Crônicas de Feras
26 Espadas Brancas
Notas iniciais
Era algo raro ver tantas espadas brancas cantando ao bater do aço de treino, especialmente com uma família real já tão numerosa a ser protegida. Provavam de tempos duradouros de paz, um conforto ainda muito frágil. Sor Brynden, ainda com o manto branco em suas costas, observava a pouca distância enquanto seus “irmãos” se revezavam entre os príncipes. Primeiro ataques coreografados, munidos de pouca força, e aos poucos avançando nas distrações daqueles dois lobinhos, ainda verdes e com cheiro de verão.
—Parece que o Norte deixou nosso príncipe mais forte. — A voz de Sor Barristan fez Peixe-Negro olhar por cima do ombro, assentindo positivamente com a cabeça.
—E menos explosivo, mas muito mais impulsivo. — Brynden completou cruzando os braços e voltando os olhos para Joffrey que cruzava espadas com sor Erren Florent. — Com esse garoto no campo de batalha, nossa morte gloriosa virá a galope. — O comentário de sor Brynden fora em um tom de gracejo, e arrancou um riso abafado de sor Barristan.
—Ele vai amadurecer. Tão certo quanto o verão se rende ao inverno.
O Tully assentiu com a cabeça para as palavras ponderadas do comandante, os olhos voltando a total atenção, agora para o príncipe Brandon que investia contra sor Lyn Cobray e sua espada de aço valiriano. Era difícil entender o que se passava na cabeça de Brynden “Peixe-Negro” Tully, seu próprio irmão, embora o estimasse acima da maioria, jamais conseguira. Agora, já na terceira fase da vida, Brynden percebia como seus atos poderiam parecer ingratidão, mas se tratava apenas de um homem que buscava um caminho. Desperdiçou a juventude lutando por uma casa real indigna e amaldiçoada, e por esse feito ficou famoso como um grande cavaleiro. Para maioria aquela seria a “aposentadoria” perfeita. Um guarda real em tempos de paz tem pouco o que fazer… Mas para Brynden aquele era um pensamento tolo.
No dia em que Eddard Stark lhe deu a armadura branca, com o peixe negro de absidiana no peito, Brynden se permitiu sentir orgulho, ao mesmo tempo em que um peso maior que o metal se alojou em seus ombros. Nem mesmo em suas fantasias de garoto ele se colocara como um membro da Guarda Real, não por falta de habilidade, mas por falta de desejo. Ainda que os anos abrissem cada vez mais uma distância entre ele e Hoster, nunca seria capaz de dividir sua lealdade entre um suserano e a sua própria casa, algo que deixara claro ao rei antes de aceitar seu convite. Não queria terminar como Jaime Lannister, um homem sem honra que quebra seus votos.
Mostrando novamente que não pretendia ser apenas mais um rei como todos os outros, Eddard Stark fez algo impensado desde a criação da Guarda Real. Dispensou os cavaleiros do celibato, sabendo que este nunca fora cumprido, e da negação de suas próprias casas. “Um homem obrigado a prestar tantos votos acaba se esquecendo do principal, lealdade.”, disse o rei quando ficou diante da formação completa de sua guarda real pela primeira vez. Os sete… Duas indicações de Lorde Arryn, nas pessoas de sor Lyn Cobray e sor Mandon Moore; dois cavaleiros habilidosos oferecidos por Lorde Robert, o primeiro era cunhado de sor Stannis Baratheon, sor Erren Florent, o outro era sor Balon Swan; e os outros três escolhidos a dedo pelo rei. Brynden foi levado à presença de Eddard junto com Barristan Selmy e sor Rolland Storm, um bastardo de Lorde Caron. Cavaleiros arrogantes de grandes casas teriam se ressentido em serem colocados lado a lado com um “ex- inimigo” e um bastardo. Mas assim como Eddard, Brynden esperava mais de uma Guarda real, do que linhagem nobre e um bom balanço de espada. Ele preferia servir ao lado de um Storm do que um Jaime Lannister. A honra não possuía brasões.
