peculiar, nosso novo rei. — Uma voz meio arrastada tirou a rainha de seus próprios devaneios.
Cersei desviou os olhos do combate pela primeira vez desde o início, quando sor Barristan enfrentava Lorde Karstark, e sor Brynden deixava Lorde Yohn Royce inconsciênte. Os dois lutavam perto do rei, que escapava habilmente das investidas de Lorde Bolton. Os olhos verdes da rainha piscaram algumas vezes quando pousaram na figura do príncipe Oberyn Martell. O dornês ainda usava sua armadura brilhante, provavelmente acabara de sair de uma justa.
—Suponho que seja uma maneira de defini-lo, Sor. — Cersei falou com pouca animação na voz, a atenção logo voltando para a arena mais uma vez.
—Um homem que desejasse glória ou renome teria tentado justar. Ele é o rei, ninguém ousaria acertá-lo. — O dornês falava e Cersei podia senti-lo se aproximar, e até mesmo sentar-se não muito longe dela no estrado principal, praticamente aos seus pés. — Mas nosso rei escolhe algo mais brutal, mais… Lotado. O que ele quer provar?
Cersei olhava um pouco aflita enquanto Ned media forças com Roose Bolton, e ao seu lado Sor Brynden lutava com dois cavaleiros da Campina. O rei conseguiu atingir seu vassalo nortenho, golpeando-o com força na cabeça e o deixando inconsciente, bem a tempo de parar o ataque de um dos homens que antes lutava com Sor Brynden. Sor Barristan eliminou três competidores, mas acabou sendo imobilizado. O rei e Sor Brynden derrubaram seus oponentes quase ao mesmo tempo, mas o cavaleiro do Tridente acabou sendo atingido por Sor Jorah Mormont.
—O rei não precisa provar nada, milorde. — A rainha acabou usando um tom um pouco mais ríspido, tentando se concentrar na luta mesmo com as interrupções do dornês.
—Espero que ele esteja provando algo… As pessoas podem achar que ele está fazendo isso apenas por diversão. — O tom do homem lhe pareceu estranho, e quando Cersei voltou seus olhos para ele novamente, Oberyn sorria. Um sorriso que Cersei não soube ler.
Não percebeu que passara tempo demais encarando o príncipe dornês, apenas quando o homem se levantou aplaudindo, Cersei voltou a olhar para a arena, dando de cara com pouco mais de uma dezena de homens caídos, e Eddard de pé sendo ovacionado como vitorioso. A rainha se colocou de pé em um pulo, aplaudindo o marido com entusiasmo, e uma expressão de alívio visível.
—Vejam só… Parece que o rei vencerá esta modalidade. — A voz baixa e arrastada do príncipe Oberyn chegou aos seus ouvidos, cortando um pouco de seu deslumbre em observar o marido enqanto o mesmo acenava vitorioso para ela. — Uma pena que isso não lhe permita coroá-la sua rainha do amor… Talvez eu possa lhe fazer esta homenagem, Vossa Graça, se o rei permitir, é claro.
—Primeiro o senhor tem de vencer o torneio, príncipe Oberyn. — Cersei o respondeu de imediato, o olhar cortante para o dornês, enquanto se virava para deixar o estrado. — Além disso, eu prefiro ser rainha de Eddard da casa Stark, primeiro de seu nome, a quem devo saudar agora, com licença. — E dizendo isso, Cersei desceu do estrado acompanhada por dois guardas de manto carmesim, e pensando como não confiava e não gostava da presença de Oberyn Martell.
Cersei apagou qualquer outro pensamento em sua cabeça quando se viu cada vez mais próxima do marido. Eddard recebia os parabéns no meio da arena, enquanto os escudeiros e meistres ajudavam seus senhores a se erguerem, para que pudesse começar a próxima luta. A rainha fez uma reverência breve, cortês, por questões de protocolo, mas tão logo se ergueu, pousou as mãos sobre o peitoral de metal da armadura do marido, os olhos verdes ágeis a procura de qualquer ferimento visível que precisasse de tratamento.
—Está tudo bem, minha rainha. Não pareça tão aflita, me fará acreditar que não tem fé em minhas habilidades. — A voz divertida e brincalhona dele, sussurrada apenas para os ouvidos dela, fez Cersei se derreter um pouco, e soltar mais um suspiro de alívio.
—Tenho total confiança em vós, meu rei. — Ela se apressou em dizer, agora com um sorriso mais generoso. Ele tinha razão, e ela não podia se exaltar, não fazia bem em seu estado delicado.
