Notas iniciais
esse é um cap de transição, então desculpa ele ser meio chato

Não soube dizer se Lorde Uller o deixara vencer a mando de seu suserano, ou se simplesmente ficara muito ansioso para ver o novo rei enfrentando o mais famoso guerreiro de Dorne, mas Ned tinha certeza absoluta que o Senhor da Toca do Inferno não havia lutado com todas as suas habilidades. Ao fim do confronto na luta de espadas, Lorde Uller estava no chão com um corte no supercílio, e Ned estava de pé como vencedor daquela modalidade. O torneio poderia acabar gloriosamente ali, com o rei nortenho de um lado e o príncipe dornês do outro, dois campeões selando a paz que aquelas festividades deveriam comemorar, mas nem Jon Arryn, Sor Brynden ou Sor Barristan conseguiram convencer o rei a desistir daquele desafio. Ninguém poderia culpá-lo, afinal, fora uma afronta direta aqueles gracejos para sua rainha, e mesmo que já esperasse que Oberyn o desafiasse, agora o Stark estava ainda mais ansioso para dar uma lição no príncipe Martell.

Enquanto aguardava no meio da arena, Ned podia sentir os olhares dos nobres que se espremiam nas arquibancadas, assim como os dos plebeus que se amontoavam na cerca de contenção que os separava dos demais. A expectativa ia deixando o lobo cada vez mais ansioso, mesmo que não demonstrasse em sua postura sóbria, régia. O rei usava apenas o peitoral de sua armadura, e deixava a ponta da sua lamina descansar no chão, segurando o punho com firmeza. Foi a sombra que lhe aliviou minimamente o calor do sol que denunciou a chegada do cavaleiro montado, já segurando a lança de justa.

—Como faremos tal duelo, Vossa Graça? Me parece um tanto desvantajoso para o rei. — As palavras de Oberyn eram recheadas de desafio e ironia.

—Competiremos de acordo com nossa modalidade, Sor. Eu a pé, você montado. A menos que deseje lutar a pé também. — Ned respondeu com bastante naturalidade.

Nas arquibancadas e no estrado principal, os nobres e plebeus pareciam mais ansiosos a cada segundo, e não poderem ouvir claramente o que os dois homens falavam parecia maximizar aquela angústia generalizada. Eddard observou seu adversário com bastante atenção… Ele estava com a armadura completa, e pesados protetores para os pés, comuns aos justadores para se fixarem melhor ao cavalo. O rei pode ver Oberyn sorrir depois de fazer uma reverência breve com a cabeça. O príncipe dornês se afastou do rei em galopadas apressadas, colocando-se em uma das pontas da arena, enquanto o rei manteve-se na mesma postura de antes, os olhos de lobo fixos no alvo que se afastava dele.

—Tem certeza, Vossa Graça?! — O príncipe gritou para que o nortenho pudesse ouvir, e mesmo longe Ned pode perceber o sorriso presunçoso do homem. Seria sua ruína.

—Por que está hesitando, príncipe Oberyn?! — Foi a sua resposta, e o Martell não precisou de mais nenhuma palavra.

O corcel dornês do príncipe Oberyn avançou rápido na direção do rei, ao passo que o cavaleiro ia baixando sua lança, até tê-la mirando o nortenho com precisão. Todos os presentes, do mais rico nobre ao mais pestilento dos cachorros prendeu a respiração quando o príncipe Martell já estava a um galope de distância de um Eddard ainda imóvel. Mas antes que pudesse ser atingido, o rei rolou para o lado, mantendo a espada na horizontal, a lâmina longa e afiada o bastante arranhou o animal e cortou uma das amarras da proteção de perna do príncipe dornês. Oberyn caiu do cavalo quando este relinchou e ergueu as patas dianteiras, correndo em disparada logo em seguida. Mas mesmo a queda e o pedaço perdido da armadura não eram o bastante para render um guerreiro experiente como ele, e o rei sabia disso. Com uma leveza que não parecia condizente com uma lamina daquele porte, Gelo balançou acima da cabeça do rei, defendendo-o de uma rápida investida da lamina do dornês assim que se colocou de pé. Nada podia ser ouvido em volta além da espada e da lança se chocando, o barulho metálico causando arrepios e arfares, por preocupação ou ansiedade por sangue, nos donos dos olhos atentos que acompanhavam o combate. A vantagem do longo alcance que o príncipe deveria ter era neutralizada pela espada longa do rei, com o bônus da agilidade com que o lobo silencioso conseguia se mover girando a lâmina de aço valiriano nas mãos firmes. A lança dornesa foi usada para parar um ataque por cima da espada do rei, e como não podia ser diferente, seu cabo se partiu, deixando Oberyn com um pedaço em cada mão. Oberyn acabou se desequilibrando um pouco para trás graças ao impacto, lançando contra o rei o pedaço que ainda sustentava a ponta de aço, ao mesmo tempo em que as mãos de Eddard, unidas no punho da espada atingiam o dornês em cheio no rosto, em um golpe meio desajeitado e visivelmente acidental.