“Eu juro que vocês sempre vão encontrar um lugar em minha casa, e comida em minha mesa. E que jamais lhes pedirei para erguerem armas contra seu próprio sangue, ou qualquer serviço que lhes traga desonra…”, era quase um juramento padrão para cada suserano que recebia votos de fidelidade de um cavaleiro, mas em toda Westeros não havia outro homem além do rei capaz de cumprir aquele juramento ao pé da letra. Ao fim daquelas palavras, Eddard Stark abriu os braços e o sorriso para os seus sete espadas brancas. Como a Guerra dos reis das Nove Moedas e a Rebelião contra os Targaryen, ele guardaria a memória daquele momento até o dia em que fosse ter com o Estranho.
—Eu devo me apressar para trocar com sor Rolland. Não deixe os príncipes apanharem muito. — Sor Barristan fez um breve aceno com a cabeça para Brynden, antes de dar as costas e rumar para Maegor.
Brynden seguiu o irmão com o olhar, voltando e encarar o embate dos príncipes, bem na hora em que Brandon conseguiu desarmar sor Lyn, enquanto Joffrey ainda trocava golpes com sor Erren. Brynden livrou-se da própria capa, e do peitoral de sua armadura. Quando sor Lyn pegou Senhora Desespero para começar o embate novamente, o Tully fez um gesto com a própria espada para pará-lo.
—Acho que nosso príncipe já exigiu demais de você, Cobray. Vá se lavar, as princesas precisam de escolta até o Grande Septo. — Sor Lyn não precisou que Brynden pedisse novamente. O Tully sabia quanto o homem gostava daqueles passeios pela cidade, receber os olhares admirados do povo. — Quanto a você, meu príncipe. Acho que está hora de um desafio adequado.
Ele não estava desmerecendo seu irmão de armas, mas era do seu conhecimento, assim como de sor Barristan, que os mais novos membros da Guarda Real seguravam suas investidas para além da segurança ao treinarem com os príncipes. Brynden não segurava nenhum ataque que não lhe parecesse mortal, afinal os dois herdeiros do reino precisavam estar prontos para tudo.
—Podemos deixar para amanhã, sor Brynden? Joffrey e eu precisamos nos aprontar. O rei quer nossa presença no Pequeno Conselho esta tarde. — O jovem Brandon Stark não parecia muito feliz com a troca de atividades, mas se era um pedido do rei, não havia brechas para desobedecer.
—Claro, meu príncipe. Eu vou escoltá-lo até vossos aposentos.
Brynden recolheu o aço de treino, percebendo que o príncipe herdeiro não parecia tão preocupado com os compromissos quanto seu irmão caçula. Joffrey continuava a trocar golpes com sor Erren apesar do lembrete do irmão. Brandon não pareceu se preocupar com o mais velho, partindo com sor Brynden para Maegor na mesma hora. Era notável a popularidade do príncipe mais novo entre os servos e guardas da Fortaleza Vermelha, e aquilo pouco tinha a ver com a sua educação ter se dado toda no sul, enquanto o irmão passou a maior parte da vida no Norte. Brynden ficou anos em Winterfell junto com Joffrey, e embora pudesse fazer uma lista generosa com suas qualidades, a comparação era completamente desleal. Amas, camareiras, guardas, todos sorriam e acenavam ao ver Brandon, e em resposta o rapaz também lhes oferecia um sorriso, comprimentando um a um pelos nomes, tal como rei. Joffrey não via grande vantagem em ser agradável com o povo comum, talvez porque fosse um esforço para ele ser agradável, enquanto para Brandon era algo natural.
Brynden Tully aguardou pacientemente do lado de fora dos aposentos do príncipe, não conseguindo deixar de pensar em como, apesar de uma honra, o trabalho de Guarda Real podia ser terrivelmente enfadonho. Talvez fosse diferente se sua querida Cat fosse rainha. Não que tivesse algo contra Cersei Lannister, pelo contrário, a mulher só fora gentil com ele durante todos aqueles anos. Lhe parecia uma mãe e esposa dedicada, mas só era possível gostar de um Lannister até certo ponto. Brynden tinha suas dúvidas quanto ao falecido Brandon Stark para marido de sua sobrinha mais velha — dúvidas que viraram certezas com o surgimento do bastardo legitimado pelo rei -, mas Eddard era um homem a quem passara a admirar. Não tinha dúvidas de que ele seria um marido melhor do que Tywin Lannister, o leão velho.