A rainha se deixou envolver pelo braço forte do marido a laçar sua cintura, sorrindo para os vassalos que ainda aplaudiam o rei. Os olhos verdes se prenderam ao rosto de Eddard, e chegou a sorrir um pouco boba ao vê-lo tão empolgado. Algo lhe dizia que ele não costumava ganhar muitas competições, ou mesmo participar delas… Lorde Baratheon certamente ofuscou o jovem Stark enquanto cresciam juntos. Seu Eddard era tímido, Cersei podia ver, havia muito potencial reprimido dentro dele.
O braço de Eddard se tornou mais apertado em volta de seu corpo, um aperto possessivo que não se lembrava de ter sentido muitas vezes. Cersei encarou o marido soltando um suspiro disfarçado, um leve arrepio subindo pela sua nuca ao ver o brilho predador nos olhos cinzentos de lobo. A rainha sentiu uma estranha sensação de dormência, seu olhar felino parecia ver apenas o jovem rei, suado e com alguns arranhões, tão aparentemente selvagem com a barba fechada e em sua armadura. Foi com surpresa que a Lannister percebeu uma comunicação silenciosa, quando o rei trocou um olhar de segundos com ela, dispensando os súditos com desculpas de descansar, guiando-a com uma tranquilidade angustiante até a tenda montada para ele próxima à arena de combate. A tenda do rei era grande e confortável, forrada com peles e com uma fogueira cuidadosamente acesa em um buraco de um palmo no chão. Havia uma cama estreita a um canto, e uma mesa redonda com duas poltronas no outro. Uma banheira com água quente havia sido deixada entre a cama e a fogueira, previamente preparada para o rei lavar-se após a primeira parte da competição.
Cersei não estava pensando direito… Nem percebera que o havia acompanhado todo o trajeto no mais absoluto silêncio, até mesmo ignorando alguns vassalos que os saldaram no caminho. Nem bem entraram na tenda, o rei a puxou com firmeza, tomando os lábios dela cheio de posse, ao passo que Cersei tateava a armadura dele desprendendo os fechos com urgência. Não fazia ideia como aquele desejo se apoderou dela tão repentinamente, tão intensamente… Mas havia algo no olhar de Eddard… Aquele lobo! O rei pareceu compreender sua urgência, porque logo as mãos a soltaram para se ocuparem em livrá-lo da armadura. Ele parecia tão… Animalesco. Os cabelos grudados na testa, os gestos mais rudes. A mulher hesitou por um segundo quando ele terminou de se despir também do gibão de couro, e avançou nela tão repentinamente, mas tão logo sentiu os beijos sedentos em seu pescoço, e as mãos quentes lhe tirando o vestido, percebeu que a leoa dentro dela estava tão desperta quanto o lobo que ele trazia em si. Diziam que homens ficavam mais libidinosos com a adrenalina de uma luta, talvez aquilo fosse verdade até para o seu contido marido nortenho…
...Cersei estava deitada nos braços do marido, quase completamente imersa na água quente e perfumada. Cada parte de seu corpo estava entorpecida, a lembrança física do prazer de momentos atrás ainda vagando em ondas pelos seus músculos. Eddard tinha os braços em volta de sua cintura, o peito colado às costas macias da esposa, provocando arrepios e leves ronronares de uma gata, sempre que beijava ou mordia o ombro e pescoço da rainha. As mãos do homem acariciaram o ventre dela com um suspiro longo e relaxado. Cersei pousou uma das mãos sobre a do marido, entrelaçando os dedos enquanto ele lhe acariciava o ventre, enquanto a outra se erguia para acariciar a barba do homem, que aos poucos foi apoiando a cabeça em seu ombro. Não se lembrava de já ter se sentido tão plena e feliz… Com um suspiro longo de satisfação, a rainha fechou os olhos, deixando o corpo amolecer mais no colo do marido. Ainda podia senti-lo dentro de si tão claramente que poderia gemer, tamanha virilidade com a qual fora possuída por ele… Se já não estivesse grávida, poderia apostar suas joias que teria engravidado ali.
—Espero que seja uma menina… — Ouviu a voz preguiçosa do rei sussurrar, o hálito quente contra sua pele lhe arrancando um arrepio gostoso.
—Não quer um herdeiro, meu senhor? Um príncipe herdeiro… — Ela perguntou com um sorriso meio confuso, achando tão curioso ouvi-lo preferir uma menina, que venceu até sua preguiça para virar-se minimamente e encará-lo.