Os dois homens se afastaram em passos trôpegos, não se permitindo dar as costas um ao outro. Oberyn Martell tinha o nariz sangrando, e o rei chegou a começar a desenhar um sorriso nos lábios, quando sentiu algo escorrer em seu rosto, notando o sangue e depois o ferimento perto do seu supercílio. E agora? O nortenho respirou fundo, até um pouco frustrado, mas não avançou.

—Como resolveremos isso, Sor? — Perguntou com as sobrancelhas erguidas, assim como a espada que continuava em posição defensiva.

—Longe de mim tentar tirar uma vitória que não me pertence, Vossa Graça. Inutilizou minha arma e tirou-me mais sangue. Dessa vez, me curvarei a uma habilidade ainda maior que a minha. — As palavras polidas de Oberyn fizeram o rei assentir, mas as palavras que denotavam a vitória apenas temporária não fugiram a sua percepção.

O público vibrou em aplausos quando o príncipe dornês fez uma reverência diante do rei, depositando os pedaços da lança aos seus pés em sinal de reconhecimento de sua vitória. Eddard tentou manter a expressão séria, mas acabou por sorrir quando viu os lordes nortenhos gritarem e assoviarem, cantando versos vulgares para a torcida dornesa. Lancel, seu mais novo escudeiro, se adiantou a guardar a espada do rei bem a tempo de livrar os braços do homem para receber uma rainha com os olhos úmidos e uma clara expressão de alívio. Eddard abraçou a esposa carinhosamente e lhe deu um beijo na testa. Não era dado a demonstrações mais íntimas em público.

—Estava preocupada, minha senhora? — Perguntou em um tom baixo, enquanto acenava para a multidão que o saudava, mantendo Cersei junto ao seu corpo com um braço a envolvê-la pela cintura.

—Não, meu rei. Apenas a ansiedade de uma mulher assistindo um esporte tão bruto. — Ela falou, Ned pode perceber, contendo a própria euforia, mas segurando-se nele como podia.

O rei afastou-se alguns centímetros de Cersei no momento em que viu três mantos brancos se aproximando. Sor Barristan caminhava logo à frente com uma expressão bem humorada até o rei. Em suas mãos estava uma caixa de madeira cuidadosamente esculpida e decorada com ouro. Eddard abriu a caixa cuidadosamente, e dentro da mesma retirou uma delicada tiara de ouro esculpida na forma de galhos com flores de pétalas de rubi. Ned podia sentir os olhos curiosos e as pessoas que se esticavam para ver do que se tratava, mas acabou abandonando aquela dimensão quando viu o brilho naqueles olhos verdes felinos, assim que compreendeu o que ele estava prestes a fazer.

—Como o campeão desse torneio, minha senhora... Eu tenho a honra de coroá-la minha rainha da beleza e do amor. — Falou em alto e bom tom para que todos ouvissem, e então depositou seu presente nos cabelos dourados e macios de Cersei, uma expressão bastante satisfeita ao confirmar que se encaixava perfeitamente.

Não teve tempo nem de contemplar a bela imagem de sua rainha com a joia entre os cachos de ouro, pois, tão logo a posicionou, acabou sendo abraçado pela Lannister, seus lábios tomados em um beijo rápido, mas intenso em meio a mais gritos e palmas ovacionando o casal real. O rei corou um pouco, olhando em volta discretamente quando se afastaram, e então beijando o rosto dela e suas mãos.

—Eu não mereço tanto… — Cersei começou a falar, mas o rei apenas entrelaçou os dedos nos dela e a puxou para mais junto de si.

—Merece mais… — Falou ainda sorrindo, mas o olhar acabou sendo tomado por Sor Brynden, que ia se espremendo entre a multidão que ainda começava a se dispersar para voltar ao castelo. — Acha que temos algum tempo antes do banquete? — Perguntou desviando rapidamente o olhar do cavaleiro para a esposa.