—É uma honra tê-lo em minha guarda finalmente, sor Brynden. — A voz do príncipe Brandon tirou Peixe-Negro de seus devaneios. — Lady Lannister sempre falou do senhor com muita admiração.
Brandon usava um gibão cinza escuro, no peito o lobo e o leão bordados diante de uma Árvore-Coração com detalhes perfeitos, botas e uma bolsa de couro repleta de pergaminhos. O garoto beirava o décimo sétimo dia de seu nome, e mesmo assim possuía um ar de sabedoria nas feições quase infantis. Ele começou a caminhar antes que Brynden pudesse respondê-lo, como se percebesse que estava atrasado. Peixe-Negro caminhou ao seu lado com certa tranquilidade, graças as pernas ainda um pouco mais longas que as do príncipe.
—Obrigado, meu príncipe. — O agradecimento veio acompanhado de um sorriso. — Mas tenho certeza de que Cat aumentou minhas façanhas pelo bem da narrativa.
—Nem tudo foi aumentado, tenho certeza. Meu irmão também me disse que lhe deve a vida. Obrigado por manter aquele idiota vivo… — O gracejo naquele tom agradável saiu fácil.
—De que serviria um Guarda Real se os deixasse morrer?
Brandon riu, e logo apertou o passo a medida que iam se aproximando da sala do Pequeno Conselho. Lorde Varys foi o primeiro membro do conselho que encontraram pelo caminho. Usava um roupão roxo, enfeitado com fios de ouro. Sua expressão era sempre inofensiva, mas Brynden sempre sentia o instinto de desembainhar a espada quando ele estava por perto. Quase vinte anos depois, e ele ainda não sabia onde Jon Arryn estava com a cabeça para manter aquele eunuco no Pequeno Conselho.
—Boa tarde, meu príncipe. — A Aranha falou em sua voz aveludada, parando para fazer uma reverência ao garoto. — Sor Brynden. — O Tully se limitou a um aceno da cabeça. — Achava que o príncipe de Pedra do Dragão também estaria conosco esta tarde.
—Meu irmão está cuidando de alguns assuntos urgentes, não deve demorar a se juntar a nós. — Brandon respondeu prontamente. — O rei já chegou? — Perguntou pouco antes de fazer a curva para a porta da sala do Pequeno Conselho.
—Sim… — A resposta veio de dentro.
O rei Eddard Stark estava de pé diante da grande mesa de madeira, um grande mapa de Westeros desenrolado sobre a mesma. Lorde Jon Arryn se encontrava a sua direita, exibindo ao rei alguns pergaminhos que desenrolava com as próprias mãos, enquanto Lorde Baelish escrevia sem pressa em um grande livro enfeitado com o brasão da casa Stark no topo de cada página. Eddard abriu um breve sorriso para o filho mais novo, e então voltou para os papéis que Jon Arryn ainda segurava para ele.
—Desculpe o atraso, vossa graça. — Brandon se adiantou, prestando uma reverência e então sentando-se à esquerda do rei.
—Você não está atrasado… Onde está Joffrey? — Lorde Arryn enrolou o pergaminho que segurava, e o rei o guardou rapidamente no bolso de suas calças.
—Ele não deve demorar. — Brandon desenhou um sorriso agradável nos lábios, e os olhos pousaram sobre o mapa com certa curiosidade. — Planejando alguma invasão, meu senhor?
—Receio que nada tão excitante. — Lorde Jon respondeu com um sorriso nervoso.
—Já que Joffrey não chegou ainda, creio que teremos de começar sem ele… — O rei disse parecendo não muito paciente.
Aos poucos, cada um foi endireitando sua cadeira em volta da grande mesa do Pequeno Conselho. Sor Brynden prestou uma reverência ao rei, e tão silencioso quanto pode, foi se retirando da sala, fechando a porta atrás de si. Ele tinha uma cadeira naquele conselho, mas a política pouco lhe interessava. Na maioria das vezes se obrigava a mostrar algum interesse e permanecer nas reuniões, mas primeiro teria que bancar a babá de Joffrey Stark mais uma vez, e arrastar o fedelho para que cumprisse suas obrigações.
Algumas coisas demoravam a mudar.
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