—Sim, é claro… Teremos muitos príncipes e princesas. — Cersei pode ver um brilho singular e absolutamente belo nos olhos dele ao falar dos filhos que teriam, e aquilo encheu seu coração com algo que ela não sabia dizer o que era, mas era bom. — Eu sei que devemos ter um filho… Deixaria o reino mais seguro. Mas eu mal posso esperar pra ver uma pequena versão sua correndo por esse castelo, os cachos dourados voando…
—...mas com vossos belos olhos cinzentos. — Cersei completou, levando a mão da barba aos lábios dele, e guiando-o para um beijo rápido, findado com um sorriso sincero e feliz. -Lamento, meu rei… Mas eu quero um menino. Um menino forte, que terá ombros tão largos quanto o pai. — Confessou com um sorriso, inclinando-se levemente e beijando o ombro dele. -E vosso sorriso bondoso.
—Quem sabe os deuses não nos mandam dois? Como você e Jaime… — Cersei pode ver o carinho transbordar dos olhos dele, mas não pode evitar se encolher um pouco quando ele lhe lembrou de Jaime.
—Não seja ganancioso, meu senhor. — Falou com um sorriso pequeno, tentando disfarçar seu estranhamento. A rainha se moveu no colo do marido até ficar de frente para ele, desenhando um sorriso nos lábios enquanto afundava os dedos nos cabelos negros dele. — Precisamos nos vestir, meu amor. Há convidados nos esperando.
Eddard a acomodou no colo com um ar bastante satisfeito, escondendo o rosto no pescoço dela assim que Cersei o lembrou de suas obrigações. A rainha riu e suspirou, esquecendo completamente que ele havia citado Jaime momentos atrás, e se perguntando se teria forças para parar o rei antes que recomeçassem aquela dança e não deixassem a tenda a tempo do por do sol. Por sorte ,o senhor seu marido também compreendia as responsabilidades que tinham para com os hóspedes, e juntos eles tiveram forças para tirar as mãos um do outro para enfim se arrumarem para a segunda parte do torneio.
Não foi surpresa para ninguém quando Oberyn Martell foi campeão na modalidade de justas. O príncipe dornês não havia sido derrubado nenhuma vez, e vencera pelo menos 4 cavaleiros da Campina, o que não deixou os campinenses muito felizes. Cersei não sabia como se sentia, particularmente, achava o príncipe um tanto abusado, e até arrogante… Preferiria que um cavaleiro do Oeste tivesse vencido, mas, paciência… Estava aplaudindo distraidamente o fim do combate, quando viu o príncipe dornês guiar o cavalo em sua direção. A rainha enrugou a testa, confusa a princípio, mas quando o homem se aproximou do estrado, a loira pode ver que ele carregava uma coroa de flores… Rosas azuis. Cersei olhou das rosas para o homem com um brilho de desafio. Aquilo era alguma brincadeira? Quem aquele homem pensava que era?
A rainha pode ver o braço de Oberyn se estender para lhe oferecer a coroa de rainha da beleza e do amor, e ela não podia estar se sentindo mais constrangida, confusa e irritada do que estava naquele momento. Mas antes que as pétalas pudessem tocar seu colo, a mão do dornês foi parada por uma lamina. Não fora um golpe ofensivo, na verdade um leve encostar na armadura do homem.
—Para coroar minha senhora, príncipe Oberyn, só com meu sangue em vossa lamina. — A voz de Eddard soou firme, fazendo Cersei prender a respiração por alguns segundos.
—Estava apenas fazendo um agrado à homenageada, meu rei. Mas se Vossa Graça está me desafiando… — Podia ver o sorriso no olhar de Oberyn enquanto falava.
—Não, Sor… Eu estou aceitando o seu desafio. — Eddard respondeu com uma expressão aparentemente tranquila. — Depois que eu vencer Lorde Uller… Talvez possa ser, enfim, quem irá derrubá-lo. — O tom de Ned era aparentemente amistoso, e Cersei não conseguia saber o que se passava pela cabeça do marido naquele momento.
Oberyn Martell abriu um sorriso quase vitorioso, e então deixou a coroa de rosas repousar novamente sobre a almofada nas mãos do servo que a trouxera, estendendo a mesma mão, logo em seguida, para o rei. Eddard não hesitou em apertar a mão do dornês, ambos se encarando como se tentassem antecipar algum movimento hostil um do outro.
—Nos vemos na arena então, milorde.
Fale com o autor