—Podemos providenciar isso, milorde. — Ela respondeu com um sorriso cheio de significado, uma das mãos acariciando levemente a nuca do marido.

—Ótimo… Eu vou tirar minha armadura… — Ele começou a dizer, e teve mais um beijo roubado por uma Cersei que era só sorrisos.

—O aguardarei em nossos aposentos. — Ela respondeu em um sussurro baixo no ouvido do marido, para então sair escoltada por Sor Barristan e com a companhia de duas servas.

Em meio aos parabéns dos lordes, em especial seus vassalos nortenhos, e o povo que desejava vê-lo e tocá-lo, Ned foi caminhando com Sor Brynden como se fosse para a própria tenda, até terem certeza de que todos estavam ocupados demais se arrumando para ir aproveitar a abundância de vinho, comida e entretenimento que seria oferecido no resto das comemorações. O rei virou na direção oposta, e enquanto Sor Brynden permanecia discretamente do lado de fora, vigiando, Ned entrava na barraca de Oberyn Martell.

O príncipe dornês estava cuidando dos próprio ferimentos enquanto uma bela mulher segurava um espelho diante dele. Os dois viraram para o rei quando este entrou. O lobo silencioso deixou a cortina se fechar atrás de si e caminhou alguns passos na direção do casal, uma postura séria e sóbria.

—Príncipe Oberyn, eu gostaria de lhe falar. — Começou, mantendo os olhos no dornês, mas sem perder a mulher de vista.

—Vossa Graça… Uma vitória impressionante. — O homem começou a dizer, os olhos de víbora mirando Ned como se fosse dar o bote. — Em que posso servi-lo?

—Pelas regras do torneio, milorde, eu ficarei com vosso prêmio. Me parece um tanto desapontador para um cavaleiro de vosso nível… Gostaria de compensá-lo. — O tom do rei era sério, mas também agradável. Seu olhar foi para a mulher novamente e então voltou para Oberyn. — Talvez possamos conversar a sós uma outra hora…

—Não, Vossa Graça… Ela é Ellaria Sand. Ela é minha amante, a única pessoa em quem posso confiar, nós não temos segredos. — A naturalidade com a qual o homem apresentou a amante deixou o rei sem reação por alguns segundos.

—Eu estava pensando em oferecer um lugar no Pequeno Conselho… Mas para tal decisão precisaria me certificar de que posso confiar em você, Sor. — Falou por fim, as mãos se unindo atrás das costas, a postura ainda rígida.

—Dei alguma razão para não confiar em mim, Vossa Graça?

—Além de cortejar minha rainha? Não… Tenho apenas desconfianças quanto a mágoas do passado. Na verdade, já esperava uma provocação dos dorneses. — Falou com a mesma naturalidade com a qual ele apresentou a amante bastarda.

Oberyn enrugou a testa parecendo um tanto curioso, e colocou-se de pé, se aproximando do rei, mas de forma alguma isso fez o Stark recuar. O príncipe dornês serviu duas taças de vinho e ofereceu uma ao rei. Eddard apertou os olhos um tanto desconfiado e recusou, observando no momento seguinte o homem entregar a taça para a mulher, e ambos tomarem goles generosos do conteúdo.

—Peço desculpas pelo meu gracejo, Vossa Graça. Mas não compreendo a que mágoas se refere. Deu a Dorne a justiça que queríamos no fim da guerra. — A Víbora Vermelha voltou a sentar-se na cadeira que estava antes, fazendo sinal para o rei acompanhá-la na cadeira a sua frente.

Eddard caminhou sem pressa e se acomodou diante de Oberyn, os olhos do rei correram atentos pelo lugar, desde a expressão avaliadora do príncipe, até a lança quebrada ao seu lado, os olhos penetrantes da bastarda, e por fim o olhar de víbora novamente. Quando Oberyn desconversou, Eddard acabou soltando um suspiro um tanto frustrado, deixando as costas se acomodarem melhor no apoio da cadeira, os olhos cinzentos firmes no outro homem.

—Príncipe Oberyn, por favor… Falemos às claras. Quero saber se existe ressentimento da casa Martell com a casa Stark, por Rhaegar Targaryen ter quebrado seus votos de matrimônio com a princesa Ellia. — Falou com a expressão séria, e agora menos agradável, os olhos de lobo fixos em Oberyn.

—Não foi a casa Stark que desonrou e matou minha irmã, Vossa Graça. Não há dívidas entre o Norte e Dorne. — A voz de Oberyn saiu baixa e compassada, sustentando um olhar tão intenso quanto o do rei. — Era apenas minha resposta que precisava para atestar minha confiança? — Perguntou com um pouco de descrença.

—Longe disso… — O rei se acomodou mais confortável na cadeira, a expressão menos enrugada após a resposta do outro. — Para assegurar que meu governo não seja negligente, eu tenho a intenção de manter meu Pequeno Conselho o mais variado possível, para poder saber o que acontece no reino. Gostaria de receber Dorne como uma amiga, mas vossa reputação não é muito boa, príncipe Oberyn… Não vejo porque não nos tratarmos com sinceridade.

—Minha confiança em Vossa Graça também é balançada, milorde, diante de vossa… Aproximação com os Lannister de Casterly Rock. Tywin Lannister…

—É meu sogro, e por isso peço que meça vossas palavras. Mas Lorde Tywin é apenas meu sogro… Eu pretendo ser justo e não apenas atender interesses daqueles que me são próximos. — A seriedade daquele olhar tão jovem fez Oberyn apertar os olhos e esvaziar a taça de vinho, mas sem dizer nada, enquanto Ned sustentava o olhar se sentindo um tanto incomodado com aquela sensação de estar sendo avaliado pelo o homem. — Eu estou disposto a mantê-lo por perto, para que veja como pretendo governar e possa se convencer por você mesmo de que sou digno de confiança… O que pode me oferecer para tentar confiar em vós também?

O silencio contínuo de Oberyn quase fez o rei lobo se levantar e ir embora. Já estava se irritando com a atitude, em sua opinião, arrogante do dornês. O vencera e estava oferecendo um lugar de prestígio e poder… E ele parecia… Entediado. O rei se colocou de pé quase na mesma hora que o príncipe. Ned permaneceu onde estava enquanto Oberyn caminhou até um pequeno baú que havia em cima da mesa na qual ele pegara o vinho. O homem retirou um pequeno frasco com um líquido roxo, e o jogou para o rei que o pegou sem qualquer esforço.

—Minha prova de confiança… — Oberyn falou com o peito estufado, mas diante do olhar de confusão do rei, ele continuou. — Minha lâmina é envenenada, Vossa Graça. Levaria tempo demais para vossos meistres descobrirem qual veneno e assim produzir o antídoto.

Eddard levou a mão ao ferimento em seu super cílio no mesmo instante em que o príncipe falou da lâmina envenenada, e a mera aproximação dos dedos já lhe trouxe um arrepio de dor. Seus olhos cinzentos se voltaram para Oberyn, primeiro com surpresa e então com fúria. Quis pular nele e matá-lo. Como assim a lâmina era envenenada? Ele o tinha envenenado? Isso era traição!

—Acabou de confessar que envenenou o rei… Por que deveria acreditar que isso é um antídoto? — Perguntou com o rosto retorcido em ira.

—Porque quando embebi minha lâmina em veneno, achei que seria um rei manipulado pelos Lannister, como o passado acabou sendo por um tempo. — Oberyn respondeu com naturalidade, não parecendo preocupado com o que acabara de revelar.

—Não tem medo que eu mande prendê-lo por traição? — Ned perguntou sustentando o olhar irado.

—Vossa Graça está buscando paz… Além de vossa própria palavra, não há testemunhas que corroborem minha confissão. Uma acusação tão frágil levaria a guerra, reabriria feridas… Não é isso que você quer. E agora que vejo que talvez seja um rei em quem eu possa confiar, não é isso que quero. — O príncipe continuava a falar com tranquilidade. — Além disso, por que eu iria continuar querendo a morte do homem que me ofereceu um cargo tão importante?

O rei não disse nada, os olhos de lobo miraram Oberyn por longos minutos em silêncio, até finalmente beber o conteúdo do frasco, deixando o mesmo vazio sobre a mesinha do vinho. Ned deu as costas para o príncipe e rumou para se retirar da barraca.

—Pedirei a Lorde Varys que o atualize dos assuntos do Pequeno Conselho. — Falou simplesmente antes de se retirar…

Ao menos sabia que aquele não seria um bajulador…

Notas finais
e ai?